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Maria, grávida e solteira. Não sou eu que digo, está escrito em minha
Bíblia: “Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que
coabitassem, achou-se grávida...” (Mateus 1,18).
Não digo que José ficou puto, diria que ficou brabo, chateado. É que o
José podia ser rude, mas não bronco. E já havia extirpado a urgência dos moços
e adquirido a sabedoria dos velhos.
Sim, já era velho, enquanto Maria era mocinha nova. Nova e linda, a mais
linda do pedaço. José era simples, mas não cego, tinha noção de que era muita
areia para sua carriola.
Aliás, parece que a velhice do José foi escolhida a dedo. Más línguas
espalharam que um comando de anjos desceu do céu especialmente para encontrar
um esposo para Maria, já sabendo o que ia acontecer.
Havia uma carrada de impetuosos jovens interessados na moça e também
aquele senhor de idade… É claro que os anjos escolheram o senhor de idade.
Todo mundo sabe que quanto mais jovem a cabeça, mais dolorido o chifre.
Quanto mais jovem a cabeça, mais barulhento o escândalo. Além do mais, José era
um operário respeitado, sabia que depois de tudo passado ele foi homenageado
com o patronato dos trabalhadores?
O fato incontornável é que a barriga da Maria começou a crescer. Sendo
que naquele tempo a Amazônia nem era conhecida e nem havia boto por perto. A
moda de anjo engravidar mulher era coisa do passado remoto, ninguém se lembrava
mais. E esse tal de Espírito Santo ninguém sequer ouvira falar.
José, apesar de sensato, era um legítimo judeu do sexo masculino,
machista que só. Tudo bem, não ia contar pra ninguém, muito menos ao rabino,
continuava gostando muito da Maria, que via quase como uma filha, não queria
nem pensar em submetê-la ao processo público que fatalmente a levaria à
lapidação, que era a pena de morte por apedrejamento.
Uma coisa que José tinha de sobra era compaixão. Mas ele a repudiaria,
sem dúvida. Não iria acobertar, com seu nome, um filho de pai ignorado.
Na noite seguinte, um anjo baixou para fazer a cabeça do José. Em sonho,
claro, eis que José não tava com essa bola toda de receber o mensageiro
acordado. Mas, no sonho, a conversa foi clara:
— José, dêxa di sê bêsta! Aquilo foi obra do Espírito Santo, rapá! A
moça é uma santa, vai por mim. Além de linda, sabe lavá, passá, cozinhá,
costurá… Cê já tá véio, cara! Tá pensando que berimbau é gaita? Desde quando o
ouro vem puro, sem areia?
São José acordou meio ressabiado, pensou bem e falou consigo mesmo: acho
que esse anjo tem razão.
E enfim se casou com Maria numa boa, pagou o ginecologista, acompanhou-a
ao postinho nas visitas do pré-natal, contratou a melhor maternidade para o
parto (isso de manjedoura também é conversa, segundo Mateus), mas não relou
naquela barriga nem em suas imediações enquanto o filho do Espírito Santo
estava lá dentro.
[publicada no feicebúque do autor
— véspera de Natal de 2022]
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Roberto Buzzo, nascido em
1956, paulista de Guaraci (próximo às barrancas do Rio Grande, na região
noroeste, fronteira com o triângulo mineiro), formado em Letras pela USP,
bancário aposentado, é andarilho, ou caminheiro ou maratonista, bicicletista e
cronista; vive e andeja em sampa, quando não está em estradas e trilhas viajando a pé ou de bike; escreveu e publicou Diário de um bandeirante
ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006), 85 crônicas que relatam
uma caminhada de 640 km em 14 dias, feita em 2004, de São Paulo a
Fernandópolis, atravessando 37 cidades e 17 povoados, Um Milhão de Passos
Pensos: No Picadão de Cuyabá (e-book, 2018), longa crônica de viagem a pé pelo
interior paulista e sul de Minas, quase tudo em estradinhas de terra e em alguns
trechos outrora denominados Picadão de Cuyabá, Média & Pingado: 130 crônicas
amarelas (e-book, 2019); o cronista, bicicletista e andarilho, registra seus
textos no feicebúque e na página mediaepingado.blogspot.com/.

