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domingo, 25 de dezembro de 2022

Roberto Buzzo: Crônica de véspera de Natal

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          Maria, grávida e solteira. Não sou eu que digo, está escrito em minha Bíblia: “Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida...” (Mateus 1,18).

          Não digo que José ficou puto, diria que ficou brabo, chateado. É que o José podia ser rude, mas não bronco. E já havia extirpado a urgência dos moços e adquirido a sabedoria dos velhos.

          Sim, já era velho, enquanto Maria era mocinha nova. Nova e linda, a mais linda do pedaço. José era simples, mas não cego, tinha noção de que era muita areia para sua carriola.

          Aliás, parece que a velhice do José foi escolhida a dedo. Más línguas espalharam que um comando de anjos desceu do céu especialmente para encontrar um esposo para Maria, já sabendo o que ia acontecer.

          Havia uma carrada de impetuosos jovens interessados na moça e também aquele senhor de idade… É claro que os anjos escolheram o senhor de idade.

          Todo mundo sabe que quanto mais jovem a cabeça, mais dolorido o chifre. Quanto mais jovem a cabeça, mais barulhento o escândalo. Além do mais, José era um operário respeitado, sabia que depois de tudo passado ele foi homenageado com o patronato dos trabalhadores?

          O fato incontornável é que a barriga da Maria começou a crescer. Sendo que naquele tempo a Amazônia nem era conhecida e nem havia boto por perto. A moda de anjo engravidar mulher era coisa do passado remoto, ninguém se lembrava mais. E esse tal de Espírito Santo ninguém sequer ouvira falar.

          José, apesar de sensato, era um legítimo judeu do sexo masculino, machista que só. Tudo bem, não ia contar pra ninguém, muito menos ao rabino, continuava gostando muito da Maria, que via quase como uma filha, não queria nem pensar em submetê-la ao processo público que fatalmente a levaria à lapidação, que era a pena de morte por apedrejamento.

          Uma coisa que José tinha de sobra era compaixão. Mas ele a repudiaria, sem dúvida. Não iria acobertar, com seu nome, um filho de pai ignorado.

          Na noite seguinte, um anjo baixou para fazer a cabeça do José. Em sonho, claro, eis que José não tava com essa bola toda de receber o mensageiro acordado. Mas, no sonho, a conversa foi clara:

           José, dêxa di sê bêsta! Aquilo foi obra do Espírito Santo, rapá! A moça é uma santa, vai por mim. Além de linda, sabe lavá, passá, cozinhá, costurá… Cê já tá véio, cara! Tá pensando que berimbau é gaita? Desde quando o ouro vem puro, sem areia?

          São José acordou meio ressabiado, pensou bem e falou consigo mesmo: acho que esse anjo tem razão.

          E enfim se casou com Maria numa boa, pagou o ginecologista, acompanhou-a ao postinho nas visitas do pré-natal, contratou a melhor maternidade para o parto (isso de manjedoura também é conversa, segundo Mateus), mas não relou naquela barriga nem em suas imediações enquanto o filho do Espírito Santo estava lá dentro.

[publicada no feicebúque do autor
— véspera de Natal de 2022]

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Roberto Buzzo, nascido em 1956, paulista de Guaraci (próximo às barrancas do Rio Grande, na região noroeste, fronteira com o triângulo mineiro), formado em Letras pela USP, bancário aposentado, é andarilho, ou caminheiro ou maratonista, bicicletista e cronista; vive e andeja em sampa, quando não está em estradas e trilhas viajando a pé ou de bike; escreveu e publicou Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006), 85 crônicas que relatam uma caminhada de 640 km em 14 dias, feita em 2004, de São Paulo a Fernandópolis, atravessando 37 cidades e 17 povoados, Um Milhão de Passos Pensos: No Picadão de Cuyabá (e-book, 2018), longa crônica de viagem a pé pelo interior paulista e sul de Minas, quase tudo em estradinhas de terra e em alguns trechos outrora denominados Picadão de Cuyabá, Média & Pingado: 130 crônicas amarelas (e-book, 2019); o cronista, bicicletista e andarilho, registra seus textos no feicebúque e na página  mediaepingado.blogspot.com/.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Roberto Buzzo: A revolta dos bagres

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                    Bagre tem a cabeça grande, mas oca. Vive misturado ao lodo do fundo do poço. Gosta de águas turvas, barrentas. Engole a isca e não carece de nenhuma habilidade para ser fisgado. Mas ferroa o pescador que o agarra desprevenido. E não tem escamas, é liso feito um… bagre ensaboado.
                    Bagre é vacilão. E tem complexo de inferioridade em relação ao tubarão e à sardinha.
                    Linguagem figurada, a humanidade é composta de poucos tubarões, muitas sardinhas e muito, muito bagre.
                    Os bagres têm pouco ou nenhum verniz cultural. Carregam apenas aquela cultura básica, herdada da família e do meio. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, há muitos médicos, engenheiros, advogados, professores bagres. Sabe aqueles caras que vão à faculdade só pensando no diploma? Ou só pensando na profissão?
                    Em geral, os bagres são pessoas fracassadas na vida. Não que não haja muitos bagres bem-sucedidos sob os pontos de vista material e afetivo, mas é que, em sua visão pequena, curta e egoísta, se deixam dominar pela inveja e pela realidade imediata ou alheia, escolhendo sempre os parâmetros que lhes são desfavoráveis. Sendo que o bagre legítimo só conhece dois tipos de gente: os perdedores e os vencedores.
                    O ódio aos políticos de carreira e a inveja ao vizinho consumista ou supostamente bem de vida se multiplica em épocas de recessão braba e desmoralização política. É natural que se revoltem, quando essas duas condições se concatenam, na conjuntura.
                    Os bagres gostam muito das expressões “bem de vida”, “bem-sucedido”, “deu certo na vida”, “pessoa realizada”, “conquistar a independência financeira”.
                    A real religião do bagre é a meritocracia. Que muitos confundem com regime político.
                    Há bagres desde as mansões do Morumbi até os barracos de Guaianazes. Há bagres em todo o espectro social. Mas, diria que há uma proporção maior de bagres na Senzala, em comparação com a Casa Grande. Creio que o fator determinante de tal diferença é o verniz cultural. Como se sabe, o verniz cultural é aquela cultura adquirida, que se sobrepõe e se imiscui àquela herdada ou assimilada naturalmente.
                    O sistema educacional formal a escola faz a diferença na maior ou menor produção de bagres cidadãos.
                    E a escola destinada aos integrantes da Senzala é deliberadamente pobre e esquecida.
                    Pensando bem, talvez seja preconceito meu achar que há essa distribuição desigual de bagres entre os diversos segmentos da população. No fundo, no fundo, esses vacilões distribuem-se igualmente, assim como a inteligência ou a idiotice.
                    Há tantos estúpidos entre os funcionários do Banco do Brasil ou da Receita Federal quanto entre os subcontratados aqui da obra em frente.
                    Assim como deve haver tolos na mesma proporção entre as sacoleiras do Brás, os marceneiros ou os diretores do Itaú ou do Grupo Votorantim. Ou entre os donos de padarias e os acionistas das Casas Bahia.
                    Adicionalmente, o consumo exacerbado (consumismo) forma um caldo de boa cultura à proliferação de bagres.
                    Entretanto, em épocas como a que estamos vivendo, de pequenos negócios quebrando, gente perdendo o emprego a rodo, a insegurança atinge mais os pequenos, os mais fracos. A baixa classe média e os participantes da economia informal ficam mais alvoroçados, porque mais preocupados. A bagraiada miúda pula miúdo.
                    Acho que é por isso que temos a impressão de que há uma proporção maior de bagres entre os trabalhadores informais, em comparação com os com carteira assinada. Ou entre os micro e pequenos empresários, em comparação com os grandes empresários.
                    O bagre é simplório, subalterno e subserviente. Tem baixa autoestima. Gosta de tudo que reduz e mistifica, como os hinos, os uniformes, as regras e os rituais.
                    O bagre é curto, grosso e maniqueísta. E quando se junta em bando, é fascista.

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Nota deste aprendiz de blogueiro: Clique no título lá em cima e acesse o blogue Crônicas crônicas.
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Roberto Buzzo, nascido em 1956, paulista de Guaraci (próximo às barrancas do Rio Grande, na região noroeste, fronteira com o triângulo mineiro), formado em Letras pela USP e bancário aposentado, é andarilho, caminheiro, ciclista, maratonista e cronista; vive em São Paulo, isso quando não está em estradas e trilhas, viajando a pé ou de bike; escreveu Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006), 85 crônicas que relatam sua jornada feita a pé, em 2004, de São Paulo a Fernandópolis, e que durou 14 dias; foram 640 quilometros percorridos por caminhos que cruzaram 37 cidades e 17 povoados do interior paulista; o cronista, ciclista e andarilho, registra seus textos na mídia social e pilota o blogue Crônicas crônicas.