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domingo, 22 de novembro de 2020

Afonso Henriques Neto: Em Heráclito, com Borges

Afonso Henriques Neto - Coleção Ciranda da Poesia - 9788575112601 ...
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Heráclito desliza na manhã
em Nova York. O músculo do tráfego
(para dizer assim, vento prosaico)
no seu sonho relê sentença eterna
de que o mesmo rio duas vezes
nenhuma imagem verá
em suas águas. E esta gema de absoluto
(verdade, ficção da ironia?)
reverdescendo velhos poemas
é diadema urdido no poeta, flama e
destino, sangue do espírito, delírio
à mesa de Borges (negra Genebra),
punhal de um floral agosto,
irrevogável. Oh tigre cintilante
do sol-posto! Heráclito, nada
mas já espelho, Borges, infinito,
máscara a mastigar o próprio rosto.

SIP (Ser infinitas palavras 2001) [Avenida Eros], p. 133

Afonso Herinques Neto dialoga com heterônimo de Fernando Pessoa em ...
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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Afonso Henriques Neto: Quase cinza

Afonso Henriques Neto - Coleção Ciranda da Poesia - 9788575112601 ...
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eu sei onde ladram os ventos pelos ladrilhos
dos mistérios inexistentes.
eu sei de que matéria esta sensação de derrota
é feita, moldada, entre instrumentos de tortura
e pálpebras e espelhos amassados.
eu sei dos que falam no escuro a flauta da voz das fábulas.
eu sei através do vídeo o vácuo do sangue atrás e além
da imagem, violentos planetas vomitando o drama.
eu sei as tartarugas infinitas,
os bodes expiatórios.
os lavabos cheios de unhas vivas.
a eternidade do gesto humano
morrendo no longo tombadilho.
sei das certezas e incertezas verdes.
sei do resumo de tudo dançando na chuva mais cotidiana.
só não sei do teu sorriso se diluindo em nuvem.
só não sei do teu corpo quase infantil
de mulher amanhecida.
só não sei do timbre de tua voz
entre borboletas e musgos fluindo do único verbo.
só não sei do opalescente rastro de teus pés
entre cachoeiras apagadas.
só não sei da galáxia a resumir vazia
o silêncio mortal de tua alma quebrada.
ai de mim
que eras ouro e breve.

REF (Restos & estrelas & fraturas  1975), p. 58

Leitura E Escrita E Traduções: Fragmentos da Ode Abissal - Afonso ...
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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Afonso Henriques Neto: Súbita crônica antiga

Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos – EdUERJ – Editora da ... Afonso Henriques Neto - Coleção Ciranda da Poesia - 9788575112601 ...
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horrível morrer depois da chuva
entre joelhos velhos e ratos
encardidamente barrigudos
morrer depois dos olhos úmidos
de lesmas
traças pergaminhos pele assada
atrás desse zumbido no fundo da rua
do armário
do coração
entre minérios de bruma e violões
multiplicados em vento

horrível morrer sob o cotidiano
piano
pingando plano a plano
o infindável filme castelhano
urtigas planuras bigodes escuras
a cotidiana asma
inchada sob o esparadrapo no vidro
obstruindo o sol
cancelando o sol
ah horrível morrer como se enfiássemos a cara
na sopa de cenouras de uma noite de chuva

REF (Restos & estrelas & fraturas 1975), p. 52

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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Afonso Henriques Neto: Na sombra

Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos – EdUERJ – Editora da ...
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I

murmúrio da sombra
no muro
pássaro escuro

II

na alameda
minha sombra pousa
na borboleta

III

erótico arranjo
nossas sombras se abraçando
trepada de anjos

IV

raio branco a pino
nenhuma sombra pelo gelo
perpétuo sino

V

na sombra da noite
néon faminto de beleza
sanduíche na mesa

VI

sombra de mão já
ida em letra por ela escrita
preciosa jazida

VII

campo vento flor
sol sombra rio
perfeito percurso das palavras
para o sem nome, cio

SIP (Ser infinitas palavras — 2001) [Piano mudo], p. 185

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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Afonso Henriques Neto: Quase didático

Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos – EdUERJ – Editora da ...
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aos amigos

solte seus olhos à luz
da mais silenciosa estrela
em sua alma apreendida;

aprenda a senti-la conforme
brilhos e sombras do espacial
diamante sob afrodisíaco olhar;

prenda seus olhos à mutação
de cada sinal em cada gesto
da infinita cadeia em gestação;

saiba tocar o objeto mais próximo
com a pureza dos sentidos
esvaziados de qualquer interferência;

componha sua canção como peixes
que à flor do sonho
perseguissem o fundo instinto de sol;

mude em poesia o mundo dado
entre esfinge e solidão:
água indecifrável da eterna transformação;

oh navegar o novo quando palavras não há

REF (Restos & Estrelas &
Fraturas — 2004) [1975], p. 9

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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Afonso Henriques Neto: Entre

Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos – EdUERJ – Editora da ...
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perfeito o poema riscado
no madeiro evaporado
das estalagens do tempo
onde sequentes
anônimos poetas
iluminam o vazio
encadeando versos
a versos-resposta
no madeiro de luz
hoje farelo.
mais perfeito ainda
o poema só nuvem
a forma sem forma
o ritmo da passagem
não havida.
e nosso parco propósito
supondo poesia
a garimpar
imagens concretas
na palavra
no chão.

SIP (Ser infinitas palavras — 2001) [Tudo nenhum], p. 83

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quarta-feira, 31 de julho de 2019

Afonso Henriques Neto: Das gangrenas

Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos – EdUERJ – Editora da ...
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a Adauto Novaes

É um edifício todo feito de treva.
Bloco de quarteirão de comprido,
doze andares para cima,
abandonado, invadido por mendigos, traficantes,
ratos, baratas, lixo, horror insone.
Desesperada cólera de cimento, vidraças quebradas,
músculos de treva.
Na fachada toda grafitada em negro
ardem duas janelas iluminadas por lampião
enquanto o basculante de um banheiro do último andar
deixa coar mortiço pisca-pisca de velas.
Seriam as últimas famílias que ainda resistem
em condomínio sem luz e água
velando os últimos cadáveres do sonho?
Ou seriam fantasmas da utopia em destroços?
Só um bloco louco que vestiu luto
parecem dizer as sombras da ventania escarlate
(prédios assim em Nova York
são cobertos por grossos muros de concreto).
Alguém supôs o expressionismo alemão,
atmosfera kafkiana,
mas o edifício é bem mais potente do que isso,
ele carrega em catastrófico silêncio
o símbolo da cidade degradada,
o vertiginoso nó do sistema enfartado,
o grito paralisado de uma boca que já morreu.
Pensamento ferido de treva
qual uma lua bruscamente arrancada do céu.

CV (Cidade vertigem — 2005), p.141

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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

domingo, 5 de maio de 2019

Afonso Henriques Neto: Mais uma vez

Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos – EdUERJ – Editora da ...
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o menino chora no meio da noite
no meio da praça
no meio do coração.
o menino chupa laranjas e abismos
as bombas caem.
está sozinho no meio do oceano
no meio de cem milhões
no meio do infinito.
o menino desenha navios submersos
enquanto chovem granadas
enquanto mais uma vez
o povo é saqueado.
o menino chora sob um turbilhão
de cavalos em febre
sob uma teia de equívocos e neblinas
amnésia de fantasmas e fracassos.
estamos no meio da noite barroca
no meio da praça
onde os tiranos engolem o ouro
no meio do coração torturado
por mil punhais envenenados
e um punho de sombra redigindo leis imóveis.
o menino uiva no labirinto
(não há pai nem mãe
nem lembrança de ternura
para consolar o pranto).
o menino uiva uma farpa de cristal
um relâmpago de estrelas podres
o abandono definitivo
(não há luz no quarto
onde o menino chora
sob um fedor de sinfonia
estarrecida).
no meio da fome
no meio da morte
no meio do coração.


OP 9 (Ossos do paraíso — 1981) , p. 9

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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.