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sexta-feira, 8 de abril de 2022

Rimbaud: Carta de Rimbaud a Georges Izambard [25.08.1870]

 
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[traduzido por Alexandre Ribondi]

Charleville, 25 de agosto de 1870.

          Senhor,
          Feliz é o senhor por não morar em Charleville! Minha cidade natal é superiormente idiota entre as cidadezinhas da província. Saiba que não tenho mais ilusões a este respeito. Por ser ao lado de Mézières uma cidade que ninguém encontra , por ver peregrinar em suas ruas duzentos ou trezentos soldadinhos, esta população hipócrita gesticula, ridiculamente fanfarrona, de maneira bem diferente dos sitiados de Metz e Strasbourg! São assustadores os merceeiros reformados que voltam a vestir seus uniformes! São surpreendentes, e como têm charme, os notários, os vidraceiros, os perceptores, os marceneiros e todas as panças que, com o fuzil no coração, fazem patrulhotismos às portas de Mézières; minha pátria se levanta!... Quanto a mim, prefiro vê-la sentada; não movam as botas! É o meu princípio.
          Estou desorientado, doente, furioso, brutalizado, confuso; esperava banhos de sol, passeios infinitos, repouso, viagens, aventuras, boemia, enfim; esperava sobretudo jornais, livros... Nada! Nada! O correio não envia nada mais aos livreiros; Paris se diverte conosco: nem um único livro novo! É a morte! Eis-me reduzido no que diz respeito a jornais ao honorável Courrier des Ardennes proprietário, gerente, diretor, chefe de redação e redator único: A. Pouillard! Este jornal resume as aspirações, os anseios e as opiniões da população: julgue-o portanto! Tudo muito limpo!... Estou exilado em minha pátria!!!
          Felizmente tenho o seu quarto: o senhor se lembra da permissão que me deu. Levei a metade de seus livros! Peguei Le Diable à Paris1. Diga-me depressa se já houve alguma coisa mais idiota que os desenhos de Grandville Tenho Costal l’Indien, tenho La Robe de Nessus2, dois romances interessantes. Além disto, que mais lhe dizer?... Li todos os seus livros; faz três dias desci as Épreuves, em seguida até as Glaneuses3 sim! Reli este volume! E foi tudo!... Nada mais. Sua biblioteca, minha única tábua de salvação, se esgotou!... O Dom Quixote se apresentou a mim4; ontem, por duas horas, passei em revista o bosque de Doré: agora, não tenho mais nada!
          Estou-lhe enviando versos; leia-os uma manhã, ao sol, como eu os fiz: o senhor não é mais professor agora, espero!...
          Me pareceu que o senhor queria conhecer Louisa Seifert, quando eu lhe emprestei seus últimos versos; acabo de conseguir partes de seu primeiro volume de poesias, os Rayons Perdus, 4ª edição. Eis uma peça muito comovente e extremamente bela. Marguerite5.

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Estava afastada, tendo em meu colo,
Minha priminha de grandes e tão doces olhos azuis:
É uma criança encantadora. A Marguerite,
Com seus cabelos louros, sua boca tão pequena
E sua tez transparente...

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Marguerite é bem jovem. Oh, se fosse minha filha,
Se tivesse uma criança, loura e gentil,
Frágil criatura em que eu reviveria,
Rósea e cândida com grandes olhos indiscretos!
Lágrimas quase surgem em minha pálpebra
Quando penso na criança que tanto orgulho me daria
E que não terei, que não teria jamais;
Pois o futuro, cruel àquele que amei,
Quer que também desta criança eu perca a esperança...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Jamais dirão de mim: é uma mãe!
E jamais me dirá uma criança: mamãe!
Acabou-se para mim o celeste romance
Com que sonha toda a jovem de minha idade...

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Minha vida, aos dezoito anos, conta toda um passado.

          É tão belo quanto os lamentos de Antígona άγϰηφη, em Sófocles.
          Tenho o Fêtes Galantes de Paul Verlaine, um belo in-doze. É bastante bizarro, muito engraçado; mas realmente, é adorável. Às vezes, licenças ousadas: assim,

Et la tigresse épou-vantable d’Hyrcanie

é um verso deste volume. Compre, eu o aconselho, La Bonne Chanson um pequeno volume de versos do mesmo poeta; acaba de ser lançado pela Lemerre; eu ainda não o li: nada chega aqui; mas vários jornais falam muito bem dele.
          Até a vista, envie-me uma carta de 25 páginas posta restante e depressa!

A. Rimbaud

P.S. Em breve, revelações sobre a vida que vou levar após... as férias...

Senhor Georges Izambard
29, rue de l’Abbaye-des-Prés,
Douai (Norte).

Urgente

Arthur Rimbaud

[Correspondance]
Rimbaud a Georges Izambard (25 août [18]70).

Charleville, 25 août [18]70.

          Monsieur,
          Vous êtes heureux, vous, de ne plus habiter Charleville! Ma ville natale est supérieurement idiote entre les petites villes de province. Sur cela, voyez-vous, je n’ai plus d’illusions. Parce qu’elle est à côté de Mézières une ville qu’on ne trouve pas , parce qu’elle voit pérégriner dans ses rues deux ou trois cents de pioupious, cette benoîte population gesticule prudhommesquement spadassine, bien autrement que les assiégés de Metz et de Strasbourg! C’est effrayant, les épiciers retraités qui revêtent l’uniforme! C’est épatant, comme ça a du chien, les notaires, les vitriers, les percepteurs, les menuisiers, et tous les ventres, qui, chassepot au cœur, font du patrouillotisme aux portes de Mézières; ma patrie se lève!… Moi, j’aime mieux la voir assise; ne remuez pas les bottes! c’est mon principe.
          Je suis dépaysé, malade, furieux, bête, renversé; j’espérais des bains de soleil, des promenades infinies, du repos, des voyages, des aventures, des bohémienneries, enfin; j’espérais surtout des journaux, des livres… Rien! Rien! Le courrier n’envoie plus rien aux libraires; Paris se moque de nous joliment; pas un seul livre nouveau! c’est la mort! Me voilà réduit, en fait de journaux, à l’honorable Courrier des Ardennes, propriétaire, gérant, directeur, rédacteur en chef et rédacteur unique: A. Pouillard! Ce journal résume les aspirations, les vœux et les opinions dela population: ainsi, jugez! c’est du propre!… On est exilé dans sa patrie!!!
          Heureusement, j’ai votre chambre: Vous vous rappelez la permission que vous m’avez donnée. J’ai emporté la moitié de vos livres! J’ai pris le Diable à Paris. Dites-moi un peu s’il y a jamais eu quelque chose de plus idiot que les dessins de Granville? J’ai Costal l’indien, j’ai la Robe de Nessus, deux romans intéressants. Puis, que vous dire?… J’ai lu tous vos livres, tous; il y a trois jours, je suis descendu aux Épreuves, puis aux Glaneuses, oui, j’ai relu ce volume! — puis ce fut tout!… Plus rien; votre bibliothèque, ma dernière planche de salut, était épuisée!… Le Don Quichotte m’apparut; hier, j’ai passé, deux heures durant, la revue des bois de Doré: maintenant, je n’ai plus rien!
          Je vous envoie des vers; lisez cela un matin, au soleil, comme je les ai faits: vous n’êtes plus professeur, maintenant, j’espère!…
          [Vous aviez] l’air de vouloir connaître Louisa Siefert, quand je vous ai prêté ses derniers vers; je viens de me procurer des parties de son premier volume de poésies, les Rayons perdus, 4e édition. J’ai là une pièce très émue et fort belle, Marguerite;

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Moi j’étais à l’écart, tenant sur mes genoux
Ma petite cousine aux grands yeux bleus si doux;
C’est une ravissante enfant que Marguerite
Avec ses cheveux blonds, sa bouche si petite
Et son teint transparent…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Marguerite est trop jeune. Oh! si c’était ma fille,
Si j’avais une enfant, tête blonde et gentille,
Fragile créature en qui je revivrais,
Rose et candide avec de grands yeux indiscrets!
Des larmes sourdent presque au bord de ma paupière
Quand je pense à l’enfant qui me rendrait si fière,
Et que je n’aurai pas, que je n’aurai jamais;
Car l’avenir, cruel en celui que j’aimais,
De cette enfant aussi veut que je désespère.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Jamais on ne dira de moi: c’est une mère!
Et jamais un enfant ne me dira: Maman!
C’en est fini pour moi du céleste roman
Que toute jeune fille à mon âge imagine...

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Ma vie, à dix-huit ans, compte tout un passé.

          — C’est, aussi beau que les plaintes d’Antigone άγϰηφη, dans Sophocle.
          J’ai les Fêtes galantes de Paul Verlaine, un joli in-12 écu. C’est fort bizarre, très drôle; mais vraiment, c’est adorable. Parfois, de fortes licences; ainsi,

Et la tigresse épou — vantable d’Hyrcanie

est un vers de ce volume. Achetez, je vous le conseille, la Bonne Chanson, un petit volume de vers du même poète: ça vient de paraître chez Lemerre; je ne l’ai pas lu; rien n’arrive ici; mais plusieurs journaux en disent beaucoup de bien.
          Au revoir, envoyez-moi une lettre de 25 pages. — poste restante — et bien vite!

A. Rimbaud.

          P.-S. — À bientôt, des révélations sur la vie que je vais mener après… les vacances...

          Monsieur Georges Izambard,
          29, rue de l’Abbaye-des-Prés,
          Douai (Nord)
          Très pressé.

Notas do tradutor Alexandre Ribondi:
1. Le Diable à Paris, de George Sand, P. J. Stahl, Léon Gozlan, Charles Nodier, etc., 1845;
2. Le Dragon de la Reine ou Costal l’Indien, romance de Gabriel Ferry, 1885 e La Robe de Nessus, romance de Amédée Achard, 1885;
3. Les Épreuves, poesias de Sully Prudhomme, 1886 e Les Glaneuses, de Paul Demeny, 1870;
4. A edição de Don Quixotte ilustrada por Gustave Doiré foi publicada em 1863;
5. [trecho do poema Marguerite, de Louisa Seifert, Rayons perdus] — Tradução literal.
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Correspondência de Rimbaud: Cartas da África — Correspondência com Verlaine — Agonia em Marselha, Tradução e Notas de Alexandre Ribondi e Apresentação de Ivo Barroso, 2ª edição, Coleção Rebeldes & Malditos volume 4, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.