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[traduzido por Dante Milano]
No meu sonho, vi passar,
com a rapidez de um olhar,
como um relâmpago no ar
ou pedra em despenhadeiro
ou cavaleiro.
das baladas alemãs,
em fugas loucas e vãs,
agarrado às hirtas lãs
desse que vai num arranco,
cavalo branco.
Como a encarnação do mal,
o cavaleiro fatal,
ventando no vendaval,
avança, riscando a espora,
mundos em fora.
Sua pupila reluz
e apaga-se com a luz
azul, de reflexos crus,
que lança e relança a espada
desembainhada.
No feltro uma pluma traz,
como uma flama fugaz,
atirada para trás.
E na vertigem revolta.
a capa solta,
voa, de cá para lá,
enquanto na noite má,
rebrilham, num hah! hah! hah!
de risadas estridentes,
trinta e dois dentes.
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| Paul Verlaine |
Cauchemar
J'ai vu passer dans mon rêve
— Tel l'ouragan sur la grève, —
D'une main tenant un glaive
Et de l'autre un sablier,
Ce cavalier
Des ballades d'Allemagne
Qu'à travers ville et campagne,
Et du fleuve à la montagne,
Et des forêts au vallon,
Un étalon
Rouge-flamme et noir d'ébène,
Sans bride, ni mors, ni rêne,
Ni hop! ni cravache, entraîne
Parmi des râlements sourds
Toujours! Toujours!
Un grand feutre à longue plume
Ombrait son oeil qui s'allume
Et s'éteint. Tel, dans la brume,
Eclate et meurt l'éclair bleu
D'une arme à feu.
Comme l'aile d'une orfraie
Qu'un subit orage effraie,
Par l'air que la neige raie,
Son manteau se soulevant
Claquait au vent,
Et montrait d'un air de gloire
Un torse d'ombre et d'ivoire,
Tanids que dans la nuit noire
Luisaient en des cris stridents
Trente-deux dents.
Poèmes Saturniens — 1866
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Antologia de Poemas
para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de
Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de
Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine
(1844 — 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu
Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público
e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo
parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura
francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se
referir aos poetas de sua época e de seu convívio — Baudelaire,
Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... —, grupo ao qual ele se incluía,
e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e
sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos
críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do
Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a
nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em
poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes
Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis
et naguère (1884), Amour (1888) e outros títulos, e, em
prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les
Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes
prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi
casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas
ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu
com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o
viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se
socorrendo em hospitais públicos.

