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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Wisława Szymborska: Para o meu coração num domingo

 
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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Te agradeço, coração meu,
por não se queixar, por se afanar
sem elogios, sem recompensa,
num desvio inato.

Você tem setenta méritos por minuto.
Cada contração tua
é como o lançar de uma canoa
no mar aberto
numa viagem ao redor do mundo.

Te agradeço, coração meu,
porque sem cessar
você me retira do todo,
separada até no sonho.

Você cuida para que eu não sonhe demais
com o voo
para o qual não é preciso ter asas.

Te agradeço, coração meu,
por eu ter acordado de novo
e embora seja domingo,
dia de descanso,
sob as costelas
você seguir o ritmo normal da semana.

(Muito Divertido — 1967)

Wislawa Szymborska

Do serca w niedzielę

Dziękuję ci, serce moje,
że nie marudzisz, że się uwijasz,
bez pochlebstw, bez nagrody,
z wrodzonej pilności.

Masz siedemdziesiąt zasług na minutę.
Każdy twój skurcz
jest jak zepchnięcie łodzi
na pełne morze
w podróż dookoła świata.

Dziękuję ci, serce moje,
że raz po raz
wyjmujesz mnie z całości
nawet we śnie osobną.

Dbasz, żebym nie prześniła się na wylot.
na wylot,
do którego skrzydeł nie potrzeba.

Dziękuję ci, serce moje,
że obudziłam się znowu
i chociaż jest niedziela,
dzień odpoczywania,
pod żebrami
trwa zwykły przedświąteczny ruch.

(Sto pociech 1967)
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Wislawa Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

domingo, 17 de agosto de 2025

Wislawa Szymborska: Nada é dado

 
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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Nada é dado, tudo emprestado.
Estou atolada em dívidas até o pescoço.
Serei forçada a pagar por mim
gastando a mim mesma,
dando a vida pela vida.

É coisa já arranjada:
tenho que devolver
o coração e o fígado
e cada dedo em particular.

Tarde demais para quebrar os termos do contrato.
O que devo me será tirado
junto com a minha pele.

Ando pelo mundo
numa multidão de outros devedores.
Alguns suportam o ônus
de pagar pelas asas.
Outros, queiram ou não,
prestarão conta de suas folhas.

Todo tecido em nós
está na coluna Débito.
Nenhum cílio, nenhuma haste
a conservar para sempre.

O inventário é minucioso
e tudo indica
que não vamos ficar com nada.

Não consigo lembrar
onde, quando e com que fim
permiti que abrissem
essa conta em meu nome.

O protesto contra ela
chamamos de alma.
Esse é o único item
que não consta do inventário.

(Fim e começo — 1993)

Wislawa Szymborska

Nic darowane

Nic darowane, wszystko pożyczone.
Toną w długach po uszy.
Będę zmuszona sobą
zapłacić za siebie,
za życie oddać życie.

Tak to już urządzone,
że serce do zwrotu
i wątroba do zwrotu
i każy palec z osobna.

Za późno na zerwanie warunków umowy.
Długi będą ściągnięte ze mnie
wraz ze skórą.

Chodzę po świecie
w tłumie innych dłużników.
Na jednych ciąży przymus
spłaty skrzydeł.
Drudzy chcąc nie chcąc
rozliczą się z liści.

Po stronie Winien
wszelka tkanka w nas.
Zadnej rzęski, szypułki
do zachowania na zawsze.

Spis jest dokładny
i na to wygląda,
że mamy zostać z niczym.

Nie mogę sobie przypomnieć
gdzie, kiedy i po co
pozwoliłam otworzyć sobie
ten rachunek.

Protest przeciwko niemu
nazywamy duszą.
I to jest to jedyne,
czego nie ma w spisie.

(Koniec i początek — 1993)
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Wislawa Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska (1923 — 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Wislawa Szymborska: Relato do hospital

 
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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Tiramos a sorte no palito para ver quem ia vê-lo.
Fui sorteado. Levantei-me da mesa.
Já estava chegando o horário de visitas no hospital.

Não respondeu nada quando o cumprimentei.
Quis tomar a sua mão ele a retirou
como um cão faminto que não entrega o osso.

Parecia se envergonhar de morrer.
Não sei o que se diz para alguém como ele.
Nossos olhares divergiam como numa fotomontagem.

Não me pediu para ficar nem para sair.
Não perguntou de ninguém da nossa mesa.
Nem de você, Bolek. Nem de você, Tolek. Nem de você, Lolek.

Minha cabeça começou a doer. Quem está morrendo para quem?
Elogiei a medicina e as três violetas num copo.
Falei sobre o sol e fui me apagando.

Que bom que tem escadas por onde se desce correndo.
Que bom que tem um portão que se abre.
Que bom que vocês me esperam junto à mesa.

Cheiro de hospital me dá náusea.

(Muito Divertido — 1967)

Wislawa Szymborska

Relacja ze szpitala

Ciągnęliśmy zapałki, kto ma pójść do niego.
Wypadło na mnie. Wstałem od stolika.
Zbliżała się już pora odwiedzin w szpitalu.

Nie odpowiedział nic na powitanie.
Chciałem go wziąć za rękę cofnął ją
jak głodny pies, co nie da kości.

Wyglądał, jakby się wstydził umierać.
Nie wiem, o czym się mówi takiemu jak on.
Mijaliśmy się wzrokiem jak w fotomontażu.

Nie prosił ani zostań, ani odejdź.
Nie pytał o nikogo z naszego stolika.
Ani o ciebie, Bolku. Ani o ciebie, Tolku. Ani o ciebie, Lolku.

Rozbolała mnie głowa. Kto komu umiera?
Chwaliłem medycynę i trzy fiołki w szklance.
Opowiadałem o słońcu i gasłem.

Jak dobrze, że są schody, którymi się zbiega.
Jak dobrze, że jest brama, którą się otwiera.
Jak dobrze, że czekacie na mnie przy stoliku.

Szpitalna woń przyprawia mnie o mdłości.

(Sto pociech 1967)
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Wislawa Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Wisława Szymborska: A cebola

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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Outra coisa é a cebola.
Ela não tem interioridade.
É ela mesma, a cebola,
é cúmulo da cebolidade.
Cebolácea por fora,
cebolesca até o centro,
poderia sem temor
se olhar por dentro.

Em nós exílio e selvageria,
de pele mail e mal revestidos,
um inferno interno,
uma anatomia delirante,
já na cebola cebola.
não intestinos retorcidos.
Ela muitas vezes nua,
até o fundo e assim por diante.

Um ser coeso a cebola,
criação bem sucedida,
quando uma camada se descarta,
a menor na maior está contida.
e na seguinte a sucessiva,
ou seja, a terceira e a quarta.
Uma fuga centrípeta.
Um eco em coro se desenrola.

É isso a cebola:
do mundo o ventre mais belo.
Para glória própria de auréolas
se enrola como novelo.
Em nós  gordura, nervos, veias,
mucos e secreção.
E a nós é negada
a idiotice da perfeição.

(Um grande número — 1976)

Wislawa Szymborska

Cebula

Co innego cebula.
Ona nie ma wnętrzności.
Jest sobą na wskroś cebula
do stopnia cebuliczności.
Cebulasta na zewnątrz,
cebulowa do rdzenia,
mogłaby wejrzeć w siebie
cebula bez przerażenia.

W nas obczyzna i dzikość
ledwie skórą przykryta,
inferno w nas interny,
anatomia gwałtowna,
a w cebuli cebula,
nie pokrętne jelita.
Ona wielekroć naga,
do głębi itympodobna.

Byt niesprzeczny cebula,
udany cebula twór.
W jednej po prostu druga,
w większej mniejsza zawarta,
a w następnej kolejna,
czyli trzecia i czwarta.
Dośrodkowa fuga.
Echo złożone w chór.

Cebula, to ja rozumiem:
najnadobniejszy brzuch świata.
Sam się aureolami
na własną chwałę oplata.
W nas tłuszcze, nerwy, żyły,
śluzy i sekretności.
I jest nam odmówiony
idiotyzm doskonałości.

(Wielka liczba 1976)
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Wislawa Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Wisława Szymborska: Reabilitação

 
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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Valho-me do direito mais antigo da imaginação
e pela primeira vez na vida invoco os mortos,
procuro ver seus rostos, escutar seus passos,
embora saiba que quem morreu, morreu por inteiro.

É hora de pegar a própria cabeça nas mãos
e lhe dizer: pobre Yorick, onde a tua ignorância,
onde a tua fé cega, onde a tua inocência
o teu tudo-vai-se-arranjar, o equilíbrio do espírito
entre a verdade não verificada e a verificada?

Acreditei que traíram, que eram indignos de nomes,
já que a erva daninha zomba de suas covas desconhecidas
e os corvos os arremedam e as nevascas escarnecem deles
mas eles, Yorick, eram falsas testemunhas.

A eternidade dos mortos tem sustento
enquanto são pagos com memória terna.
Moeda instável a cada momento
alguém perde sua condição eterna.

Hoje a eternidade eu conheço melhor,
ela pode ser concedida e removida.
Quem foi chamado de traidor
esse, junto com o nome, perderá a vida.

Esse nosso poder sobre os mortos
exige um peso comedido,
e que o tribunal não julgue torto
e que o juiz não esteja despido.

A terra ferve e eles, que já são terra,
se levantam torrão após torrão, punhado a punhado,
saem do silêncio, voltam aos nomes,
à memória do povo, aos louros e aos bravos.

Onde o meu poder sobre as palavras?
As palavras caíram no fundo de uma lágrima,
palavras, palavras que não ressuscitam os falecidos,
descrição morta como uma velha fotografia.
Nem para um meio respiro despertá-los consigo,
eu Sísifo designado ao inferno da poesia.

Eles estão vindo. E afiados como diamante
cortam as vitrines de frentes reluzentes
as janelas de casas aconchegantes,
os óculos cor-de-rosa, os cérebros
e os corações de vidro.

(Chamando pelo Yeti 1957)

Wisława Szymborska

Rehabilitacja

Korzystam z najstarszego prawa wyobraźni
i po raz pierwszy w życiu przywołuję zmarłych,
wypatruję ich twarzy, nasłuchuję kroków,
chociaż wiem, że kto umarł, ten umarł dokładnie.

Czas własną głowę w ręce brać
mówiąc jej: Biedny Jorik, gdzież twoja niewiedza,
gdzież twoja ślepa ufność, gdzież twoja niewinność
twoje jakośtobędzie, równowaga ducha
pomiędzy nie sprawdzoną a sprawdzoną prawdą?

Wierzyłam, że zdradzili, że nie warci imion,
skoro chwast się natrząsa z ich nieznanych mogił
i kruki przedrzeźniają i śnieżyce szydzą
a to byli, Joriku, fałszywi świadkowie.

Umarłych wieczność dotąd trwa,
dokąd pamięcią się im płaci.
Chwiejna waluta. Nie ma dnia
by ktoś wieczności swej nie tracił.

Dziś o wieczności więcej wiem:
można ją dawać i odbierać.
Kogo nazwano zdrajcą ten
razem z imieniem ma umierać.

Ta nasza nad zmarłymi moc
wymaga nierozchwianej wagi
i żeby sąd nie sądził w noc
i żeby sędzia nie był nagi.

Ziemia wre a to oni, którzy są już ziemią,
wstają grudka po grudce, garstka obok garstki,
wychodzą z przemilczenia, wracają do imion,
do pamięci narodu, do wieńców i braw.

Gdzież moja władza nad słowami?
Słowa opadły na dno łzy,
słowa słowa niezdatne do wskrzeszania ludzi,
opis martwy jak zdjęcie przy błysku magnezji.
Nawet na półoddechu nie umiem ich zbudzić
ja, Syzyf przypisany do piekła poezji.

Idą do nas. I ostrzy jak diament
po witrynach wylśnionych od frontu,
po okienkach przytulnych mieszkanek,
po różowych okularach, po szklanych
mózgach, sercach, cichutko tną.

(Wolanie do Yeti — 1957)
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Wisława Szymborska [poemas], Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, edição bilíngue, 2ª reimpressão, 2012, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicadaem Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo,1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Wisława Szymborska: O eremitério

 
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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Você acha que o eremita vive no deserto,
mas ele tem uma casinha com jardim
num alegre bosque de bétulas,
a 10 minutos da rodovia,
com a trilha sinalizada.

Você não tem que espiá-lo de longe com binóculos,
pode vê-lo e ouvi-lo bem de perto
como, paciente, explica para uma excursão de Wieliczka
por que escolheu uma austera solidão.

Usa hábito escuro,
tem longa barba branca,
bochechas vermelhas
e olhos azuis.
De bom grado posa na frente de uma roseira,
para uma foto colorida.

Tira a foto um certo Stanley Kowalik, de Chicago.
Promete que envia depois de revelar.

Enquanto isso uma velhinha calada de Bydgoszcz,
que não recebe ninguém além de cobradores,
escreve no livro de visitas:
Deus seja louvado
por ter-me permitido
ver em vida um verdadeiro eremita.

Os jovens escrevem com facas nas árvores:
Spirituals 75 reunião lá embaixo.

Mas cadê o Rex? Por anda o Rex?
O Rex está debaixo do banco fingindo ser um lobo.

(Um grande número — 1976)

Wisława Szymborska

Pustelnia

Myślalaś, źe pustelnik mieszka na pustyni,
a on w domku z ogródkiem
w wesolym lasku brzozowym,
10 minut od szosy,
ścieźką oznakowaną.

Nie musisz go podglądać z dala przez lornetkę,
moźesz go widzieć, słyszeć calkiem z bliska,
jak cierpliwie wyjaśnia wycieczce z Wieliczki,
dlaczego wybrał surową samotność.

Ma bury habit,
długą siwą brodę,
rumiane liczko
i oczy niebieskie.
Chętnie zastyga na tle krzaka róź
do kolorowej fotografii.

Robi ją właśnie Stanley Kowalik z Chicago.
Po wywołaniu obiecuje przyslać.

Tymczasem malomówna staruszka z Bydgoszczy,
której nikt nie odwiedza oprócz inkasentów,
wpisuje się do księgi pamiątkowej:
Bogu niech będą dzięki,
źe pozwolil mi
zobaczyć w źyciu prawdziwego pustelnika.

Młodzieź wpisuje się noźem na drzewach:
Spiritualsi 75 Zbiórka na dole.

Tylko co z Barim, gdzie się podział Bari.
Bari leźy pod ławką i udaje wilka.

(Wielka liczba 1976)
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Wisława Szymborska [poemas], Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, edição bilíngue, 2ª reimpressão, 2012, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wisława deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo,1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...