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domingo, 2 de novembro de 2025

Casimiro de Brito: As coisas & Sombras

 
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As coisas

As coisas não significam
elas confortam
são mansas ao tato
à brancura do sangue
as coisas mais secas e ríspidas
um livro uma pedra um relógio
são terra vermelha
abrem seus músculos exaustos
ao calor da vida
moldam-se
ao sangue de outras coisas
igualmente vivas
nuas
familiares

— o —

Sombras

Passam
corpos
colados ao silêncio

Sabeis acaso distinguir
um homem
da sua sombra?

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Casimiro Cavaco Correia de Brito (1938 2024), português de Loulé, distrito de Faro, Algarve, fez seus estudos iniciais na região onde nasceu, ali também completou o Curso Geral do Comércio, na Escola Industrial e Comercial de Faro, tempos depois frequentou, em Londres, o Westfield College, foi poeta, romancista, contista, ensaísta e tradutor; criou a página literária Prisma de Cristal do jornal A Voz de Loulé, na qual recebeu colaborações de literatos da época, dirigiu a coleção de poesia A Palavra, também com publicações de literatos poetas, fundou e dirigiu, em coparticipação, os Cadernos do Meio-Dia, aí revelando poetas do movimento literário Poesia 61, do qual também foi participante; após ter passado um período em Londres Inglaterra e na Alemanha, estabeleceu-se em Lisboa e desempenhou funções no setor financeiro, como gerente de instituição bancária; Casimiro de Brito é considerado, no seu tempo, um intenso ativista literário e divulgador da poesia nacional portuguesa e estrangeira; o poeta foi nomeado consultor para a Europa da World Haiku Association, sediada em Tóquio, e teve outras representações em instituições literárias; suas obras: em poesia: Poemas da solidão imperfeita (1957), Sete poemas rebeldes e carta a Pablo Picasso (1958), Telegramas (1959), Canto Adolescente (movimento literário Poesia 61, 1961), Poemas orientais (Hai-kais japoneses, 1963), Jardins de Guerra (1966), Musa do Amor (1970), Corpo Sitiado (1976) ..., em prosa: Um certo país ao Sul (contos, 1975), Imitação do Prazer (romance, 1977), Prática da Escrita (ensaio, 1977), Nós, Outros (romance, em parceria com Teresa Salema, 1979), Pátria Sensível (romance, 1983), Contos da Morte Eufórica (1984), Vagabundagem na Poética de António Ramos Rosa (ensaio, 2001) e outros títulos em verso e prosa; traduziu poesias de vários idiomas, particularmente os hai-kais japoneses, e também teve suas obras traduzidas para inúmeras línguas, entre as quais a italiana, francesa, japonesa, alemã, polaca, grega, chinesa, russa, árabe ...; além da extensa obra publicada, participou ainda de mais de uma centena de antologias e coletâneas poéticas em vários países; recebeu premiações por suas obras.

domingo, 15 de setembro de 2024

Casimiro de Brito: Ofício de poeta

 
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"a construção de uma linguagem
na linguagem"
Paul Valéry

"a linguagem de uma pessoa
que se dirige a outra"
T. S. Eliot

1. A palavra

Mordo a palavra e dispo-a
de pó. Sorvo seus rios de sangue
e nela me reclino, e nela se demora
o azul do sol, os dedos submissos
da lama, a luz, o perfil silencioso
de um pequeno animal
parindo, na relva, quase desfeito.

A palavra bebo, a palavra equilibro
no vinho dos olhos, na húmida
cadência da noite. E outras cores
se abrem. E outros sons amanhecem.
E o poema se desprende, vivo e aberto.
Inviolado.

2. O poema

Poemas, sim, mas de fogo
devorador. Redondos como punhos
diante do perigo. Barcos decididos
na tempestade. Cruéis. Mas de uma
crueldade pura: a do nascimento,
a do sono, a da morte.

Poemas, sim, mas rebeldes.
Inteiros como se de água, e,
como ela, abertos à geometria
de todos os corpos. Inteiros
apesar do barro e da ternura
do seu perfil de astros.

Poemas, sim, mas de sangue.
Que esses poemas brotem do
oculto. Que libertem o seu pus
na praça pública. Altos, vibrantes
como um sismo, um exorcismo
ou a morte de um filho.

3. A leitura

De como este convívio se processa
e falo e silencio no espaço breve
em que o sol de palavras se constrói,
convém não saber, convém libertar somente
a brancura dos sons, a forma insubmissa
dos silvos do vento, a certa linguagem
do amor e da morte, animais pastando
nas campinas do sangue. Convém ouvir
o barro das cores. E nada simular. E nada
pedir à neve da noite, ao brilho das
estrelas. E assim receber a música
como se fosse uma noiva. O deus que
se eleva de coisa nenhuma e de todas
as coisas um deus alegre, um suicídio
de serpentes enfim desfeitas, multi-
plicadas; centopeias de sombra
em seu casulo. Mas vivas
na voz do sangue. Vivas. Assim eu canto
e amo. E respiro a morte do corpo, a voz
terrosa. O nascimento da liberdade.

4. O ofício

Escrevo para sentir nas veias
o voo da pedra.

Antecipação da paz
neste país de granadas
moldadas
no silêncio dos frutos.

Escrevo como quem escava
no bojo da sombra
um mar de claridade.

Pedras vivas de possibilidade,
as palavras levantam
o crime, os pássaros do pântano.

Escrevo
no grande espaço obscuro
que somos e nos inunda.

(Jardins de guerra — 1966)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Casimiro Cavaco Correia de Brito (1938 2024), português de Loulé, distrito de Faro, Algarve, fez seus estudos iniciais na região onde nasceu, ali também completou o Curso Geral do Comércio, na Escola Industrial e Comercial de Faro, tempos depois frequentou, em Londres, o Westfield College, foi poeta, romancista, contista, ensaísta e tradutor; criou a página literária Prisma de Cristal do jornal A Voz de Loulé, na qual recebeu colaborações de literatos da época, dirigiu a coleção de poesia A Palavra, também com publicações de literatos poetas, fundou e dirigiu, em coparticipação, os Cadernos do Meio-Dia, aí revelando poetas do movimento literário Poesia 61, do qual também foi participante; após ter passado um período em Londres Inglaterra e na Alemanha, estabeleceu-se em Lisboa e desempenhou funções no setor financeiro, como gerente de instituição bancária; Casimiro de Brito é considerado, no seu tempo, um intenso ativista literário e divulgador da poesia nacional portuguesa e estrangeira; o poeta foi nomeado consultor para a Europa da World Haiku Association, sediada em Tóquio, e teve outras representações em instituições literárias; suas obras: em poesia: Poemas da solidão imperfeita (1957), Sete poemas rebeldes e carta a Pablo Picasso (1958), Telegramas (1959), Canto Adolescente (movimento literário Poesia 61, 1961), Poemas orientais (Hai-kais japoneses, 1963), Jardins de Guerra (1966), Musa do Amor (1970), Corpo Sitiado (1976) ..., em prosa: Um certo país ao Sul (contos, 1975), Imitação do Prazer (romance, 1977), Prática da Escrita (ensaio, 1977), Nós, Outros (romance, em parceria com Teresa Salema, 1979), Pátria Sensível (romance, 1983), Contos da Morte Eufórica (1984), Vagabundagem na Poética de António Ramos Rosa (ensaio, 2001) e outros títulos em verso e prosa; traduziu poesias de vários idiomas, particularmente os hai-kais japoneses, e também teve suas obras traduzidas para inúmeras línguas, entre as quais a italiana, francesa, japonesa, alemã, polaca, grega, chinesa, russa, árabe ...; além da extensa obra publicada, participou ainda de mais de uma centena de antologias e coletâneas poéticas em vários países; recebeu premiações por suas obras.