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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Casimiro de Abreu: O que é simpatia


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(A uma menina)

Simpatia é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.

Simpatia são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia meu anjinho,
É o canto do passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu de agosto,
É o que me inspira teu rosto...
Simpatia é quase amor!

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); suas obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesias, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose aos 21 anos de idade; tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no país; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Casimiro de Abreu: Primaveras


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[O Primavera! gioventú dell'anno,
Gioventú! primavera della vita.
METASTASIO.]

[ I ]

A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: Como é linda a veiga!
Responde a rosa: Como é doce o orvalho!

[ I I ]

Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.

São flores murchas; o jasmim fenece,
Mas bafejado se erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.

Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe entumece o seio.

Na primavera na manhã da vida
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.

Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, se extasia e goza.

[1 de julho, 1858]
[Primaveras — 1859]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); suas obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesias, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose aos 21 anos de idade; tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no país; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Casimiro de Abreu: Canção do Exílio (Meu lar)


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Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
          Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
          Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
          Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
          Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
          Do que a pátria, não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
          Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
          Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
          O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
          Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
          Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra
          Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor-de-rosa que passava
          Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,
          As folhas por dossel;
E ver se apanho a borboleta branca,
          Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho
          Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
          Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
          Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
          A voz do sabiá!

Quero morrer cercado dos perfumes
          Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
          Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras,
          Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranquilo
          À sombra do meu lar!

As cachoeiras chorarão sentidas
          Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores
          Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
          Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
          Cantar o sabiá!

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); suas obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesias, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose aos 21 anos de idade; tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no país; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Casimiro de Abreu: Juramento


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Tu dizes, ó Mariquinhas
Que não crês nas juras minhas,
Que nunca cumpridas são!
Mas se eu não te jurei nada,
Como hás de tu, estouvada,
Saber se eu as cumpro ou não?!

Tu dizes que eu sempre minto,
Que protesto o que não sinto,
Que todo poeta é vário,
Que é borboleta inconstante;
Mas agora, neste instante,
Eu vou provar-te o contrário.

Vem cá, sentada a meu lado
Com esse rosto adorado
Brilhante de sentimento,
Ao colo o braço cingido,
Olhar no meu embebido,
Escuta o meu juramento.

Espera: inclina essa fronte...
Assim!... Pareces no monte
Alvo lírio debruçado!
Agora, se em mim te fias,
Fica séria, não te rias,
O juramento é sagrado.

Eu juro sobre estas tranças,
“E pelas chamas que lanças
“Desses teus olhos divinos;
“Eu juro, minha inocente,
“Embalar-te docemente
“Ao som dos mais ternos hinos!

“Pelas ondas, pelas flores,
“Que se estremecem de amores
“Da brisa ao sopro lascivo;
“Eu juro, por minha vida,
“Deitar-me a teus pés, querida,
“Humilde como um cativo!

“Pelos lírios, pelas rosas,
“Pelas estrelas formosas,
“Pelo sol que brilha agora,
Eu juro dar-te, Maria,
“Quarenta beijos por dia
“E dez abraços por hora!”

O juramento está feito,
Foi dito com a mão no peito
Apontando ao coração;
E agora por vida minha,
Tu verás, ó moreninha
Tu verás se o cumpro ou não!...

[Rio — 1857]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); suas obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesias, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose aos 21 anos de idade; tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no país; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Casimiro de Abreu: Na Estrada

 
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Cena contemporânea

Eu vi o pobre velho esfarrapado
Cabeça branca sentado pensativo
Dum carvalho ao pé;
Esmolava na pedra dum caminho,
Sem família, sem pão, sem lar, sem ninho,
E rico só de fé!

Era de tarde; ao toque do mosteiro
Seu lábio a murmurar rezava baixo,
Ao lado o seu bordão;
E o sol, no raio extremo, lhe dourava
Sobre a fronte senil a dupla c’roa
De pobre e de ancião!

E o homem de metal vinha sorrindo
Contando ao companheiro os gordos lucros
Na usura de judeus;
O mendigo estendeu a mão mirrada,
E pediu-lhe na voz entrecortada:
Uma esmola, por Deus!

O homem de metal embevecido
Em sonhos de milhões, por junto à pedra
Sem responder, passou!
O pobre recolheu a mão vazia…
O anjo tutelar velou seu rosto
Mas Satanás folgou!

(Rio — 1858)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), tendo recebido tão somente a instrução primária (de 1849 a 1852) no Instituto Freeze, em Nova Friburgo, por vontade paterna mudou-se para o Rio e praticou o comércio por um período; foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau — representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); obras: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesia, 1859) e outros títulos; morreu de tuberculose, aos 21 anos de idade; Casimiro de Abreu é o patrono da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Casimiro de Abreu: Dores *

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Há dores fundas, agonias lentas,
dramas pungentes que ninguém consola,
             ou suspeita sequer!
Mágoas maiores do que a dor dum dia,
do que a morte bebida em taça morna
             de lábios de mulher!

. . .

Oh! ninguém sabe como a dor é funda,
quanto pranto s’engole a quanta angústia
             a alma nos desfaz!
Horas há em que a voz quase blasfema...
E o suicídio nos acena ao longe
             nas longas saturnais!

Definha-se a existência pouco e pouco,
E ao lábio descorado o riso franco
             qual dantes, já não vem;
um véu nos cobre de mortal tristeza,
e a alma em luto, despida dos encantos,
             amor nem sonhos tem!

Murcha-se o viço do verdor dos anos,
dorme-se moço e despertamos velho,
             sem fogo para amar!
E a fronte jovem que o pesar sombreia
vai, reclinada sobre um colo impuro,
             dormir no lupanar!

Ergue-se a taça do festim da orgia,
gasta-se a vida em noites de luxúria
             nos leitos dos bordéis,
e o veneno se sorve a longos tragos
nos seios brancos e nos lábios frios
             das lânguidas Frinés!

Esquecimento  mortalha para dores 
aqui na terra é a embriaguez do gozo,
             a febre do prazer:
a dor se afoga no fervor dos vinhos,
e no regaço das Marcôs modernas
             é doce então morrer!

Depois o mundo diz:  Que libertino!
a folgar no delírio dos alcouces **
             as asas empanou! 
como se ele, algoz das esperanças,
as crenças infantis e a vida d’alma
             não fosse quem matou!...


Notas do Organizador Sergio Faraco:
* Fragmento do segundo canto do Livro negro;
** Prostíbulos.
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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), recebeu tão somente instrução primária (de 1849 a 1852); foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa, também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau — representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); obras literárias: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesia, 1859); morreu de tuberculose, aos 21 anos de idade.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Casimiro de Abreu: Canção do Exílio

Livros de Sonia Brayner | Estante Virtual
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Oh! Mon pays sera mês amours
Toujours.                    
CHATEAUBRIAND

Eu nasci além dos mares:
      Os meus lares,
Meus amores ficam lá!
Onde canta nos retiros
      Seus suspiros,
Suspiros o sabiá!

Oh que céu, que terra aquela,
      Rica e bela
Como o céu de claro anil!
Que seiva, que luz, que galas,
      Não exalas,
Não exalas, meu Brasil!

Oh! que saudades tamanhas
      Das montanhas,
Daqueles campos natais!
Daquele céu de safira
      Que se mira,
Que se mira nos cristais!

Não amo a terra do exílio,
      Sou bom filho,
Quero a pátria, o meu país,
Quero a terra das mangueiras
      E as palmeiras,
E as palmeiras tão gentis!

Como a ave dos palmares
      Pelos ares
Fugindo do caçador;
Eu vivo longe do ninho,
      Sem carinho,
Sem carinho e sem amor!

Debalde eu olho e procuro...
      Tudo escuro
Só vejo em roda de mim!
Falta a luz do lar paterno
      Doce e terno,
Doce e terno para mim.

Distante do solo amado
      Desterrado
A vida não é feliz.
Nessa eterna primavera
      Quem me dera,
Quem me dera o meu país!

Lisboa, 1855

Resultado de imagem para casimiro de abreu eu nasci além dos mares: os meus lares, meus amores ficam lá
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A Poesia no Brasil, Volume 1 Das Origens até 1920, Organização, Bibliografias e Notas de Sônia Brayner, 1981, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro RJ; Casimiro José Marques de Abreu (1839 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), recebeu tão somente instrução primária (de 1849 a 1852); foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa, também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); obras literárias: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesia, 1859); morreu de tuberculose, aos 21 anos de idade.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Casimiro de Abreu: Deus

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa
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Eu me lembro! eu me lembro! — Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno.

E eu disse à minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver maior do que o oceano,
Ou que seja mais forte do que o vento?!”

Minha mãe a sorrir olhou pr'os céus
E respondeu: — “ Um Ser que nós não vemos
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão! meu filho, é — Deus!” —

Dezembro — 1858
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Poetas Românticos Brasileiros — Volume III, Editora e Encadernadora Lumen Ltda, sem data, São Paulo — SP; Casimiro José Marques de Abreu (1839 — 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), recebeu tão somente instrução primária (de 1849 a 1852); foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa, também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau — representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 — e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos  de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); obras literárias: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesia, 1859); morreu de tuberculose, aos 21 anos de idade.