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domingo, 27 de abril de 2014

Pedro Xisto: O poeta é vento? (e outros haikais)

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poesia,
poema,
poeta


o poeta  evento
do poente? do oriente?
o poeta é vento?



cinco-sete-cinco
no princípio era o ritmo
cinco... sete... cinco *


espera e labor
poesia bem seria
espécie de amor


*


*

                                           **
*



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paisagem
(natureza, estações, ciclos)



a criança nua
de todo cata no lodo
farrapos de lua ***



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passagem 
(tempo, fim-início)



estradas incertas
do menino e do velhinho
passadas insertas


antigo jazigo
e a letra aberta na pedra:
amigo já sigo


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o ser refletido



assuntos a esmo:
que tenho e penso? a que venho?
assumo a mim mesmo




Notas do organizador:
* O ritmo representado pelo próprio esquema métrico do haikai: cinco-sete-cinco (sílabas). Note-se como o ritmo, acelerado no primeiro verso pela união (com hífen) entre as palavras, desacelera-se no último verso, que introduz as reticências entre as mesmas palavras.
** Cada ponto representando uma sílaba poética, eis um "esqueleto" do haikai, um poema reduzido ao esquema métrico fundamental do modelo (5-7-5 sílabas).
*** Alto e baixo, céu e solo, sublime e terreno, límpido e sujo fundem-se neste poema, que associa sonoramente as palavras nua (relativa à criança, suja de lama) e lua; esta, refletida no lodo, é recolhida "em farrapos" pela criança.
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Lumes: uma antologia de haikais, de Pedro Xisto — Organização, Seleção, Textos e Notas de Marcelo Tápia, 2008, Berlendis & Vertecchia Editores, São Paulo SP; Pedro Xisto Pereira de Carvalho (1901 1987), pernambucano de Limoeiro, formado em Direito, foi adido cultural em embaixadas brasileiras no Japão, Canadá e Estados Unidas; poeta, ensaísta, jornalista e professor, participou do Movimento Concretista iniciado por Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos, formadores do Grupo Noigandres, na década de 50; escreveu críticas literárias para o jornal Folha da Manhã (SP); integrou, juntamente com os poetas concretistas do Noigandres, e com outros, a Revista Invenção, publicando ali seus primeiros poemas concretos; em suas viagens pela Europa e pelo Oriente, ajudou na difusão da poesia de vanguarda brasileira em festivais e eventos de toda natureza como poeta, articulista e teórico; obras literárias: Poesia em Situação (1960, Imprensa Oficial do Ceará, Fortaleza edição de artigos publicados na Folha da Manhã), A Busca da Poesia (1970, in Guimarães Rosa em três dimensões “com Augusto de Campos e Haroldo de Campos”, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo SP); HaiKais & Concretos (1960, prêmios Pen-Clube São Paulo e Fábio Prado Renata Crespi Prado, Livraria Martins Editora, São Paulo SP); 8 Haikais (1960, Coleção Shin Nippaku, Tokyo Japão); Acht Haikai (1962, música de Koellreuter para baixo e instrumentos, texto bilíngüe, Edition Moderne, Munique Alemanha); Vogaláxia (1966, Invenção, Bahia/São Paulo); Three haiku (1972, Wood Montain, Saskatchewan Canadá); Toronto poems (1972, Ganglia Press, Toronto Canadá); Partículas (1984, Massao Ohno/Ismael Guarnelli Editores, São Paulo SP); As águas glaucas (2007, antologia de poesia concreta e visual, Berlendis & Vertecchia Editores, São Paulo SP.