segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Friedrich von Logau: A boa dieta

Resultado de imagem para Poesia erótica em tradução de José Paulo Paes
____________________
[Traduzido por José Paulo Paes]

Carlota dissera ao seu doutor
Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,
Embora à noite a coisa fosse mais sadia.
Sendo ela prudente, resolveu
Fazê-lo duas vezes ao dia:
De manhã, por prazer
De noite, por dever.

Resultado de imagem para von logau friedrich
Friederich von Logau

Die gute diät

Charlotte hatte ihrem Arzt gesagt, 
dass ihr das Liebeswerk des Morgens sehr behagt, 
allein gesünder sei's, des Abends sich zu pflegen. 
Nun will sie aber mit Bedacht 
es täglich zweimal tun, 
des Morgens, weil's Vergnügen macht, 
des Abends der Gesundheit wegen.

____________________
Poesia Erótica em tradução (vários autores) Seleção, Introdução, Tradução e Notas de José Paulo Paes, 1990, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich von Logau (1604 1655), nascido em Nimptsch/Schlesien (atual Niemcza, Polônia), fez seus estudos ginasianos em Brieg, Polônia, e cursou Direito na Universidade de Altdorf, região da Baviera alemã; foi um poeta do período barroco da literatura alemã, também citado, em duas coleções, pelo pseudônimo ‘Salomon von Golaw’; nos minitraços biobiliográficos desta Poesia Erótica, José Paulo Paes, escreve que o poeta “dedicou-se principalmente ao epigrama, que cultivou em termos de um moralismo que antecipa o do racionalismo francês do século XVIII. Em seus epigramas, Von Logau criticou sobretudo  o cosmopolitismo dos costumes, a intolerância religiosa e os desregramentos eróticos. ‘A boa dieta’ foi vertida do original alemão que consta em Rise nacht Cythera: Erotische Texte aus vielen Jahrhundert, antologia organizada por Ludwig von Brunn e prefaciada por Franz Blei (Hamburgo, Gala, s.d.)

domingo, 30 de outubro de 2016

José Oiticica: Tenho um segredo n'alma e um mistério na vida, . . . [tradução do 'Soneto de Arvers'] *

____________________
Tenho um segredo na alma e um mistério na vida,
Este infinito amor nascido sem querer.
Ela nunca entreviu esta febre contida
Pois, sendo o mal sem cura, o melhor é esconder.

Ai! Passarei, despercebido em minha lida,
Sempre a seu lado e sempre só, a padecer,
Recalcando, até o fim, esta paixão proibida
Nada ousando implorar, sem dela nada obter.

Ela, entretanto, absorta, irá no seu caminho
Sem ouvir murmurar, em derredor, baixinho
Este arrulho de amor que, ansiante, a seguirá;

Fiel ao rude dever, erguendo a fronte bela,
Dirá, depois de ler meus versos cheios dela,
“Que mulher será essa” e não compreenderá.

José Oiticica

Sonnet


Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour eternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le traire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour élevé sous ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
"Quelle est donc cette femme?" et ne comprendra pas

Félix Arvers


* Nota de Mello Nóbrega: (Texto comunicado pelo Autor, em carta de 5 de junho de 1954, como definitivo. Variantes desta tradução podem ser lidas na coletânea de sonetos organizada por Amélia de Sampaia Arruda, 1946; e em Studia, Rio de Janeiro, ano II, nº 2, dezembro de 1951.)
____________________
O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882  1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió  AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os periódicos Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa e colaborou com a imprensa operária libertária através dos jornais A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode Ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

sábado, 29 de outubro de 2016

Félix Arvers: Tenho n'alma um segredo e um mistério na vida . . . [soneto — tradução de Gondin da Fonseca]

Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte: Ed. Bilíngue
____________________
[traduzido por Gondin da Fonseca]

Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida:
e este amor imortal gerado num momento;
sufoco-o, pois não espera alívio o meu tormento
— e não vê, quem o causa, a minha alma dorida!

Por ela,  ai! — passarei, sombra despercebida,
sempre a seu lado e sempre só, e em desalento!
E hei de findar, morrer neste martírio lento,
sem pedir, sem ousar, sem uma graça obtida.

Embora doce e terna, essa que me alanceia
irá continuando o seu caminho, alheia
a este amor que em murmúrio a segue onde ela vá.

Presa ao dever, tranqüila, honestamente bela,
talvez pergunte, ao ler versos tão cheios dela:
"que mulher será esta?" 
— e não compreenderá.

Resultado de imagem para félix arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère;
Un amour éternel en un moment conçu:
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tender.
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
O Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte edição bilíngüe (diversos autores), tradução de Gondin da Fonseca, sem data, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806  1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, que mulher será esta?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ivo Barroso: Os Poetas de Setenta Anos

Resultado de imagem para ivo barroso a caça virtual
____________________
Ao Sr. A. Rimbaud

E o Velho, então, fechando o livro do dever,
Exausto e satisfeito ia dormir, sem ver
Que à força de se impor prorrogações horárias
De trabalho, arriscava as frágeis coronárias.

O dia inteiro esteve a traduzir-te; faz-se
Incansável; no entanto, a azulidez da face
Deixa ver claramente acres hipocondrias!
Em meio ao corredor, seguro às esquadrias
Da porta, já sentiu tonteiras, quase a perda
Do equilíbrio, e essa mosca em sua vista esquerda.
A noite no escritório é sempre igual: um foco
De luz dicróica sobre o micro, o mouse, um bloco
De anotações e a tela acesa a piscar… Tarde,
Extenuado, a zumbir o ouvido, a vista que arde,
Antes de se deitar, contudo se demora
No banheiro, onde fica a ler por mais uma hora.

Quando, em plena manhã, na varanda que esplende
Ao sol, por um momento em seu sofá se estende
Olhando para a verde aba das altas palmas,
Tentando refrescar a mente das incalmas
Preocupações da noite, o drama recomeça.

Coitado! Ergue-se e vai correndo a toda pressa
Para o computador, achando que encontrara
A rima que buscou o dia inteiro, a rara,
E se acaso, afinal, a solução lhe brota,
Põe-se a falar sozinho e a rir como um idiota!
Já ninguém o visita: os amigos só pelo
Telefone, receando acaso interrompê-lo,
Chamam pela mulher; perguntam pelo “ausente”;
Ela diz que vai bem, que está dormindo — e mente!

Aos setenta sonhava imprimir em off set
Os versos que escreveste em teu caderno, aos sete,
Cheios de rios, sóis, savanas! — Recorria
A todas edições anotadas que havia
Bem como a traduções inglesas, italianas.
Quando, avançada a noite, exausta das poltronas
— Às duas da manhã — a mulher reclamava
Que assim era demais, ele ainda teimava
Em ficar mais um pouco olhando para a tela
Do micro, a salvar tudo e a sair, enquanto ela
Cansada de esperar, apaga a luz do quarto.
— E o pobre, sem saber que escapara do enfarto,
Dormia com teu livro aberto sobre o peito.

Temia essas manhãs de domingo, o suspeito
Passeio pela praia, o olhar discricionário,
Enquanto abandonava o Livro e o dicionário,
Embora em sua mente, ao caminhar, os visse.
Já não amava o mar, achava uma tolice
A exposição ao sol, aqueles corpos nus
Banhando-se na densa e xaroposa luz
De um êxtase vital que já não compreendia.
— Amava a noite que trocara pelo dia,
As vigílias sem fim, os encontros furtivos
De palavras que não se encontram nos arquivos!

E como preferisse as coisas mais herméticas
Buscando penetrar as alquimias poéticas
Dos versos em que os sons têm cores de aquarelas,
Metia-se no quarto e fechava as janelas
E assim, nesse escafandro em fundas culminâncias,
Via os peixes azuis das rimas e assonâncias,
Das métricas sem par, dos ritmos em conflito!
De volta do mergulho, entre alumbrado e aflito,
Um momento se punha a descansar na cama
De lona, a pressentir longinquamente a fama.


26 de maio de 1991

Resultado de imagem para ivo barroso
____________________
A caça virtual e outros poemas, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso, mineiro de Ervália, nascido em 1929, já traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T.S. Eliot, Ítalo Calvino, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, 2000) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres, Estocolmo e de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; em Lisboa, licenciado do BB, foi redator da revista Seleções do Reader’s Digest.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Bastos Tigre: Guardo um segredo n'alma e um mistério na vida, . . . [soneto]

____________________
Guardo um segredo n’alma e um mistério na vida,
Imorredouro amor que irrompeu de momento,
Se o mal é sem remédio, a queixa é descabida
E a que me fez o mal, nunca ouviu meu lamento.

Por ela já passei — sombra despercebida,
E ao meu lado a senti, no meu isolamento!
Ao termo chegarei dessa terrena lida,
E não ouso pedir, e receber não tento.

Quanto a ela, apesar da doçura e carinho
Com quem Deus a dotou, seguirá seu caminho,
Sem ouvir que a acompanha um murmúrio de amor...

E, fiel ao seu dever que austeramente zela,
Ela dirá, lendo os meus versos plenos dela:
 “O soneto de Arvers tem mais um tradutor!”

(Poesias Humorísticas, Rio de Janeiro, 1933.)

____________________
O Soneto de Arvers  Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bastos Tigre (1882  1957), pernambucano de Recife, foi poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Félix Arvers: Minha alma tem segredo e esta vida, um mistério, . . . [soneto — tradução de José Lino Grunewald}

____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]

Minha alma tem segredo e esta vida, um mistério,
Um sempre eterno amor num momento nascido;
Também devo calar o mal que é deletério,
E aquela que assim fez jamais teve-o sabido.

Ai! por ela eu passei, perto, despercebido
Incessante a seu lado e, no entanto, funéreo;
E teria ido ao fim, até o cemitério,
Nada pedindo, nada havendo recebido.

Já que Deus a fez boa e terna, vai seguir
A trilha, distraída e sem poder ouvir
O murmúrio de amor por sobre seu andar;

Ao austero dever que piamente zela,
Dirá, lendo estes versos, eles plenos dela,
“Quem será essa mulher?” e não vai desvendar.

Resultado de imagem para félix arvers
Félix Arvers

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour éternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire;
et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre
n’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour elevé sur ses pas;

à l’autère devoir pieusement fidèle,
elle dirá, lisant ces vers tout remplis d’elle,
“Quelle est donc cette femme?” et ne comprendra pas.
____________________
Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Aléxis-Félix Arvers (1806  1850), francês e parisiense, estudou Direito, foi funcionário de cartório e perseguiu o desejo de ser poeta e escritor; fez sucesso com uma peça teatral, uma comédia que caiu no esquecimento, e levou uma vida de dandy por Paris; um seu poema, conhecido como ‘Soneto de Arvers’ e aqui transcrito, despertou grande polêmica nos meios literários à época, com todos curiosos em descobrir quem teria sido sua musa inspiradora, ‘Quelle est donc cette femme?’, ‘Quem será essa mulher?’; o ‘Soneto de Arvers’ foi amplamente traduzido para os mais diversos idiomas, inclusive para o esperanto; em língua portuguesa contam-se em dezenas os tradutores, entre os quais Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, José Oiticica, Gondim da Fonseca, J. G. de Araújo Jorge, José Lino Grünewald, Lúcio de Mendonça, Benedicto Lopes, Bastos Tigre, além de ter inspirado outras criações em resposta, ou citando o soneto famoso; Félix Arvers escreveu e publicou Minhas horas perdidas (Mes heures perdues, poesias, 1833), com o referido soneto incluso.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

D. H. Lawrence: Piano

Resultado de imagem para Alguma Poesia — D. H. Lawrence, Seleção, Tradução e Introdução de Aíla de Oliveira Gomes, edição bilíngue,
____________________
[traduzido por Aíla de Oliveira Gomes]

Cai a tarde e uma mulher canta para mim ternamente
E eu vejo, escorregando pelo cenário dos anos,
Um menino no chão, junto ao piano, onde as cordas
Ressoam retumbando; ele calcando os pés da mãe
Que toca e canta sorridente.

Sem que eu queira, o domínio da canção aliciante
Faz-me recuar; o coração soluça, quer voltar
Às velhas tardes de domingo de inverno no lar
E aos hinos cadenciados pelo martelar do piano,
Em nossa sala aconchegante.

Inútil que a cantora agora aumente o seu ardor
Ao appassionato do longo, negro piano. Tomado
Do encanto da minha infância, foi-se o viril vigor
Água abaixo da lembrança, e eu choro uma criança
Com saudade do meu passado.

Resultado de imagem para D. H. Lawrence
D. H. Lawrence

Piano

Softly, in the dusk, a woman is singing to me;
Taking me back down the vista of years, till I see
A child sitting under the piano, in the boom of the tingling strings
And pressing the small, poised feet of a mother who smiles as she sings.

In spite of myself, the insidious mastery of song
Betrays me back, till the heart of me weeps to belong
To the old Sunday evenings at home, with winter out-side
And hymns in the cosy parlour, the tinkling piano our guide.

So now it is vain for the singer to burst into clamour
With the great black piano appassionato.
The glamour
Of childish days is upon me, my manhood is cast
Down in the flood of remembrance, I weep like a child for the past.

1918
____________________
Alguma Poesia D. H. Lawrence Seleção, Tradução e Introdução de Aíla de Oliveira Gomes, edição bilíngue, 1991, T. A. Queiroz Editor, São Paulo — SP; D. H. Lawrence ou David Herbert Lawrence (1885 1930), inglês nascido em Nottingham Reino Unido, foi professor primário, pintor, escritor ficcionista, ensaísta e poeta, com trânsito em quase todos os gêneros literários (romances, poemas, novelas, contos, peças de teatro, livros de viagens, traduções, livros sobre arte, crítica literária e cartas pessoais); escreveu e publicou O pavão branco (The White Peacock, romance, 1911), Filhos e amantes (romance, 1913), The Poems and others (poesia, 1913), The Widowing of Mrs. Holroyd (peça teatral, 1914), The Prussian Officer and Other Stories (contos, 1914), Amores (poesia, 1916), Look! We have come through! (poesia, 1917), New Poems (1918), Mulheres apaixonadas (Women in Love, romance, 1920), Touch and Go (peça teatral, 1920), Movements in European History (não-ficção, 1921), Sea and Sardinia (relato de viagem, 1921), Tortoises (poesia, 1921), England, My England and Other Stories (contos, 1922), Canguru (Kangoroo, romance, 1923), Studies en Classic American Literature (não-ficção, 1923), O raposo (The Fox, The Captain’s Doll, The Ladybird, 1923), Reflections on the Death of a Porcupine and other essays (ensaios, 1925), A serpente emplumada (The Plummed Serpent, romance, 1926), David (peça teatral, 1926), O amante de Lady Chatterley (Lady Chatterley’s Lover, romance, 1928), A virgem e o cigano (The Virgin and the Gipsy and Other Stories, contos, 1930), Last Poems (1932), The Married Man (peça teatral, 1940), além de diversos volumes de cartas e outros; traduziu Lev Shestov, Ivan Alekseyevich Bunin, Giovanni Verga e Antonio Francesco Grazzini.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Jorge de Lima: O Acendedor de Lampiões *

____________________
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

Resultado de imagem para jorge de lima

Nota de Luiz Santa Cruz: Atendendo ao didático desta antologia, incluímos o soneto acima, da fase juvenil e neoparnasiana de Jorge de Lima. 'O Acendedor de Lampiões' fez parte dos XIV Alexandrinos, livro de poesias publicado em 1914, no Rio de Janeiro, pelas Artes Gráficas.
____________________
Jorge de Lima, Poesia  Coleção Nossos Clássicos N º 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, professor de literatura, tradutor e pintor; bibliografia: XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas  (1927), Novos Poemas (1929), O Acendedor de Lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), A Mulher Obscura (romance, 1939), Anunciação e Encontro de Mira-Coeli (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.