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segunda-feira, 2 de março de 2015

Mário Faustino: Vida toda linguagem

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Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará  oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem 
                                       como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
                      amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva,
tenta fazê-la eterna 
 como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
                                  língua
                                            eterna.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Mário Faustino dos Santos e Silva (1930 1962), piauiense de Teresina, foi jornalista, tradutor, crítico literário e poeta; inicialmente colaborou como cronista no jornal A Província do Pará e notabilizou-se como crítico escrevendo no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil; traduziu Ezra Pound, escreveu O Homem e sua Hora (poesias, 1955) e deixou-nos poemas esparsos publicados em jornais e revistas; foi tradutor da ONU Organização das Nações Unidas, entre 1959 e 1960; morreu em desastre aéreo.