____________________
Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez
verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente
partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo
sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará — oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte
adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo,
verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes
imagens
que lhes estrelam turvas
trajetórias
Vida toda linguagem —
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva,
tenta fazê-la eterna — como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva,
tenta fazê-la eterna — como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

____________________
Antologia da Poesia Brasileira, por José
Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem
data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Mário Faustino dos
Santos e Silva (1930 — 1962), piauiense de Teresina,
foi jornalista, tradutor, crítico literário e poeta; inicialmente colaborou como
cronista no jornal A Província do Pará e notabilizou-se como crítico escrevendo
no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil; traduziu Ezra Pound, escreveu O
Homem e sua Hora (poesias, 1955) e deixou-nos poemas esparsos
publicados em jornais e revistas; foi tradutor da ONU —
Organização das Nações Unidas, entre 1959 e 1960; morreu em desastre aéreo.