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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Jean-Antoine de Baïf: Amor Passarinho

 
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[traduzido por Mário Laranjeira]

Um menino a caçar passarinhos, um dia.
Espreitando num bosque, em um ramo avistou
De azevinho sentado Amor; e como o via,
Prazer enorme de seu peito se apossou.
O pássaro era grande; o visgo ele já arruma,
Espera, gira à volta, e, espreitando sua presa,
Tenta não espantá-la assim que ela se apruma;
Ele por fim se cansa ao ver a vagareza
Da caçada sem fim; chuta sua armadilha
E vai na direção de um velho que na trilha
Do arado segue, e lhe ensinara no passado
Os truques a aplicar para uma boa caça.
O menino lhe conta sua grande desgraça,
Mostra-lhe Amor no galho. O velho diz, pausado:
“Deixa, deixa, rapaz, não deves continuar
A busca ineficaz. Desiste de caçar
Esse tal passarinho: essa presa é ruim,
Se a podes evitar, estarás bem assim;
Mas se idade de homem atinges porventura,
O pássaro que foge e que te causa agrura
Por ser demais arisco, um dia se arremessa,
Vem de improviso e pousa sobre tua cabeça.

Jean-Antoine de Baïf

Amour Oiseau

Un enfant oiseleur jadis en un bocage
Giboyant aux oiseaux, vit dessus le branchage
D’un houx Amour assis; et l’ayant aperçu,
Il a dedans son coeur un grand plaisir conçu.
Car l'oiseau semblait grand; ses gluaux il apprête,
L'attend et le chevale, et guettant à sa quête
Tâche de l'assurer ainsi qu'il sautelait;
Enfin il s'ennuya de qui si mal allait
Toute sa chasse vaine; et ses gluaux il rue,
Et va vers un vieillard étant à la charrue,
Qui lui avait appris le métier d'oiseleur,
Se plaint, et parle à lui: il conte son malheur,
Lui montre Amour branché. Le vieillard lui va dire:
«Laisse, laisse, garçon, cesse de pourchasser
Après un tel oiseau: telle proie est mauvaise,
Tant que tu la lairras tu seras à ton aise,
Mais si à l'âge d'homme une fois tu atteins,
Cet oiseau qui te fuit et de qui tu te plains,
Comme trop sautelant, de ton motif s'apprête,
Venant à l'impromptu, se planter sur ta tête».
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Poetas franceses da Renascença [edição bilíngue], Seleção, Apresentação e Tradução de Mário Laranjeira, 1ª edição, agosto de 2004, Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Jean-Antoine de Baïf (1532 1589), nasceu em Veneza Itália, “levado para a França ainda bebê, recebeu excelente educação”, foi poeta, músico, dramaturgo, tradutor, ensaísta e fundador de companhia literária; com participação ativa e presença marcante na Plêiade, movimento poético da Renascença, “introduziu na literatura francesa novidades prosódicas, novos ritmos e medidas, tentando desvencilhar-se da tradição da métrica e da rima”; filho de mãe italiana e pai francês o também poeta Lazare de Baïf, embaixador do rei da França Francisco I , Jean-Antoine, “desde que começou a falar, aprendeu grego e latim”, cursou o Collège de Coqueret Paris, ali tendo sido colega de Pierre Ronsard, poeta e também participante do grupo literário fundador da Plêiade; suas obras: Amores de Melina (Amours de Méline, 1552), Amores de Francina (Les Amours de Francine, 1555), O Meteoro (Les Météores, 1567), Saltério A, manuscrito (P. Saltier A, manuscrit, 1569), Obras poéticas de Baïf (Oeuvres de poésies de Baïf, 1572), Saltério B, manuscrito (P. Saltier B, manuscrit, 1573), Obras em rima (Oeuvres en rime, 15721573), Passatempos (Passe-Temps, 1573), Os Mimos, ensinamentos e provérbios (Les Mimes, enseignements et proverbes, 1581) ...; no teatro, traduziu Terêncio (O Eunuco), Plauto ([peça cômica, O Valente] Miles gloriosus), Sófocles (Antígona) e traduziu/reescreveu Ovídio (As Metamorfoses); de sua biografia, consta ter sido o mais erudito e criativo dentre os fundadores [sete] e participantes do grupo literário da Plêiade; teve textos musicados.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Jean-Antoine de Baïf: Quando um dia do inverno a enfadonha friúra . . . [soneto]

 
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[traduzido por Mário Laranjeira]

Quando um dia do inverno a enfadonha friúra
Amaina e dá lugar à estação graciosa,
Quando tudo sorri e a campina gloriosa
De belas flores pinta a ridente verdura;

Junto ao Clain tortuoso, e sob a rocha escura,
Doce sono fechou-me os olhos em doce hora.
Eis que, no meu dormir, viva luz vem agora
As sombras inflamar de claridade pura,

Eis que vieram dos céus, sob a escolta de amor,
Nove ninfas iguais, que gêmeas se diria,
E fizeram um arco ali ao meu redor;

Uma delas me dá de murta uma grinalda
E diz: “Novas canções de amor canta à porfia,
Do nosso santo monte hás de subir a fralda.”

[Os Amores de Francina — 1555]


Un jour, quand de l'hiver l'ennuyeuse froidure . . .

Un jour, quand de l’hiver l’ennuyeuse froidure
S’attiédit, faisant place au printemps gracieux,
Lorsque tout rit aux champs et que les prés joyeux
Peignent de belles fleurs leur riante verdure;

Près du Clain tortueux, sous une roche obscure,
Un doux somme ferma d’un doux lien mes yeux
Voici, en mon dormant, une clarté des cieux
Venir l’ombre enflammer d’une lumière pure,

Voici venir des cieux, sous l’escorte d’amour,
Neuf nymphes qu’on eût dit être toutes jumelles;
En rond auprès de moi elles firent un tour;

Quand l’une me tendant de myrthe un vert chapeau,
Me dit: «Chante d’amour d’autres chansons nouvelles,
Et tu pourras monter à notre saint coupeau.»

[Les Amours de Francine — 1555]
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Poetas franceses da Renascença [edição bilíngue], Seleção, Apresentação e Tradução de Mário Laranjeira, 1ª edição, agosto de 2004, Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Jean-Antoine de Baïf (1532 1589), nasceu em Veneza Itália, “levado para a França ainda bebê, recebeu excelente educação”, foi poeta, músico, dramaturgo, tradutor, ensaísta e fundador de companhia literária; com participação ativa e presença marcante na Plêiade, movimento poético da Renascença, “introduziu na literatura francesa novidades prosódicas, novos ritmos e medidas, tentando desvencilhar-se da tradição da métrica e da rima”; filho de mãe italiana e pai francês o também poeta Lazare de Baïf, embaixador do rei da França Francisco I , Jean-Antoine, “desde que começou a falar, aprendeu grego e latim”, cursou o Collège de Coqueret Paris, ali tendo sido colega de Pierre Ronsard, poeta e também participante do grupo literário fundador da Plêiade; suas obras: Amores de Melina (Amours de Méline, 1552), Amores de Francina (Les Amours de Francine, 1555), O Meteoro (Les Météores, 1567), Saltério A, manuscrito (P. Saltier A, manuscrit, 1569), Obras poéticas de Baïf (Oeuvres de poésies de Baïf, 1572), Saltério B, manuscrito (P. Saltier B, manuscrit, 1573), Obras em rima (Oeuvres en rime, 15721573), Passatempos (Passe-Temps, 1573), Os Mimos, ensinamentos e provérbios (Les Mimes, enseignements et proverbes, 1581) ...; no teatro, traduziu Terêncio (O Eunuco), Plauto ([peça cômica, O Valente] Miles gloriosus), Sófocles (Antígona) e traduziu/reescreveu Ovídio (As Metamorfoses); de sua biografia, consta ter sido o mais erudito e criativo dentre os fundadores [sete] e participantes do grupo literário da Plêiade; teve textos musicados.