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sexta-feira, 20 de março de 2026

Octavio Paz: Imprólogo

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[traduzido por Nelson Ascher]

Pediram-me um prólogo.
Curto, disseram-me, poucas palavras
mas que abram lonjuras.
Mais perspectivas que cenografia.
No fundo, entre as contumazes confusões
brenhas conceituais, paradoxos, espinhos ,
ao pé de um penedo tatuado
pela paciência das estações:
Vasko Popa,
                    caçador de reflexos errantes.
Sento-me e começo minha prosa
uma, duas, três, quatro, cem vezes.
Entre minha cabeça e a pena
entre a pena e esta página,
interpõe-se sempre a mesma cena:
um entardecer de pele translúcida
e sob o penedo que rasga o vento:
Vasko,
          O sol poente baila
sobre a mira de sua infalível escopeta.
Não há ninguém a vista
mas Vasko empunha a arma e dispara.
Cada disparo inventa um alvo,
ideias que, apenas tocadas,
voam como exclamações.
Anoto para meu prólogo:
a escopeta de Vasko não mata,
é doadora de imagens.
E enquanto escrevo estas palavras
um fumo acre cobre minha escritura.
Há uma dança de chispas entre as letras,
uma fuga de vogais em fogo,
um confuso rumor de consoantes
correndo sobre cinzas calcinadas:
arde o extremo norte da página!
Bato em retirada para o sul.
Porém ali, nas margens brancas,
chove, interminavelmente chove.
Céu hidrópico, trovões, socos.
Surdo rebate:
                     sobre o tambor terrestre,
rachado pelo raio, baila o aguaceiro.
Isto que escrevo já é um pântano.
De pronto, um sol violento rompe entre nuvens.
Súbito escampado:
                              uma planície hirsuta,
três penhascos imberbes, marismas,
círculo da malária:
lianas, fantasmas, febres, puas,
uma vegetação rancorosa e armada
em marcha para o assalto da página.
Morte pela água ou morte pelo fogo:
a prosa ou se queima ou se afoga.
Desisto.
             Não um prólogo,
mereces um poema épico,
um romance de aventuras seriado.
Digam o que quiserem os críticos
não te pareces com Kafka o dispéptico
nem com o anêmico Becket.
Vens do poema de Ariosto,
sais de um conto grotesco de Ramón.
És uma estória contada por uma avó,
uma inscrição sobre uma pedra tombada,
um desenho e um nome sobre uma parede.
És o lobo que guerreou mil anos
e leva agora a lua pela mão
pelo corredor sem fim do inverno
até a praça de maio:
                                 já floresceu a pereira
e à sua sombra os homens bebem em roda
um licor de sol destilado.
O vento detém-se para ouvi-los
e repete esse som  pelas colinas.
No entretanto fugiste com a lua.
És lobo e és menino e tens cem anos.
Teu riso celebra o mundo e diz Sim
a tudo que nasce, cresce e morre.
Teu riso reconforta os mortos.
És jardineiro e cortas a flor de névoa
que nasce na memória da velha
e a convertes no cravo de chamas
que a menina pôs no seio.
És minerador descestes até o fundo,
dizes e teu sorriso torna pensativa
a veemente primavera.
És mecânico eletricista
e tanto iluminas uma consciência
quanto aqueces os ossos do inverno.
És ceramista e és carpinteiro,
tuas vasilhas cantam e dão-nos de beber,
tuas escadas servem para subir e descer
no interior de nós mesmos,
tuas mesas, cadeiras, camas
para conversar, comer, descansar,
para viajar sem nos movermos,
para amar e morrer integramente.
No meio desta página me planto
e digo: Vasko Popa.
Responde-me um gêiser de sóis.

(Da edição mexicana das poesias de Vasko Popa [POPA, Vasko. Poesia
imprologo” de Octavio Paz. Traducción de Juan Octavio Prenz, México,
Fondo de Cultura Económica, 1985; POPA, Vasko, Collected Poems
(1943-1976)Translated by Ann Pennington, wich na introduction by
 Ted Huges, New York, Persia Books, 2nd printing, 1979.])

Octavio Paz

Imprólogo

Me han pedido un prólogo.
Corto, me dijeron, pocas palabras
pero que abran lejanías.
Una perspectiva más que una escenografía.
Al fondo, entre las contumaces confusiones
breñas conceptuales, paradojas, espinas ,
al pie de un farallón tatuado
por la paciencia de las estaciones:
Vasko Popa,
                    cazador de reflejos errantes.
Me siento y comienzo mi prosa
una, dos, tres, cuatro, cien veces.
Entre mi cabeza y la pluma,
entre la pluma y esta página,
se interpone siempre la misma escena:
un atardecer de piel translúcida
y bajo el farallón que rompe el viento:
Vasko,
          El sol poniente baila
sobre la mira de su infalible escopeta.
No hay nadie a la vista
pero Vasko empuña el arma y dispara.
Cada disparo inventa un blanco,
ideas que, apenas tocadas,
vuelan como exclamaciones.
Anoto para mi prólogo:
la escopeta de Vasko no mata,
es dadora de imágenes.
Y mientras escribo estas palabras
un humo acre cubre mi escritura.
Hay una danza de chispas entre las letras,
una fuga de vocales en fuego,
un confuso rumor de consonantes
corriendo sobre cenizas calcinadas,
¡arde el extremo norte de la página!
Me repliego hacia el sur.
Pero allá, en los márgenes blancos,
llueve, interminablemente llueve.
Cielo hidrópico, truenos y puñetazos.
Sordo redoble:
                       sobre el tambor terrestre,
rajado por el rayo, baila el chubasco.
Esto que escribo ya es un pantano.
De pronto, un sol violento rompe entre nubes.
Súbito escampado:
                              un llano hirsuto,
tres peñascos lampiños, marismas,
circo de la malaria:
lianas, fantasmas, fiebres, púas,
una vegetación rencorosa y armada
en marcha el asalto de la página.
Muerte por agua o muerte por llama:
la prosa o se quema o se ahoga.
Desisto.
             No un prólogo,
tú mereces un poema épico,
una novela de aventuras por entregas.
Digan lo que digan los críticos
no te pareces a Kafka el dispéptico
ni el anémico Becket.
Vienes del poema de Ariosto,
sales de un cuento grotesco de Ramón.
Eres una conseja contada por una abuela,
una inscripción sobre una piedra caída,
un dibujo y un nombre sobre una pared.
Eres el lobo que guerreó mil años
y ahora lleva a la luna de la mano
por el corredor sin fin del invierno
hasta la plaza de mayo:
                                      ya floreció el peral
y a su sombra los hombres beben en rueda
un licor de sol destilado.
El viento se detiene para oírlos
y repite esse son por las colinas.
Mientras tanto te has fugado con la luna.
Eres lobo y eres niño y tienes cien años.
Tu risa celebra al mundo y dice Sí
a todo lo que nace, crece y muere.
Tu riso reconforta a los muertos.
Eres jardinero y cortas la flor de niebla
que nace en la memoria de la vieja
y la conviertes en el clavel de llamas
que se ha puesto en el seno la muchacha.
Eres minero has bajado allá abajo,
dices y tu sorrisa pone pensativa
a la vehemente primavera.
Eres mecánico electricista
y lo mismo iluminas una conciencia
que calientas los huesos del invierno.
Eres alfarero y eres capintero,
tus vasijas cantan y nos dan de beber,
tus escaleras sirven para subir y bajar
en el interior de nosotros mismos,
tus mesas, sillas, camas
para conversar, comer, descansar,
para viajar sin movermos,
para amar y morir con entereza.
En mitad de esta página me planto
y digo: Vasko Popa.
Me responde un géiser de soles.

(México, 17 de março de 1985)
____________________
Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Octavio Paz Lozano (1914 1998), mexicano da Cidade do México, foi escritor, poeta, diplomata, ensaísta e tradutor; teve seus primeiros poemas publicados em 1931, na revista Barandal, dirigiu as revistas Taller (1939) e Hijo pródigo (1943); suas obras: em poesia, Luna silvestre (1933), ¡No pasarán! (1936), Bajo tu clara sombra y otros poemas sobre España (1937), Raíz del hombre (1937), Entre la piedra y la flor (1941), Semillas para un himno (1954), Piedra de sol (1957), Viento entero (1965), Ladera Este (1968), Topoemas (1971), El Mono gramático (prosa poética, 1974), Poemas, 1935-1975 (1979) ..., ensaios: El labirinto de la soledad: Vida y pensamento de Mexico (1950), ¿Águila o sol? (libro de prosa de influencia surrealista, 1951), El arco y la lira (1956), Cuadrivio (1965), El signo y el garabato (1973), El ogro filantrópico: historia y política, 1971-1978 (1979), Primeras Letras, 1931-1943 (antología de sus prosas de juventud, 1988) ...; traduziu Sendas de Oku (de Matsuo Bashô, em colaboração com Eikichi Hayashiya, 1957), Antología (de Fernando Pessoa, 1962) e Versiones y diversiones (coleção de traduções de várias autorias para o espanhol, 1974), teve obras traduzidas para os idiomas inglês e francês; recebeu premiações por suas obras, entre as quais Prêmio Jerusalém (1977), Prêmio Miguel de Cervantes (1981), Prêmio Internacional Nedustadt de Literatura (1982), Prêmio Nobel de Literatura (1990) ... e outras honrarias.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Vasko Popa: Khílandar

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Negra mãe Trímana

Estende-me uma palma na mão
Para que me banhe no oceano mágico
Estende-me outra palma da mão
Para que me farte da doçura das pedras

E estende-me a terceira palma
Para que pernoite no ninho dos versos

Egresso do caminho
Poeirento e faminto
E ávido de outro mundo

Estende-me três pequenas ternuras
Antes que mil névoas caiam sobre os meus olhos
E minha cabeça role

Antes que te cortem as três mãos

Negra mãe Trímana

(A Terra Ereta — 1972)

Vasko Popa

ХИЛАНДАР

Црна мајко Тројеручице

Пружи ми један длан
Да се у чаробном мору окупам
Пружи ми други длан
Да се слатког наједем камења

И трећи длан ми пружи
Да у гнезду стихова преноћим

Приспео сам с пута
Прашњав и гладан
И жељан другачијег света

Пружи ми три мале нежности
Док ми не падне хиљаду магли на очи
И главу не изгубим

И док теби све три руке не одсеку
Црна мајко Тројеручице

([Усправна земља], Uspravna Zemlja — 1972)
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земљаUspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Vasko Popa: Não houvesse teus olhos

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Não houvesse teus olhos
Não haveria céu
Em nossa casa cega

Não houvesse teu sorriso
As paredes jamais
Sumiriam dos olhos

Não houvesse teus rouxinóis
Os salgueiros jamais
Transporiam o umbral dócil

Não houvesse tuas mãos
O sol jamais
Pernoitaria em nosso sonho

Vasko Popa

Očiju tvojih da nije

Očiju tvojih da nije
Ne bilo neba
U slepom našem stanu

Smeha tvoga da nema
Zidovi ne bi nikad
Iz očiju nestajali

Slavuja tvojih da nije
Vrbe ne bi nikad
Nežne preko praga prešle

Ruku tvojih da nije
Sunce ne bi nikad
U snu našem prenoćilo
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia  suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca (Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta (Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Miroslav Antić: Marcha fúnebre dos clowns [trechos]

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

[III]

Quando eu morrer,
tenho ao menos a certeza:
ninguém há de arrastar-se para cuspir-me na face.

Todos hão de tornar-se amigos de um[a] só vez
e buscarão ainda prestar-me uma homenagem qualquer.

Compreendo-vos perfeitamente:
as pessoas mortas não são malfeitores,
tampouco são nojentas,
ou assassinas.

A morte é absolvição.

A morte é a forma mais adequada de partir,
sem apertos de mão,
sem promessas,
em paz.

A morte é a invalidez para os heróis
de crânios cortados,
e a insônia das cinzas
em que as almas pedem ventos de gramados.

Com a partida lucra-se bastante:
emplacam o nome e sobrenome das pessoas
pelos cantos
em papéis finos,
e todos lêem o vosso nome,
lêem,
como se de uma só vez vos tornásseis exposição de relevo,
concerto
ou pré-estréia de teatro.

[VII]

Quando eu morrer,
sentirei apenas pelos pássaros,
porque o tempo todo fiquei sonhando verões,
e o resto todo não possuía para mim
sentido ou significação extraordinários.

E vós sorris
quando descerem o grande clown na sepultura
e seus mundos compreensíveis
cansados das anedotas da vida.

E que tudo passe sem rezas
e sem patriotismo.
Para as mulheres das ruas a roupa íntima
das vestimentas monásticas!

Não fui ícone,
nem comandante militar,
nem cidadão provincial
cujos filhos o reconhecimento educa.

Os circos
foram o meu amor mais oculto
e o meu patriotismo mais policromado.

E multipliquei-me
quando os outros por mim
e pelo futuro da humanidade caíam mortos.
e morria
quando as guerras vindas da treva
novamente ressuscitam enevoadas.

Miroslav Antić

Posmrtni marš klovnova

III

Kad umrem,
bar sam siguran:
niko se neće dovući da mi pljune u lice.

Svi ćete mi odjednom biti prijatelji,
i ko zna kakvo izmisliti priznanje.

Potpuno vas razumem:
mrtvi ljudi nisu zločinci,
nisu gadovi,
nisu ubice.

Smrt je pomilovanje.

Smrt je najpristojniji način da se ode
bez rukovanja,
bez obećanja,
na miru.

Smrt je invalidnima herojima
za odrezane lobanje,
i nesanica pepela
u kojoj duše trava vetrove ištu.

Odlaskom se znatno dobija:
plakatiraju čovekovo ime i prezime
po uglovima
na finijem papiru,
i svako vas čita,
čita,
kao da ste odjednom postali važna izložba,
koncert
ili premijera u pozorištu.

VII

Kad umrem,
samo će mi biti žao ptica,
jer sve vreme sam sanjao letove,
pa ono drugo za mene nije imalo
naročitog smisla i značenja.

A vi se nasmejte
kad spušte u raku velikog klovna
i njegove nerazumljive svetove,
umorne od životnog šegaćenja.

I neka sve prodje bez molitvi
i rodoljublja.
Uličarkama donji veš
od kaludjerskih riza!

Nisam bio ni ikona,
ni vojskovodja,
ni graždanin provincijski
kome bone decu vaspitavaju.

Cirkusi su bili
moja najmračnija ljubav
i moj najšareniji patriotizam,

i radjao sam se
kad su drugi za mene
i za budućnost čovečanstva ginuli,
a umro
kad ratovi iz mraka
ponovo potmulo vaskrsavaju.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca, São Paulo — SP; Miroslav Antić (1932 1986), sérvio de Mokrin, Kikinda, região de Vóivodina, Reino da Iugoslávia, cursou o ensino primário e o médio em sua cidade natal e em Pančevo, onde morou, estudou na Faculdade de Filosofia (Estudos Eslavos, Tcheco e Russo), em Belgrado, foi editor, poeta e, indo além da literatura, também lidou com pintura, jornalismo e cinema, atuando como diretor de longas-metragens e documentários e também como cenografista; escreveu seus primeiros versos aos dezesseis anos, os quais foram publicados na revista Mladost; trabalhou no jornal Pancevac, de Pancevo, foi editor dos jornais Ritam, Dnevnik (ambos de Belgrado), Mladog pokolenja (de Novi Sad) e dirigiu os filmes Areia Sagrada (Sveti pijesak, 1968), Café da Manhã com o Diabo (Doručak s đavlom, 1971), As Folhas são Largas (Shiroko je liješte, 1981), O Leão Terrível ...; suas obras literárias: publicou mais de 20 livros dentre os quais "Desculpado pela primavera" (Ispričano za proljeća, coletânea de poemas-canções, 1950), Blasfêmias da ternura (Psovke nježnosti, 1959), Concertos para 1001 tambores (Koncert za 1001 bubanj, 1974), O Livro Cosido (Sašava Knjiga, 1972), “esta última obra tem encantado crianças, adultos e velhos, de modo indistinto”; foi várias vezes premiado por seus textos, tendo sido eleito membro da Associação de Escritores da Sérvia; parte de seus filmes, especialmente o Café da Manhã com o Diabo, foi proibida pelo governo comunista da época e, na década de 90, foram encontrados, restaurados e tornados público; suas atividades no jornalismo lhe possibilitaram conhecer pessoas cultas e outras culturas, ao viajar por vários países; seus poemas-canções foram traduzidos para os idiomas russo, macedônio, albanês, inglês, turco, húngaro, eslovaco, tcheco, francês, romeno, polonês e esloveno; antes de adquirir fama como poeta, Miroslav Antić já havia sido ajudante de pedreiro, porteiro no cais, operário de cervejaria, marinheiro e trabalhara em teatro de fantoches, em serviços de encanamento e esgoto, em telhados, carpintaria e vários outros ofícios.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Vasko Popa: Porco

 
____________________
[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Só quando ouviu
A faca furiosa na garganta
A cortina vermelha
Explicou-lhe o jogo
E ele lamentou
Ter-se desprendido
Dos braços do lamaçal
E à noite do campo
Tão alegre ter corrido
Corrido para o portão amarelo

(Casca — 1953)

Vasko Popa

СВИЊА

Тек када је чула
Бесни нож у грлу
Црвена завеса
Објаснила јој игру
И било јој је жао
Што се истргла
Из наручја каљуге
И што је вечером с поља
Тако радосно јурила
Јурила капији жутој

([збирке Кора], Kora, 1953)
____________________
Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego ([Непочин поље], Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земља], Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Branko Miljković: Orfeu no subterrâneo

 
____________________
[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

M. P.

Não te voltas, não! Pois, atrás de ti imenso
mistério há. E alto gorjeia a passarada,
bem acima, enquanto maturesce o intenso
dolor no fruto, e cai a chuva envenenada.

Por astros tendo vagas em sonho. Penso,
único és a não vê-la. Segue a tua caminhada
ela fiel. Porém, quando cair seu denso
brilho sobre ti, nem que esteja ocultada,
acharás a entrada, com os dois cães nefandos.
Dorme, o tempo é mau. Eterno amaldiçoado,
Coração maldoso. E se os mortos em bandos
existem, vivo hão chamar-te, os vitandos.
É esse por detrás de quem o mundo foi criado,
como jura eterna, movimento inebriado.

Branko Miljković

Orfej u Podzemlju

M. P.

Ne osvrći se. Velika se tajna
iza tebe odigrava. Ptice gnjiju
visoko nad tvojom glavom dok beskrajna
patnja zri u plodu i otrovne kiše liju.

Zvezdama ranjen u snu lutaš. Sjajna
onda ide tvojim tragom, ald sviju
jedini je ne smeš videti. O sjaj
na tebe njen dok pada nek je i sakriju
ti ćeš naći ulaz dva mutna psa gde stoje.
Spavaj, zlu je vreme. Zauvek si proklet.
Zlo je u srcu. Mrtvi ako postoje
proglasiće te živim. Eto to je
taj iza čijih leđa nasta svet
ko večina zavera e tužan zaokret.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Branko Miljković (1933 1961), nascido em Nis, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta, ensaísta, resenhista e tradutor: ainda estudante, participou de um grupo literário neo-simbolista; fez contatos e estabeleceu relações de amizade com outros poetas (Vasko Popa entre os quais), recusou adesão e associação partidária, o que acabou resultando na não publicação de sua poesia; seus primeiros poemas denotavam a influência recebida dos simbolistas franceses Paul Valéry e Stéphane Mallarmé, e também do pensamento filosófico de Heráclito; por longos três anos seguidos ouviu nãos das redações de muitas revistas, em 1955 teve seus primeiros poemas publicados na Delo, “abrindo assim as portas de outras editoras e, a partir daí, ganhou as páginas de inúmeras revistas”; em 1956 foi publicada sua primeira coletânea de canções, Acordo-a em vão (Uzalud je budim), obra que obteve “sucesso de público e crítica”; depois vieram as coletâneas de poemas Sangue contra a morte (Smrću protiv smrti, com Blažom Šćepanovićem, 1959), Origem da esperança (Poreklo nade, 1960), O fogo e o nada (Vatra i ništa, 1960), Krv koja svetli (1961) ...; agraciado pela crítica literária e alçado ao topo da poesia sérvia, Branko Miljković foi laureado com o Prêmio Outubro, um dos mais prestigiados de sua época; sabe-se, por sua biografia, que o poeta, “frequentemente visto nas tabernas de Belgrado, onde levava uma vida boêmia e despreocupado, devido ao consumo constante de álcool mostrava seu lado agressivo quando bêbado, se envolvia constantemente em brigas que quase sempre perdia”, e cujo comportamento por várias vezes lhe trazia problemas com o regime [a polícia] de Tito; seus muitos amigos sempre o resgatavam de tais dificuldades; a tais amigos, o poeta chegou a jurar “que nunca mais escreveria”; Branko deixou Belgrado “no outono de 1960”, mudou-se para Zagreb, tornou-se editor do Literarne redakcije zagrebačkog radija (Editorial Literário Escritório da Rádio Zagreb), “provavelmente insatisfeito com sua vida”, continuou se entregando ao álcool e, “na noite entre 11 e 12 de fevereiro” [de 1961], numa floresta próxima à cidade, “segundo a versão oficial, o poeta sérvio suicidou-se”; as razões que levaram Branko a tomar tal atitude permanecem polêmicas, havendo quem, à época, suspeitasse de que o poeta fora morto pela polícia ou apoiadores do regime vigente.