terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Augusto dos Anjos: A Ideia

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De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!
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Eu, outras poesias, poemas esquecidos — Texto e Nota: Antônio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa — 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro  RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884  1914), paraibano de Sapé, formado em Direito pela Faculdade de Recife, professor, foi poeta e publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); postumamente, foi editado, na Paraíba Eu e Outras Poesias (1920), reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

Barão de Itararé: A Nosa Zubblemend (Parrong ta Idararré)


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Zubblemend to Alle...Manha — Ano VII  nº 17  Rio de Janeiro, 05/10/1935, p. 7

A chende deng gue esgrefê no líncua pracilerra 

Fui borgauso to priga tas pracilerres gom as borduqueis  gue a chende dinha gue barrá te faicê a zubblemende allemong. Sing, nadurralmende, as pracilerres bequei te faicê esgulhampasongs gom as borduqueis borgauso tos líncuas to elles, e nois, allemongs, nong sapia mais gome a chende dinha gue esgrefê, se bra pracilerra, se bra bordugueis!

Bra o noso fondade nois ia esgrefê somente bra allemong, gueng vae endentê? As pracilerres? Gwaal a pracilerra, na Pracil gue vai endentê o líncua allemong? Nois deng gue esgrefê bra pracilerra. Mais, se nois esgrefê  pracilerra, as bordugueis vong figá tamnades, dirrirrikes! Se a chende vae esgrefê bra o líncua bordugueis... Teus me lifra!!!... Neng está pong a chende fallá...

E foi borgause te esta parrulhe te pracilerres gom bordugueis, borgause te sapê gwaal o líncua  gue está tirreido, gue nois agapei gom a nosa andiga subblemende allemong no O MANHO.

Acora, felizmende, as rabais ta zenhor Gornel Padista chá fiz uma tegretto te rekulamendasong  to líncua pracilerra, e nong deng mais ninqueng gue vae fallá bordugueis! Neng mesma te garinhe te mong!...

E gome O MANHO está uma chornalsinhe esengsialmende pracilerra e nong atmite chende gue vae esgrefende bra líncuas esdrangcherres, neng bra pracilerra adrafesade neng misdurrade, nois veng nofamende bra o nosso andigo "frond". E se deng gwalgué sucheidinhe gue nong está gondende gom nois e gom as nosas ardickes, gue vae blandá padattes, bendiá magakes, bra a tiabo gue de garega bro elle!


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Zubblemend to Alle... Manha  Barão de Itararé, Introdução, Seleção, Notas e Estabelecimento de Texto de Carlos Eduardo Schmidt Capela e Ana Carina Baron Engerroff, Editora UFPR, 2006, Curitiba PR; Uruguaio ou gaúcho (há contestação!), Barão de Itararé e Fernando Apparicio Brinkerhoff Torelly (1895 1971), humorista, frasista, escritor, publicitário, jornalista, trocadilhista, editor... foram a mesma pessoa.

Barão de Itararé: Basarrinhe malgriade (Parrong ta Idarrarré)


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Zubblemend to Alle...Manha  Ano III  nº 16  Rio de Janeiro, 04/04/1931, p. 7


(tetigade bra Sua Eksellengsie
 a toktor Hubertus Knipping)

Basarrinhe, basarrinhe,
Bresso no caiolinhe,
Borguê du nong gué gandá?
 Eu stá drisde, eu nong ganda
Engwando du nong manda
Me soldá!...

Basarrinhe, no briçong
Du deng acua, du deng bong,
Du deng gama bra naná...
 Bra guê zerfe bong e acua,
Se eu deng ung crrande mácua
Gue nong me techa gandá?

Basarrinhe, se eu te solda
E se du bra a madde folda,
As piches te vong  gomê...
 Nong fais maal, bra menos lá
A chende bode afoá
e ninqueng nos vae brentê.

Na odre tia, peng zêtinhe,
Eu apriu a caiolinhe
E soldô a bricionerra.
Elle nong guiz esberrá,
Afoei e fui bossá
Brasima te uma manquerra.

Acora, dudes manhongs,
Eu oufe ungs malgriasongs
Lá na funda ta guindall!...
Está elle gue veng gandá
Só bra me ingommotá!
 Bucha tiabo, nochmaal!!!
Rio de Janeiro, 1931
Alex Franck (Brêmia NOBEL)


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Zubblemend to Alle... Manha Barão de Itararé, Introdução, Seleção, Notas e Estabelecimento de Texto de Carlos Eduardo Schmidt Capela e Ana Carina Baron Engerroff, Editora UFPR, 2006, Curitiba PR; Barão de Itararé e Fernando Apparicio Brinkerhoff Torelly (1895 1971), frasista, humorista, publicitário, escritor, jornalista, trocadilhista, editor, foram a mesma pessoa; Parrong ta Idarrarré e Alex Franck também.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Abílio Victor (Nhô Bentico): A mula preta do sur

O poema abaixo é uma paródia da música Moda da Mula Preta, de Raul Torres, compositor de moda de viola caipira; para ouvir a dupla Raul e Florêncio cantando, é só clicar no título acima. 
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Eu fiz, um dia, uma viage
lá p'ras banda do Sur
i truxe u'a mula preta
iguarzinha a do Raur.

Tinha seis parmo de artura,
cumprimento, ela ganhava!
Quanto mais capim cumia,
mais a mula se espichava.
Pramórde sê tão cumprida,
quarqué cerca ela pulava.

Tocava a espora na bicha,
bem na artura da paleta,
i a mula, dando um corcovo,
me jugava na sarjeta.

Nunca vi mula danada,
de tanta disinvortura!
De tanto pulá nas pedra,
gastava inté as ferradura.
C'os pulo daquela mula,
me isfriava inté as frissura.

Sortava fogo p'ros óio,
parecia um Lucifé;
si o cabra num fosse bamba,
prifiria andá de a pé.

Quando eu ia p'ra cidade,
pela rua que eu passava,
quando via moça bunita,
a mula inté se impinava:
as moça corria de medo,
quando a mula se apinchava.

Um dia, batendo estrada,
eu me incontrei c'um tropêro
que ofereceu pela mula,
mil e duzentos cruzêro.

Eu respondi:  "Nem te ligo,
seu barriga de alifante,
minha  mula eu num disponho:
dinhêro tenho bastante".
O marvado, só de inveja,
na mula ponhô quebrante...

Um dia, vim da cidade,
veja o que me aconteceu:
sortei a mula no pasto,
i um gafanhoto mordeu.

A mula ficô tristonha,
mais nem gemê num gemeu;
durô, malemá, quatro hora,
deu treis suspiro i morreu.
I acabô-se a mula preta
que tanto susto me deu.
Favas de Ingá  1950

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Pitoco e outros poemas — Coleção Pé Vermeio, Organização, edição e apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª  edição, 2007, Editora Petra, Tatuí SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

Olegário Mariano: Kremesse


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Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.

Inté os sinos dizia
Na matriz da freguesia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.

Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha, si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.

E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pr’o que esperamos pr’o quê?

Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pr’o castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.

— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucutinga,
Mas fica o rastro no chão.

E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.

Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.

Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pr’a que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pr’o mais que nós se queresse
Pr’o mais que nós se gostasse.


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Antologia da Literatura Mundial — Antologia de Poetas Brasileiros , Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, Quarta edição, 1961, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo  SP; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889  1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; obra literária: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); e tantos outros títulos.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Voltaire: O Poema sobre o Desastre de Lisboa — 1755 (Trad. de Vasco Graça Moura)


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Ó míseros mortais! ó terra deplorável!
De todos os mortais monturo inextricável!
Eterno sustentar de inútil dor também!
Filósofos que em vão gritais: "Tudo está bem;
Vinde pois, contemplai ruínas desoladas,
restos, farrapos só, cinzas desventuradas,
os meninos e as mães, os seus corpos em pilhas,
membros ao deus-dará no mármore em estilhas,
desgraçados cem mil que a terra já devora,
em sangue, a espedaçar-se, e a palpitar embora",
que soterrados são, nenhum socorro atinam
e em horrível tormento os tristes dias finam!
Aos gritos mudos já das vozes expirando,
à cena de pavor das cinzas fumegando,
direis: "Efeito tal de eternas leis se colha
que de um Deus livre e bom carecem de uma escolha"?
Direis do amontoar que as vítimas oprime:
"Deus vingou-se e a morte os faz pagar seu crime"?
As crianças que crime ou falta terão, qual?,
esmagadas sangrando em seio maternal?
Lisboa, que se foi, pois mais vícios a afogam
que a Londres ou Paris, que nas delícias vogam?
Lisboa é destruída e dança-se em Paris.
Tranquilos a assistir, espíritos viris,
vendo a vossos irmãos as vidas naufragadas,
vós procurais em paz as causas às trovoadas:
Mas se à sorte adversa os golpes aparais,
mais humanos então, vós como nós chorais.
Crede-me, quando a terra entreabre abismo ingente,
ais legítimos dou, lamento-me inocente.
Tendo a todo redor voltas cruéis da sorte,
e malvado furor, e ar madilhada a morte,
dos elementos só sofrendo as investidas,
deixai, se estais conosco, as queixas ser ouvidas.
É o orgulho, dizeis, em sedição maior,
que quer que estando mal, ‘stivessemos melhor.
Pois ide interrogar as margens lá do Tejo;
nos restos remexei sangrentos do despejo;
perguntai a quem morre em tão medonho exílio
se é o orgulho a gritar: "Céu, vem em meu auxílio!
desta miséria humana, ó céu, sê solidário!"
"Tudo está bem, dizeis, e tudo é necessário."
Todo o universo então, sem o inferno abissal,
sem Lisboa engolir, se acresceria em mal?
Seguros estarei de a causa eterna aqui,
que tudo sabe e faz, tudo criou pra si,
não nos poder lançar em tão triste clima
sem acender vulcões, andando nós por cima?
Pois assim limitais a mais alta potência?
Assim a proibis de exercitar clemência?
O eterno artesão em suas mãos não tem
prontos meios sem fim aos fins que lhe convêm?
Quisera humilde, e sem que ao mestre recalcitre,
que esse gosto a inflamar o enxofre e o salitre
seu fogo fosse atear lá no deserto imerso.
Eu respeito o meu Deus, porém amo o universo.
Se ousa o homem gemer de um flagelo horrível,
não é orgulho, não! Apenas é sensível.
Os que habitam em dor os bordos desolados,
dos tormentos, do horror, seriam consolados
se lhes dissesse alguém: "Caí, morrei tranquilos;
para um mundo feliz, perdeis vossos asilos;
outras mãos erguerão vosso palácio a arder,
nos muros a ruir, mais povos vão nascer;
o Norte ganha mais com tudo o que perdeis;
vosso mal é um bem, segundo as gerais leis;
Deus vê-vos tal e qual ele olha os vermes vis
de que na cova sois a presa e que nutris?"
Aos desvalidos é horrível tal linguagem!
Minha dor, ó Cruéis, não consintais que ultrajem.
Não, não me apresenteis ao peito em ansiedade
as imutáveis leis de uma necessidade,
corpos a encadear, e espíritos e mundos.
Ó sábios a sonhar! Quiméricos profundos!
Deus segura a cadeia e não é encadeado;
seu benfazejo ser tudo há determinado;
é livre e justo, e não cruel nem vingativo.
Porque sofremos pois num jugo equitativo?
Mister o nó fatal seria desatar,
nosso mal curareis tratando de o negar?
Cada povo, a tremer, sob uma mão divina,
na origem para o mal que vós negais se obstina.
E se essa eterna lei que move os elementos
penhascos faz cair sob o esforçar dos ventos,
se aos carvalhos o raio a vasta fronde abrasa,
não sentem todavia o golpe que os arrasa:
Mas vivo, mas sinto eu, mas, coração opresso,
a esse Deus que o formou o seu socorro peço.
Filhos do Omnipotente e míseros nascemos
e para o pai comum as mãos eis que estendemos.
O vaso, sabido é, não diz nunca ao oleiro:
"Porque sou eu tão vil, tão fraco e tão grosseiro?"
Da fala não tem dom, não tem um pensamento;
essa urna que ao formar-se cai no pavimento,
não recebeu da mão do oleiro um coração
que bens quisesse ter e sentisse aflição.
"Essa aflição, dizeis, é o bem de um outro ser."
Do meu corpo a sangrar mil vermes vão nascer;
quando a morte põe fim ao mal que eu hei sofrido,
bela consolação, por bichos ser comido!
Calculadores vãos dos dramas humanais,
não me consoleis pois, que as penas me azedais;
em vós não vejo eu mais que esforço impotente
de orgulho em sorte má que finge ser contente.
Do grande todo só fraca parte hei-de eu ser:
sim, mas os animais, forçados a viver,
e todo ser que sente e à mesma lei nasceu
têm de viver na dor e de morrer como eu.
Sob a tímida presa, o encarniçado abutre
dos membros dela em sangue a bel-prazer se nutre;
para ele tudo é bem; porém e sem demora
a águia de bico de aço o abutre já devora;
o homem com mortal chumbo atinge a águia altaneira:
e ele em campo de Marte acaba sobre a poeira,
dos golpes a sangrar, junto aos mais moribundos,
de pasto indo servir aos pássaros imundos.
Os seres de todo o mundo assim todos padecem;
nados para o tormento, uns por outros perecem:
e vós arranjareis, nesse caos fatal,
do mal de cada ser, ventura universal!
Que ventura! Ó mortal, que és fraco e miserável!
Gritais: "Tudo está bem" e a voz é lamentável,
o mundo vos desmente e vosso coração
cem vezes vos refuta a errada concepção.
Humanos, animais, elementos em guerra.
Preciso é confessar que o mal está na terra:
seu princípio secreto é-nos desconhecido.
Do autor de todo o bem o mal terá saído?
Pois o negro Tifão, o bárbaro Arimano,
nos forçam a sofrer por seu mando tirano?
Meu espírito não crê em monstros odiosos
de que o mundo a tremer fez deuses poderosos.
Mas como conceber, só de bondade, um Deus
que os bens prodigaliza aos caros filhos seus
e neles derramou só males às mãos cheias?
Que olhar poderá ver-lhe o fundo das ideias?
Não ia o mal nascer do ser que é mais perfeito;
não vem de mais ninguém, se é Deus o só sujeito.
E todavia existe. Oh, bem tristes verdades!
Oh, mistura de espanto e de contrariedades!
A nossa raça aflita um Deus vem consolar
e a terra visitou sem a modificar!
Que o não pôde, um sofista em arrogância diz;
diz outro "Pode sim, o ponto é que o não quis;
decerto há-de querer"; e enquanto se arrazoa
há fogo subterrâneo a engolir Lisboa
e de cidades trinta os restos a espalhar,
do ensanguentado Tejo ao gaditano mar.
Ou nasce o homem culpado e Deus pune-lhe a raça,
ou único senhor que ser e espaço traça,
sem pena e sem se irar, tranquilo, indiferente,
da sua própria lei vai na eterna torrente;
ou contra ele a matéria informe se rebela
e em si defeitos traz necessários como ela;
ou Deus nos põe a prova e essa mortal viagem
para um eterno mundo estreita é a passagem.
Nós sofremos aqui dor passageira, sim:
a própria morte é um bem que às misérias põe fim.
Mas um dia ao sair desse caminho atroz,
dirá que mereceu ventura algum de nós?
Seja lá como for, é certo que se trema.
Nada sabido é, nada há que não se tema.
À natureza muda as questões pôr não vale;
precisa-se de um Deus que ao género humano fale.
Só ele poderá a sua obra explicar,
ao fraco dar consolo e ao sábio iluminar.
Sem ele, abandonado erra, duvida e falha,
o homem que busca em vão apoio numa palha.
Leibniz não me ensinou por quais nós invisíveis,
na ordem do melhor dos mundos já possíveis,
em desordem eterna, um caos de desventura
a nosso vão prazer a dor real mistura,
nem por que é que os dois, culpado e inocente,
o inevitável mal sofrer hão-de igualmente.
Nem posso conceber tudo estivesse bem:
sendo eu como um doutor, ah, nada sei porém.
O homem, diz Platão, já teve asas; e mais:
impenetrável corpo às agressões mortais;
o passamento, a dor não vinham a seu lado.
Quão diverso hoje ele é desse brilhante estado!
Rasteja, sofre, morre; e assim quanto se gera;
e na destruição a natureza impera.
Frágil composto pois, de nervos e ossos feito,
e a qualquer colisão de elementos atreito;
tal mistura de sangue e líquidos e pó,
para se dissolver se reuniu tão-só;
e em seu pronto sentir, os nervos delicados
se submetem à dor, ministra de finados:
da voz da natureza é quanto me asseguro.
Abandono Platão, mando embora Epicuro.
Mais que os dois sabe Bayle; e eu vou-o consultar:
de balança na mão, ensina a duvidar,
sábio e grande demais para não ter sistema,
a todos destruiu, e é contra si que rema:
como o cego a lutar que os Filisteus prenderam
sob os muros caiu que as mãos dele abateram.
Do espírita que pode a mais vasta conquista?
Nada; o livro da sorte encerra à nossa vista.
O homem, estranho a si, é do homem ignorado.
Onde estou, onde vou, quem sou, donde tirado?
Átomos em tortura em lama que se empasta,
cuja sorte se joga e a morte então arrasta,
mas postos a pensar, e átomos que viram,
guiados pela mente os céus que já mediram;
ao seio do infinito aspira o nosso ser,
sem um momento só nos ver, nos conhecer.
O mundo, este teatro, orgulho e erro abalam,
e é de infortúnios só que de ventura falam.
Busca-se o bem-estar em queixas a gemer:
a morte ninguém quer, ninguém quer renascer.
Às vezes, quando à dor os dias consagramos,
pela mão do prazer os prantos enxugamos;
mas o prazer se vai e como a sombra passa;
sem conta nossos são perdas, choro e desgraça.
O passado é-nos só uma lembrança triste;
e o presente é atroz, se o porvir não existe,
se a noite tumular no ser que pensa avança.
Bem será tudo um dia, é essa a nossa esp’rança;
hoje tudo está bem, é essa a ilusão.
Com sábios me enganei e só Deus tem razão.
Humilde nos meus ais, sofrendo em impotência,
eu não atacarei porém a Providência.
Viram que outrora em tom não lúgubre cantei
do mais doce prazer a sedutora lei:
outro tempo e costume: a idade dá sageza,
do humano extraviar partilho ora a fraqueza,
quero na treva espessa a mim iluminar,
e apenas sei sofrer e já não murmurar.
Um califa uma vez, como a sua hora desse,
ao seu Deus foi dizer apenas uma prece:
"Ser sem limite e rei único na verdade,
trago-te o que não tens na tua imensidade,
faltas, erro, ignorância e males em pujança."
Mas inda ele juntar podia a esperança.


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Poème Sur Le Désastre De Lisbonne, Voltaire  O Poema Sobre o Desastre de Lisboa de Voltaire, Tradução de Vasco Graça Moura; François Marie Arouet (1694  1778), de pseudônimo Voltaire, nascido em Paris, foi escritor, ensaísta, polemista satírico e filósofo do iluminismo francês; tornou-se conhecido literária e filosoficamente pelo seu pseudônimo; escritor prolífico produziu algumas dezenas de obras nas mais diversas formas literárias  peças de teatro, poemas, romances, ensaios, textos científicos e históricos, milhares de cartas e panfletos; alguns de seus escritos: Édipo (peça teatral, 1715), La Henríade (poema épico, 1728), Cartas Filosóficas (1734), Poème Sur Le Désastre De Lisbonne (1756), Cândido ou o Otimismo (novela satírica, 1759), Tratado sobre a Tolerância (1763), Dictionnaire philosofhique Portatif (1764)...; por usar suas obras para criticar a Igreja Católica e o Absolutismo, os privilégios do clero e da nobreza, foi preso duas vezes.