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sábado, 6 de abril de 2024

Manuel Bandeira: A António Nobre

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Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:

Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino!
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...

Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!

Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...
Eu, não terei a Glória... nem fui bom.

Petrópolis, 3-2-1916.
(A Cinza das Horas, em Poesias Completas,
nova edição aumentada, pág. 10.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Manuel Bandeira (1886 1968), pernambucano de Recife, estudou no Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, concluiu o curso de Humanidades, interrompeu os estudos para se tratar de tuberculose, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversos autores e épocas; obras poéticas: A Cinza das Horas (1917), Carnaval (1919), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924), Libertinagem (1930), Estrela da Manhã (1936), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos, Poemas Traduzidos (1945), Opus 10 (1952), Alumbramentos (1960), Estrela da Tarde (1960), Estrela da Vida Inteira (1966) e outros; obras em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936), Guia de Ouro Preto (1938), Noções de História das Literaturas (1940), Autoria das Cartas Chilenas (1940), Apresentação da Poesia Brasileira (1946), Literatura Hispano-Americana (1949), Gonçalves Dias, Biografia (1952), De Poetas e de Poesia (1954), A Flauta de Papel (1957), Andorinha, Andorinha (1966), Itinerário de Pasárgada (1966), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968), Berimbau e Outros Poemas, e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2, Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista, Antologia Poética (1961), Poesia do Brasil (1963) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiller, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford, etc.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

António Nobre: Da influência da Lua

 
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Outono. O sol, qual brigue em chamas, morre
Nos longes de água... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poesia escorre
E os bardos, a cismar, molham a pena!

Ao longe, os rios de águas prateadas,
Por entre os verdes canaviais, esguios,
São como estradas líquidas, e as estradas,
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O xale pedem a quem vai passando...
E os seus leitos nupciais, os ninhos,
As lavandiscas noivas piando, piando!

O orvalho cai do céu, como unguento.
Abrem as bocas, aparando-os, os goivos;
E a laranjeira, aos repelões do Vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cai... E, à falta de água, rega
O vale sem fruto, a terra árida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu sermão de Lágrimas, à Lua!

A Lua! Ela não tarda aí, espera!
O mágico poder que ela possui!
Sobre as sementes, sobre o Oceano impera,
Sobre as mulheres grávidas influi...

Ai os meus nervos, quando a Lua é cheia!
Da Arte, novas concepções descubro,
Todo me aflijo, fazem lá ideia!
Ai a ascensão da Lua, pelo Outubro!

Tardes de Outubro! Ó tardes de novena!
Outono! Mês de Maio, na lareira!
Tardes...
             Lá vem a Lua, gratiae plena,

Do convento dos céus, a eterna freira!

Porto, 1886

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; suas obras: (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, postumamente publicaram-se Despedida e Primeiros Versos, com alguns inéditos reunidos.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

António Nobre: Ó Virgens que passais, ao Sol-poente, . . . [soneto]

 
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Ó virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz onipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!

Porto, 1886

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; obras: (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, postumamente publicaram-se Despedida e Primeiros Versos, com alguns inéditos reunidos.

sábado, 2 de julho de 2022

António Nobre: Enterro de Ofélia

 
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Morreu. Vai a dormir, vai a sonhar... Deixá-la!
(Falai baixinho: agora mesmo se ficou...)
Como Padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ela se afogou.

Toda de branco vai, nesse hábito de opala,
Para um convento: não o que Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, olhai! que tem por nome Vala,
De onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!

O doce Pôr-do-Sol, que era doido por ela,
Que a perseguia sempre, em palácio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...

Como damas de honor, Ninfas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no Céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ela vai desfiando as suas contas, Astros!

Leça, 1888

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; obras: (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, postumamente publicaram-se Despedida e Primeiros Versos, com alguns inéditos reunidos.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

António Nobre: Memória

 
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Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com torres e pontes.

Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o Destino pra longe da terra.

Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!

Que lindas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na Igreja correram os banhos.

Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela lua-nova, nasceu um menino.

O mães dos Poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!

Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado.

(E abria o menino seus olhos tão doces):
«Serás um Príncipe! mas antes... não fosses.»

Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve ir dar um passeio.

Calçou as sandálias, tocou-se de flores,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:

«Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
Antônio, e já volto...» E não voltou ainda!

Vai o Esposo, vendo que ela não voltava,
Vaí lá ter com ela, por lá se quedava.

Ó homem egrégio! de estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!

Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fora, por eles voltei.

E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua;
Ai corre o seu fado! a culpa não é sua!

Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi estes carmes que eu compus no exílio,

Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses!
Pelo cair das folhas, o melhor dos meses,

Mas, tende cautela, não vos faça mal...
Que é o livro mais triste que há em Portugal!

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; obras: (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, postumamente publicaram-se Despedida e Primeiros Versos, com alguns inéditos reunidos.

sábado, 10 de julho de 2021

Antônio Nobre: Na praia lá da Boa Nova, um dia, . . . [soneto]

 
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Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei1 (foi esse o grande mal)
Alto castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral2!

Naquelas redondezas, não havia
Quem se gabasse dum domínio igual:
Oh, castelo tão alto! parecia
O território dum Senhor-feudal3!

Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco de Deserto e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado4, o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso Conde,
Naquela idade em que se é conde assim...


Notas da edição:
1. edifiquei: construí
2. lápis-azúli e coral: pedras coloridas
3. Senhor-feudal: dono de muitas terras
4. condado: sonho (propriedades de um conde)
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; escreveu e publicou (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, além de Despedidas e Primeiros Versos, editadas postumamente.

domingo, 28 de maio de 2017

António Nobre: Adeus!

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Por uma tempestade da costa de Inglaterra.

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
A tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

Adeus! Na ausência meses são anos,
Dias são meses, que aí são ais;
Ah tu tens sonhos, eu tenho enganos,
Eu sou sozinho, tu tens teus Pais.

Adeus! Nas velas o Vento toca
“Aves” e “Paters” de imensa dor.
Enquanto rezas, fia na roca
Enquanto rezas, fia na roca
O linho branco do nosso amor.

Adeus! Paquete, que vais fugido
Com um Poeta lá dentro a orar!
Ai que destino tão parecido,
Andar aos ventos, ó Mar! ó Mar!

Adeus! Mar, quero que me respondas,
Aguas tão altas! dizei, dizei:
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Quais mais salgadas? as vossas ondas
Ou as que eu choro, que eu chorarei?

Adeus! (Que é isto? treme o Paquete!)
Fiel me seja teu Coração;
Não que eu fechei-o num aloque-te *
E a chave é de oiro, trago-a na mão!

Adeus! O Vento soluça e geme,
O Mar, é negro, mas “lá” é azul...
Francês tão moço, que vais ao leme,
Francês tão moço, que vais ao leme,
Ah se pudesses voltar ao Sul!

Adeus (Piloto, que nuvens essas
Façamos juntos o “pio sinal!”),
Menina e Moça, nunca me esqueças,
Que eu tenho os olhos em Portugal!

Adeus! Um brigue de pano roto
Vede que passa, faz-nos sinais:
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Tenha piedade, Sr. Piloto,
Seja pelas almas dos nossos Pais...

Adeus! “St. Jacques”, vai depressinha...
Meu Anjo, a esta hora, tu que farás?
O Mar faz medo (Salve, Rainha...)
E tu, meu Anjo, tão longe estás!

Adeus! Tão longe, tão longe a terra!
Longe de tudo, longe de ti!
A trinta milhas, fica a Inglaterra,
A trinta milhas, fica a Inglaterra,
A uma (ou menos) a Morte, ali...

Adeus! Na hora de me deixares,
Já pressentias o meu porvir:
“Meu Deus!” disseste, mostrando os ares...
Mas era urgente partir! partir!

Adeus! Já faltam os mantimentos,
Falta-nos água, falta-nos luz!
Morrer, à lua, sem sacramentos,
Morrer, à lua, sem sacramentos,
Morrer tão novo, Jesus! Jesus!

Adeus! E os dias nascem e morrem;
Tanta água e falta para beber!
E já puseram (rumores correm)
Sola de molho para comer. **

Adeus! Bons dias, meu Comandante,
A nossa sorte... morrer, talvez...
E o rude velho segue pra diante:
E o rude velho segue pra diante:
 Morrer, meu Amo, só uma vez!

Adeus!  Gajeiro!  boa criança!
Que vais em cima no mastaréu,
Vê lá se avistas terras de França...
 Ah nada avisto, só água e céu!

Adeus! Ó Lua, Lua dos Meses,
Lua dos Mares, ora por nós!...
O Mar antigo dos Portugueses,
O Mar antigo dos Portugueses,
O Mar antigo dos meus Avós!

Adeus! Ai triste de quem embarca
Sem ver a sorte que o espera ao fim!
Façamos vela prá Dinamarca,
Que Hamlet espera no Cais por mim.

Adeus! À Vida sinto-me preso,
(Morrer não custa) pelas paixões...
Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso
Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso
Das minhas trinta desilusões!

Adeus! Que estranha Visão é aquela
Que vem andando por sobre o mar?
Todos exclamam de mãos para ela:
“Nossa Senhora! que vens a andar!”

Adeus! A Virgem com um afago,
Pôs manso o Oceano, que assim o quis:
O Mar agora parece um lago,
O Mar agora parece um lago...
O rio Lima do meu País!

Adeus! Menina, que estás rezando,
Desceu a Virgem e já te ouviu:
Agora, quero ver-te cantando,
A Santa Virgem já me acudiu.

Adeus! Os Ventos são meigas brisas
E brilha a Lua como um farol!
Ponde nas vergas vossas camisas,
Ponde nas vergas vossas camisas,
Ó Marinheiros, que a Lua é o Sol!

Adeus! “St. Jacques” lá entra a barra,
Nossa Senhora vai indo a pé:
Com o seu cabelo fez uma amarra,
Lá vai puxando, que boa ela é!

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
A tua casa que deixei lá!
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
Leva-me o Outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!

(Paris, 1893)

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Notas de Luís da Câmara Cascudo:
* Aloquete: Cadeado, ferrolho;
** Sola de molho: Reminiscência do romance Nau Catarineta.
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António Nobre — Poesia, Coleção Nossos Clássicos nº 41, por Luís da Câmara Cascudo, 1967, 2ª edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; escreveu e publicou (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX.

sábado, 22 de abril de 2017

António Nobre: Saudade

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Saudade, saudade! palavra tão triste,
E ouvi-la faz bem:
Meu caro Garrett, tu bem na sentiste,
Melhor que ninguém!

Saudades da virgem de ao pé do Mondego,
Saudades de tudo:
Ouvi-las caindo da boca dum Cego,
Dos olhos dum Mudo!

Saudades d’Aquela que, cheia de linhas,
De agulha e dedal,
Eu vejo bordando Galeões e andorinhas
No seu enxoval.

Saudades! e canta, na Torre deu a hora
Da sua novena:
Olhai-a! dá ares de Nossa Senhora,
Quando era pequena.

Saudades, saudades! E ouvide que canta
(E sempre a bordar)
Que linda! “Quem canta seus males espanta”
E eu vou-me a cantar...

Virgílio é estudante, levou-o o seu fado
A terras de França!
Mais leve que espuma, não tenho pecado,
Que o diga a balança.

Separam-me dele cem rios, cem pontes,
Mas isso que faz?
Atrás desses montes, ainda há outros montes,
E ainda outros, atrás!

Não tarda que volte por montes e praias,
Formado que esteja;
E iremos juntinhos, ah tem-te-não-caias!
Casar-nos à Igreja.

Virgílio é um anjo, não tem um defeito,
É altinho como eu;
Os lábios com lábios, o peito com peito...
Ah, Virgem do Céu!

O Amor, ai que enigma! consolo no Tédio,
Estrela do Norte!
O Amor é doença, que tem por remédio
Um beijo, ou a Morte.

Às vezes, eu quero dizer-lhe que o amo,
Mas, vou-lhe a dizer,
Irene não fala (Irene me chamo)
E fica a tremer...

Quando ia ao postigo falar-lhe, tão cedo,
(Tu, Lua, bem viste)
Ai que olhos aqueles! metiam-me medo...
E sempre tão triste!

Perfil de Teresa, velado na capa,
Lá passa por mim:
Ó noites da Estrada, tardinhas da Lapa,
Choupal e Jardim!

Cabelos caídos, a cara de cera,
Os olhos ao fundo!
E a voz de Virgílio, docinha que ela era,
Não é deste Mundo!

Saudades, saudades! Que valem as rezas,
Que serve pedir!
No altar continuam as velas acesas,
Mas ele sem vir!

Já choupos nasceram, já choupos cresceram,
Estou tão crescida!
Já choupos morreram, já outros nasceram...
Como é curta a Vida!

Ó rio de amores, que vens da Portela
Pró mar do Senhor,
Ah vê se na costa se avista uma vela,
Se vem o Vapor...

Meu Sto. Mondego, que voas e corres,
Não tenhas vagares!
Mondego dos Choupos, Mondego das Torres,
Mondego dos Mares!

Mas ai! o Mondego (Senhora da Graça,
Sou tão infeliz!)
Já foi e já volta, lá passa que passa,
E nada me diz...


(Paris, 1894)

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____________________
António Nobre  Poesia, Coleção Nossos Clássicos  41, por Luís da Câmara Cascudo, 1967, 2ª edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; escreveu e publicou (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Luís Carlos: sobre um motivo de António Nobre

Apraz-me ver, à tarde, as andorinhas
Nos fios de telégrafo pousadas,
Como, por entre a pauta das artinhas,
As notas musicais encarceradas.

Sinto, ao vê-las, que, ao longo das estradas,
São nervos da distância aquelas linhas
Com as agonias hiperestesiadas
De António Nobre, que também são minhas.

Por que não trissam no ar? Por que nem bolem,
Se o Sol, ainda esplendendo moribundo,
Esparze no Éter um clarão de pólen?

É que naqueles fios, com certeza,
Elas compreendem, mudas de tristeza,
As queixas que lá vão por este mundo...

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.