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Epístola*
Elmano a Josino1
Dans ces climats... tout est sourd
à mes cris2
M.me du Bocage, Tragédie des
Amazones. Ato IV, cena VI.
Josino, meu Josino, a cujo lado
Gozei de alegres, venturosos dias,
Enquanto o quis Amor e o quis o
Fado;
Sócio meu, que ora atento e mudo
ouvias
A minha branda lira maviosa,
Ora a seus ternos sons teu canto
unias;
Tu, que da linda Márcia carinhosa
Inflamas com mil ósculos ardentes
As faces cor de neve e cor‑de‑rosa;
Tu, que no ingénuo peito não
consentes
O vício, que por lei da Natureza
Mancha e corrompe os corações
ausentes;
Tu, que adorando as aras da Beleza,
Tributas nos altares da Amizade
Puros incensos, exemplar firmeza;
Tu, que desta alma ocupas a metade,
Ouve o trémulo som, com que suspira
Dentro dela a tristíssima Saudade.
Desde que a existência expus à ira
Do fero mar3, meu peito
não sossega,
Meu pensamento esfalfa‑se, delira.
Indomável paixão, que a todos cega,
De teus conselhos falta, honrado
amigo,
À desesperação minha alma entrega.
Louco fui, não pensei (mil vezes
digo)
Que em horas se trocassem de
tormento
Horas tão doces, que passei
contigo;
Fiei‑me de um fugaz contentamento,
Devendo conhecer que os bens do
mundo
São qual o sutil pó, que espalha o
vento;
Por isso agora, aflito e vagabundo,
Estranho tanto o mal; por isso
agora
De lágrimas sem fim meu rosto
inundo;
Por isso, na paixão que me devora,
Invoco a muda paz da sepultura,
Da suspirada morte a feliz hora.
Míseros gostos! Mísera ternura!
Que sempre, injusto Amor, teus
servos tenham
Queixumes que formar contra a
ventura!
Uns, adorando ingratas que os
desdenham,
Tarde no escuro abismo, em que
descansa
O desengano horrível, se despenham;
Outros, chorando a pérfida mudança
De uma alma desleal, enfurecidos
Co’a morte arrostam, que no Inferno
os lança;
Outros, enfim, como eu,
correspondidos,
Depois, em longa ausência amarga e
crua,
Arrancam das entranhas mil gemidos.
Tal, fraudulento Amor, é a lei tua,
Lei que o Fado aprovou para que a
Terra
A si mesma se estrague e se
destrua.
Ah Josino fiel! Que horror faz
guerra
Aos tristes olhos meus nestes
lugares,
Onde me pôs a Sorte, onde me
encerra!
Sem medo à fúria dos terríveis
mares,
Vim do culto, benéfico Ocidente
Viver com tigres, habitar palmares:
Aqui tórrida zona abafa a gente,
Ferve o clima, arde o ar, e eu não
sinto,
Que tu, fogo de Amor, és mais
ardente;
Aqui vago em perpétuo labirinto
Sempre em risco de ver maligno
braço
No próprio sangue meu banhado e
tinto.
Mas caso dos perigos eu não faço,
E que posso temer, quando procuro
Rasgar da frágil vida o tênue laço?
Enche‑me, sim, de horror o culto
impuro
Ídolos vãos, sacrílegos altares,
Vis cerimônias deste povo escuro.
Eterno Deus! Não longe de teus
lares
Tépida nuvem de maldito incenso,
Dado ao negro Satã, perturba os
ares.
Que tolerância tens, Monarca
imenso!
Por mais crimes, Senhor, que o mundo
faça,
Tudo releva teu Amor intenso.
Desce, ah desce dos Céus, potente
graça,
Difunde a santa luz, a santa crença
Pelos cegos mortais que o erro
enlaça!
Volto, Josino, a ti. Letal doença
Do Báratro surgiu, veio intimar‑me
A antiga, universal, cruel
sentença;
Negras fauces abriu para tragar‑me;
Porém cedeu, rugindo, à voz divina,
Que a vida, a meu pesar, quis
conservar‑me.
Eis que pérfida mão cabal ruína4
(Sepultando o dever no
esquecimento)
A todos nos prepara e nos destina.
Rasgado o peito co’um punhal
cruento,
Ia baixar o teu choroso amigo,
Qual vítima inocente, ao monumento:
Uma alma infame, um bárbaro inimigo
Da fé, das leis, do trono, um
desumano,
Merecedor de eterno, de infernal
castigo,
Tendo embebido seu furor insano
Na falsa gente brâmane inquieta,
Que amaldiçoa o jugo lusitano,
Contra nós apontava a mortal seta.
Mas estorvou o inevitável tiro
A mão divina, poderosa e reta.
Desenvolveu‑se o crime, inda
respiro,
E já destes, ó réus de atroz
maldade,
Em vis teatros o final suspiro5.
Eis, amigo, a recente novidade,
Que da remota Goa ao Tejo envio
Nas murchas, débeis asas da
Saudade.
A quem tem da tua alma o senhorio,
Of ’reço numa férvida lembrança
Provas do afeto, em que jamais
esfrio.
Dize à minha dulcíssima esperança,
À suave prisão desta alma aflita,
Que no meu coração não há mudança;
Que estou gemendo aqui, bem como
grita
Pelo perdido, alígero consorte
Viúva rola, que a floresta habita;
Que é a minha paixão tão forte,
Que há-de na escuridão da sepultura
Volver‑me as cinzas, superior à
morte;
E que espero, apesar da ausência
dura,
Por milagre de Amor, que os meus
gemidos,
Voando aos lares seus, aos seus
ouvidos,
Lhe vão justificar minha ternura.
Registro e Notas de Marisa Lajolo,
selecionadora de textos e estudos biográfico e crítico deste Bocage —
Literatura Comentada:
* Epístola — A epístola é uma
composição poética que mimetiza, em versos, a situação de produção de uma carta.
Deve mencionar, obrigatoriamente, o remetente e o destinatário, aparecendo
este, geralmente, na função de vocativo, no início do texto.
Identificada, assim, por traços
formais, a epistola costuma configurar um poema longo, que permite a exposição
de um determinado ponto de vista. [...]
1. Na menção explícita a
um remetente (Elmano, pseudônimo de Bocage) e a um destinatário (Josino) temos
os elementos que permitem reconhecer este texto como uma epístola.
2. A epígrafe em
francês, retirada da Tragédia das Amazonas, diz: “Nesses climas... tudo é surdo
aos meus gritos”. Madame du Bocage é provavelmente uma tia materna do poeta.
3. Estes versos, em que
Bocage fala de sua viagem, nos permitem classificar esta epístola como um
documento de sua vida no ultramar, provavelmente em Goa.
4. Bocage, aqui, narra a
seu amigo Josino uma tentativa do povo de Goa de libertar-se do jugo português.
Trata-se, provavelmente, da Conjuração dos Pintos, cujos líderes foram condenados
à morte, com exceção de padre Faria, que conseguiu fugir para a França.
5. Bocage alude aqui à
execução dos conjurados.
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Bocage — Literatura Comentada,
Seleção de textos, notas, estudos biográfico e crítico por Marisa Lajolo e
Estudo histórico por Ricardo Maranhão, 2ª edição, 1988, Editora Nova Cultural
Ltda., São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 — 1805), nascido em
Setúbal — Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para
Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida
boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786),
depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau,
possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage
escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791),
foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o
pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano — anagrama de Manoel, e Sadino — homenagem
ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia
e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas
prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou
mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e
1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas
Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora
Urselina, ...