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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Augusto de Campos: O que é poesia? — Entrevista

VIVA VAIA - Augusto de Campos

    Pergunta: O que é poesia para você?
        Augusto de Campos: De preferência, a poesia dos outros. E o que é poesia? Respondendo à pergunta "o que é música?", Shoenberg saiu-se com esta historinha:
        Um cego perguntou ao seu guia:  Como é o leite?
        O outro:  O leite é branco.
        O cego:  E o que é esse branco? Me dê um exemplo de algo que seja "branco"!
        O guia:  Um cisne. Ele é totalmente branco e tem um pescoço longo e curvo.
        O cego:  Pescoço curvo? Como é isso?
        O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
        O cego:  "Ah, agora eu sei como é o leite"...

        Bom, para não desanimar o leitor, dou duas definições de poesia de dois outros cegos:
        Paul Valéry: "Hesitação entre o som e o sentido";
        Ezra Pound: "Uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações não para imagens abstratas, triângulos, esferas, etc, mas equações para as emoções humanas".

        P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
        AC: Perseguir implacavelmente a si próprio. Jamais perseguir o sucesso.
     
        P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
        AC: "Um lance de dados jamais abolirá o acaso", de Stéphane Mallarmé. Inaugurou a poesia do século 20 e continua a presidir o espaço poético-cyberal;
        "Finnegans Wake", de Joyce, panAroma das flores da fala, telescopagem vocabular, racionalidade do caos;
        "Os Cantos", de Pound, montagem-colagem-ideograma, estratégias básicas para a poesia de nosso tempo.
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro  RJ; no livro, Augusto de Campos e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; paulista e paulistano, nascido em 1931, o poeta, tradutor, ensaísta e crítico de literatura e música é reconhecido, com o lançamento da revista literária Noigandres, em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, como um dos criadores, representantes e divulgadores do movimento internacional da Poesia Concreta no Brasil.