domingo, 30 de junho de 2024

Lima Barreto *: Pedra & Moskowa **


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          Os dois boêmios de tempos já distantes, H. Pedra e Pedro Moskowa, um dia se encontraram e foram tomar café uma infâmia, verdadeira perfumaria!
          Puseram-se, no botequim, a conversar e a palestrar.
          Veio a conversa recair sobre a arte de “morder”.
          Pedro, que era o mais inteligente, disse, num dado momento, ao H. Pedra:
           Pedra, nós somos uns tolos.
           Por quê?
           Não sabemos “morder” cientificamente.
           Não te compreendo.
           Eu te explico.
           Vá lá.
           Nós dispersamos os nossos esforços, quando tudo nos ensina que devemos conjugá-los, articulá-los, encadeá-los em benefício comum.
           Como é então?
           Olha: vamos organizar uma lista das pessoas “mordíveis”. Tu ficas com uma e eu com a outra. Num dia, mordo eu; noutro dia, tu. Antes do almoço, dividimos a féria; e, antes do jantar, também. Queres?
           Aceito. Mas no domingo?
           Cada um tem liberdade de ação, mas o melhor é não morder nenhuma pessoa da lista.
           Por quê?
           Pode acontecer que nós ambos mordamos, num mesmo domingo, uma delas, e, no dia seguinte, tanto eu como tu estaremos atrapalhados para fazê-la “sangrar”. Aceitas?
           Está feito.
          Combinado isto, os dois organizaram a relação das pessoas conspícuas que podiam merecer a honra das suas “facadas” e puseram em prática os fins de sua curiosa associação, que, se fosse registrada na Junta Comercial, teria de girar sob a firma Pedra & Moskowa.
          Pedra “mordia” nas segundas, e Moskowa, nas terças; e assim por diante, alternando-se.
          Nas horas marcadas, dividiam irmãmente a féria, sem que nenhum “refundisse” um níquel, isto é, sonegasse-o ao outro.
          Um dia, porém, em uma confeitaria, Pedra viu que o dr. F. C. era da lista, puxava uma nota graúda, para pagar um vermute que tomava no balcão. Não era o seu dia, mas não se conteve e deu o bote. A vítima sangrou e H. Pedra, que recebera uma “forquilha” (2$000), tratou de refestelar-se num angu do Bernardino; no largo da Sé.
          Moskowa, que não sabia da coisa, quando encontrou o dr. F. C., foi cumprir a sua obrigação, qual não foi o seu espanto, porém, quando ele disse:
           “Seu” Moskowa, hoje não é seu dia, pois já dei ao Pedra.

Lima Barreto

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”;
** Nota do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa: Assinado por Jonathan. Publicado em Careta n. 605, 24 jan. 1920.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

sábado, 29 de junho de 2024

Noel de Carvalho: Justiça divina


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Se tudo o que se passa no universo,
Se o mais simples fenômeno da vida
Depende da vontade indiscutida
De um Ser supremo, eterno, incontroverso;

Se Deus, que vive lá nos céus imerso,
Dirige o amor, a lágrima vertida,
A mão que salva e a mão homicida,
De modo agindo, em tudo, tão diverso;

Se Dele nasce a luz, o movimento,
A essência que produz o pensamento
Que cria e elimina em vã porfia,

Trazendo a natureza submissa:
Ou Deus não tem noção do que é justiça
Ou se dá tudo à sua revelia.
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Noel de Carvalho (1878 1942), fluminense de Resende, foi tabelião de profissão, poeta e também musicista; por trabalhar desde cedo, pouco estudou em colégios, o que não o impediu de adquirir, por conta própria, “larga cultura, tornando-se bom conhecedor da filosofia positivista”, é o que aponta o publicitário Frederico de Carvalho, seu filho, no estudo literário Um poeta, publicado no Correio da Manhã, sábado, 29 de abril de 1967; Noel de Carvalho chegou a residir em São Paulo e na Guanabara (à época, Distrito Federal e, hoje, Rio de Janeiro); no Rio, foi presidente da Federação Metropolitana de Futebol em duas gestões e, em Resende, onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida, há, em sua homenagem, a Escola Municipal Noel de Carvalho; não teve livro publicado.

Hans Magnus Enzensberger: O fim das corujas


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Não falo do seu…
Eu falo do fim das corujas.
Eu falo do linguado, da baleia,
na sua casa escura,
o séptuplo mar,
dos glaciares,
que hão de parir cedo demais,
de corvos e pombos, testemunhas emplumadas,
de tudo o que vive nos ares,
nas florestas, dos líquens no cascalho,
do eu sem caminho, do pântano cinzento,
e das montanhas vazias:

luzindo na tela do radar
pela última vez  avaliado
nas mesas de registro  por antenas
mortíferas são tocados os pântanos da Flórida
e o gelo da Sibéria; animais
e canaviais e lousas, estrangulados
por correntes detectoras, cercados
pela última manobra, inocentes
sob calotas de fogo que pairam no ar,
no tique-taque do caso fatal.

Já estamos esquecidos.
Não se preocupem com os órfãos,
desterrem de suas mentes
os sentimentos garantidos pelo Estado,
a glória, os salmos inoxidáveis.
Não falo mais de vocês,
planejadores da ação sem vestígio,
nem de mim, nem de ninguém.
Falo do que não fala,
das testemunhas sem língua,
das lontras e focas,
das velhas corujas da terra.

Hans Magnus Enzensberger

Das Ende der Eulen

Ich spreche von euerm nicht,
ich spreche vom Ende der Eulen.
Ich spreche von Butt und Wal
in ihrem dunkeln Haus,
dem siebenfältigen Meer,
von den Gletschern,
sie werden kalben zu früh,
Rab und Taube, gefiederten Zeugen,
von allem was lebt in Lüften
und Wäldern, und den Flechten im Kies,
vom Weglosen selbst, und vom grauen Moor
und den leeren Gebirgen:

Auf Radarschirmen leuchtend
zum letzten Mal, ausgewertet
auf Meldetischen, von Antennen
tödlich befingert Floridas Sümpfe
und das sibirische Eis, Tier
und Schilf und Schiefer erwürgt
von Warnketten, umzingelt
vom letzten Manöver, arglos
unter schwebenden Feuerglocken,
im Ticken des Ernstfalls.

Wir sind schon vergessen.
Sorgt euch nicht um die Waisen,
aus dem Sinn schlagt euch
die mündelsichern Gefühle,
den Ruhm, die rostfreien Psalmen.
Ich spreche nicht mehr von euch,
Planern der spurlosen Tat,
und von mir nicht, und keinem.
Ich spreche von dem was nicht spricht,
von den sprachlosen Zeugen,
von Ottern und Robben,
von den alten Eulen der Erde.
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Rimbaud: Fome


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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

Se tenho gosto, é quase só
Pela terra e pelas pedras.
Meu almoço é sempre o ar,
A rocha, o carvão, o ferro.

Minhas fomes, girem, girem,
Atravessem os trigais,
Atraiam o alegre veneno
Da flor-de-pau.

Comam os seixos quebráveis,
As velhas pedras das igrejas,
Os biscoitos dos naufrágios,
Os pães jogados nas cinzas.

O lobo uiva entre a folhagem
Cuspindo as bonitas penas
Da sua comida de aves:
Como ele me consumo.

As saladas ou os frutos
Só esperam a colheita;
Mas a aranha do valado
Não come senão violetas.

Que eu durma! Que eu ferva
Nos altares de Salomão.
O caldo escorre na ferrugem
E se mistura ao Cedrão. *

Rimbaud

Faim

Si j’ai du goût, ce n’est guère
Que pour la terre et les pierres.
Je déjeune toujours d’air,
De roc, de charbons, de fer.

Mes faims, tournez. Paissez, faims,
Le pré des sons.
Attirez le gai venin
Des liserons.

Mangez les cailloux qu’on brise,
Les vieilles pierres d’églises;
Les galets des vieux déluges,
Pains semés dans les vallées grises.

Le loup criait sous les feuilles
En crachant les belles plumes
De son repas de volailles:
Comme lui je me consume.

Les salades, les fruits
N’attendent que la cueillette;
Mais l’araignée de la haie
Ne mange que des violettes.

Que je dorme! que je bouille
Aux autels de Salomon.
Le bouillon court sur la rouille,
Et se mêle au Cédron.

* Nota da edição: Rimbaud A. “Fome”. In: Uma temporada no inferno, op. cit., p. 73-75, [Tradução de Paulo Hecker Filho, edição bilíngue, 2008, L&PM, Porto Alegre — RS].
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Rimbaud — biografia: Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Júlia Cortines: O Deserto


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A Presciliana Duarte de Almeida

O sol queima; o ar sufoca; a infinita celagem
Do céu resplende sobre o infinito deserto;
E do vasto horizonte, ao derredor aberto,
Sopra, como de um forno, uma ardente bafagem.

Nada à flor do areal, quer à distância ou perto;
E, através da nudez da vazia paisagem,
Nem sequer a ilusória e efêmera miragem
Deixa, ao longe, entrever o seu perfil incerto...

Nem o leve ruflar de uma asa; nem um grito,
Fazendo estremecer o deserto que dorme,
Como uma flecha, vara a mudez do infinito...

Implacável, o sol, quente e fulvo, dardeja
Uma luz que, abrasando a solidão enorme,
No ar, na areia e no céu treme, brilha e flameja...

[revista A Mensageira, de 15 de outubro de 1897,
Ano I, nº 1, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Ibrantina Cardona*: O rio


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No cabeço da serra e sob a aquosa bruma,
num leito de granito o rio se desloca;
flóculos de frouxéis na tona albente espuma,
e múrmuro rasteja, a lamber a barroca.

Dorso frisado ao vento, em forma de alva pluma,
por uma nesga estreita a massa fluída emboca;
da garganta de pedra a escorrê-la se apruma,
galga ao largo o pedrouço e afunda sob a loca.

De súbito ei-lo avante... Engrossando a cascata
de água viva que freme, as válvulas descerra,
dos saltos, vence o abismo, escachoa e desata

o selvagem caudal... Desde o pendor da serra,
numa conquista audaz com que avassala e mata,
o rio a plaga inteira empolga, vence e aterra.


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Pia Juul: Romance


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[traduzido por José Paulo Paes]

Eu os faço acordar certa manhã numa grande casa de
quartos quase vazios. Não se ouve o roçagar dos lençóis
porque estão amaciados pelo uso.
Um dos dois é franzino
O outro não está nu é uma mulher
vestida com muitas camadas de roupa, de seda e algodão,
tule que pica, lã que coça, tudo em preto,
ela não quer tirá-las,
nunca as tira, mas ele a toca,
torna a tocá-la agora,
e ela suspira, encalorada
de tanta roupa,
não diz nada e o toca em resposta,
ele está deitado quase sob o seu flanco,
não é senão pele,
e assim deve ser, e assim é, e assim tem
sido a noite toda. Eu os deixo deitados onde acordaram,
podem ficar ali deitados, que fiquem, que a roupa dele
continue sumida, que as portas sejam trancadas, que eles fiquem
sempre
ali deitados, ela o contaminando com o seu calor, que
os quartos ecoem a toda volta os ruídos deles, que eles sejam.
Que eles sejam.

Pia Juul

Roman

Jeg lader dem vågne en morgen i et stort hus med
næsten tomme rum. Sengetøjet knitrer ikke
for det er brugt og blødt.
Den ene er tynd.
Den anden er ikke nøgen det er en kvinde,
hun er klædt i mange lag af stof, den er silke og bomuld,
tyll der stikker, uld der kradser, det er altsammen sort,
hun vil ikke tage det af,
hun tager det aldrig af, men han har rørt ved hende,
nu rører han ved hende igen,
og hun sukker, hun er varm,
der er så meget tøj
hun siger ingenting, hun rører tilbage,
han ligger næsten under hendes side,
han er ikke andet end hud,
og sådan skal det være, sådan har det
været hele natten. Jeg lader dem ligge hvor de er vågnet,
de kan blive liggende dér, lad dem ligge, lad hans tøj
være blevet borte, lad dørene være låst, lad dem altid
ligge der, lad hende være varm, lad det smitte ham, lad
rummene give ekko omkring deres lyde, lad dem være.
Lad dem være

[Poesi 93, publicação do festival internacional de poesia
de Copenhague de 1993]
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Pia Elisabeth Juul (1962 2020), dinamarquesa de Korsør, concluiu seus estudos secundários em 1981, no Hobro Gymnasium (do hoje município de Mariagerfjord), depois matriculou-se em estudos de Inglês na Universidade de Aarhus, logo desistiu, foi poeta, escritora de prosa, dramaturga e tradutora; a poeta foi co-editora da revista literária dinamarquesa Den Blå Port, professora na escola de redação Forfatterskolen, em Copenhague, e traduziu literatura, inglesa, americana e sueca; suas obras: levende og lukket (coleção de poemas, 1985), i brand måske (poemas, 1987), Forgjort (poemas, 1989), Skaden (romance, 1990), En død mands nys (poemas, 1993), Olsen (contos, 1996), Mit forfærdelige ansigt (contos, 2001), Gespenst & andre spil (drama, 2002), Lidt ligesom mig (livro infantil, 2004), Dengang med hunden (contos, 2005), Helt i skoven (poemas, 2005), På jagt (livro infantil, 2005), Mordet på Halland (romance, 2009), Radioteatret (poemas, 2010) e outros títulos; premiações: Aarestrup-medaljen (1994), Beatrice Prisen (da Academia dinamarquesa, 2000), Danske Banks Litteraturpris (pelo romance Mordet på Halland, 2009), Montanas Litteraturpris (pela coleção de poesias Radioteatret, 2010), etc.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Narcisa Amália: Confidência

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A Joanna de Azevedo

De mais a mais se apertam nossos laços,
A ausência... oh! que me importa, estás presente
Em toda a parte onde dirijo as passos.
Fagundes Varela

Pensas tu, feiticeira, que te esqueço;
Que olvido nossa infância tão florida;
Que a tuas meigas frase nego apreço...

Esquecer-me de ti, minha querida!?...
Posso acaso esquecer a luz divina
Que rebrilha nas trevas desta vida?

Era esquecer a lúcida neblina,
Que nas gélidas orlas do seu manto,
Extingue a febre que meu ser calcina.

Esquecer o orvalho puro e santo,
Que à campânula curva à calma ardente,
Dá mais viço e fulgor, dá mais encanto.

Esquecer o cristal liso ou tremente
Que me retrata a fronte pensativa!
Esquecer-me de ti, anjo temente!...

Ouço-te a voz na langue patativa
Que em trinos desfalece ao vir do inverno:
Contemplo-te na mimosa sensitiva.

Sem ti não tem o sol um raio terno;
Contigo o mundo tredo é paraíso,
E a taça do viver tem mel eterno!

Oh! envia-me ao menos um sorriso!
Dá-me um sonho dos teus dourado e belo,
Que bem negro porvir além diviso!
Que a existência sem ti, é um pesadelo!...

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Nebulosas — Apresentação e Posfácio de Anna Faedrich, e Prefácio da Primeira Edição de Pessanha Póvoa, 2ª edição, 2017, Gradiva Editorial e Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

domingo, 23 de junho de 2024

Juvenal Galeno: O escravo suicida

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Liberdade!... Liberdade!...
Já diviso a tua luz!
Neste mundo de maldade
Vou deixar a minha cruz!
Vou ser livre! À luz d’aurora,
Da raça que me devora
Cativo já não serei!
E sim livre, e sim ditoso,
Da liberdade no gozo,
Noutro mundo, noutra grei!
Que só vive aqui o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Vou ser livre... não é crime
Esta cadeira quebrar;
A quem da infância s’exime
Não pode Deus condenar!
E quando fosse um delito?...
Perdoaria ao aflito
O meu divino Jesus!
Pai do céu! Quanto eu sofria...
Não era Deus, não podia
Carregar tamanha cruz!
Não pude mais!... Vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Fugi dos brancos algozes,
Daquela taça de fel!
Além de açoites atrozes
A objeção mais cruel!
Oh, sim, meu Deus! Mais um dia
A sorte que me oprimia
Foi-me impossível sofrer!
Fome, sede, insultos, dores...
Do meu senhor os rigores...
Sem tréguas o padecer!
Perdoai-me, pois! Não vive
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Assim ao Deus de bondade
Direi gemendo a chorar,
Ele, a suma piedade,
O meu pranto há de enxugar;
Serei salvo... em santo abrigo,
Bem longe deste jazigo,
Que me causa tanto horror!
Feliz então, meu destino
Sem o chicote ferino
Com que me açoita o feitor!
Vivendo... pois vive o livre,
O escravo não!
Que não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Livre... salvo... perdoado...
Em breve, em breve serei!
E se fosse condenado
Nada eu perdia... bem sei!
Pois do inferno os tormentos
Não podem ser mais cruentos
Quais os que eu sofro aqui;
Mas o meu Deus é clemente...
Se me julga delinquente,
Sabe quanto eu padeci!
Serei salvo... vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Livre... e salvo! Adeus, torturas
Que neste mundo provei
Adeus, cruéis amarguras,
Adeus, campos que eu lavrei...
Suando suor de sangue,
Açoitado, vil, exangue...
Chorando mudo e feroz!
Adeus, adeus, ó, parceiros,
Na desgraça companheiros...
Rogarei no Céu por vós...
Que não viveis... pois não vive,
O escravo não!
Que não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Adeus, sol que me queimavas
No campo sem compaixão,
Que minhas chagas secavas
Do chicote e do grilhão;
E tu, lua traiçoeira,
Que a minha afeição primeira
Descobriste ao meu senhor...
Que escarneceu-se nefando,
Ao mesmo tempo açoitando,
A virgem do meu amor!
Adeus, adeus... Vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Vento ingrato... tu que irado
Meus trapos vinha rasgar,
E depois quase gelado
Me fazias tiritar...
Adeus, pra sempre! E tu, noite,
Que me livraste ao açoite
Em teu véu de minha cor!
Adeus, humana fereza,
Adeus, mundo de torpeza,
Vergonha, prantos e dor!...
Qu’eu vou ser livre... Não vive,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Adeus, mundo! À luz do dia
Bem longe... longe estarei;
Aqui na mata sombria
Este corpo deixarei:
Neste galho pendurado
Ficará para legado
Do branco que me comprou!
Ferido, magro, mirrado...
Assim o deixo ao malvado,
Que sem pena o maltratou!
Que legue melhor o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

É pobre, sim, o legado...
Magro corpo... quase nu!
Quem o tornou neste estado?
Foi tu, ó branco, foi tu!
Assim, pois, recebe-o agora
É teu... compraste-o... devora
Aquilo que te custou!
Devora... corvo funesto,
Devora... consome o resto,
Que o teu chicote deixou!
Qu’eu vou ser livre... Não vive,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

É tempo... desponta a aurora...
Fiz o laço... pronto estou!
Em menos de um quarto d’hora,
Grande Deus, convosco, sou!
Mundo torpe... cativeiro...
Ímpio branco e carniceiro...
Vinde ouvir-me: maldição!
E tu, salve, ó liberdade!
Vou entrar na eternidade...
Santo Deus... Vosso perdão!
É tempo... só vive o livre,
O escravo não!
Eis me salvo deste inferno...
Já não sinto... a escravidão!

(Lendas e canções populares, 2ª ed., 1892)

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A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI [antologia poética: 81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização e Introdução de Alexei Bueno, 1ª edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, fez seus estudos primários numa escola de Pacatuba, cursou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, com o intuito de ampliar conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, levou impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872), Folhetins de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II; acometido de glaucoma, ficou cego em 1906.