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domingo, 1 de agosto de 2021

Renata Pallotini: Cântico dos cânticos*

 
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“meu amor é meu e eu sou dele;
ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.”

O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.

Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.

Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.

Sem terra irei por terra; ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.

[28-09-59, Livro de Sonetos — 1961]

Renata Pallotini

Cantique des cantiques

“Mon amour est à moi, et je sui à lui,
il fait paître son troupeau entre les lis.”

Mon amour est à moi et je suis à lui.
Le lin horizontal est notre maison
et je me niche pour dormir sous son aile;
je l’aime avec ma bouche et ma peau.

C’est lui qui veille et il ne me dit pas de veiller
parce que c’est lui la flamme qui m’embrase.
Sa ferveur à ma ferveur se marie
claire comme la lumière qui nous pousse.

Je suis descendue en rase champagne, il est le champ
où je me couche et l’herbe se répand;
c’est mon regard qui vole, ver luisant.

Sans terre, j’irai par terre; il m’appelle.
Je vais sans savoir par où, à la mer ou à la montagne.
Sans sa bouche, dejà je ne sais plus être fontaine.

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França;  Renata Pallottini, (1931 — 2021),  paulista e paulistana, formou-se em Filosofia Pura na PUC — SP, em Direito na USP — Largo São Francisco, em Dramaturgia e Crítica na Escola de Arte Dramática na USP — SP, além de ter estudado teatro em cursos livres da Sourbonne Nouvelle, em Paris, foi dramaturga, professora, ensaísta, tradutora e poeta, deixou-nos vasta obra poética e também textos para teatro, ensaios, literatura infanto-juvenil e traduções; obras: Acalanto (1952),  O Cais da SerenidadeO Monólogo Vivo (1956), A Casa (1958), NósPortugalLivro de Sonetos(1961), A Faca e a Pedra (1962),  Antologia PoéticaOs Arcos da Memória  (1971), Mate é a Cor da Viuvez (contos, 1974), Coração Americano  (1976),  Chão de Palavras (1977), Noite Afora (1978), Cantar meu PovoTita, a Poeta (literatura infantil, 1984), A Menina que queria ser Anja  (1987), Esse Vinho Vadio (1988), Obra Poética (1995) etc, além de várias publicações na área do teatro e ensaios; recebeu prêmios por sua obra.

domingo, 18 de julho de 2021

Renata Pallotini: Cerejas, meu amor*

 
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Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...

Renata Pallotini

Cerises, mon amour

Cerises, mon amour,
mais dans ton corps.
Qu’elles te parcourent
par rondes.

Et qu’elles roulent où
je puisse les chercher
là où la vie commence
et où elle finit

et où toutes les faims
se concentrent
dans le rouge de la chair
des cerises...

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Renata Pallottini, (1931  2021), paulista e paulistana, formou-se em Filosofia Pura na PUC SP, em Direito na USP Largo São Francisco, em Dramaturgia e Crítica na Escola de Arte Dramática na USP SP, além de ter estudado teatro em cursos livres da Sourbonne Nouvelle, em Paris, foi dramaturga, professora, ensaísta, tradutora e poeta, deixou vasta obra poética e também textos para teatro, ensaios, literatura infanto-juvenil e traduções; obras: Acalanto (1952), O Cais da Serenidade, O Monólogo Vivo (1956), A Casa (1958), Nós, Portugal, Livro de Sonetos (1961), A Faca e a Pedra (1962), Antologia Poética, Os Arcos da Memória (1971), Mate é a Cor da Viuvez (contos, 1974), Coração Americano (1976), Chão de Palavras (1977), Noite Afora (1978), Cantar meu Povo, Tita, a Poeta (literatura infantil, 1984), A Menina que queria ser Anja (1987), Esse Vinho Vadio (1988), Obra Poética (1995) etc, além de várias publicações na área do teatro e ensaios; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Renata Pallottini: Há o tempo de nascer

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"Tudo tem a sua ocasião própria
e todo propósito de baixo do céu
tem seu tempo."
Eclesiastes  3:1

Há o tempo de nascer e o de morrer.
Entre os dois são o Homem e seu tempo:
o largo espaço-tempo, claro campo
que vai desde o viver ao não viver.

Há o tempo de cantar e de sofrer
e o de cantar sofrendo, e o de, cantando
sofrer; e há o tempo desse canto,
que o tempo dado ao homem é mercê.

Há o tempo de fazer e o de destruir,
o tempo de sorrir e o de chorar,
de se manchar e de se desmanchar;

há o tempo de abraçar e o de partir
e o de nascer, no tempo de abraçar
e o de morrer, no tempo de partir.

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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S.A., LR Editores Ltda, São Paulo — SP; Renata Pallottini, nascida em 1931, paulista e paulistana, formada em Filosofia na PUC  SP, em Direito na USP  Largo São Francisco e em Dramaturgia e Crítica na Escola de Arte Dramática na USP   SP, além de ter estudado teatro em cursos livres da Sourbonne Nouvelle, em Paris, dramaturga, professora universitária, ensaísta, tradutora e poeta, tem vasta obra poética, além de textos para teatro, ensaios, literatura infanto-juvenil e traduções; bibliografia:  Acalanto  (1952),  O Cais da Serenidade, O Monólogo Vivo (1956), A Casa (1958), Nós, Portugal, Livro de Sonetos, A Faca e a Pedra (1962), Antologia Poética, Os Arcos da Memória (1971), Mate é a Cor da Viuvez (contos, 1974), Coração Americano (1976), Chão de Palavras (1977), Noite Afora (1978), Cantar meu Povo, Tita, a Poeta (literatura infantil 1984), A Menina que queria ser Anja (1987) Esse Vinho Vadio (1988), Obra Poética (1995) etc, além de várias publicações na área de teatro e ensaios; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 2 de junho de 2012

Renata Pallottini: Soneto I

No princípio criou Deus o céu e a terra.
Gênesis 1:1
Primeiro foi a noite. E a noite feita,
desta engendrou-se a luz, julgada boa.
Depois, fez-se o agudo desespero
do céu. E a terra. E as águas separadas.

E um mar se fez, de lúcida colheita
das águas inferiores. A coroa
tornou-se firmamento. "Haja luzeiros" 
ordenou-se ás estrelas debulhadas.

Houve flores estáticas e flores
que procuraram flores; e houve a fome
de carne e amor e dessa fome as dores

e das dores o Homem. Deste, esquiva,
toda fome, sua fêmea, e no seu sexo,
mais uma vez a noite primitiva.
Livro de Sonetos (1961)
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Roteiro da Poesia Brasileira Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo SP; Renata Pallottini, paulista nascida em 1931, tem vasta obra poética e, além disso, dedicou-se também ao teatro, ao ensaio, à literatura infanto-juvenil, à tradução e ao magistério.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Renata Pallottini: As meninas da Rua 17


Chegavam silenciosas, noite alta,
comboiando o estrangeiro
faminto de alma.
Depois, no quarto ao lado,
com homens variados,
faziam explodir os seus gemidos
que ouvíamos sorrindo, sussurrando belezas.
Era a sua verdade?
Era tanto o prazer?
Gemiam por gemer
ou por delicadeza?

De manhã tomavam banho,
um pão com leite e mais nada.
O piso úmido ficava
com vestígios
e pegadas.

Nunca lhes vi bem a cara.
Mas que importância tem isso?

Só tinham a ver comigo
na medida em que era tanto
seu ser simplesmente humano.

É que eu tinha um par de tênis.
E que elas tinham
vinte anos.
Um calafrio diário (2002)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Renata Pallottini, paulista nascida em 1931, tem vasta obra poética e, além disso, dedicou-se também ao teatro, ao ensaio, à literatura infanto-juvenil, à tradução e ao magistério.