sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Hans Magnus Enzensberger: reino das sombras

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[traduzido por Almeida Faria]

i
aqui vejo ainda um lugar
um lugar livre,
aqui na sombra.

ii
esta sombra
não está à venda.

iii
também o mar
projeta talvez uma sombra,
também o tempo.

iv
as guerras das sombras
são jogos:
nenhuma sombra
tira a luz à outra.

v
quem habita a sombra,
é difícil de matar.

vi
por um instante
saio da minha sombra
por um instante.

vii
quem quer ver a luz
tal como ela é
tem de recuar
para a sombra.

viii
sombra
mais clara que este sol:
fresca sombra da liberdade.

ix
totalmente na sombra
desaparece a minha sombra.

x
na sombra
há sempre lugar.

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Hans Magnus Enzensberger

schattenreich

i
hier sehe ich noch einen platz,
einen freien platz,
hier im schatten.

ii
dieser schatten
ist nicht zu verkaufen.

iii
auch das meer
wirft vielleicht einen schatten,
auch die zeit.

iv
die kriege der schatten
sind spiele:
kein schatten
steht dem andern im licht.

v
wer im schatten wohnt,
ist schwer zu töten.

vi
für eine weile
trete ich aus meinem schatten,
für eine weile.

vii
wer das licht sehen will
wie es ist
muss zurückweichen
in den schatten.

viii
schatten
heller als diese sonne:
kühler schatten der freiheit.

ix
ganz im schatten
verschwindet mein schatten.

x
im schatten
ist immer noch platz.
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Hans Magnus Enzensberger — Poemas Políticos, edição bilíngue, Tradução e Nota Bibliográfica de Almeida Faria, 1975, Publicações Dom Quixote, Lisboa  Portugal; Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929,  alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, é poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; bibliografia: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961),  Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (poesia, 1964),  Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum  (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991) Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também faz uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

Lili Leitão: Ouvir estrelas

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“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o juízo.” E eu vos direi, senhores,
Que, para ouvi-las, trago o bolso aberto
E às facadas1 me exponho dos atores.

E as ouço, alegre, das ribaltas perto,
Enquanto a turma dos conquistadores,
Estrila2. E, finda a peça, ativo, esperto,
Inda as procuro pelos bastidores.

Direis agora: “refinado trouxa,
Que conversa com elas tão brejeiro3
O que te dizem na conversa roxa4?"

Eu vos direi: “Gastai para entendê-las,
Pois só quem gasta o burro5 do dinheiro
É que pode, de fato, ouvir estrelas”...

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Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Facada: pedido de dinheiro, muitas vezes sob falsa promessa de restituição (Lili Leitão)
2 Estrilar: zangar-se por algum motivo, exaltar-se. (Houaiss)
3 Brejeiro: brincalhão, gozador; quem tem como características a graciosidade, a simpatia, a vivacidade e, por vezes, certa malícia coquete (idem)
4 Roxo: com muita liberdade ou intimidade (idem)
5 Burro ou burra: caixa geralmente de madeira em que se guardavam e/ou transportavam coisas diversas, especialmente valores, dinheiro etc.; cofre; encher a burra é ganhar muito dinheiro; gastar o burro do dinheiro é gastar muito (idem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização, Apresentação e Introdução de Luiz Antonio Barros, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890  1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua  (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917),  Das duas umaEu aqui e ela láO espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Christian Morgenstern: A caneta que transporta cultura

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[traduzido por Sebastião Uchoa Leite]

Burguês Idílio, ou fábula-cometa
surge, ao levar-se ao bolso uma caneta.

Pois, espetada a capricho, ela aponta
direto e acima uma dourada ponta.

Se em quatro pés ficasse como bicho
a seiva se esvairia num esguicho.

Leva a caneta em ponta (Eis o trato:
para que não caias nunca de quatro).

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Der Kulturbefördernde Füll

Ein wünschbar bürgerlich Idyll
erschafft, wenn du ihn trägst, der Füll.

Er kehrt, nach Vorschrift aufgehoben,
die goldne Spitze stets nach oben.

Wärst du ein Tier und sprängst auf vieren,
er würde seinen Saft verlieren.

Trag einen Füll drum! (Du verstehst:
Damit du immer aufrecht gehst.)
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Canções da Forca — poemas do livro “Alle Galgenlieder”, Christian Morgenstern, Seleção e Transposição Poética de Montez Magno & Sebastião Uchoa Leite, Traduções Semânticas de Leonardo Duch & Rachel Valença e Prefácio/estudo de Sebastião Uchoa Leite, 1983, Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Christian Otto Josef Wolfgang Morgenstern (1871 1914), alemão de Munique, foi jornalista, escritor, tradutor e poeta conhecido por seus versos nonsense, ‘poesia humorística’ ou ‘absurdo literário’ para a sua época; escreveu ensaios e resenhas para periódicos alemães; consta de sua biografia que, aos vinte anos de idade, durante uma excursão com amigos a Werder, próximo a Postdam, ao passarem por uma elevação conhecida como Morro da Forca, por galhofa fundaram  o Clube da Turma da Forca, ocasião em que Morgenstern escreveu poemas grotescos, sem pensar em publicação, os quais foram musicados por um do grupo; continuando a brincadeira, com outras reuniões da Turma, entrava em curso o estilo literário do poeta; bibliografia: Galgenlieder (1905), Palmström (1910), Palma Kunkel e Der Gingganz (publicações póstumas, 1916 e 1919), Alle Galgenlieder (Todas as Canções da Forca, obras reunidas, 1932) etc.; teve poemas musicados, inspirou canções e até pinturas; editou-se em alemão suas obras completas: Lyryk 1887 — 1905 (volume 1, 1988), Lyrik 1906 — 1914 (volume 2, 1992), Humoristische Lyrik (volume 3, 1990), Epishers und Dramatisches (volume 4, 2001), Aphorismen (volume 5, 1987), Kritische Schriffen (volume 6, 1987), Briefwechsel 1878 — 1903  (volume 7, 2005), Briefwechsel 1905 — 1908 (volume 8, 2011),  Briefwechsel 1909 — 1914 ( ... ); Christian Morgenstern conheceu outras culturas e línguas, andejou por cidades europeias (Itália, Suiça, Noruega, Áustria), invariavelmente em busca de um clima favorável à cura da tuberculose que adquirira de sua mãe, e de cuja doença também veio a falecer.

Ernst Stadler: A sentença

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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Num velho livro topei com uma palavra
Que me veio como um golpe e ainda arde em brasa:
E quando me entrego a um turvo prazer
Preferindo brilho, mentira e jogo em vez do puro ser,
Quando acho melhor com supérfluos me enganar,
Como se fosse claro o escuro, como se a vida não tivesse milhares de
portas a fechar,
E repito palavras cuja amplidão nunca senti,
E toco em coisas cujo sentido jamais resolvi,
Quando um sonho bem-vindo me acaricia com mãos de veludo
Aliviando-me do cotidiano sobretudo,
Longe do mundo, alheio ao mais profundo eu,
Então se ergue em mim a palavra: Homem, procura o teu apogeu!

(1914)

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Ernst Stadler

Der Spruch


In einem alten Buche stieß ich auf ein Wort,
Das traf mich wie ein Schlag und brennt durch meine Tage fort:
Und wenn ich mich an trübe Lust vergebe,
Schein, Lug und Spiel zu mir anstatt des Wesens hebe,
Wenn ich gefällig mich mit raschem Sinn belüge,
Als wäre Dunkles klar, als wenn nicht Leben tausend wild verschloßne
Tore trüge,
Und Worte wiederspreche, deren Weite nie ich ausgefühlt,
Und Dinge fasse, deren Sein mich niemals aufgewühlt,
Wenn mich willkommner Traum mit Sammethänden streicht,
Und Tag und Wirklichkeit von mir entweicht,
Der Welt entfremdet, fremd dem tiefsten Ich,
Dann steht das Wort mir auf: Mensch, werde wesentlich!


(1914)
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Poesia Expressionista Alemã: uma antologia, Organização e Tradução de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue ilustrada, 2000, Estação Liberdade, São Paulo  SP; Ernst Maria Richard Stadler (1883  1914), alemão nascido em Colmar  Alsácia, região que historicamente esteve em litígio entre o Império Austro-Húngaro e a França, hoje região administrativa da França, foi um poeta da literatura expressionista alemã; estudou germanística, romanística e linguística comparada em Estraburgo e Munique, fez pós-graduação em Oxford e foi professor em Estraburgo e também ensinou na Universidade de Bruxelas; bibliografia: Präludien (Prelúdios, poesia, 1904), Der Aufbruch (A Partida, poesias, 1914) etc; traduziu obras de Balzac, Shakespeare...; em combate na primeira grande guerra, com três meses no front, foi morto vitimado por uma granada.

Fernando Pessoa: Qual assustado solitário em via escura . . . [soneto] *

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[traduzido por Philadelpho Menezes]

XII

Qual assustado solitário em via escura
que, de imprevisto, para trás volta e nada,
e inda mantém no medo o fardo do que apura
do beira-nada, coisa apenas suspeitada;

e o frio terror pra perto o traz de algo que tece
de lá do nada algum fascínio que o consome,
que pra assustá-lo ainda mais desaparece
se ele se move e é só visível quando some;

assim eu volto em pensamento a este mundo
e nada vendo me tomo de coragem,
mas o pavor, sem causa vista, que me infundo,
dou ao vazio que assume aspecto na miragem.

E em mim, o horror desse mistério, solitário,
vem de não ver nenhum mistério do mistério.

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Fernando Pessoa

XII

As the lone, frighted user of a night-road
Suddenly turns round, nothing to detect,
Yet on his fear's sense keepeth still the load
Of that brink-nothing he doth but suspect;

And the cold terror moves to him more near
Of something that from nothing casts a spell,
That, when he moves, to fright more is not there,
And's only visible when invisible:

So I upon the world turn round in thought,
And nothing viewing do no courage take,
But my more terror, from no seen cause got,
To that felt corporate emptiness forsake,

And draw my sense of mystery's horror from
Seeing no mystery's mystery alone.


Nota deste aprendiz de blogueiro: Fernando Pessoa viveu na África do Sul entre 1896 e 1905, tendo feito seus estudos ali e aprendido fluentemente a língua inglesa, daí ter escrito e publicado poemas neste idioma; quando voltou a viver em Portugal já tinha feito 17 anos de idade; 35 Sonnets pertence ao Pessoa ainda jovem.
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Poemas Ingleses (35 sonnets e Inscriptions) — Fernando Pessoa, Tradução, Introdução/Ensaio e Notas de Philadelpho Menezes e Apresentação de Fernando Segolin, edição bilingue, 1993, Editora Experimento, São Paulo —  SP; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935),  português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário e tradutor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença  (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em vida, além do livro Mensagem, única obra publicada em português, publicou, em inglês, Antinous35 SonnetsEnglish Poems I e IIEnglish Poems III; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Hans Magnus Enzensberger: Débil consolo

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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

A luta de todos contra todos será,
como se soube de círculos
próximos ao Ministério do Interior,
nacionalizada num futuro próximo
até a última mancha de sangue.
Saudações de Hobbes.

Guerra civil com armas desiguais:
o que para um é a declaração do imposto de renda,
para outro é a corrente de bicicleta.
Os envenenadores e os incendiários
terão de fundar um sindicato
para proteger seus locais de trabalho.

Com total abertura de espírito
Funcionam as penitenciárias.
Encadernado em plástico preto, lavável,
Kropotkin está à disposição para estudos:
sistema de ajuda mútua
na natureza. Um débil consolo.

Ouvimos com pesar
que não há justiça
e com pesar ainda maior,
como garantem os círculos em questão
esfregando-se as mãos, que jamais
poderá, deverá e haverá
de existir nada igual.

Controvertido está, como dantes, quem ou o que
tem a culpa. Será o pecado original,
ou a genética? A assistência aos lactantes?
A falta de formação moral?
A dieta errada? O diabo?
O machismo? O capital?

O fato de infelizmente não conseguirmos
deixar de nos estuprar,
de pregarmos na encruzilhada mais próxima
e comermos os restos mortais, seria bom
poder explicá-lo,
bálsamo para a razão.

É verdade que a infâmia cotidiana incomoda,
mas nos assombra pouco.
O que parece, no entanto, enigmático
É a mão dada em silêncio,
a bondade sem razão,
a suavidade angélica.

Portanto está na hora de louvar
com língua fogosa o garçom que escuta longamente
o monólogo do impotente;
o caixeiro-viajante que faz
misericórdia e deixa caducar a cobrança judicial
pouco antes do golpe fatal;

Como também a beata que
inesperadamente esconde, o desertor
a golpear, já sem fôlego, na sua porta;
e o sequestrador que de repente
abandona sua obra confusa com um sorriso
leve, contente, exausto até a morte;

e pomos de lado o jornal
e nos alegramos, encolhendo os ombros, assim
como se faz, quando a novela chega a seu final feliz,
quando a luz é acesa no cinema, e na rua
pára de chover... então nos aguarda
por fim a primeira tragada de cigarro.

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Hans Magnus Enzensberger

Schwacher Trost

Der Kampf aller gegen alle soll,
wie aus Kreisen verlautet,
die dem Innenministerium nahestehn,
demnächst verstaatlicht werden,
bis auf den letzten Blutfleck.
Schöne Grüsse von Hobbes.

Bürgerkrieg mit ungleichen Waffen:
was dem einen die Steuererklärung,
ist dem andern die Fahrradkette.
Die Giftmischer und die Brandstifter
werden eine Gewerkschaft gründen müssen
zum Schutz ihrer Arbeitsplätze.

Aufgeschlossen bis dort hinaus
geht es im Strafvollzug zu.
Abwaschbar, in schwarzes Plastik gebunden,
liegt Kropotkin zum Studium aus:
System der gegenseitigen Hilfe
in der Natur. Ein schwacher Trost.

Wir haben mit Bedauern vernommen,
dass es keine Gerechtigkeit gibt,
und mit noch grösserem Bedauern,
dass es, wie die bewussten Kreise
händereibend versichern, auch nichts
dergleichen je geben kann, soll und wird.

Strittig ist nach wie vor, wer oder was
daran schuld sei. Ist es die Erbsünde
oder die Genetik? die Säuglingspflege?
der Mangel an Herzensbildung?
die falsche Diät? der Gottseibeiuns?
die Männerherrschaft? das Kapital?

Dass wir es leider nicht lassen können,
einander zu notzüchtigen,
an die nächstbeste Kreuzung zu nageln
und die Überreste zu essen, schön wär es,
dafür eine Erklärung zu finden,
Balsam für die Vernunft.

Zwar die tägliche Scheusslichkeit stört,
doch sie wundert uns wenig.
Was aber rätselhaft anmutet, ist
die stille Handreichung,
die grundlose Gutmütigkeit,
sowie die englische Sanftmut.

Also höchste Zeit, mit feuriger Zunge
den Kellner zu loben, der stundenlang
der Tirade des Impotenten lauscht;
den Barmherzigkeit übenden Knäckebrot-
Vertreter, der kurz vor dem tödlichen Schlag
den Zahlungsbefehl sinken lässt;

wie auch die Betschwester, die,
unverhofft den atemlos an ihre Tür
hämmernden Deserteur versteckt;
und den Entführer, der sein wirres Werk
mit einem matten, zufriedenen Lächeln
unversehens aufgibt, zu Tode erschöpft;

und wir legen die Zeitung weg
und freuen uns, achselzuckend, so,
wie wenn der Schmachtfetzen glücklich aus ist,
wenn es hell wird im Kino, und draussen
hat es zu regnen aufgehört, dann blüht uns
endlich der erste Zug aus der Zigarette.
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de  Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger, nascido em 1929, alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, é poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; bibliografia: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht  (1962), Blindenschrift (poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991) Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também faz uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.