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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]
Porque o momento
em que se pronuncia
a palavra feliz
nunca é o momento feliz.
Porque os lábios de quem morre de sede
já não conseguem exprimir sede.
Porque a palavra proletariado
não passa pela boca do proletariado.
Porque quem está desolado
não sente vontade de dizer:
“Eu sou um desolado.”
Porque orgasmo e orgasmo
não podem ser conciliados.
Porque o moribundo, em vez de afirmar:
“Agora estou morrendo”,
apenas emite um ruído surdo
que nós não compreendemos.
Porque são os vivos que
enchem os ouvidos dos mortos
com suas notícias nefastas.
Porque as palavras vêm tarde,
ou cedo demais.
Porque, portanto, é um outro,
sempre um outro
que está falando
e porque aquele
de quem se está falando
cala.
Weitere Gründe dafür, dass die Dichter lügen
Weil der Augenblick,
in dem das Wort glücklich
ausgesprochen wird,
niemals der glückliche Augenblick ist.
Weil der Verdurstende seinen Durst
nicht über die Lippen bringt.
Weil im Munde der Arbeiterklasse
das Wort Arbeiterklasse nicht vorkommt.
Weil, wer verzweifelt,
nicht Lust hat, zu sagen:
»Ich bin ein Verzweifelnder.«
Weil Orgasmus und Orgasmus
nicht miteinander vereinbar sind.
Weil der Sterbende, statt zu behaupten:
»Ich sterbe jetzt«,
nur ein mattes Geräusch vernehmen läßt,
das wir nicht verstehen.
Weil es die Lebenden sind,
die den Toten in den Ohren liegen
mit ihren Schreckensnachrichten.
Weil die Wärter zu spät kommen,
oder zu früh.
Weil es also ein anderer ist,
immer ein anderer,
der da redet,
und weil der,
von dem da die Rede ist,
schweigt.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI
[diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha
Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus
J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis
— SC; Hans Magnus Enzensberger (1929 — 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou
literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg,
Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e
editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente
para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou
a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo
os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh
(poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille
— escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha,
Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura
Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e
morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas,
1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die
Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro
Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros
títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr,
Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.