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sábado, 5 de abril de 2025

Jacques Prévert: O Fuzilado & A Lagartixa

 
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[traduzidos por Carlos Drummond de Andrade]

O fuzilado

As flores, os jardins, os repuxos, os risos,
e a doçura da vida.
Jaz um homem no chão e banha com seu sangue
as lembranças, as flores, repuxos e jardins
e sonhos infantis.
Jaz um homem no chão, qual embrulho sangrento,
e flores e jardins, repuxos e lembranças
e doçura da vida.
Jaz um homem no chão, criança adormecida.

— o —

A lagartixa

A lagartixa do amor
fugiu mais uma vez
deixando-me nos dedos
sua causa. Bem feito:
eu queria prendê-la.

Jacques Prévert

Le fusillé

Les fleurs les jardins les jets d'eau les sourires
Et la douceur de vivre
Un homme est là par terre et baigne dans son sang
Les souvenirs les fleurs les jets d'eau les jardins
Les rêves enfantins
Un homme est là par terre comme un paquet sanglant
Les fleurs les jets d'eau les jardins les souvenirs
Et la douceur de vivre
Un homme est là par terre comme un enfant dormant.

— o —

Le lézard

Le lézard de l'amour
S'est enfui encore une fois
Et m'a laissé sa queue entre les doigts
C'est bien fait
J'avais voulu le garder pour moi.
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Poesia Traduzida: Carlos Drummond de Andrade [várias autorias], edição bilíngue, Organização e Notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães, Introdução de Júlio Castañon Guimarães, Coleção Ás de colete, 2011, Cosac Naify, São Paulo — SP e 7 Letras, Rio de Janeiro — RJ; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contes pour enfants pas sages e Le Petit Lion (Contos para crianças não sábias e O pequeno leão, ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Jacques Prévert: O gato e o pássaro


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[traduzido por Silviano Santiago]

Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
E o gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades

É preciso nunca fazer as coisas pela metade.

Jacques Prévert

Le chat et l’oiseau

Un village écoute désolé
Le chant d’un oiseau blessé
C’est le seul oiseau du village
Et c’est le seul chat du village
Qui l’a à moitié dévoré
Et l’oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l’oiseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l’oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n’arrête pas de pleurer
Si j’avais su que cela te fasse tant de peine
Lui dit le chat
Je l’aurais mangé tout entier
Et puis je t’aurais raconté
Que je l’avais vu s’envoler
S’envoler jusqu’au bout du monde
Là-bas où c’est tellement loin
Que jamais on n’en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse et des regrets

Il ne faut jamais faire les choses à moitié.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 — 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, abandonou o banco escolar aos 15 anos, após receber certificação no ensino primário, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért criou roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Jacques Prévert: O carrinho de mão ou as grandes invenções & Mea culpa & O grande homem


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[traduzidos por Silviano Santiago]

Mea culpa

Errei
Errei
Que enorme erro de ortografia
Eis como escrevi
Girrafa.

— o —

O grande homem

No ateliê do talhador de pedra
onde o encontrei
lhe tiravam medidas
para a posteridade.

— o —

O carrinho de mão ou as grandes invenções

O pavão abre o leque
o acaso faz o resto
Deus toma assento
e o homem empurra.

Jacques Prévert

Mea culpa

C’est ma faute
C’est ma faute
C’est ma très grand faute d’orthographe
Voilà comment j’écris
Giraffe.

— o —

Le grand homme

Chez un tailleur de pierre
où je l’ai rencontré
il faisait prendre ses mesures
pour la postérité.

— o —

La brouette ou les grandes inventions

Le paon fait la roue
le hasard fait le reste
Dieu s’assoit dedans
et l’homme pousse.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; sua obra: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

domingo, 17 de setembro de 2023

Jacques Prévert: Foi o amor que me fez


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[traduzido por Silviano Santiago]

A Jo Warfield

Nasci nua nua
E vivo como nasci
Nasci pequenina
Se cresci depressa
nunca fui outra
E vivo nua nua
A maior parte do tempo
O tempo em que vivo nua
Esse tempo é dinheiro

Foi o amor que me fez
O amor que me fez festa
O amor que me fez fada
Para onde ele se foi
O amante que tive
Ele me dava prazer
me fazia sonhar
me fazia dançar
Dançar sob a sua batuta
Era o meu maestro
Eu o seu corpo de baile

Foi o amor que me fez
O amor que me fez festa
O amor que me fez fada
E te ponho de quatro
quando tenho ganas
Teu amor me faz rir
Teu amor não é verdadeiro
Vamos! sob a minha batuta
E passa logo o dinheiro

Foi o amor que me fez
O amor que me desfez
E me abandonou
O amante que tinha
Para onde ele se foi
Para onde ele se foi
Para onde ele se foi

Jacques Prévert

C’est l’amour qui m’a faite

A Jo Warfield

Je suis née toute nue
Je vis comme je suis née
Je suis née toute petite
Si j’ai grandi trop vite
Jamais je n’ai changé
Et je vis toute nue
Pour la plupart du temps
Ce temps où je vis nue
Ce temps c’est de l’argent

C’est l’amour qui m’a faite
L’amour qui m’a fait fête
L’amour qui m’a fait fée
Où donc est-il parti
L’amoureux que j’avais
Qui me faisait plaisir
Qui me faisait rêver
Qui me faisait danser
Danser à sa baguette
C’était mon chef d’orchestre
Moi son corps de ballet

C’est l’amour qui m’a faite
L’amour qui m’a fait fête
L’amour qui m’a fait fée
Et je vous change en bete
Chaque fois que ça me plaît
Votre amour me fait rire
Votre amour n’est pas vrai
Marchez à ma baguette
Et passez la monnaie

C’est l’amour qui m’a faite
L’amour qui m’a défaite
Et m’a abandonnée
L’amoureux que j’avais
Où s’en est-il allé
Où s’en est-il allé
Où s’en est-il allé.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

domingo, 20 de agosto de 2023

Jacques Prévert: Agora cresci


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[traduzido por Silviano Santiago]

Criança
vivi divertidamente
ria sem parar todos os dias
ria sem parar no duro
e depois vinha uma tristeza de tal modo triste
algumas vezes junto com ela a alegria
Então me julgava desesperado
Na verdade não tinha mais esperança
nada tinha além de estar vivo
estava intacto
contente
e estava triste
mas nunca fazia de conta
Conhecia o gesto para continuar vivo
Balançar a cabeça
para dizer não
balançar a cabeça
para não deixar entrar as idéias dos outros
Balançar a cabeça para dizer não
e sorrir para dizer sim
sim às coisas e às pessoas
às pessoas e às coisas vistas acariciadas
amadas
ou tudo ou nada
Era como era
meio desmiolado
E quando precisava de idéias
para me fazer companhia
chamava por elas
E acorriam
e dizia sim às que me agradavam
as outras jogava-as fora

Agora que cresci
as idéias mudaram também
mas as idéias são sempre as grandes
belas idéias
ideiais idéias
E eu fazendo troça delas
Mas elas me esperam
para se vingar
para me comer
num dia em que estiver muito cansado
mas também as espero
num canto do bosque
vou cortar-lhes o pescoço
cortar-lhes o apetite.

Jacques Prévert

Maintenant j’ai grandi

Enfant
j’ai vécu drôlement
le fou rire tous les jours
le fou rire vraiment
et puis une tristesse tellement triste
quelquefois les deux en même temps
Alors je me croyais désespéré
Tout simplement je n’avais pas d’espoir
je n’avais rien d’autre que d’être vivant
j’étais intact
j’étais content
et j’étais triste
mais jamais je ne faisais semblant
Je connaissais le geste pour rester vivant
Secouer la tête
pour dire non
secouer la tête
pour ne pas laisser entrer les idées des gens
Secouer la tête pour dire non
et sourire pour dire oui
oui aux choses et aux êtres
aux êtres et aux choses à regarder à caresser
à aimer
à prendre ou à laisser
J’étais comme j’étais
sans mentalité
Et quand j’avais besoin d’idées
pour me tenir compagnie
je les appelais
Et elles venaient
et je disais oui à celles qui me plaisaient
les autres je les jetais

Maintenant j’ai grandi
les idées aussi
mais ce sont toujours de grandes idées
de belles idées
d’idéales idées
Et je leur ris toujours au nez
Mais elles m’attendent
pour se venger
et me manger
un jour où je serai très fatigué
Mais moi au coin d’un bois
je les attends aussi
et je leur tranche la gorge
je leur coupe l’appétit.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

sábado, 5 de agosto de 2023

Jacques Prévert: Na loja de flores


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[traduzido por Silviano Santiago]

Um homem entra na loja de flores
e escolhe umas flores
a florista embrulha as flores
o homem enfia a mão no bolso
para pegar o dinheiro
dinheiro para pagar as flores
mas de repente e ao mesmo tempo
ele põe
a mão ao coração
e cai

Enquanto cai
o dinheiro roda por terra
e depois as flores caem
ao mesmo tempo que o homem
ao mesmo tempo que o dinheiro
e a florista fica ali
vendo o dinheiro que roda
as flores que murcham
o homem que morre
tudo isso é muito triste é claro
e é preciso que ela faça alguma coisa
a florista
não sabe o que fazer
não sabe
por onde começar

Há tantas coisas por fazer
pelo homem que morre
pelas flores que murcham
e com o dinheiro
esse dinheiro que roda
que não para de correr.

Jacques Prévert

Chez la fleuriste

Un homme entre chez une fleuriste
et choisit des fleurs
la fleuriste enveloppe les fleurs
l’homme met la main à sa poche
pour chercher l’argent
l’argent pour payer les fleurs
mais il met en même temps
subitement
la main sur son cœur
et il tombe

En même temps qu’il tombe
l’argent roule à terre
et puis les fleurs tombent
en même temps que l’homme
en même temps que l’argent
et la fleuriste reste là
avec l’argent qui roule
avec les fleurs qui s’abîment
avec l’homme qui meurt
évidemment tout cela est très triste
et il faut qu’elle fasse quelque chose
la fleuriste
mais elle ne sait pas comment s’y prendre
elle ne sait pas
par quel bout commencer

Il y a tant de choses à faire
avec cet homme qui meurt
ces fleurs qui s’abîment
et cet argent
cet argent qui roule
qui n’arrête pas de rouler.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert [edição bilíngue] — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; suas obras: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

sábado, 20 de junho de 2020

Jacques Prévert: Canção do carcereiro

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[traduzido por Silviano Santiago]

Aonde vais belo carcereiro
Com essa chave manchada de sangue
Vou soltar aquela que amo
Se ainda for possível
E que tranquei
Ternamente cruelmente
No mais secreto do meu desejo
No mais profundo do meu tormento
Nas mentiras do futuro
Nas bobagens das juras
Quero soltá-la
Quero que seja livre
Até para me esquecer
Até para ir-se embora
Até para voltar
E também para me amar
Ou para amar um outro
Se esse outro lhe agradar
E se ficar um dia sozinho
E ela só em idas
Guardarei apenas
Guardarei sempre
Nas minhas duas mãos côncavas
Até o fim dos dias
A doçura dos seus seios modelados pelo amor.

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Jacques Prévert

Chanson du geôlier

Où vas-tu beau geôlier
Avec cette clé tachée de sang
Je vais délivrer celle que j’aime
S’il en est encore temps
Et que j’ai enfermée
Tendrement cruellement
Au plus secret de mon désir
Au plus profond de mon tourment
Dans les mensonges de l’avenir
Dans les bêtises des serments
Je veux la délivrer
Je veux qu’elle soit libre
Et même de m’oublier
Et même de s’en aller
Et même de revenir
Et encore de m’aimer
Ou d’en aimer un autre
Si un autre lui plaît
Et si je reste seul
Et elle en allée
Je garderai seulement
Je garderai toujours
Dans mes deux mains en creux
Jusqu’à la fin des jours
La douceur de ses seins modelés par l’amour.

(Paroles — 1946)
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; sua obra: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Jacques Prévert: Familiar

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[traduzido por Silviano Santiago]

A mãe faz tricô
O filho vai à guerra
Tudo muito natural acha a mãe
E o pai que faz o pai?
Negocia
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negocia
Tudo muito natural acha o pai
E o filho e o filho
o quê que o filho acha?
Nada absolutamente nada acha o filho
O filho sua mãe faz tricô seu pai negocia ele luta na guerra
Quando tiver terminado a guerra
Negociará com o pai
A guerra continua a mãe continua ela tricota
O pai continua ele negocia
O filho foi morto ele não continua mais
O pai e a mãe vão ao cemitério
Tudo muito natural acham o pai e a mãe
A vida continua a vida com o tricô a guerra os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério.

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Jacques Prévert

Familiale

La mère fait du tricot
Le fils fait la guerre
Elle trouve ça tout naturel la mère
Et le père qu'est-ce qu'il fait le père?
Il fait des affaires
Sa femme fait du tricot
Son fils la guerre
Lui des affaires
Il trouve ça tout naturel le père
Et le fils et le fils
Qu'est-ce qu'il trouve le fils?
Il ne trouve rien absolument rien le fils
Le fils sa mère fait du tricot son père des affaires lui la guerre
Quand il aura fini la guerre
Il fera des affaires avec son père
La guerre continue la mère continue elle tricote
Le père continue il fai des affaires
Le fils est tué il ne continue plus
La père et la mère vont au cimetière
Ils trouvent ça naturel le père et la mère
La vie continue la vie avec le tricot la guerre les affaires
Les affaires la guerre le tricot la guerre
Les affaires les affaires et les affaires
La vie avec le cimetière.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; sua obra: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.