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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Ivo Barroso: Exórdio

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À memória de Dona Leonor de Almeida Portugal
Lorena  e Lencastre* no sesquicentenário da sua morte

Porque falar-vos quero, a cabeleira,
Marquesa, empôo, como usava outrora
fazer-se não de talco, mas de tempo
que já cuidou de ma tornar grisalha.

Antes haja uma pátina no timbre
das palavras triviais que vos dirijo
qual vós mesma fazíeis ao fingir-vos
de improvável pastora num palácio.

Aqui sob este teto onde algum dia
o peito vos sangrou, mas onde o riso
também vos alvejou a flor da boca,
evoco a vossa imagem como alguém
que desejasse celebrar um rito:

ao mesmo tempo um desafio à sombra
que vos envolve e a crença que permite
imaginar transpormos o limite.


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que a portuguesa e lisboeta Dona Leonor de Almeida Portugal, ou Marquesa de Alorna (1750 — 1839), ou ainda Alcipe [seu pseudônimo literário], pertenceu à nobreza e foi poetisa; com a família perseguida e alguns tendo sido executados pelo Marquês de Pombal, desde a infância viveu parte de sua vida encarcerada no convento São Félix, Chelas, Lisboa, com sua mãe e irmã, enquanto o pai esteve preso na Torre de Belém e no Forte de Junqueira; na reclusão, tomou contato com obras de Voltaire, Rousseau, Montesquieu, conheceu a Enciclopédia D’Alembert e Diderot, tornou-se estudiosa, dedicou-se à poesia, aprendeu outras línguas e também traduziu; deixou publicado vários livros e é tida como um dos nomes femininos mais importante da literatura e das artes em Portugal; parte de sua vida também passou no exílio.
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A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (quatro tocatas para clavicórdio e sintetizador, poesias, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Marquesa de Alorna: Eu cantarei um dia da tristeza . . . [soneto]


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Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.

Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os respeitam da mesma natureza.

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, fonte, montanha, flor, corrente,
comigo hão de chorar de amor enredos.

Mas, ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inutilmente.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Marquesa de Alorna (1750 1839), portuguesa e lisboeta, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, ou Alcipe, de pseudônimo literário, pertenceu à nobreza e foi poetisa; devido a disputas familiares na corte, viveu parte de sua vida encarcerada no convento São Félix, em Chelas, com sua mãe, enquanto o pai esteve preso na Torre de Belém e no Forte de Junqueira; também esteve exilada e morou fora do país; presa em Chelas, estudou obras de Rousseau, Voltaire, Montesquieu, Pierre Bayle, conheceu a Enciclopédia D’Alembert e Diderot, e dedicou-se à poesia, as quais foram reunidas em suas obras completas, como Poesias de Chelas; conheceu outras línguas e também traduziu; suas obras: publicadas em vida, De Buonaparte e dos Bourbons, Ensaio sobre a indiferença em matéria de religião, 2 tomos (1820), Elegia à morte de S. A. R. o príncipe do Brazil (1788), e, postumamente, Obras Poéticas de D. Leonor d’Almeida, 6 volumes (Tomos I, II, III, IV, V e VI), e outros textos; pouco conhecida no Brasil, a poeta Marquesa de Alorna é tida como o nome mais importante de autoria feminina em Portugal, onde também vicejaram Florbela Espanca (na primeira metade do século XX) e as “três Marias”, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno que “se uniram para escrever as Novas Cartas Portuguesas na década de 70 também do século XX.