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sábado, 25 de abril de 2026

Jan Wagner: prego

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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

mal na parede e já era o centro,
lançava seu raio para fora
dos quintais, campos, celeiro
de nabos, das granjas, da horta

de rabanetes, ficava mais amplo, mondial;
pendurávamos os chapéus, agasalhos
de lá, capa e guarda-chuvas, molduras,
até que o esquecíamos, daquele olhar

duro ainda ali, quando já tínhamos
nos mudado e cidade e casa e rua
já haviam desaparecido lá em cima tão firme,

tão brilhante sobre leste e oeste,
que serviria para navegarmos no escuro
e a velhos marinheiros de consolo.

Jan Wagner

nagel

kaum in der wand, war er die mirte,
schnellte sein radius
über die gärten, felder, rübenmiete
lunaus, die hühnerställe, das radies-

chenbeet, wurde umfassender, mondial:
wir hängten die hüte auf. wir hängten strick-
jacken und rahmen, hängten regenmäntel
und schirme auf, bis wir ihn fast vergaßen, dessen harter blick

noch da sein wird, wenn wir längst ausgezogen
und stadt und haus und straße
verschwunden sind so unbeirrt weit oben,

so glänzend über west und ost,
daß sich im dunkeln navigieren ließe
nach ihm, und alten seefahrern ein trost.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Jan Wagner: lázaro

 
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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

apenas quatro dias, e logo retornou,
de início cego como um tubérculo, lama
na barba e nos cabelos, saiu do ataúde
rastejando, de uma mãe de lenha.

e ele fedia mesmo contra a brisa,
assim que se sentou, parecia que auscultava
se o coração batia; atrás das saias se abriga
-vam as crianças, quando apontava na curva,

como se não confiasse no chão
que pisa, sequer no próprio passo que sonda.
vimos sua mulher com os olhos cheios
de lágrimas, a três agora sonham.

quatro semanas, a não pensar mais
no sabor de terra na carne, no ocre
na água ou no vinho; quatro meses,
e tudo mais pálido, tudo milagro

-so e já quase esquecido
ele de pé ali de repente atrás na fila
do pão, ouvia-se nos becos escuros de
novo esta voz de pluma que esfola,

como se algo nele estivesse dilace
-rado, se com ¨boa tarde” o abordarão
ou talvez “faz bom tempo, lázaro”,
estende-lhe a mão, prende-se a respiração.

Jan Wagner

lazarus

vier tage nur, dann kehrte er zurück,
erst blind wie eine kartoffel, etwas moder
um bart und haare, kroch aus seinem sarg,
einer hölzernen mutter,

und war noch gegen den wind zu riechen.
er schien zu lauschen, ob sein herz noch schlug,
sobald er saß; versteckt hinter den röcken
die kinder, wenn er um die ecke bog,

als würde er weder dem boden trauen
noch seinem eigenen, tastenden schritt.
wir sahen seine frau mit roten augen.
die beiden schliefen jetzt zu dritt.

vier wochen, bis man nicht länger meinte,
im schinken die erde zu schmecken, den lehm
in wasser oder wein; vier monate,
und alles blasser, alles wundersam

und fast schon vergessen
da steht er plötzlich hinten in der schlange
um brot an, hört man im dunkel der gassen
erneut diese schnarrende feder von stimme,

als ob etwas in ihm zerris-
sen ist, spricht ihn mit „guten abend“ an
vielleicht, mit „schönes wetter, lazarus“,
und streckt die hand aus, hält den atem an.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

domingo, 13 de abril de 2025

Jan Wagner: hipocampo


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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

o que restou não foi a metade do limoncello
da lua sobra nápoles, nem mesmo a suíte
com vista para o golfo; o que restou foi a luz
diluindo-se, o borbulhar por trás dos vidros
grossos no instituto do mar, os cavalos marinhos

refletindo-se; os dois cavalos marinhos
cada um em sua armadura, quase vítreos,
que pareciam mais estar de pé que flutuando,
como se escutassem um ao outro, ou uma suíte
de bach, como as fendas f em um violoncelo.

Jan Wagner

hippocampus

was blieb, war nicht der halbe limoncello
von mond über neapel, nicht die suite
mit blick auf den golf; was blieb, war das verschwimmen-
de licht, das gluckern hinter dicken gläsern
im meeresinstitut, die seepferdchen,

einander spiegelnd; die zwei seepferdchen,
jedes in seiner rüstung, beinahe gläsern,
die eher zu stehen schienen denn zu schwimmen,
als lauschten sie einander, oder einer suite
von bach, wie f-löcher in einem cello.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Jan Wagner: frincha


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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

o verão, quando me chamaram para dentro,
com andorinhas, exatas como escalpelos
rasantes sobre os campos, aqueles maduros
cachos de trovão por detrás da capela,

e no instante em que os gatos se mandaram
pro porão feito um tiro (o instinto dos bichos,
o contato ancestral), quase desaba em mim mesmo,
o abalo da torre, a batida, já eram cinco.

na manhã seguinte, concedeu-nos o vigário
a subida: pombas de carvão, cheiro de incêndio,
o sino-mestre do tempo dos fuggers

nos primeiros passos logo se via a frincha,
que finamente denteada pelo cobre incidia
assim como um inseto preso sob um vidro.

Jan Wagner

riß

der sommer, als sie mich nach drinnen riefen,
mit schwalben, die präzise wie skalpelle
über die felder schnitten, jenen reifen
gewittertrauben hinter der kapelle,

und gerade als die katze wie gestochen
zum keller rannte (der instinkt der tiere,
der urkontakt), fast in mir selbst das krachen,
vom turm der eine schlag, da war es vier.

am nächsten morgen ließ uns der vikar
nach oben: kohletauben, brandgeruch,
die meisterglocke aus der zeit der fugger

beim nähertreten erst sah man den riß,
der feingezackt über das kupfer kroch
wie ein insekt, gefangen unterm glas.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Jan Wagner: as bibliotecas


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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

ocorreu-me alexandria, o escuro enxame
de mariposas sobre ela, a fumaça,
a luz do fogo, que mesmo distante
teria bastado à leitura, e na barriga e na cabeça
muito além da meia-noite o calor silente
de milhares de rolos em chamas; também

paris, nova Iorque, uma única estante
de murmurantes, de idolatrados,
réprobos; a sala de leitura esférica
da britisch library; todas as histórias
reunidas ali dentro, a do almirante,
sua última carta a lady hamilton,

ainda tremendo; no fundo do vaticano,
fólios nunca estudados, pois uma som-
bra basta para esfarelá-los, e o tique-taque
do pó; mas sobretudo penso na biblioteca muni-
cipal, no sujeito que já no primeiro dia
me saltou à vista, sempre ali, folha a folha, à surdina,

devorando os livros, roendo-os, em duelo
com alguns espíritos quaisquer, até ser banido,
ainda o vejo como se fosse ontem, matteo,
que nunca falava, pois talvez não pudesse
salvo um grunhir, alguns poucos gestos,
ou talvez não quisesse. ou porque há muito ardera.

Jan Wagner

die bibliotheken

alexandria fällt mir ein, die dunklen schwärme
von faltern über ihr, der rauch,
der feuerschein, der noch in weiter ferne
zum lesen hätte reichen können, und an stirn und bauch
lange nach mitternacht die stumme wärme
von tausenden verbrannter rollen; auch

paris, new york, ein einziges regal
von murmelnden, von angehimmelten,
verworfenen; der runde lesesaal
der british library, all die versammelten
geschichten darin, vom toten admiral
ein letzter brief an lady hamilton,

noch immer, zitternd; tief im vatikan
folianten, nie studiert, weil schon ein schat-
ten sie zerfallen ließe, und das ticken
des staubs; doch denke ich vor allem an die stadt-
bibliothek, an genen, der vom ersten tag an
mit auffiel, immer da war, heimlich blatt um blatt

die bücher aufaß, fraß, mit irgendwelchen geistern
zu ringen hatte, bis man ihn verbannte,
matteo, den ich schen kann, als ob es gestern
gewesen wäre, der nie sprach, weil er nicht konnte
vielleicht, bis auf ein grunzen, ein paar gesten,
oder weil er nicht wollte, oder weil er längst brannte.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

sábado, 22 de junho de 2024

Jan Wagner: urtiga


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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

não se subestima a urtiga
já leva a urgência no nome  daí pois
suas flores tão branco-flutuantes, virgi
-nal como um sonho de déspotas.

retorna sempre como uma culpa
antiga envia sua tramoia em gírias
sob a grama e o campo no escuro
até algures novamente surgir

um bunker de resistência felpudo, atrás da garagem
pela gravilha rilhante, ao pé do juazeiro: urtiga
como espuma, baba, que sem alarde age,

rasteja até o terreno mais baldio, até que urtiga
germine pura em toda parte, no jardim inteiro urtiga
urge sobre urtiga, urdida com nada mais que urtiga.

Jan Wagner

giersch

nicht zu unterschätzen: der giersch
mit dem begehren schon im namen  darum
die blüten, die so schwebend weiß sind, keusch
wie ein tyrannentraum.

kehrt stets zurück wie eine alte schuld,
schickt seine kassiber
durchs dunkel unterm rasen, unterm feld,
bis irgendwo erneut ein weißes wider-

standsnest emporschießt. hinter der garage,
beim knirschenden kies, der kirsche: giersch
als schäumen, als gischt, der ohne ein geräusch

geschieht, bis hoch zum giebel kriecht, bis giersch
schier überall sprießt, im ganzen garten giersch
sich über giersch schiebt, ihn verschlingt mit nichts als giersch.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Jan Wagner: as xícaras


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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

para Jan Küllwitz

a tarefa era simples, uma xícara,
modelar uma ao agrado do mestre
venerável. ele lançou-se em sua casca
de noz ao mar, refletiu até pronti-
ficar-se do caminho com seu batel
rumo a ásia e então seguiu sua luz

à aldeia do mestre, dormiu ao lus-
co-fusco de tabernas, até que uma xícara
modelasse, uma que tudo rebatesse
ou parecia rebater, mesmo as que o mestre
bem fabricara, uma que nascesse pronta.
chegara a hora, pôs-se na ponta dos cascos,

mesmo não adentrando em uma casa,
apenas em um casebre com uma luz
de sebo, luazinha com seu aro. pronta-
mente ficou pálido, quando sua xícara
foi virada, revirada, quando o mestre
calmo e inalterado bateu e rebateu-

a em pedaços e como ele abateu
uma a uma assim que pôde, e nada, nenhum caco
de apreço, palavra alguma de seu mestre,
nenhum sinal. estaria ele sendo ilu-
dido, ficava mais tolo a cada xícara?
porque não um jarro ou um prato?

onde fazia calor, caiu neblina, a geada de pronto
cobriu o tanque de carpas; sua janela embaçou.
amadurecer a ideia de preencher uma xícara
completamente como a fruta a sua casca...
sentou-se, modelou da manhã até a luz
da noite a sua argila, sempre com o mestre

em mente e nada fez além da mais tênue
terrina de milho; às vezes, passado do ponto,
um pêssego, seus cabelos iam ficando translú-
cidos e brancos, antes que o verão se abates-
se de novo em inverno, e aquele gosto de asco
na boca, pela milésima vez entregou
em forma e cor perfeita-
mente idêntica uma xícara

ao mestre que sorriu, levou a xícara
à luz e bateu-lhe sobre os ombros: pois
estava pronto para o seu primeiro vaso.

Jan Wagner

die tassen

für Jan Küllwitz

die aufgabe war einfach: eine tasse
zu töpfern, die dem ehrwürdigen meister
gefiel. er war auf einer nußschale
von schiff in see gestochen, hatte reif-
lich überlegt, bis er den weg einschlug
nach asien, doch folgte seinem licht

ins dorf des meisters, schlief in zwielicht-
igen kaschemmen, bis er eine tasse
geschaffen hatte, die ihm alles schlug
oder zu schlagen schien, was selbst dem meister
gelungen war, beinahe aus dem stegreif.
es war soweit. er hatte sich in schale

geworfen, auch wenn er in kein chalet,
nur einen schuppen trat mit einem talglicht,
blakender kleiner mond mit seinem reif.
doch wie erblaßte er, als seine tasse
gedreht, gewendet wurde, als der meister
sie ruhig und ohne zorn in stücke schlug

wie er auch jede weitere zerschlug,
sooft er kam. und nichts, keine pauschale
bewertung, nie ein wort von seinem meister,
kein zeichen. führte man ihn hinters licht,
war er mehr narr mit jeder neuen tasse?
warum nicht eine vase, einen armeif?

wo hitze war, kam nebel, deckte reif
den goldfischteich; sein fenster, das beschlug.
zu wachsen, die idee von einer tasse
ganz auszufüllen wie die frucht die schale...
er saß, formte vom morgen bis zum licht
des abends seinen ton, sters mit dem meister

im sinn und nichts als etwas dünne maister-
rine, manchmal, wenn auch überreif,
ein pfirsich, seine haare wurden licht
und weiß, bevor erneut ein sommer umschlug
in winter, und am gaumen jener schale
geschmack, als er zum ungezählten mal
jene in form und farbe ganz und
gar identisch ausschende tasse

dem meister gab der lächelte, die tasse
ins licht hielt und ihm auf die schulter schlug:
denn er war reif für seine erste schale.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.