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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Núbia N. Marques: Necrose *

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
os túmulos de flores insepultas
eram risos da infância dilacerada
trêmulos risos girassóis outonais.

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
a noite que sempre precede ao nada
tinhas as calcinadas expressões do desamparo
e a única árvore abrigo
era a despedida árvore inatingível

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
os ventos que embalavam os cemitérios
nem tinham o balanço de brisas silenciosas
nem eram a ventania alucinada
mas os ventos lentos que ninam a morte.

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
e a desvairada busca do amor
era o réquiem eterno do desencontro.


* Prêmio Jorge de Lima — II Festival de Verão
   de Marechal Deodoro, Alagoas — 1972
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Geometria do Abandono, Editora do Escritor, 1975, São Paulo — SP (Prêmio Pedro Calazans — Prefeitura Municipal de Aracaju — 1975); Núbia Nascimento Marques (1927 1999), nascida em Aracaju SE, foi poeta, escritora e primeira mulher eleita para a Academia Sergipana de Letras; escreveu e publicou Um Ponto Duas Divergentes, poesia (1959), João Ribeiro, o Poeta ensaio (1960), Dimensões Poéticas, poesia (1961), Sinuosas Em Carne e Osso, crônicas (1962), Baladas do Inútil Silêncio, poesia (em parceria com Giselda Morais e Carmelita Pinto Fontes, 1964), Berço de Angústia, romance (1967), Máquinas e Lírios, poesia (1971), Geometria do Abandono, poesia (1975) entre outros títulos.

sábado, 26 de julho de 2014

Núbia N. Marques: Valor

Não importa
desespero do nada
não importa
frio silêncio entre nós
não importa
lágrima insuspeita
não importa
eclipse da jornada

Importa sim
a deserção da vida
para segui-lo
o pouso num trapézio
que oscila entre a infância
a geometria
o medo.



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Geometria do Abandono, Editora do Escritor, 1975, São Paulo — SP (Prêmio Pedro Calazans Prefeitura Municipal de Aracaju 1975); Núbia Nascimento Marques (1927 1999), nascida em Aracaju SE, foi poeta, escritora e primeira mulher eleita para a Academia Sergipana de Letras; escreveu e publicou Um Ponto Duas Divergentes, poesia (1959), João Ribeiro, o Poeta — ensaio (1960), Dimensões Poéticas, poesia (1961), Sinuosas Em Carne e Osso, crônicas (1962), Baladas do Inútil Silêncio, poesia (em parceria com Giselda Morais e Carmelita Pinto Fontes, 1964), Berço de Angústia, romance (1967), Máquinas e Lírios, poesia (1971), Geometria do Abandono, poesia (1975) entre outros títulos.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Núbia N. Marques: Trevas

Que angústia é esta
sem pouso nem regaço
Que medo é este
que alarma as primeiras horas da manhã
Que dor é esta
que traz no seu desatino os nati-mortos do amor.

Flores espalham-se entre assombros
A espada é mais que o lírio
A mentira, verdade de todos
Árvores despidas,
mendigas do carinho
plantadas no chão das madrugadas
morrendo antes da primavera

Que homens são estes
que têm na mão o estigma da morte
antes do milagre da vida
Que agonia é esta
assanhada por ventos perplexos
Que desengano é este
que arrasta consigo as trevas da voz paridas pelo caos

É a noite poeta
É a morte sem termo
o desespero o terror.

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Geometria do Abandono, Editora do Escritor, 1975, São Paulo — SP (Prêmio Pedro Calazans Prefeitura Municipal de Aracaju 1975); Núbia Nascimento Marques (1927 1999), nascida em Aracaju SE, foi poeta, escritora e primeira mulher eleita para a Academia Sergipana de Letras; escreveu e publicou Um Ponto Duas Divergentes, poesia (1959), João Ribeiro, o Poeta — ensaio (1960), Dimensões Poéticas, poesia (1961), Sinuosas Em Carne e Osso, crônicas (1962), Baladas do Inútil Silêncio, poesia (em parceria com Giselda Morais e Carmelita Pinto Fontes, 1964), Berço de Angústia, romance (1967), Máquinas e Lírios, poesia (1971), Geometria do Abandono, poesia (1975) entre outros títulos.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Núbia Marques: Inconseqüência

Fizeram de mim
simum de auroras
depois perguntam-me cinicamente
por que diante de tanta luz
tens a noite aninhada no peito?

Fizeram de mim
pastora que arrebanha luz
depois perguntam-me cinicamente
por que choras diante do caos de estrelas?

Fizeram de mim
criança que nina bonecas e canta ciranda
depois perguntam-me cinicamente
mulher onde estão os machos de tua conquista?

Fizeram de mim
tecelã de sonhos
depois perguntam-me cinicamente
que fazes neste tear-sonâmbulo?

Fizeram de mim
a guardiã da liberdade,
com armas de matéria plástica
depois perguntam-me cinicamente 
por que não defendes os oprimidos?

Vão todos pra merda
seus filhos da puta.(*)

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Geometria do Abandono, Editora do Escritor, 1975, São Paulo  SP (Prêmio Pedro Calazans Prefeitura Municipal de Aracaju 1975); Núbia Nascimento Marques (1927 1999), nascida em Aracaju SE, foi poeta e primeira mulher eleita para a Academia Sergipana de Letras; (*) em 27/06/1975, quando houve o lançamento deste livro aqui em São Paulo, a autora acrescentou nos exemplares, à mão, os dois últimos versos do poema "Inconseqüência" que, neste blogue, estão transcritos em negrito e com asterisco; guardo comigo um exemplar do livro, autografado.