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quarta-feira, 1 de março de 2023

Waldemar Lopes: Soneto das almas vazias

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XXIX

As almas maduravam na surpresa
de viver; e era nítida, na face
e no âmago das coisas, a beleza
imaginada. Embora perdurasse,

em meio à cinza fria, a chama acesa
para a noite do espírito, fugace
foi o pacto do sim contra a dureza
e o anátema do não. Estranho enlace

de esperança e memória! (A duras penas
a mão do tempo, no íntimo do ser,
urde a trama no trânsito dos dias.)

E a perfeição do sonho? Sobra apenas
a vazia surpresa de viver
nas almas maduradas, mas vazias.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da abstração

 
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XXVI

Vem da infância ou da tarde o som errante
das cítaras caladas? Verde flauta
nos laranjais doirados, onde a incauta
alegria, em teu sopro soluçante?

No céu imaginário um anjo ou nauta
em roteiros de nuvens navegante
repõe a solidão no véu do instante,
halo de azul magia. Mas, na pauta

do límpido silêncio, o sopro e o voo
restauram a visão do sonho antigo, o
timbre das vozes mortas. Estrangeiro,

um céu de pedra capta esse ressoo
do rio das memórias, uno e ambíguo,
de si mesmo prisão e prisioneiro.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; suas obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sábado, 30 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto das raízes

 
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XX

De múltiplas imagens se estrutura
essa efígie inconclusa. Aço de medos,
a alquimia do sonho, o ar de aventura,
tons de espanto nos íntimos degredos

em reinos de lembrança; ou a textura
das fibras ancestrais, os arremedos
do que é flama na cinza da moldura:
águas/séculos idos entre os dedos

nos silêncios rurais desentranhando
testemunhos do tempo, luz secreta
ora rememorada, ora vivida;

e os pousos de renúncia mesmo quando
do infinito do ser partia a seta
nas chamas das raízes incendida.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; suas obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da insônia

 
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XXI

Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.

E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias

imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:

em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da meditação

 
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XXIV

A essência decifrada: ao gesto lento
ante o frio cristal, dói a madura
angústia do contido sentimento,
sopro do tempo em meio à selva escura.

No sortilégio dúplice a insegura
luz das certezas, ou pressentimento
da límpida presença, chama pura
na face primitiva. O pensamento

mais ido que vivido; e este cansaço
 sombra de asa no limo dos escombros
ou limite mortal ao sonho e ao passo ;

mais o impulso da herança impressentida:
sobre o cego cristal, fonte de assombros,
joga-se o coração, um deus suicida.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do olvido

 
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XXII

Ante a nave do tempo as misteriosas
ilhas de solidão. Sombra hesitante
em obscura sondagem: mortas rosas
junto aos deuses imêmores. Adiante,

os presságios do olvido, as enganosas
senhas de lenda para o sonho andante,
posto restaure o canto, ainda piedosas,
as dádivas do acaso, em seu instante

fugaz, sopro e semente de poesia;
ressoe no escuro bojo a hora reversa
da aventura perdida; e a nostalgia

colha na asa da noite a sombra leve:
a luz dura da vida jaz submersa
entre a flor desflorida e a estrela breve.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do exílio

 
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XXIII

Mais além, leve e alada, a imaginária
arquitetura irreal, sombra a crescer
sobre a terra dos mortos, solitária.
Na falsa noite não deixou de ser

ouvida a melodia perdulária.
Se acaso o húmus da vida fez nascer
luz esquiva na angústia milenária,
é chegado o momento de esquecer

as obscuras heranças desvividas
por desamor e amor: frágil reinado
em manhãs de magia, pressentidas

além de tempo e espaço. (E, roto o manto,
na torre enoitecida um exilado
rei de si mesmo. Que lhe resta? O canto.)

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da áspera jornada

 

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XXVII

Sob o signo impreciso a meta e as rotas
da mísera aventura. Indecifrada
na superfície neutra a encruzilhada
além do mais-além. Céus de derrotas

na senha das estrelas. Rumo ao nada
sobre o mar das auroras naus remotas
resgatam para o canto as frágeis quotas
da secreta emoção, voz exilada.

Nu, o olhar; os pés cegos ante a fábula,
face e acaso de tudo. O homem não vence o
efêmero das coisas, a parábola

da luz do tempo ao sonho das criaturas.
(No pânico torpor, nós de silêncio
vão recompondo as íntimas roturas.)

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Waldemar Lopes: Soneto do fim

 
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XXX

Não a rosa na pedra. Só a austera
desesperança; e, nela, a inexaurida
visão do que em si mesmo dilacera
o tênue fio que une à morte a vida.

Não o lume no mármore. Ainda a espera
entre o ser e o não-ser, indefinida
antemanhã de oculta primavera
à luz do tempo: seiva, sol, medida

para as searas do verbo; e a ressonância
de secreto clamor, voz encantada
dos sonhos imaturos, dor da infância.

Nem a flor, nem a chama. Só importe
no íntimo da palavra descarnada
o frêmito da vida (também morte).

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.