terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Adalberto Vianna: Raciocinando


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Tudo é mentira! Deus, Moral e Humanidade!
Mentira o céu, mentira a fé, mentira o Amor!
Só se vive do mal, da dor, da iniquidade,
E todo este progresso é morte e despudor!

Há sempre covardia, infâmia, atrocidade,
Canalhas no prazer, canalhas numa dor,
Fingidos que a chorar imploram caridade,
E falsa proteção que imita o benfeitor!

É crime cobiçar os frutos do trabalho,
Pedir junto ao burguês aumento de ordenado,
Alguém que esteja nu não peça um agasalho…

E pobre mortal que queira a Liberdade…
Pois não se vai bolir no cancro alicerçado,
Que se convencionou chamar de Propriedade!

* Nota da pesquisadora e historiadora Yara Aun Khoury, autora do texto/documento A Poesia Anarquista: Publicado em “A Plebe”, São Paulo, 23/07/1927.
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988 [vários autores], Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Yara Aun Khoury, historiadora, no Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História nº 15:
          “É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL — Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
          “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Já Milton Lopes expõe no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
          ‘... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão.
          No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
          Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê — comentava o jornal — as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Paul Géraldy: Expansões


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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Eu gosto, gosto de você
Compreende?
Eu tenho por você uma doidice…
Falo, falo, nem sei o quê,
mas gosto, gosto de você.
Você ouviu bem isso que eu disse?…
Você ri? Eu pareço um louco?
Mas, que fazer para explicar isso direito,
para que você sinta?… O que eu digo é tão oco!
Eu procuro, procuro um jeito…

Não é exato que o beijo só pode bastar.
Qualquer coisa que me afoga, entre soluço e ais.
É preciso exprimir, traduzir, explicar…
Ninguém sente senão o que soube falar.
Vive-se de palavras, nada mais.
Mas é preciso que eu consiga
[Essas palavras e que eu diga,]
e você saiba… Mas, o quê?
Se eu soubesse falar como um poeta que sente,
diga! diria eu mais do que
quando tomo entre as mãos essa cabeça linda
e cem mil vezes, loucamente,
digo e repito e torno a repetir ainda:
Você! Você! Você! Você!

Paul Géraldy

Expansions

Ah! Je vous aime! Je vous aime!
Vous entendez? Je suis fou de vous. Je suis fou...
Je dis des moi, toujours les mêmes...
Mais je vous aime! Je vous aime!
Je vous aime, comprenez-vous?
Vous riez? J’ai l’air stupide?
Mais comment faire alors pour que tu saches bien,
Pour que tu sentes bien? Ce qu’on dit, c’est si vide!
Je cherche, je cherche un moyen...
Ce n’est pas vrai que les baisers peuvent suffire.
Quelque chose m’étouffe, ici, comme un sanglot.
J’ai besoin d’exprimer, d’expliquer, de traduire.
On ne sent tout à fait que ce qu’on a su dire.
On vit plus ou moins à travers des mots.
J’ai besoin de mots, d’analyses.
Il faut, il faut que je te dise...
Il faut que tu saches... Mais quoi!
Si je savais trouver des choses de poète,
en dirais-je plus résponds-moi
que lorsque je te tiens ainsi, petite tête,
et que cent fois et mille fois
je te répète éperdument et te répète:
Toi! Toi! Toi! Toi!...
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Paul Géraldy (1885 1983), ou Paul Lefèvre-Géraldy, francês parisiense, foi dramaturgo e poeta; suas obras: Les petites âmes (poesia, 1908), Toi et Moi (poesia, 1912), La Guerre, Madame! (narrativa, 1916), Les noces d’argent (comédia, 1917), Aimer (comédia, 1921), Les Grands Garçons (comédia, 1922), Robert et Marianne (comédia, 1925), Christine (comédia, 1932), Le prélude (narrativa, 1938), Vestiges (poesia, 1948), Vous et Moi (poesia, 1960), e outros textos em verso, narrativas e dramaturgia (comédias); adaptou para o teatro o romance Duo, de [Sidonie-Gabrielle] Collette.

domingo, 29 de janeiro de 2023

William Shakespeare: Não fiques triste, amigo, à hora em que, sem caução, . . . [soneto]


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[traduzido por Oscar Mendes]

Soneto LXXIV

Não fiques triste, amigo, à hora em que, sem caução,
Vier deter-me um dia esse cruel arresto,
Pois terá minha vida interesse em meus versos
Que devem junto a ti defender-me a lembrança.
O que podes rever, se estes versos revires,
É esta parte de mim que te foi consagrada:
De mim mesmo o melhor, minha alma, a ti pertence,
Se este barro que sou deve ao barro voltar.
E do meu ser assim perdes a lia apenas,
Aos vermes dada em presa à hora em que o corpo morre,
Conquista sem honor da faca de um vilão,
Indigno de encontrar recordação em ti:
      Minha alma o preço faz que nele está incluso,
      E jaz junto de ti, nestes versos, minha alma.

[William Shakespeare] — Obra completa, trad.
Oscar Mendes, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.

William Shakespeare

Sonnet LXXIV

But be contented: when that fell arrest
Without all bail shall carry me away,
My life hath in this line some interest,
Which for memorial still with thee shall stay.
When thou reviewest this, thou dost review
The very part was consecrate to thee:
The earth can have but earth, which is his due;
My spirit is thine, the better part of me:
So, then, thou hast but lost the dregs of life,
The prey of worms, my body being dead;
The coward conquest of a wretch’s knife,
Too base of thee to be remembered.
      The worth of that, is that which it contains,
      And that is this, and this with thee remains

William Shakespeare, em Howard Staunton (ed.), The Globe
Illustrated Shakespeare. The Complete Works, Nova York,
Greenwich House, Crown Publishers, 1986, pp. 2297, 2303-4.
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

sábado, 28 de janeiro de 2023

Guilherme de Almeida: Dor oculta

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Quando uma nuvem nômade destila
Gotas, roçando a crista azul da serra,
Umas brincam na relva; outras, tranqüilas,
Serenamente entranham-se na terra.

E a gente fala da gotinha que erra
De folha em folha e, trêmula, cintila,
Mas nem se lembra da que o solo encerra,
Da que ficou no coração da argila!

Quanta gente, que zomba do desgosto
Mudo, da angustia que não molha o rosto
E que não tomba, em gotas, pelo chão,

Havia de chorar, se adivinhasse
Que há lagrimas que correm pela face
E outras que rolam pelo coração!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Guilherme de Andrade e Almeida (1890 1969), paulista de Campinas, além de jurista e professor de direito, foi poeta, jornalista, cronista social, ensaísta, crítico cinematográfico e tradutor; trabalhou como redator em diversos jornais paulistanos, entre eles O Estado de São Paulo; participante da Semana de Arte Moderna (1922), colaborou nos periódicos Klaxon, Verde e Terra Roxa; consta que a sua produção de "haicais em português" se inicia após seu encontro com Kozo Ichige, cônsul japonês no Brasil, à época, 1936; escreveu e publicou, em poesia: Nós (estréia literária, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (1919), A flor que foi um homem — Narciso (1921), A Frauta que eu perdi (1924), Meu (1925), Raça (1925), Encantamento (1925), Simplicidade (1929), Você (1931), Estudante poeta (1943), Tempo (1944), Poesia Vária (1947), Rua (1961); em prosa: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (ensaio, 1926), Ritmo, Elemento de Expressão (1926), Gente de Cinema (1929), O meu Portugal (1933), A Casa (palestra, 1935), Gonçalves Dias e o Romantismo (conferência, 1944), Histórias, talvez... (1948), As Palavras de Buda (1948); e outros títulos em verso e prosa, além de várias traduções, entre as quais Flores do Mal, de Baudelaire, e Paralelamente, de Verlaine.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Boris Pasternak: Hamlet


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[traduzido por Augusto de Campos]

O murmúrio cessou. Subo ao tablado.
Apoiado ao umbral da porta,
Procuro distinguir no eco apagado
Os desígnios da minha sorte.

A penumbra da noite me devassa
Por trás de mil binóculos iguais.
Se for possível, Abba, meu pai,
Afasta de mim essa taça.

Amo a Tua obstinada trama
E aceito o papel que me foi dado.
Mas agora representam outro drama.
Ao menos dessa vez, deixa-me de lado.

Mas a ordem das cenas foi prevista
E a estrada chega fatalmente ao fim.
Estou só. Tudo afunda em farisaísmo.
Viver não é passear por um jardim.

1957(?)

Boris Pasternak

Гамлет

Гул затих. Я вышел на подмостки.
Прислонясь к дверному косяку,
Я ловлю в далеком отголоске,
Что случится на моем веку.

На меня наставлен сумрак ночи
Тысячью биноклей на оси.
Если только можно, Aвва Oтче,
Чашу эту мимо пронеси.

Я люблю Твой замысел упрямый
И играть согласен эту роль.
Но сейчас идет другая драма,
И на этот раз меня уволь.

Но продуман распорядок действий,
И неотвратим конец пути.
Я один, все тонет в фарисействе.
Жизнь прожить не поле перейти.

1957(?)
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Heine: O conteúdo que um poema encarna . . .

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[traduzido por André Vallias]

O conteúdo que um poema encarna
Jamais surgiu num estalar de dedos;
Se demiurgos não criam do nada,
Ah, muito menos os mortais aedos.

Do preexistente lixo primordial
Foi que eu formei o corpo masculino;
Dele eu tirei o osso com o qual
Moldei o da mulher ainda mais lindo.

O céu saiu do entulho aqui da Terra,
Os anjos desdobrei da mulherada;
Somente pelo esforço do “poeta” 
É que a matéria é valorizada.

Heinrich Heine

Der Stoff, das Material des Gedichts,
Das saugt sich nicht aus dem Finger;
Kein Gott erschafft die Welt aus nichts,
Sowenig wie irdische Singer.

Aus vorgefundenem Urweltsdreck
Erschuf ich die Männerleiber,
Und aus dem Männerrippenspeck
Erschuf ich die schönen Weiber.

Den Himmel erschuf ich aus der Erd'
Und Engel aus Weiberentfaltung;
Der Stoff gewinnt erst seinen Werth
Durch künstlerische Gestaltung.

[1844]
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (Livro das Canções, poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Atta Troll  Ein Sommermachtstraum (Atta Troll  sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Oswald de Andrade: Negro fugido & Azorrague e Senhor feudal


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Negro fugido

O Jerônimo estava numa outra fazenda
Socando pilão na cozinha
Entraram
Grudaram nele
O pilão tombou
Ele tropeçou
E caiu
Montaram nele.

— o —

Azorrague

Chega! Perdoa!
Amarrados na escada
A chibata preparava os cortes
Para a salmoura.

— o —

Senhor feudal

Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Oswald de Sousa Andrade (1890 1954), paulista e paulistano, bacharel em Humanidades e em Direito, foi jornalista, redator, poeta, dramaturgo, escritor, crítico teatral, e um dos expoentes do Modernismo e da Semana de Arte Moderna de 1922 levada a efeito no Teatro Municipal de São Paulo; iniciou-se no jornalismo como redator e crítico teatral do Diário Popular, fez parte do grupo da revista Klaxon (1922 a 1923) e da Revista de Antropofagia (1928 a 1929); colaborou e publicou seus textos em diversos periódicos de sua época: revista A Cigarra, A Vida Moderna, Jornal do Comércio, O Jornal, A Gazeta, Correio Paulistano, Revista do Brasil, Diário de São Paulo, Correio da Manhã, entre outros, e fundou a revista O Pirralho, e, depois, Papel e Tinta, Terra Roxa, juntamente com outros modernistas; percurso literário: revista O Pirralho (humor em português macarrônico, 1912 1917), A recusa (teatro, 1913), Théâtre Brésilien — Mon coeur balance e Leur Âme (com Guilherme de Almeida, 1916), A trilogia do Exílio: I — Os Condenados, II — A estrela de absinto, III — A escada vermelha (romances, de 1922 1934), Memórias sentimentais de João Miramar (romance, 1924), Pau-Brasil (poesia, 1925), Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927), Serafim Ponte Grande (romance, 1933), O homem e o cavalo (teatro, 1934), O rei da vela (teatro, 1937), Marco Zero: I — A revolução melancólica, II — Chão (romances, ambos em 1943), Cântico dos Cânticos para flauta e violão (1945), O escaravelho de ouro (1946), além de manifestos e conferências, e outros textos em verso e prosa e para teatro; de família abastada, Oswald viveu entre o Brasil e a Europa, onde transitou por diversos países.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Novalis: Anseio pela morte


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[traduzido por Felipe Vale da Silva

[Hinos à Noite (VI)]

Abaixo, no ventre da Terra
Muito aquém do reino do Dia
A fúria, a dor e a guerra
anunciam sua oportuna partida
Chegamos em canoa estreita
nas praias do paraíso
Bendita seja a Noite infinda!
Bendito, o sono infinito!
É certo que o Dia acalenta,
mitiga o antigo pesar.
Foi-se o anseio por reinos distantes,
junto ao Pai encontramos um lar.
O que resta fazer neste mundo,
do que vale o amor e apego?
O que é arcaico deixamos de lado,
ao moderno temos menosprezo.
Solitário e aflito é o estado
de quem ama o que está no passado.
Um passado em que a luz dos sentidos
já ardeu com imensa fulgência
Onde a face do Onipresente
era parte da humana vivência.
Em grandor, em sublimidade
remetíamos à diva imagem.
Em que troncos remotos da espécie
esbanjavam em emolumentos;
preferível era a morte e o martírio
pois assim chega-se ao firmamento.
E conquanto o desejo é constante
foi o amor que saiu triunfante.
Um passado onde, ainda jovem
Deus revela sua face à Terra
Por amor à verdade Ele morre
Como poucos, doce vida era
Não acossou de si medo e dor
Isso é prova de seu firme amor.
Com anseio, vivemos inquietos,
encobertos pela noite escura
Hoje nem toda a água do mundo
Poderá saciar esta secura,
Resta a ânsia de voltar para casa
Reviver uma era sagrada
E o que impede o nosso regresso?
Já repousam aqueles que amamos;
a tumba é o limite do nosso caminho;
a nos resta só horror e prantos
Esta busca não visa algo certo
o peito está cheio o mundo é um deserto.
Infinito e misterioso
Nos domina um terror doce e mudo
Creio ouvir, dos profundos recessos
O murmúrio de quem veste luto
É possível que um amigo aguarde,
nos envie um sinal de saudades.
Entreguemo-nos à noiva doce,
mais para além, a Jesus, o amado
Consolai-vos com as trevas da noite
os que amam e os conturbados
Pois, quiçá, em um sonho, nossa algema cai
E seremos entregues aos cuidados do Pai.

Novalis

Sehnsucht nach dem Tode

Hinunter in der Erde Schoß,
Weg aus des Lichtes Reichen,
Der Schmerzen Wut und wilder Stoß
Ist froher Abfahrt Zeichen.
Wir kommen in dem engen Kahn
Geschwind am Himmelsufer an.
Gelobt sei uns die ew’ge Nacht,
Gelobt der ew’ge Schlummer.
Wohl hat der Tag uns warm gemacht
Und welk der lange Kummer.
Die Lust der Fremde ging uns aus,
Zum Vater wollen wir nach Haus.
Was sollen wir auf dieser Welt
Mit unsrer Lieb und Treue.
Das Alte wird hintangestellt,
Was soll uns dann das Neue.
Oh! einsam steht und tiefbetrübt,
Wer heiß und fromm die Vorzeit liebt.
Die Vorzeit wo die Sinne licht
In hohen Flammen brannten,
Des Vaters Hand und Angesicht
Die Menschen noch erkannten.
Und hohen Sinns, einfältiglich
Noch mancher seinem Urbild glich.
Die Vorzeit, wo noch blütenreich
Uralte Stämme prangten
Und Kinder für das Himmelreich
Nach Qual und Tod verlangten.
Und wenn auch Lust und Leben sprach,
Doch manches Herz für Liebe brach.
Die Vorzeit, wo in Jugendglut
Gott selbst sich kundgegeben
Und frühem Tod in Liebesmut
Geweiht sein süßes Leben.
Und Angst und Schmerz nicht von sich trieb,
Damit er uns nur teuer blieb.
Mit banger Sehnsucht sehn wir sie
In dunkle Nacht gehüllet,
In dieser Zeitlichkeit wird nie
Der heiße Durst gestillet.
Wir müssen nach der Heimat gehn,
Um diese heil’ge Zeit zu sehn.
Was hält noch unsre Rückkehr auf,
Die Liebsten ruhn schon lange.
Ihr Grab schließt unsern Lebenslauf,
Nun wird uns weh und bange.
Zu suchen haben wir nichts mehr
Das Herz ist satt die Welt ist leer.
Unendlich und geheimnisvoll
Durchströmt uns süßer Schauer
Mir deucht, aus tiefen Fernen scholl
Ein Echo unsrer Trauer.
Die Lieben sehnen sich wohl auch
Und sandten uns der Sehnsucht Hauch.
Hinunter zu der süßen Braut,
Zu Jesus, dem Geliebten
Getrost, die Abenddämmrung graut
Den Liebenden, Betrübten.
Ein Traum bricht unsre Banden los
Und senkt uns in des Vaters Schoß.

Hymnen an die Nacht [VI]
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; teve textos publicados no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos, dos quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Adalberto Vianna: Cântico Primeiro

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(A Anarquia)

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Heróis do novo Mundo, profetas da Anarquia,
Rasgai todas as leis, falai aos operários;
Havemos de acabar com toda a hipocrisia
E derribar de vez os míseros salários!

Ireis abandonar fosforescências místicas
Mas tereis dessa Luz os sonhos imponentes!
E de sonhar assim com forças silogísticas
Propaga-se a verdade aos seres padecentes.

Iremos transformar do mundo os seus algozes
Mostrarmos no direito a força da igualdade,
Cingirmo-nos ao bem, deixar de ser ferozes
E praticar de fato as leis da Humanidade!

Iremos demonstrar os vícios ignorados
De onde se extrai ainda a louca fantasia;
Iremos cultivar direitos mais sagrados
Apontando ao desprezo a forte burguesia!

(Jornal Liberdade, 1ª quinzena/6/1918, p. 2.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Adalberto Viana, ou Adalberto Vianna, foi poeta, barbeiro e militante anarquista; nos relata Milton Lopes, no Emecê — Boletim do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa — Ano III, nº 10. Novembro de 2008:
     ... Adalberto Viana, barbeiro de profissão, juntamente com onze colegas, redigiu e assinou dois documentos publicados no jornal anarquista Spartacus em sua edição de 18 de outubro de 1919. Eram eles as Bases de Acordo e o Regulamento de Organização do que o jornal intitulava “Um Ensaio de Livre Organização do Trabalho”, que consistia na fundação de um salão para que aqueles profissionais, vítimas das perseguições dos patrões em função de recente greve da categoria pudessem trabalhar. No entanto, o Salão Liberdade, como foi designado por seus 12 fundadores, possuía características diferentes de todos os outros estabelecimentos do gênero. Segundo suas Bases de Acordo, todos os seus 12 fundadores e sócios fariam parte de seu conselho de administração, que se reuniria semanalmente para tratar de todas as questões referentes ao salão. O mesmo conselho, integrado por todos os participantes do Salão, elegeria um administrador, um tesoureiro e um escriturário (que deveriam todos ser trabalhadores do salão) cujas funções poderiam ser revogadas a qualquer momento. O administrador deveria prestar contas duas vezes por mês e toda féria diária entregue ao tesoureiro e depois de contada e conferida juntada à féria bruta, de onde sairia o retorno financeiro para os associados e para o próprio Salão.
     No Salão Liberdade, que se localizaria na rua José Maurício atual República do Líbano, 41) todo associado poderia retirar até 50 mil réis além do que havia produzido, sendo o dinheiro que sobrasse reinvestido no salão. Começando a trabalhar às 8 horas da manhã, os integrantes do Salão se comprometiam a pagar a seus componentes de acordo com o memorial de seu sindicato, a União dos Oficiais de Barbeiro, assim como a cumprir quaisquer resoluções daquele sindicato. Ressalvava-se que “em nenhum caso o Salão poderá pertencer a quem pretenda explorar com ordenados a outros barbeiros; isto é, a quem se proponha a ser patrão”.
     Os princípios autogestionários e de apoio mútuo que orientavam a criação do Salão Liberdade eram produto direto da maneira como os barbeiros anarquistas tiveram que se organizar para sobreviver durante a greve da categoria em 1919. A 02 de agosto de 1919 o Spartacus em sua coluna Ação Proletária noticiava a eclosão da greve dos barbeiros no dia anterior, cansados da exploração patronal, lutando por um salário razoável, participação proporcional nos lucros e abolição completa da gorjeta. “Como se vê  comentava o jornal  as pretensões dos oficiais barbeiros não se limitam a melhorias de ordem econômica, pois a abolição da humilhante gorjeta tem uma significação altamente moral”. No número seguinte o jornal comentava que os barbeiros grevistas estavam exercendo seu ofício nas sedes das associações operárias, tendo como fregueses os trabalhadores e, desta forma, também boicotando as barbearias que permaneciam abertas, furando a greve. ...’;
Edgar Rodrigues, historiador, pesquisador e arquivista, escreve em Os pedreiros da anarquia [VERVE: Revista Semestral do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária/Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº 7 (maio 2005)]:
     “... Conheci e soube de operários barbeiros, Amílcar dos Santos, Adalberto Viana (bom poeta libertário), Daniel Montalvão, Zacarias de Lima, e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho, Antônio Duarte Candeias, Atílio Pessagno, Aquilino Massena, F.G. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita, O Sentido Artístico do Anarquismo). ...”;
Iara Aun Khoury, historiadora, expõe no Texto/Documento A Poesia Anarquista, em Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História São Paulo, volume 8, Nº 15, setembro de 1987/fevereiro de 1988:
     “... É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; [ . . . ]; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância; ...”.