domingo, 31 de março de 2024

José María de Heredia: O banho das ninfas


____________________
[traduzido por João Ribeiro]

Num canto da floresta escura e densa
Por sobre a fonte curva-se um loureiro,
Nua, à ramada a Oréa de suspensa
Sobre a água dependura o corpo inteiro.

Ao banho, as ninfas; rápido e ligeiro!
E ei-las, as manchas de brancura intensa
Dos corpos nus, evípedes; e o cheiro
Que a nuvem d’ouro do cabelo incensa!...

Lançam-se a nado as deusas em peleja
Mas súbito rompendo os negros flancos
Do bosque, o olhar d’um Sátiro flameja...

E, nuas, elas trepam-se aos barrancos...
Tal à vista d’um corvo que fareja
Debanda a multidão dos cisnes brancos!

José María de Heredia

Le bain des nymphes

C’est un vallon sauvage abrité de l’Euxin;
Au-dessus de la Source un noir laurier se penche,
Et la Nymphe, riant, suspendue à la branche,
Frôle d’un pied craintif l’eau froide du bassin.

Ses compagnes, d’un bond, à l’appel du buccin,
Dans l’onde jaillissante où s’ébat leur chair blanche
Plongent, et de l’écume émergent une hanche,
De clairs cheveux, un torse ou la rose d’un sein.

Une gaîté divine emplit le grand bois sombre.
Mais deux yeux, brusquement, ont illuminé l’ombre.
Le satyre!… son rire épouvante leurs jeux;

Elles s’élancent. Tel, lorsqu’un corbeau sinistre
Croasse, sur le fleuve éperdument neigeux
S’effarouche le vol des cygnes du Caÿstre.

[Les Trophées 1893]
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Volume VIII da coleção Antologia da Literatura Mundial, [1960], Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).

sábado, 30 de março de 2024

Áurea Pires da Gama: No ermo


____________________
A paisagem tranquila ainda é a mesma de outrora,
O rio à flórea terra, a estrada entre a verdura,
O bosque ali, mais longe a ramalhada escura
Do extenso cafezal, enflorescido agora.

Do outro lado o pomar, as roças, a fartura...
Contornando a planície onde o rebanho mora
Entre lírios de neve, uma ninfa sonora,
Do pesado silêncio ameniza a tristura.

Erma a velha fazenda escondida na serra.
Como te amei! Se a sorte hoje declara guerra
A esta alma em que a amargura aprofunda as raízes,

Comovida e amorosa eu te contemplo ainda...
Aqui foi que vivi! Saudade, sê benvinda!
Aqui foi que passei meus dias mais felizes.

____________________
Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Áurea Pires da Gama (1876 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos 14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro SP, ali foi cofundadora do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registando ali alguns de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.

sexta-feira, 29 de março de 2024

Delminda Silveira: Vésper


____________________
Ó místico fanal.
Ó meiga filha da saudosa hora,
Vem beijar a cecém que te namora
Do lago no cristal!

Brilham do prado os lumes,
Perpassa a brisa merencória e grata,
Abrem no vai' caçoulas d'oiro e prata
A derramar perfumes.

Nos plainos, nas quebradas,
E sobre o leve azul das ondas mansas
Já solta triste noite as negras tranças
De perlas enastradas.

Vem, astro meu risonho,
Confidente gentil dos meus amores;
E' bela a noite, e eu quero em teus fulgores
Haurir meu doce sonho!

Lá surge ao fim do monte
A meiga Fada que sorri no lago,
Seu brando raio em carinhoso afago,
Já vem beijar-me a fronte.

Ó doce e meiga Diva,
Mensageira celeste da Esperança,
Tu que trazes aos nautas a bonança
Traze-me, traze-me a ventura esquiva!

Capital de Sta. Catarina

____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Delminda Silveira de Souza (1854 1932), ou Brasília Silva, seu pseudônimo mais conhecido, catarinense de Desterro, atual Florianópolis, educou-se com aulas particulares, aprendeu francês, latim e noções de literatura com o professor, escritor e poeta Wenceslau Bueno de Gouveia [1844 1919], foi professora, escritora e poeta; desde jovem, Delminda dedicou-se ao magistério no Colégio Coração de Jesus, da então Desterro, onde lecionou francês e português, mesmo sem ter cursado escola secundária; na mesma época deu início à publicação de seus poemas em jornais e periódicos catarinenses, passando também a colaborar em revistas culturais de âmbito nacional, por exemplo n’A Mensageira — revista literária dedicada à mulher brasileira; pertenceu à Academia Catarinense de Letras, primeira mulher representante daquela instituição; suas obras: Lises e Martírios (poemas, 1908), Cancioneiro (coleção de hinos e poemas, 1914), Passos dolorosos (poesia sacra, “via sacra em versos”, 1931), Indeléveis Versos (oito poemas inéditos escritos em 1908, e outros, publicação póstuma, 1989), Delminda Silveira — obra completa (2009); a poetisa empresta seu nome a instituições e logradouros públicos: Escola de Educação Básica Delminda Silveira, Mondaí SC, Rua Delminda Silveira, Bairro Trindade, Florianópolis SC, Biblioteca do Colégio Sagrado Coração de Jesus, também em Floripa.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Antero de Quental: Na mão de Deus


____________________
Na mão de Deus, na sua mão direita,
descansou, afinal, meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
desci, a passo e passo, a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
a ignorância infantil, despojo vão,
depus do Ideal e da Paixão
a forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
que a mãe leva no colo, agasalhada,
e atravessa, sorrindo vagamente,

selvas, mares, areias do deserto...
dorme o teu sono, coração liberto,
dorme na mão de Deus eternamente!

____________________
O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publicou seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publicou Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Hans Magnus Enzensberger: Middle Class Blues


____________________
[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Nós não temos nada a reclamar.
Nós temos o que fazer.
Nós estamos servidos.
Nós estamos comendo.

A grama cresce,
A curva do PIB,
A unha,
As épocas passadas.

As ruas estão vazias.
As planilhas de balanço perfeitas.
As sirenes se calam.
Aquilo passa.

As pessoas falecidas fizeram seu testamento.
A chuva diminuiu.
A guerra ainda não está declarada.
Aquilo não tem pressa.

Nós comemos a grama.
Nós comemos o PIB.

Nós comemos as unhas.
Nós comemos as épocas passadas.

Nós não temos nada a ocultar.
Nós não temos nada a perder.
Nós não temos nada a dizer.
Nós temos.

A corda do relógio está ajustada.
As condições estão bem definidas.
A louça está lavada.
A última condução está passando.

Ela está vazia.

Nós não temos nada a reclamar.

Nós estamos esperando o que afinal?

Hans Magnus Enzensberger

Middle Class Blues

Wir können nicht klagen.
Wir haben zu tun.
Wir sind satt.
Wir essen.

Das Gras wächst,
Das Sozialprodukt,
Der Fingernagel,
Die Vergangenheit.

Die Straßen sind ler,
Die Abschlüsse sind perfekt.
Die Sirenen schweigen.
Das geht vorüber.

Die Toten haben ihr Testament gemacht.
Der Regen hat nachgelassen.
Der Krieg ist noch nicht erklärt.
Das hat keine Eile.

Wir essen das Gras.
Wir essen das Sozialprodukt.

Wir essen die Fingernägel.
Wir essen die Vergangenheit.

Wir haben nichts zu verheimlichen.
Wir haben nichts zu versäumen.
Wir haben nichts zu sagen.
Wir haben.

Die Uhr ist aufgezogen.
Die Verhältnisse sind geordnet.
Die Teller sind abgespült.
Der letzte Autobus fährt vorbei.

Er ist leer.

Wir können nicht klagen.

Worauf warten wir noch?
____________________
Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis  SC; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

Hölderlin: Diotima


____________________
[traduzido por Antonio Medina Rodrigues]

Vem, dulçor da musa etérea e para mim aplaca
O caos do tempo, ó tu, que outrora os elementos irmanaste,
Em tons de paz do céu me suaviza a fera luta,
Até que aos seios dos mortais se amaine a intriga,
Até que a suave, a ingente, a velha natureza dos humanos
Brote enfim do fermentar do tempo alegre e forte.
E que à viva forma voltes, da gente aos corações sedentos!
Voltes à mesa hospitaleira, e ao santuário voltes!
Pois que, do Espírito colmada, como em neve as flores finas,
Vive ainda e a remirar o sol está Diotima.
Mas foi-se deste mundo o sol do Espírito, o mais belo,
E em caliginosa treva raivam agora tão somente os furacões.

Hölderlin

Diotima

Komm und besänftige mir, die du einst Elemente versöhntest,
Wonne der himmlischen Muse, das Chaos der Zeit,
Ordne den tobenden Kampf mit Friedenstönen des Himmels,
Bis in der sterblichen Brust sich das Entzweite vereint,
Bis der Menschen alte Natur, die ruhige, große,
Aus der gärenden Zeit mächtig und heiter sich hebt.
Kehr’ in die dürftigen Herzen des Volks, lebendige Schönheit!
Kehr’ an den gastlichen Tisch, kehr’ in den Tempel zurück!
Denn Diotima lebt, wie die zarten Blüten im Winter,
Reich an eigenem Geist, sucht sie die Sonne doch auch.
Aber die Sonne des Geists, die schönere Welt, ist hinunter
Und in frostiger Nacht zanken Orkane sich nur.
____________________
Hölderlin: Canto do Destino e outros cantos, Organização, Tradução e Ensaio de Antonio Medina Rodrigues e Apresentação de Nelson Ascher, edição bilíngue, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; em 1784, Hölderlin foi encaminhado para Klosterschule, em Denkendorf, iniciando preparação para o pastorato e ali também fez suas primeiras tentativas literárias; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; suas obras: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.

terça-feira, 26 de março de 2024

Franco de Sá: Nênia

____________________
Neste momento, último, supremo,
Dizendo ao nosso amigo o adeus extremo,
           Amigos, não chorai!
Ele passou da vida nos caminhos
Os pés dilacerando nos espinhos,
           Demais... não teve pai!

Oh, sim! na infância, do viver a aurora,
Na juventude não tiveste uma hora,
           Que não fosse de dor!
Uma esperança, que não fosse rola,
E na taça da vida uma só gota,
           Que não fosse amargor!

Se um dia no horizonte escuro e triste
Uma estrela de luz brilhando viste,
           E adorando-a, talvez,
Fitaste nela leu olhar contente,
O fugaz meteoro de repente
           Nas sombras se desfez.

A arvore fatal donde brotaste
Nos ramos afogou-te a frágil haste,
           Privando-a do sol.
Mas, ao sopro cruel da desventura
Elevou-se lua alma inda mais pura
           Das mágoas no crisol!

Pensando em Deus, passaste pelo mundo,
Sem as asas manchar no lodo imundo
           De fétido paul;
Como por sobre lodaçal impuro
Voa a garça, esquecendo o charco escuro,
           Olhando o céu azul.

E cansaste por fim! Então voando
Foste dos justos reunir-te ao bando
           Junto ao trono de Deus;
E ao mundo, que só dera-te veneno,
Sem pesares, com ânimo sereno
           Disseste o último adeus!

Nada esperavas dele! Se uma trança
De cabelos te dava inda esperança
           De um amor de mulher,
Guardaste no teu peito este segredo,
Ninguém ouviu-te murmurar a medo
           O seu nome sequer.

Nessa agonia, que o viver consome,
Na hora de morrer somente um nome
           Em teus lábios soou.
Era de tua mãe o nome santo,
Que lua alma de filho amava tanto,
           Que, chamando-a, voou!

Foi longo teu sofrer; descansa agora
Onde ludo sorri e ninguém chora,
           Onde tudo é fiel.
Terás por cada dor mil alegrias,
Por cada gota amarga, que bebias,
           Mil ânforas de mel.

Como o cativo na estrangeira praia
As cadeias depõe, se o dia raia
           Que à pátria o reconduz,
Depuseste no exílio um corpo frio,
Ninho sem rouxinol, templo vazio,
           Alâmpada sem luz!

Sobre ele o adeus extremo te dirijo;
Se o mar foi tormentoso e o vento rijo,
           Bonança lá terás.
Da virtude seguiste o duro trilho;
Foste amigo fiel, foste bom filho;
           Adeus, repousa em paz!

Meu Deus, se em minha vida agora calma
Lançares provações, dá que minh’alma
           Saia delas assim!
E que um amigo sobre a minha lousa,
Invocando leu nome, a mesma cousa
           Dizer possa de mim!

(Parnaso Maranhense, Tip. do Progresso,
São Luís do Maranhão, 1861, págs. 35/38.)
____________________
Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Franco de Sá (1836 1856), maranhense de Alcântara, fez seus primeiros estudos no Maranhão e no Rio de Janeiro, frequentou o curso de Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Recife, foi poeta e não teve obra publicada em vida; seus poemas foram reunidos postumamente e editados em Poesias de Antônio Joaquim Franco de Sá (1867); dele, constam composições no Parnaso Maranhense (1861), além de versos esparsos e traduções de trechos de Childe Harold, de Byron, e de Sganarelle, de Moliére, não reunidos em Poesias; o poeta veio a falecer em 28 de janeiro de 1856, ainda estudante do 4º ano de Direito e muito jovem, sem ter completado seus vinte anos de idade.

segunda-feira, 25 de março de 2024

Ernani Rosas: Renúncia de uma Estátua


____________________
talhara um dia a efígie da mulher...
depois, a estátua em ânsia que suponho
ter alma e anseio sem saber sequer...

Depois de pronta a sua branca musa
por sugestão da Arte que o conforta,
quis dar-lhe vida e voz, à argila morta
veio a descrença mórbida e confusa!...

Meditando em seu sonho que o deslumbra
p’la concepção sonâmbula que a lira
não pode definir porque é penumbra!

Nela revive uma existência fátua...
a demência do Artista que a esculpira,
delirando a harmonia desta Estátua!

Rio [1]947

E. Rosas

____________________
Cidade do ócio: entre sonetos e retalhos — Ernani Rosas, Organizado por Zilma Gesser Nunes, 2008, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886 1955), catarinense de Desterro, atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade passou a residir na cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai (Oscar Rosas, político e também poeta, que basicamente lhe garantia as mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs para Nova Iguaçu, também no Rio, onde morreu em difíceis condições; levou uma vida boêmia e sofreu discriminação pela sua gagueira e homossexualidade; foi um homem reservado que tentou ficar o máximo possível no anonimato; colaborou com os periódicos O Imparcial, Maçã, A Época e revista Orpheu (Portugal); obras: Certa Lenda numa Tarde — Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas do Ópio (1918) e Silêncios (sem data); após sua morte, houve o resgate de sua obra poética: em Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Organização de Andrade Muricy (1952) foram incluídos vinte e sete de seus poemas, e em Poesias — Organização de Iaponan Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989) estão reunidos oitenta e oito poemas, manuscritos e plaquetes* encontrados, já nos arquivos da Academia Catarinense de Letras; depois vieram outros estudos: História do Gosto e Outros Poemas — Organização de Ana Brancher (1997) e Cidade do Ócio: entre sonetos e retalhos — Organização de Zilma Gesser Nunes (2008).

* Nota deste Verso e Conversa: plaquetes: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página expõe que, conforme o História do Gosto e Outros Poemas (1997), as plaquetes, em torno de trinta e sete e organizadas pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de papel “de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; por elas, tem-se que Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las: N. Cáspio, A. Luzo, N. Luzo e Rictus da Cruz; já neste Cidade do Ócio: entre sonetos e retalhos, a autora relata os pseudônimos Narciso Cáspio, Antonio Luzo, Narciso Luzo e Alda Trigueiros, além de Rictus da Cruz.

domingo, 24 de março de 2024

Medeiros e Albuquerque: Eu sei, Senhor, que não mereço nada, . . . [soneto]


____________________
Eu sei, Senhor, que não mereço nada,
Mas ponho em tuas mãos, humildemente
Meu coração que sofre. E, resignada,
Minha alma aguarda, confiante e crente.

Quando eu chegar ao termo da jornada
Em que a morte, emboscada, espera a gente,
Tem pena de minh’alma amargurada,
Vê que eu também sou filho e sê clemente

Perdoa-me, meu Deus, se eu sou culpado,
Se tanto crime fiz, tanto pecado,
Que hoje choro contrito... E dá, Senhor,

Que no coro glorioso, que te exalta
No céu profundo, não se sinta a falta
De minha voz cantando o teu louvor!

____________________
Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; José Joaquim da Costa de Medeiros e Albuquerque (1867 1934), pernambucano de Recife, foi funcionário público, jornalista, professor, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista; na imprensa usou também os pseudônimos Armando Quevedo, Atásius Noll, J. dos Santos, Max e Rifiúfio Singapura; escreveu e publicou Pecados (poesia, 1889), Canções da decadência (poesia, 1889), Mãe Tapuia (conto, 1900), Poesias 1893 — 1901 (1904), Contos escolhidos (1907), O escândalo (drama, 1910), Marta (romance, 1920), Fim (poesia, 1922), Teatro meu... e dos outros (1923), O assassinato do general (conto, 1926), Por alheias terras (memória, 1931), Laura (romance, 1933), e muitos outros títulos; foi autor da letra do Hino da República; Medeiros e Albuquerque introduziu e tornou conhecidos os simbolistas franceses no Brasil, tendo sido ele próprio um decadentista e um dos precursores do simbolismo na poesia brasileira.

sábado, 23 de março de 2024

Friedrich Nietzsche: 291. O destino e o estômago. & outros aforismos


____________________
[traduzido por Paulo César de Souza]

288. Até que ponto a máquina humilha. — A máquina é impessoal, subtrai à obra seu orgulho, o que tem de individualmente bom e duvidoso, o que é inerente a todo trabalho não realizado à máquina ou seja, seu tanto de humanidade. Antes, toda compra feita a artesãos era uma distinção da pessoa, e o comprador cercava-se de distintivos dela: os móveis, utensílios e vestimentas tornaram-se, dessa maneira, símbolos de mútua apreciação e afinidade pessoal, enquanto hoje parecemos viver apenas em meio a uma anônima e impessoal escravidão. Não se deve pagar um preço alto demais pela facilitação do trabalho.
289. Quarentena de cem anos. — As instituições democráticas são medidas de quarentena para a antiga peste dos desejos tirânicos: como tais, são muito úteis e muito enfadonhas.
290. O adepto mais perigoso. — O adepto mais perigoso é aquele cuja defecção aniquilaria o partido: ou seja, o melhor adepto.
291. O destino e o estômago. — Um pão com manteiga a mais ou a menos no corpo do jóquei pode decidir corridas e apostas, ou seja, a felicidade ou desgraça de milhares de pessoas.  Enquanto o destino das nações ainda depender dos diplomatas, os estômagos dos diplomatas sempre serão objeto de patriótica aflição. Quousque tandem —*

Nietzsche

288
Inwiefern die Maschine demütigt. — Die Maschine ist unpersönlich, sie entzieht dem Stück Arbeit seinen Stolz, sein individuell Gutes und Fehlerhaftes, was an jeder Nicht-Maschinenarbeit klebt, — also sein bißchen Humanität. Früher war alles Kaufen von Handwerkern ein Auszeichnen von Personen, mir deren Abzeichen man sich umgab: der Hausrat und die Kleidung wurde dergestalt zur Symbolik gegenseitiger Wertschätzung und persönlicher Zusammengehörigkeit, während wir jetzt nur inmitten anonymen und unpersönlichen Sklaventums zu leben scheinen. — Man muß die Erleichterung der Arbeit nicht zu teuer kaufen.
289
Hundertjährige Quarantäne. — Die demokratischen Einrichtungen sind Quarantäne-Anstalten gegen die alte Pest tyrannenhafter Gelüste: als solche sehr nützlich und sehr langweilig.
290
Der gefährlichste Anhänger. — Der gefährlichste Anhänger ist der, dessen Abfall die ganze Partei vernichten würde: also der beste Anhänger.
291
Das Schicksal und der Magen. — Ein Butterbrot mehr oder weniger im Leibe des Jockeys entscheidet gelegentlich über Wettrennen und Wetten, also über Glück und Unglück von Tausenden. — So lange das Schicksal der Völker noch von den Diplomaten abhängt, werden die Mägen der Diplomaten immer der Gegenstand patriotischer Beklemmung sein. Quousque tandem —

* Nota do tradutor Paulo César de Souza:Quousque tandem”: “Até quando?” começo das Catilinárias de Cícero; a frase inteira diz: “Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”.
____________________
Humano, Demasiado Humano: Um Livro para Espíritos Livres, Volume II Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

sexta-feira, 22 de março de 2024

Friedrich Nietzsche: Crepúsculo dos Ídolos — Como se filosofa com o martelo * [Ecce Homo]

Ecce Homo - Como Alguém Se Torna o que É - Saraiva
____________________
[traduzido por Paulo César de Souza]

1.
Esse escrito que não chega a cento e cinqüenta páginas, fatal e alegre no tom, um demônio que ri obra de tão poucos dias que hesito em dizer seu número, é a exceção entre os livros: nada existe de mais substancial, mais independente, mais demolidor de mais malvado. Querendo-se rapidamente fazer uma idéia de como antes de mim tudo estava de cabeça para baixo, comece-se por este livro. O que no título se chama ídolo é simplesmente o que até agora se denominou verdade. Crepúsculo dos ídolos leia-se: adeus à velha verdade...

2.
Não existe realidade, “idealidade”, que não seja tocada nesse escrito ( tocada: que cauteloso eufemismo!...). Não só os ídolos eternos, também os mais jovens, portanto mais senis. As “idéias modernas”, por exemplo. Um forte vento sopra entre as árvores, e em toda parte caem frutos verdades. Há o desperdício de um outono demasiado rico: tropeça-se em verdades, esmaga-se algumas com o pé são tantas... Mas o que se recebe nas mãos nada mais tem de questionável, são decisões. Eu sou o primeiro a ter em mãos o metro para “verdade”, o primeiro a poder decidir. Como se em mim houvesse brotado uma segunda consciência, como se em mim “a vontade” houvesse acendido uma luz sobre o declive pelo qual até então seguia... O declive chamavam-no o “caminho à verdade”... Acabou-se todo “impulso obscuro”, o homem bom precisamente era o que menos consciência tinha do caminho reto.1 E, em toda a seriedade, ninguém antes de mim conhecia o caminho reto, o caminho para cima: apenas a partir de mim há novamente esperanças, tarefas, caminhos a traçar para a cultura eu sou o seu alegre mensageiro...2 Exatamente por isso sou também um destino.

3.
Imediatamente após o término dessa obra, sem perder um só dia, acometi a tremenda tarefa da tresvaloração,3 com um soberano sentimento de orgulho a que nada se compara, a todo instante seguro de minha imortalidade, gravando, com a segurança própria de um destino, signo por signo em tábuas de bronze. O prólogo foi escrito em 3 de setembro de 1888: quando naquela manhã saí ao ar livre, após a redação, dei com o mais belo dia que a Alta Engadina jamais me mostrou transparente, incandescente nas cores contendo todos os opostos, todos os meios-tons entre o gelo e o Sul. Apenas a 20 de setembro deixei Sils-Maria, retido por inundações, por fim há muito o último hóspede desse lugar maravilhoso, ao qual minha gratidão quer fazer o dom de um nome imortal. Após uma viagem com incidentes, até mesmo com perigo de vida no lago de Como, que havia transbordado e que alcancei a altas horas da noite, cheguei na tarde do dia 21 a Turim, meu lugar provado, minha residência de ora em diante. Tomei novamente a mesma habitação que ocupara na primavera, via Carlo Alberto 6, III, em frente ao imponente palazzo Carignano, onde nasceu Vittorio Emanuele, com vista para a piazza Carlo Alberto e para as montanhas além. Sem vacilar e sem deixar-me distrair um só instante, atirei-me novamente ao trabalho: restava por concluir apenas o último quarto da obra. A 30 de setembro, grande vitória; o sétimo dia; ociosidade de um deus à margem do Pó. No mesmo dia escrevi o prólogo ao Crepúsculo dos ídolos, cujas provas a corrigir haviam sido meu descanso em setembro. Jamais vivi um tal outono, nem julguei possível algo semelhante sobre a Terra um Claude Lorrain ao infinito, cada dia da mesma perfeição indomável.

Nietzsche por Rasmusaagaard | Filó | Ilustração e Palavras
Friedrich Nietzsche

Götzen-Dämmerung Wie man mit dem Hammer philosophiert

1.
Diese Schrift von noch nicht 150 Seiten, heiter und verhängnisvoll im Ton, ein Dämon, welcher lacht , das Werk von so wenig Tagen, daß ich Anstand nehme, ihre Zahl zu nennen, ist unter Büchern überhaupt die Ausnahme: es gibt nichts Substanzreicheres, Unabhängigeres, Umwerfenderes  Böseres. Will man sich kurz einen Begriff davon geben, wie vor mir alles auf dem Kopfe stand, so mache man den Anfang mit dieser Schrift. Das, was Götze auf dem Titelblatt heißt, ist ganz einfach das, was bisher Wahrheit genannt wurde. Götzen-Dämmerung  auf deutsch: es geht zu Ende mit der alten Wahrheit...

2.
Es gibt keine Realität, keine »Idealität«, die in dieser Schrift nicht berührt würde ( berührt: was für ein vorsichtiger Euphemismus!...). Nicht bloß die ewigen Götzen, auch die allerjüngsten, folglich altersschwächsten. Die »modernen Ideen« zum Beispiel. Ein großer Wind bläst zwischen den Bäumen, und überall fallen Früchte nieder  Wahrheiten. Es ist die Verschwendung eines allzureichen Herbstes darin: man stolpert über Wahrheiten, man tritt selbst einige tot  es sind ihrer zu viele... Was man aber in die Hände bekommt, das ist nichts Fragwürdiges mehr, das sind Entscheidungen. Ich erst habe den Maßstab für »Wahrheiten« in der Hand, ich kann erst entscheiden. Wie als ob in mir ein zweites Bewußtsein gewachsen wäre, wie als ob sich in mir »der Wille« ein Licht angezündet hätte über die schiefe Bahn, auf der er bisher abwärts lief... Die schiefe Bahn  man nannte sie den Weg zur Wahrheit«... Es ist zu Ende mit allem »dunklen Drang«, der gute Mensch gerade war sich am wenigsten des rechten Wegs bewußt... Und allen Ernstes, niemand wußte vor mir den rechten Weg, den Weg aufwärts: erst von mir an gibt es wieder Hoffnungen, Aufgaben, vorzuschreibende Wege der Kultur  ich bin deren froher Botschafter... Eben damit binich auch ein Schicksal. 

3.
Unmittelbar nach Beendigung des eben genannten Werks und ohne auch nur einen Tag zu verlieren, griff ich die ungeheure Aufgabe der Umwertung an, in einem souveränen Gefühl von Stolz, dem nichts gleichkommt, jeden Augenblick meiner Unsterblichkeit gewiß und Zeichen für Zeichen mit der Sicherheit eines Schicksals in eherne Tafeln grabend. Das Vorwort entstand am 3 September 1888: als ich morgens, nach dieser Niederschrift, ins Freie trat, fand ich den schönsten Tag vor mir, den das Ober-Engadin mir je gezeigt hat  durchsichtig, glühend in den Farben, alle Gegensätze, alle Mitten zwischen Eis und Süden in sich schließend.  Erst am 20 September verließ ich Sils-Maria, durch Überschwemmungen zurückgehalten, zuletzt bei weitem der einzige Gast dieses wunderbaren Orts, dem meine Dankbarkeit das Geschenk eines unsterblichen Namens machen will. Nach einer Reise mit Zwischenfällen, sogar mit einer Lebensgefahr im überschwemmten Como, das ich erst tief in der Nacht erreichte, kam ich am Nachmittag des 21. in Turin an, meinem bewiesenen Ort, meiner Residenz von nun an. Ich nahm die gleiche Wohnung wieder, die ich im Frühjahr innegehabt hatte, via Carlo Alberto 6, III, gegenüber dem mächtigen palazzo Carignano, in dem Vittorio Emanuele geboren ist, mit dem Blick auf die piazza Carlo Alberto und drüber hinaus aufs Hügelland. Ohne Zögern und ohne mich einen Augenblick abziehn zu lassen, ging ich wieder an die Arbeit: es war nur das letzte Viertel des Werksnoch abzutun. Am 30. September großer Sieg; siebenter Tag; Müßiggang eines Gottes am Po entlang. Am gleichen Tage schrieb ich noch das Vorwort zur »Götzen-Dämmerung«, deren Druckbogen zu korrigieren meine Erholung im September gewesen war.  Ich habe nie einen solchen Herbst erlebt, auch nie etwas der Art auf Erden fürmöglich gehalten  ein Claude Lorrain ins Unendliche gedacht, jeder Tag von gleicher unbändiger Vollkommenheit. 

Notas do tradutor, com acréscimos deste atrevido aprendiz de blogueiro:
* “Como se filosofa com o martelo”: sobre o sentido da expressão, ver o prólogo (de Crepúsculo dos Ídolos): “... ídolos eternos, nos quais se toca com o martelo como com um diapasão  não existem ídolos mais velhos, mais convencidos, mais ocos...”; (do mesmo prólogo, este atrevido aprendiz de blogueiro acrescenta): "Também este livro — seu título já o revela — é sobretudo um descanso, um torrão banhado de sol, uma escapada para o ócio de um psicólogo. Talvez também uma nova guerra? E serão perscrutados novos ídolos?... Este pequeno livro é uma grande declaração de guerra; e, quanto ao escrutínio de ídolos, desta vez eles não são ídolos da época, mas ídolos eternos, aqui tocados com o martelo como se este fosse um diapasão — não há, absolutamente, ídolos mais velhos, mais convencidos, mais empolados... E tampouco mais ocos... Isso não impede que sejam os mais acreditados; e, principalmente no caso mais nobre, tampouco são chamados de ídolos...".
1. Alusão a uma passagem do Fausto de Goethe: “Um homem bom, em seu impulso obscuro / Tem consciência do caminho reto”.
2. “Alegre mensageiro”: a expressão traz uma alusão ao evangelho (boa nova, alegre mensagem  frobe Botschaft, em alemão).
3. Refere-se à redação do Anticristo. Ver a Nota 4 do prólogo (este atrevido aprendiz de blogueiro acrescenta a nota aludida: "Referência ao Anticristo, inicialmente concebido como o primeiro livro de uma obra em quatro volumes com o título geral de Tresvaloração dos valores. ...").
____________________
Ecce Homo — Como Alguém se Torna o que é: Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 2ª edição, 4ª reimpressão, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauerals Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.