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[traduzido por Paulo César de
Souza]
1.
Esse escrito que não chega a cento e cinqüenta páginas,
fatal e alegre no tom, um demônio que ri — obra de tão poucos dias que hesito
em dizer seu número, é a exceção entre os livros: nada existe de mais
substancial, mais independente, mais demolidor — de mais malvado. Querendo-se
rapidamente fazer uma idéia de como antes de mim tudo estava de cabeça para
baixo, comece-se por este livro. O que no título se chama ídolo é simplesmente
o que até agora se denominou verdade. Crepúsculo dos ídolos — leia-se: adeus à
velha verdade...
2.
Não existe realidade, “idealidade”, que não seja tocada
nesse escrito (— tocada: que cauteloso eufemismo!...). Não só os ídolos
eternos, também os mais jovens, portanto mais senis. As “idéias modernas”, por
exemplo. Um forte vento sopra entre as árvores, e em toda parte caem frutos —
verdades. Há o desperdício de um outono demasiado rico: tropeça-se em verdades,
esmaga-se algumas com o pé — são tantas... Mas o que se recebe nas mãos nada
mais tem de questionável, são decisões. Eu sou o primeiro a ter em mãos o metro
para “verdade”, o primeiro a poder decidir. Como se em mim houvesse brotado uma
segunda consciência, como se em mim “a vontade” houvesse acendido uma luz sobre
o declive pelo qual até então seguia... O declive — chamavam-no o “caminho à
verdade”... Acabou-se todo “impulso obscuro”, o homem bom precisamente era o
que menos consciência tinha do caminho reto.1 E, em toda a seriedade, ninguém
antes de mim conhecia o caminho reto, o caminho para cima: apenas a partir de
mim há novamente esperanças, tarefas, caminhos a traçar para a cultura — eu sou
o seu alegre mensageiro...2 Exatamente por isso sou também um destino. —
3.
Imediatamente após o término dessa obra, sem perder um só
dia, acometi a tremenda tarefa da tresvaloração,3 com um soberano
sentimento de orgulho a que nada se compara, a todo instante seguro de minha
imortalidade, gravando, com a segurança própria de um destino, signo por signo
em tábuas de bronze. O prólogo foi escrito em 3 de setembro de 1888: quando
naquela manhã saí ao ar livre, após a redação, dei com o mais belo dia que a
Alta Engadina jamais me mostrou — transparente, incandescente nas cores
contendo todos os opostos, todos os meios-tons entre o gelo e o Sul. — Apenas a
20 de setembro deixei Sils-Maria, retido por inundações, por fim há muito o
último hóspede desse lugar maravilhoso, ao qual minha gratidão quer fazer o dom
de um nome imortal. Após uma viagem com incidentes, até mesmo com perigo de
vida no lago de Como, que havia transbordado e que alcancei a altas horas da
noite, cheguei na tarde do dia 21 a Turim, meu lugar provado, minha residência
de ora em diante. Tomei novamente a mesma habitação que ocupara na primavera,
via Carlo Alberto 6, III, em frente ao imponente palazzo Carignano, onde nasceu
Vittorio Emanuele, com vista para a piazza Carlo Alberto e para as montanhas
além. Sem vacilar e sem deixar-me distrair um só instante, atirei-me novamente
ao trabalho: restava por concluir apenas o último quarto da obra. A 30 de
setembro, grande vitória; o sétimo dia; ociosidade de um deus à margem do Pó.
No mesmo dia escrevi o prólogo ao Crepúsculo dos ídolos, cujas provas a
corrigir haviam sido meu descanso em setembro. — Jamais vivi um tal outono, nem
julguei possível algo semelhante sobre a Terra — um Claude Lorrain ao infinito,
cada dia da mesma perfeição indomável. —
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| Friedrich Nietzsche |
Götzen-Dämmerung — Wie man mit dem Hammer philosophiert
Diese Schrift von noch nicht 150 Seiten, heiter und verhängnisvoll im Ton, ein Dämon, welcher lacht —, das Werk von so wenig Tagen, daß ich Anstand nehme, ihre Zahl zu nennen, ist unter Büchern überhaupt die Ausnahme: es gibt nichts Substanzreicheres, Unabhängigeres, Umwerfenderes — Böseres. Will man sich kurz einen Begriff davon geben, wie vor mir alles auf dem Kopfe stand, so mache man den Anfang mit dieser Schrift. Das, was Götze auf dem Titelblatt heißt, ist ganz einfach das, was bisher Wahrheit genannt wurde. Götzen-Dämmerung — auf deutsch: es geht zu Ende mit der alten Wahrheit...
2.
Es gibt keine Realität, keine »Idealität«, die in dieser Schrift nicht berührt würde (— berührt: was für ein vorsichtiger Euphemismus!...). Nicht bloß die ewigen Götzen, auch die allerjüngsten, folglich altersschwächsten. Die »modernen Ideen« zum Beispiel. Ein großer Wind bläst zwischen den Bäumen, und überall fallen Früchte nieder — Wahrheiten. Es ist die Verschwendung eines allzureichen Herbstes darin: man stolpert über Wahrheiten, man tritt selbst einige tot — es sind ihrer zu viele... Was man aber in die Hände bekommt, das ist nichts Fragwürdiges mehr, das sind Entscheidungen. Ich erst habe den Maßstab für »Wahrheiten« in der Hand, ich kann erst entscheiden. Wie als ob in mir ein zweites Bewußtsein gewachsen wäre, wie als ob sich in mir »der Wille« ein Licht angezündet hätte über die schiefe Bahn, auf der er bisher abwärts lief... Die schiefe Bahn — man nannte sie den Weg zur Wahrheit«... Es ist zu Ende mit allem »dunklen Drang«, der gute Mensch gerade war sich am wenigsten des rechten Wegs bewußt... Und allen Ernstes, niemand wußte vor mir den rechten Weg, den Weg aufwärts: erst von mir an gibt es wieder Hoffnungen, Aufgaben, vorzuschreibende Wege der Kultur — ich bin deren froher Botschafter... Eben damit binich auch ein Schicksal. —
3.
Unmittelbar nach Beendigung des eben genannten Werks und ohne auch nur einen Tag zu verlieren, griff ich die ungeheure Aufgabe der Umwertung an, in einem souveränen Gefühl von Stolz, dem nichts gleichkommt, jeden Augenblick meiner Unsterblichkeit gewiß und Zeichen für Zeichen mit der Sicherheit eines Schicksals in eherne Tafeln grabend. Das Vorwort entstand am 3 September 1888: als ich morgens, nach dieser Niederschrift, ins Freie trat, fand ich den schönsten Tag vor mir, den das Ober-Engadin mir je gezeigt hat — durchsichtig, glühend in den Farben, alle Gegensätze, alle Mitten zwischen Eis und Süden in sich schließend. — Erst am 20 September verließ ich Sils-Maria, durch Überschwemmungen zurückgehalten, zuletzt bei weitem der einzige Gast dieses wunderbaren Orts, dem meine Dankbarkeit das Geschenk eines unsterblichen Namens machen will. Nach einer Reise mit Zwischenfällen, sogar mit einer Lebensgefahr im überschwemmten Como, das ich erst tief in der Nacht erreichte, kam ich am Nachmittag des 21. in Turin an, meinem bewiesenen Ort, meiner Residenz von nun an. Ich nahm die gleiche Wohnung wieder, die ich im Frühjahr innegehabt hatte, via Carlo Alberto 6, III, gegenüber dem mächtigen palazzo Carignano, in dem Vittorio Emanuele geboren ist, mit dem Blick auf die piazza
Carlo Alberto und drüber hinaus aufs Hügelland. Ohne Zögern und ohne mich einen Augenblick abziehn zu lassen, ging ich wieder an die Arbeit: es war nur das letzte Viertel des Werksnoch abzutun. Am 30. September großer Sieg; siebenter Tag; Müßiggang eines Gottes am Po entlang. Am gleichen Tage schrieb ich noch das Vorwort zur »Götzen-Dämmerung«, deren Druckbogen zu korrigieren meine Erholung im September gewesen war. — Ich habe nie einen solchen Herbst erlebt, auch nie etwas der Art auf Erden fürmöglich gehalten — ein Claude Lorrain ins Unendliche gedacht, jeder Tag von gleicher unbändiger Vollkommenheit. —
Notas do tradutor, com acréscimos deste atrevido aprendiz de blogueiro:
* “Como se filosofa com o martelo”:
sobre o sentido da expressão, ver o prólogo (de Crepúsculo dos Ídolos): “... ídolos eternos, nos quais se
toca com o martelo como com um diapasão — não existem ídolos mais velhos, mais
convencidos, mais ocos...”; (do mesmo prólogo, este atrevido aprendiz de blogueiro acrescenta): "Também este livro — seu título já
o revela — é sobretudo um descanso, um torrão banhado de sol, uma escapada para
o ócio de um psicólogo. Talvez também uma nova guerra? E serão perscrutados
novos ídolos?... Este pequeno livro é uma grande declaração de guerra; e,
quanto ao escrutínio de ídolos, desta vez eles não são ídolos da época, mas
ídolos eternos, aqui tocados com o martelo como se este fosse um diapasão — não
há, absolutamente, ídolos mais velhos, mais convencidos, mais empolados... E
tampouco mais ocos... Isso não impede que sejam os mais acreditados; e,
principalmente no caso mais nobre, tampouco são chamados de ídolos...".
1. Alusão a uma passagem do Fausto
de Goethe: “Um homem bom, em seu impulso obscuro / Tem consciência do caminho
reto”.
2. “Alegre mensageiro”: a expressão
traz uma alusão ao evangelho (boa nova, alegre mensagem — frobe Botschaft, em
alemão).
3. Refere-se à redação do
Anticristo. Ver a Nota 4 do prólogo (este atrevido aprendiz de blogueiro acrescenta a nota aludida: "Referência ao Anticristo, inicialmente concebido como o primeiro livro de uma obra em quatro volumes com o título geral de Tresvaloração dos valores. ...").
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Ecce Homo — Como Alguém se Torna o que
é: Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 2ª edição,
4ª reimpressão, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche
(1844 — 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha,
foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou
na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor
de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O
Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste
der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a
1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß.
Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para
Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente
publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador
(Shopenhauerals Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões
sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile,
1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra,
um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 — 1885), Além
do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse,
1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo
dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner,
um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der
Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo,
1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas
pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.