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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Genésio dos Santos: Brincando com fogo na zero-dezoito

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                    Século passado, final da década de setenta ou início da de oitenta, sei lá... Faz tanto tempo! A Agência tinha folgadamente mais de dois mil funcionários ocupando os vinte e três andares do prédio e subsolos, os dez andares do prédio anexo onde funcionava a seção Cacex, os quatro andares do prédio da Líbero, 595 onde hoje é uma Agência dos Correios e as mais de vinte seções externas que se esparramavam pela paulicéia. Para se ter uma idéia, a Sete de Abril, a Barão de Duprat, a Previdência (ex-Nove de Julho) e a Álvares Penteado hoje CCBB eram seções da zero-dezoito, ex-Agência Centro São Paulo.

                    Naquela época a sociedade clamava por liberdades democráticas e os ventos da democracia pareciam ser só ventos. Época de retorno de exilados. Época de bancas de jornal incendiadas na cidade pelo simples fato de veicularem semanários que combatiam com contundência o governo vigente. É claro, isso também acabava refletindo nos ânimos, ansiedades, ações e paixões de boa parte dos colegas em seus locais de trabalho. Era um ambiente de não-equilíbrios consistentes, um ambiente de rupturas. Tudo parecia chacoalhar a todo momento: coragem e medos disputavam espaços fora e dentro do banco, o que propiciava que situações de relacionamento pessoal na agência fossem alardeadas e também resolvidas na base do oito-ou-oitenta, sem meio-termo. É nessa conjuntura que trabalhavam, numa mesma seção, Fulano, Sicrano e Beltrano.

                    Um dia, em roda de boteco, Fulano, despropositadamente, teria tecido comentário do tipo “com um litro de gasolina e uma caixa de fósforos, se bota fogo no banco”. Sicrano, um encarregado que não bicava com Fulano, soubera disso e, sem pensar duas vezes, fora cochichar no ouvido de Beltrano. Só que Beltrano tinha cargo de chefia na administração da agência e levou o caso adiante. Também não quis pensar duas vezes. Por escrito, mas sem citação da fonte, inquiriu formalmente Fulano: "se era verdade, se ele confirmava que teria pronunciado aquilo e, se sim, o motivo de tal pronunciamento.".

                    Como com interrogatório oficial e com fogo não se brinca, Fulano, alarmado, pediu socorro a um mano. Ponderação daqui, ponderação dali, resolveu-se que a resposta formal seria no sentido de que a conversa não tinha havido, que tudo não passava de boato, que boato não é fato, e que Fulano, o inquirido, não via sentido naquele questionamento. Declarou que, como funcionário com mais de vinte anos na casa e com cursos de aperfeiçoamento técnico pagos pelo Banco, jamais ousaria pensar em tal atitude. Acrescentou que nunca tivera problemas de ordem disciplinar na empresa e que dependia totalmente dela. Além disso, invocou que tudo o que dizia na carta-resposta podia ser confirmado por seus colegas de trabalho e amigos, e, pensadamente, arrolou como testemunhas, além de seus amigos, alguns desafetos com quem atritava no serviço e, dentre estes, Sicrano, o suspeito de ter iniciado o bafafá ao segredar com o chefe.

                    Carta respondida, após alguns dias e algum suspense, Beltrano chama Fulano para uma reunião à parte e a portas fechadas, com o objetivo de comunicar o desfecho do caso. Após preleção, Beltrano, o chefe, informou que a Agência dava o assunto por encerrado e, em atitude quase paternal, pondo fim à rápida conversa, aconselhou Fulano, o inquirido: “Você precisa escolher melhor os seus amigos!”

                    Eis o “causo” do incêndio que não houve... Mas houve, sim, um grande incêndio na zero-dezoito. Foi na década de cinqüenta, com o prédio ainda em construção e todo cheio de andaimes, portanto, antes de sua inauguração. Pelo menos é o que me contaram. Ah, antes da construção do prédio, a zero-dezoito ficava na Álvares Penteado, atual CCBB.

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CD Histórias da História de uma Agência — abril de 2007Genésio dos Santos, cronista e poeta, teve menção honrosa pela participação no Concurso em homenagem aos 90 anos da Ag. São Paulo (zero-dezoito), ex-Ag. Centro do Banco do Brasil, em São Paulo; o cronista, desde que ingressou no BB em agosto/1974, trabalhou na zero-dezoito, ex-AgCen S.Paulo, e em seus desmembramentos posteriores; aposentou-se em abril de 2005 na função de caixa-executivo.