Mostrando postagens com marcador Romantismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Romantismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de maio de 2026

Musset: Claustros silenciosos, abóbodas monásticas, . . . [excerto de Rolla, IV]

 

____________________
[traduzido por Gomes Júnior]

Claustros silenciosos, abóbodas monásticas,
Só vós, túmulos frios, só vós sabeis amar!
São vossas naves frias, vossas lousas fantásticas,
Que nunca lábio em fogo beijou sem desmaiar!

Oh! vinde, vinde abrir vossas entranhas frias
Á estes entes lindos, que invejam vossa sorte,
Sobre um macio leito, cercado de magias,
Que é bom unicamente para o sono ou para a morte!

Tocar, por piedade, nos vossos sacrifícios,
Seos corações mimosos, que morrem de langor,
E nas sangrentas dores de bárbaros cilícios
Mostrai-lhes o mistério do vosso puro amor.

Banhai-lhes, pois, as frontes nas águas batismais,
Dizei-lhes quantos anos, com que constância, a sós,
Devem ajoelhar-se nas pedras sepulcrais
Antes de suspeitarem que amàm como vós!

Alfred de Musset

Cloîtres silencieux, voûtes des monastères, . . .
[Rolla IV, fragment]

[ . . . ]

Cloîtres silencieux, voûtes des monastères,
C’est vous, sombres caveaux, vous qui savez aimer!
Ce sont vos froides nefs, vos pavés et vos pierres,
Que jamais lèvre en feu n’a baisés sans pâmer.
Oh! venez donc rouvrir vos profondes entrailles
À ces deux enfants-là qui cherchent le plaisir
Sur un lit qui n’est bon qu’à dormir ou mourir;
Frappez-leur donc le cœur sur vos saintes murailles,
Que la haire sanglante y fasse entrer ses clous.
Trempez-leur donc le front dans les eaux baptismales,
Dites-leur donc un peu ce qu’avec leurs genoux
Il leur faudrait user de pierres sépulcrales
Avant de soupçonner qu’on aime comme vous!

[ . . . ]

(Rolla: I, II, III, IV and V — 1833)
____________________
Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla: I, II, III, IV and V (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

domingo, 26 de abril de 2026

Fagundes Varela: Noturno*

____________________
Minh'alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Minh'alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro1 que rói-lhe o seio!

Minh'alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo2
Motejam3 dos vendavais;
Coberto de atros4 matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Tombam as selvas frondosas,
Cantam as aves mimosas
As nênias5 da viuvez;
Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?

No véu etéreo os planetas,
No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!

Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!

Vem, oh! Morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!

Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?

Minh'alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!


Notas:
Dos organizadores:
* Poema em versos de sete sílabas (redondilhas maiores);
1. Doença. Câncer;
2. Traiçoeiro;
3. Zombam;
4. Lancinantes;
5. Cantos fúnebres.

Do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Em 60 Poetas Trágicos [L&PM Editores, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca de Fagundes Varela:

“[...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.

____________________
Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, concluiu seus estudos do primário e secundário em Angra dos Reis e Petrópolis, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e, depois, na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, dedicou-se à literatura, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obras poéticas: Noturnas (1861), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias ([considerado sua obra prima], 1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Cantos Religiosos e O Diário de Lázaro (ambos publicações póstumas, 1878 e 1880), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre — França); morreu de alcoolismo.

domingo, 15 de março de 2026

Musset: Pequena Canção

____________________
[traduzido por Álvaro Reis]

Se acreditais... que eu diga, um dia,
               Quem ousou amar
               (Nada o revela)
               Nem por um trono saberia
               Pronunciar
               O nome dela.

Cantemos alto, ao sol que doura
               Os dias belos.
               Se desejais...
Quanto eu a adoro e quanto é loura
               Com os seus cabelos
               Cor dos trigais.

Eu cumpro tudo o que a fantasia
               Desta querida
               Quer me ordenar;
Se for preciso, com alegria,
               A minha vida
               Lhe posso dar.

Do mal que o amor desconhecido,
               Sempre ocultado,
               Nos faz sofrer,
O coração levo ferido,
               Despedaçado,
               Até morrer.

Amo demais; por isso, nada,
               Nada revela,
               Quem ouso amar...
Morrer prefiro por minha amada,
               Que o nome dela
               Pronunciar.

[“Fortunio canta — Segundo Ato, Cena 3,
em O Castiçal, ou O Lustre, comédia em 3 atos,
publicada em 1835 e representada em 1848]

Alfred Musset

Chanson de Fortunio

Si vous croyez que je vais dire
           Qui j'ose aimer,
Je ne saurais, pour un empire,
           Vous la nommer.

Nous allons chanter à la ronde,
           Si vous voulez,
Que je l'adore et qu'elle est blonde
           Comme les blés.

Je fais ce que sa fantaisie
           Veut m'ordonner,
Et je puis, s'il lui faut ma vie,
           La lui donner.

Du mal qu'une amour ignorée
           Nous fait souffrir,
J'en porte l'âme déchirée
           Jusqu'à mourir.

Mais j'aime trop pour que je die
           Qui j'ose aimer,
Et je veux mourir pour ma mie
           Sans la nommer.

[“Fortunio chante — Acte deuxième, Scène III”,
en Le Chandelier — Comédie en trois actes,
públiée en 1835, représentée en 1848.]
(Poésies nouvelles)
____________________
Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Alfred de Musset: O salgueiro

 
____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]

Alva estrela da tarde e arauto distante,
Cuja fronte a luzir vem dos véus do poente,
De teu palácio azul, um seio do firmamento,
Que vês no prado em teu mirante?

A tormenta se afasta, os ventos amainados 
Chora sobre a charneca o bosque irrequieto;
A falena dourada, em seu leve trajeto,
Transpõe os campos perfumados.
Que buscaria no torpor bucólico?
Pelos montes, porém, eu te vejo descer;
Tu partindo a sorrir, amiga melancólica,
E teu trêmulo olhar a fim de fenecer.

Estrela, tu que desces em verde colina,
Triste lágrima em prata do manto da Treva,
Tu que o pastor andando ao longe descortinas
Enquanto vem passando o rebanho que leva 
Estrela, aonde vais por esta noite imensa?
Pelos juncos da margem buscas teu assento?
Aonde vais tão bela, à hora do silêncio,
Qual pérola a cair no fundo das correntes?
Ah! se deves morrer, lindo astro, e a cabeça
Vai imergir no mar os teus louros cabelos,
Antes de nos deixar, um só instante arrefece;
Não desças mais dos céus, estrela do desvelo!

Alfred de Musset

Le Saule

[extrait]

Pâle étoile du soir, messagère lointaine,
Dont le front sort brillant des voiles du couchant,
De ton palais d'azur, au sein du firmament,
Que regardes-tu dans la plaine?

La tempête s'éloigne, et les vents sont calmés.
La forêt, qui frémit, pleure sur la bruyère;
Le phalène doré, dans sa course légère,
Traverse les prés embaumés.
Que cherches-tu sur la terre endormie?
Mais déjà vers les monts je te vois t'abaisser;
Tu fuis, en souriant, mélancolique amie,
Et ton tremblant regard est près de s'effacer.

Étoile qui descends vers la verte colline,
Triste larme d'argent du manteau de la Nuit,
Toi que regarde au loin le pâtre qui chemine,
Tandis que pas à pas son long troupeau le suit,
Étoile, où t'en vas-tu, dans cette nuit immense?
Cherches-tu sur la rive un lit dans les roseaux?
Où t'en vas-tu si belle, à l'heure du silence,
Tomber comme une perle au sein profond des eaux?
Ah! si tu dois mourir, bel astre, et si ta tête
Va dans la vaste mer plonger ses blonds cheveux,
Avant de nous quitter, un seul instant arrête;
Étoile de l'amour, ne descends pas des cieux!

[...]
____________________
Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Musset: Vida não vivida

 
____________________
[traduzido por Francisco Octaviano]

Era bela, como a estátua
Em mortuária capela,
Dormindo em leito de pedra,
Imóvel, pode ser bela.

Tinha bondade, se basta
Dar, ao acaso, sem dó,
Sem que Deus enxergue a esmola,
Se a esmola é dinheiro só.

Pensava, se o vão ruído
De um falar suave e lento,
Como gemido de arroio,
Denuncia o Pensamento.

Orava, se os olhos negros
Uma fez fitos no chão,
Outra vez ao céu erguidos,
Podem chamar-se oração.

Sorria, se o refrigério
De uma brisa, na alvorada,
Chegasse a expandir a flor
Que se conserva fechada.

Chorara, se, argila inerte,
Seu coração ressequido
Gotas de celeste orvalho
Pudesse haver recolhido.

Amara, se no seu peito
Não velasse orgulho fútil,
Como em cima de um sepulcro
Se entretém lâmpada inútil.

Aparentava viver...
Sem ter vivido morreu...
Caiu-lhe das mãos o livro...
Nesse livro nada leu!

Musset

Sur une morte

Elle était belle, si la Nuit
Qui dort dans la sombre chapelle
Où Michel-Ange a fait son lit,
Immobile peut être belle.

Elle était bonne, s’il suffit
Qu’en passant la main s’ouvre et donne,
Sans que Dieu n’ait rien vu, rien dit,
Si l’or sans pitié fait l’aumône.

Elle pensait, si le vain bruit
D’une voix douce et cadencée,
Comme le ruisseau qui gémit
Peut faire croire à la pensée.

Elle priait, si deux beaux yeux,
Tantôt s’attachant à la terre,
Tantôt se levant vers les cieux,
Peuvent s’appeler la Prière.

Elle aurait souri, si la fleur
Qui ne s’est point épanouie
Pouvait s’ouvrir à la fraîcheur
Du vent qui passe et qui l’oublie.

Elle aurait pleuré si sa main,
Sur son coeur froidement posée,
Eût jamais, dans l’argile humain,
Senti la céleste rosée.

Elle aurait aimé, si l’orgueil
Pareil à la lampe inutile
Qu’on allume près d’un cercueil,
N’eût veillé sur son coeur stérile.

Elle est morte, et n’a point vécu.
Elle faisait semblant de vivre.
De ses mains est tombé le livre,
Dans lequel elle n’a rien lu.
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Castro Alves: O "Adeus" de Teresa*

____________________
A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro1...
E da alcova2 saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... Séc’los de delírio
Prazeres divinais... Gozos do Empíreo3...
... Mas um dia volvia os lares meus.
Partindo eu disse "Voltarei!... Descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... Era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... Surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

São Paulo, 28 de agosto de 1868.


Notas dos organizadores:
* Poema em versos decassílabos;
1. Cortinado usado para substituir ou disfarçar uma porta;
2. Quarto de casal;
3. Lugar em que moram os deuses.
____________________
Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho [hoje Castro Alves], cursou o nível médio no Ginásio Baiano, em Salvador, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo [atual USP Largo São Francisco], foi poeta e também escritor; aos 15 anos, teve seu primeiro poema, A Destruição de Jerusalem, publicado no Jornal do Recife; destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; em 1866, fundou uma sociedade abolicionista no Recife e publicou poemas de “Os Escravos” em jornais da época; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos [coletânea de poemas], A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, livros tais publicados postumamente, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Bernardo Guimarães: O Bandoleiro*

 
____________________
Canção
Se mil forem belas,
Amarei todas elas.
(Lundum brasileiro)

A minha amada de ontem
Era formosa e linda;
Mas tu, que eu hoje adoro,
És mais formosa ainda.1

Porém não vás queixar-te
De eu ser tão inconstante;
De que meu peito mude
De amor a cada instante.

Meu bem, se assim não fora,
Como hoje havia amar-te,
Se inda ontem tinha presa
Minha alma em outra parte.

Se ontem me encantavam
Uns olhos de safira2,
Agora o teu sorriso
Maior paixão me inspira.

E a minha amada de ontem
Era formosa e linda;
Mas tu, que eu hoje adoro,
És muito mais ainda.

Não sabes que a mudança
É lei da natureza,
Que nada há de constante
Em toda a redondeza?

O rio às verdes margens
Saudoso adeus murmura,
E para outras paragens
Saudoso se apressura3.

O mar se agita inquieto,
O abismo revolvendo,
E de uma a outra praia
Balança-se gemendo.

Os astros, que cintilam
Da noite no mistério,
Nos fogem do horizonte
Buscando outro hemisfério.

Se tudo neste mundo
É tão inconsistente,
Como há de ser só firme
O coração da gente?

Ao menos sou sincero;
Mentir eu não sei, não;
Só sei aos pés das belas
Cantar esta canção.

Nas vagas4 da inconstância
Deixai-me pois boiando;
E à flor de emoções doces
Comente resvalando,

Qual leve colibri,
Que nos jardins adeja5,
E o seio às flores todas
Voando veloz beija.

Ai triste do que esgota
A taça dos amores,
E quer teimoso e cego
Sorver-lhe6 os amargores.

Nas bordas a beleza
Lhe verte mel, perfumes;
Mas fervem-lhe no fundo
Remorsos e ciúmes...

Porém por que te enfadas
Com mostras de desgosto?
Murchar eu não pretendo
Os risos no teu rosto.

Adeus! Se amor não queres
Assim fácil e breve,
Do teu amante o nome
Do peito teu proscreve7:

Que nos jardins do amor
Existem outras flores,
Bem como tu formosas,
Mas sem os teus rigores8.

E aos pés de outra beleza
Depondo o coração,
Irei sem ter remorsos,
Cantar-lhe esta canção:

A minha amada de ontem
Era formosa e linda;
Mas tu, que eu hoje adoro,
És mais formosa ainda.

Rio de Janeiro, 1860.


Notas dos organizadores:
* Misto de bandido, trapaceiro e vadio. Aqui aparece como conquistador de mulheres. Versos hexassílabos;
1. Repetida três vezes ao longo do poema, esta estrofe opera como refrão apropriado ao gênero escolhido;
2. Pedra da cor azul;
3. Se apressa;
4. Ondas;
5. Voa;
6. Beber-lhe;
7. Afasta;
8. Intransigência, austeridade.
____________________
Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, crítico literário, magistrado e professor de Retórica, Poética, Latim e Francês; em 1852, assumiu o cargo de juiz municipal, em Catalão GO; em 1859, estreou como jornalista e crítico literário no jornal Atualidade, no Rio de Janeiro; em 1866, foi nomeado professor de Retórica e Poética do Liceu Mineiro, em Ouro Preto MG e, em 1873, lecionou Latim e Francês em Queluz [hoje Conselheiro Lafaiete]  MG; suas obras: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (peça dramática, encenada em 1860 e publicada em 1914), Poesias (coletânea: Inspirações da tarde, Poesias diversas e Evocações, 1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro e O Seminarista (romances, ambos em 1872), O Índio Afonso (romance, 1873), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (1976—1977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.