...ruit
alto a culmine...
Vírgilio — Enéida
És tu esta
montanha; — é meu esse meu sonho!
Quero que sejas
minha: estás bem longe? embora:
Pesa, como um
penhasco: o carreiro é medonho:
Mas o ideal, que
me eleva, os pulsos me avigora.
Irei buscar-te. — Bem: cavarei um caminho
A golpes de
machado em selvas seculares:
Golpearei o
rochedo; afastarei o espinho,
Subirei os
degraus que dão p’ra os teus altares.
Foste assentar a
tenda, estrela luminosa,
Em cima da
montanha, à coroa da floresta:
Sei que estás
longe: a estrada é hirta e perigosa:
Ou antes nem
estrada alguma aos meus pés resta.
Nada. — Tudo é
bravio: há um luxo, uma abundância
De verdura a
florir, de arroios murmurantes;
De intrincado
arvoredo escuro, a fazer ânsia,
A dar terror e
inércia a braços de gigantes.
Que batalha a
vencer! Que indomável coragem
Ante as feras
legiões de bosques encostados
Em longos
troncos nus, coroados de ramagem,
De galhos
mortos, para arremessar, armados.
Têm os seus
generais indômitos vestidos
De malha transparente,
e lúcida couraça,
No dorso dos
leões dos ventos conduzidos,
Que movem de um
só brado a enorme populaça.
Ruem...
dobram-s: e então rojando os velhos galhos,
Como muletas de
titãs anquilosados,
Ficam de pé
rosnando, assim como espantalhos,
De espaço a
espaço, em terra adrede levantados.
Mãos à obra. — Por terra, estultos veteranos:
Morde, machado,
nos agigantados vultos
De dorso arcado
às mãos titânicas dos anos:
Velhos heróis, o
que fazeis na selva ocultos?
Ide para a
planície; ide para o oceano:
Ide ao campo,
ide ao vale, ide à aldeia, à cidade:
Tronco, muda de
rumo: ó bosque, faz-te humano:
Deixa-me a selva
chã e livre por piedade...
Preciso de rolar
ao cimo da montanha
O meu rochedo
enorme, o meu pesado sonho;
E a selva
secular, que em troncos se emaranha,
É uma sentinela
atroz, de olhar medonho...
Oh! prejuízos
vãos! Oh! leis! Oh! vãs quimeras,
Vós sois o
florestal bravio, imenso, horrendo,
Que não deixais
abrir a flor das primaveras,
E impedis de
subir aos cimos, que estou vendo.
Mas não importa:
o alvo está lá: — caminhemos:
Sobe, meu sonho,
sobe: eu bebo um novo alento,
Cada vez que te
agarro, e digo: chegaremos,
Feliz, alegre,
em que cansado e suarento;
Galgo outeiros e
absorvo os rudes precipícios:
Salto valos e,
calmo, os barrocais transponho:
Longas
distâncias venço; e já sinto os indícios
De chegar muito
em breve aos cimos com meu sonho.
Ei-lo, o viso no
alto! — Ei-la, a bela planura,
Onde estendeu a
tenda a estrela radiante:
Posso levar ao
lábio a taça da ventura:
Bate as asas,
minh’alma: o céu não ’stá distante.
Cheguei! — Mas através
de que espinhal bravio!
Cheguei! — Mas por
que bosque horroroso e medonho!
Agora posso
rir... agora enfim já rio!...
Vou depor aos
teus pés, mulher, meu belo sonho!...
E aos pés vou pôr-lhe
o sonho; e em vão beijá-los tento;
— Impossível — diz ela: e o sonho cai e eu grito:
Vendo-o ir monte
abaixo, e num rolar violento!...
Ó Sísifo, ó Sísifo,
és meu irmão, maldito...
Rolas a rocha
tu, Sísifo miserando,
Por séculos sem
fim, por toda a eternidade,
E eu rolo o
sonho meu... rolo... rolo... e até quando?
Quem me há-de
alevantar a maldição? Quem há-de?
Como está longe
e bela, estrela radiante,
Muito gentil que
aos sóis e aos anjos sobreponho:
Caio: mas torno
a ver-te, e sinto-me um gigante!
Meu eterno
trabalho é carregar meu sonho...