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domingo, 25 de dezembro de 2016

José Oiticica: Impossível *

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          Faz três dias, encontrei-me, por acaso, com um cocheiro, conhecido velho, ainda renitente na aceitação das ideias libertárias. Era na rua do Rosário, defronte de um tabelionato. Aproveitei o acaso para dar-lhe uma lição prática e decisiva.
          Disse-lhe eu: “Sabes o que é aquilo?”
          — É um cartório.
          — Pois atravessemos e postemo-nos à porta.
          Dito e feito. Á mesa mais próxima da rua um tabelião, dos velhos, recebia, de uma chusma de clientes, folhas de papel, escritas e assinadas. Eram documentos, iam a reconhecer as firmas.
          — Quantas horas trabalham tu por dia?, perguntei ao cocheiro.
          — Trabalhava dez e doze, ou mais, conforme o serviço. Agora, com as greves e as reclamações, trabalho ora oito, ora dez.
          — Quanto ganhas no teu caminhão?
          — Ganho seis mil-réis por dia.
          — E que serviço está fazendo aquele velho?
          — Está reconhecendo firmas.
          — Este serviço produz alguma coisa útil à humanidade?
          — Sei lá!
          — Pois eu sei. Não produz nada real para bem dos homens: pelo contrário, aquele velho está causando grande mal, está servindo à classe dos possuidores, dos que se assenhorearam da Terra, dos que se arvoraram em donos, dos exploradores, em suma. O mister daquele velho é impedir que os possuidores se roubem uns aos outros e se deixem expropriar pelos não possuidores, isto é, pelos verdadeiros trabalhadores. Não achas que o trabalho desse tabelião era vantajosamente evitável?
          — Pode ser que sim.
          — Responde-me agora: qual dos dois serviços é mais útil, o teu ou o daquele velho?
          — Ah! certo que é o meu.
          — Pois repara bem no quanto ganha o velho.
          E o cocheiro viu, a cada firma reconhecida, a cada minuto de trabalho improdutivo, corresponder, para a gaveta já recheada do sevandija, uma nota de mil-réis.
          — Repara bem, prossegui: tu recebes dez tostões, quando muito, por uma hora de serviço pesadíssimo e útil à sociedade; aquele velho recebe dez tostões por um minuto de serviço insignificante e prejudicial. Dize-me agora: sabes de onde vêm os dez tostões que recebe aquele velho?
          — De nós todos.
          — De nós todos é um modo de dizer. Aqueles dez tostões representam riqueza, e riqueza cria-se com trabalho útil; logo, aquele dinheiro provém, todo, dos verdadeiros trabalhadores. Está vendo um falso serviço remunerado principalmente à custa dos verdadeiros serviços.
          Tu te levantas às quatro e às cinco da manhã, e o velho às nove ou dez. Moras num cubículo, tu com a mulher e os filhos, e ele mora numa casa confortabilíssima, com três ou quatro criados de servir. Compreendes a injustiça da organização social?
          — Sim, senhor, estou compreendendo muito bem; mas isso não tem remédio, ou o remédio está no anarquismo.
          — Há de estar, por força, na Igreja Católica Romana.
          — A religião, pelo menos, consola a gente.
          — Pois então vai-te consolando.
          E despedimo-nos. Ora, aconteceu que esse proletário foi, à noite, à sociedade dos cocheiros. No meio da sessão, apareceram delegados do partido católico romano. Iam falar aos operários sobre a questão social. Eram da falange organizada e capitaneada pelo Monsenhor Rangel, feito apóstolo da redenção social, por obra e graça da Santa Madre Igreja.
          Um dos emissários discursou mostrando ser a crise humana conseqüência necessária da falta de religião dos trabalhadores. A única salvação possível estava no acordo entre operários e patrões dentro dos preceitos da Santa Igreja, compendiados por Leão XIII, na famosa bula De Rerum Novarum.
          Os trabalhadores tinham mil razões, eram explorados, vilipendiados, escravizados. Para defendê-los, a Igreja, mãe dos pobres e dos aflitos, abria os braços promissores e se esforçaria por agregar a todos dentro dos preceitos evangélicos.
          Voltassem os trabalhadores os olhos para a cruz, que o Salvador dos homens era Jesus Cristo, morto para nos salvar.
          Acrescentou, ou devia ter acrescentado, que a recompensa verdadeira dos trabalhos e padecimentos desta vida não está na Terra, mas no Céu; que os exploradores de hoje, os ricos, os potentados, esses vão, quase todos, para o Inferno, como anunciou Jesus Cristo (história do camelo pelo fundo de uma agulha), e que os humildes, os pequenos, os oprimidos de hoje, esses hão de ter, depois da morte, o reino celestial. Por isso, os trabalhadores devem ser humildes, obedientes, respeitadores das leis, dos seus patrões, do clero; importa muito que repilam do seu meio os demagogos, os revolucionários, os propagadores de idéias novas, sobretudo os anarquistas, esses monstros incendiários, envenenadores, estupradores... e o mais que já se sabe.
          A assembléia ouvia aquilo estatelada. Infelizmente, havia vários anarquistas que apartearam o orador e, terminada a arenga, surgiu o operário Antônio Pinto a refutar o orador romano.
          Esse operário, bom trabalhador da grande causa, disse aos seus infortunados companheiros o que lhes cumpria ouvir: que não é possível ao trabalhador de hoje confiar na sinceridade, muito menos na proteção da Igreja Católica Romana ou de qualquer outra seita religiosa.
          Por quê?
          A explicação é simples: as formigas não defendem o tamanduá que as come, defendem-se a si mesmas; a raposa não agride as demais raposas para salvar patos e galinhas; o capitalista, o agiota, o usurário não se vai inimizar com seus colegas financistas em favor dos pequenos possuidores dos não possuidores cujas riquezas eles açambarcam por qualquer meio.
          O interesse das formigas é contrário ao interesse do tamanduá, o interesse das galinhas é oposto ao das raposas, o interesse dos argentários é adverso aos interesses dos trabalhadores.
          Ora, a Igreja é capitalista, proprietária, açambarcadora: logo, os interesses dela são contrários, opostos e adversos aos interesses dos trabalhadores.
          Para que as formigas confiassem no tamanduá, era mister fazer-se o tamanduá formiga; para que as galinhas confiassem na raposa, era preciso verem-na galinha; para que os trabalhadores confiem na Santa Madre Igreja, é de todo imprescindível que a Santa Madre Igreja, isto é, seu papa, seus cardeais, seus  bispos e arcebispos, seus padres e monsenhores, seus cônegos, seus frades, suas freiras se façam trabalhadores.
          Foi o que resumiu o operário Antônio Pinto nesta frase dura mas profundamente característica: “Só acreditamos nos bons serviços da Igreja Católica Romana, quando o senhor Cardeal e seus subordinados vierem para a boléia de um caminhão”.
          No dia seguinte, encontrei o cocheiro amigo na mesma rua do Rosário. Ele me foi dizendo alvoroçado: “Agora, sim! Compreendi tudo muito bem aquele repetidíssimo aforismo de que a emancipação dos trabalhadores há de ser obra dos mesmos trabalhadores”.
          E me contou que, enquanto o seu colega rebatia o orador católico, ele foi pensando no velho tabelião. No trabalho dele e na injustiça formidável do seu ganho.
          Insensivelmente, entrou a meditar nos serviços pelo clero e na imensa riqueza da Santa Igreja. Os tais serviços nada tinham de real ou sequer de útil, porque ninguém vive de água benta, missa, confissões, batizados, rezas ou bentinhos... exceto os mesmos padres. Quanto à salvação das almas, é uma cantiga milenar, ou, quando muito, hipótese a rever depois de emancipado o homem socialmente.
          Os sacerdotes, pois, vivem como vivem o tabelião, usurpando com o seu trabalho falso o trabalho verdadeiro dos proletários. Para merecer confiança dos trabalhadores, a Igreja deve antes de tudo fazer duas coisas: primeira, restituir aos trabalhadores o patrimônio eclesiástico; segunda, obrigar o clero inteiro a exercer uma profissão produtora de riquezas e não aceitar um vintém pelos serviços religiosos.
          Mas isso é... impossível.

Liberdade, ano III, nº 31,
 junho de 1919  Rio de Janeiro

José Rodrigues Leite e Oiticica


* O conto tem subtítulo: “Rejeitado pelo Jornal do Brasil”.
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Contos Anarquistas (diversos autores), Organização, Introdução e Notas de Antonio Arnoni Prado e Francisco Foot Hardman, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia", relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os periódicos Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através dos jornais A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Neno Vasco: Os parasitas

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          Numa ilha fértil, solitária no meio de um grande mar, vivia uma família ociosa, bem nutrida e agasalhada, que se dizia dona e senhora de toda a ilha, proprietária das terras, casas, choupanas, arados, gado, tudo.
          Para manter essa família na mandriice e na fartura, esfalfavam-se, desde manhã até a noite, meia dúzia de trabalhadores ossudos, sujos, tostados do sol, mal alimentados e mal abrigados, eles, suas mulheres e seus filhos. Só eles conheciam o seu trabalho, sabiam as épocas das semeaduras, os modos de cultivar as terras, o manejo do arado e de todos os instrumentos de trabalho e eram eles que entre si combinavam e distribuíam as tarefas, ajuntando-se nas mais rudes, dividindo-se nas mais leves e curtas.
          Quanto aos filhos do patrão, em vez de ajudar, como faziam os filhos e as mulheres dos trabalhadores, vinham estorvar e inquietar as pessoas e estragar as sementeiras. E o proprietário, então? Esse não fazia mais que vigiar os serviços, de mãos atrás das costas, dizendo de vez em quando, todo ancho e satisfeito:
           Ah! Se não fosse eu, como haviam vocês de viver?
          E os pobres homens, muito humildes, respondiam, descobrindo-se:
          — É verdade, é verdade: se não fosse o patrão que nos dá trabalho e nos sustenta, que havia de ser de nós?
          Ora, um belo dia — belo no começo, feio depois , o proprietário foi com a família toda dar um grande passeio pelo mar, na sua linda e veloz chalupa. E tendo-se afastado muito da costa, sobreveio um grande temporal, que afundou a embarcação e afogou todos os que nela iam. Dias depois, os trabalhadores horrorizados encontraram na praia os cadáveres dos patrões, vomitados pelos vagalhões furiosos.
          A princípio ficaram cheios de aflição e parecia-lhes que estavam ao desamparo. Mas os trabalhos não pararam. Acostumados a combinar e a distribuir entre si as tarefas, ajuntando-se nas mais rudes, dividindo-se nas mais breves e fáceis, os trabalhadores da ilha começaram a lavrar, a semear e a colher, a fiar e a tecer o linho e a lã, a criar o gado, a manejar o arado, a foice e o tear — e a terra continuou a produzir, os rebanhos a crescer e a multiplicar-se, o sol a brilhar sobre as searas.
          Os trabalhadores não tardaram a reparar que tudo se fazia melhor do que antes, que já não tinham quem os estorvasse e vigiasse, que comiam melhor, andavam mais agasalhados e tinham melhor habitação e que podiam produzir mais e melhor. E por isso, no dia em que fez um ano que a tempestade os livrara dos patrões, quando palestravam sobre o caso e suas consequências, o mais velho disse tudo em poucas palavras:
          — Que grandes cavalgaduras que nós éramos!
          Assim dirão os teus iguais, quando se tiverem livrado dos amos, que, longe de serem úteis ou precisos, têm interesses contrários aos teus e aos dos teus irmãos de trabalho.
          Os amos querem pagar de salário o menos possível, para ganhar o mais possível; e vós precisais de vos deixar roubar cada vez menos nos frutos de vosso trabalho  e isso só o conseguis associados, pois reparados, desunidos, nada podeis.
          Os amos têm interesse em haver muitos trabalhadores desunidos e muitos desocupados, para que as soldadas sejam pequenas; e vós precisais de trabalhar todos, e de estar unidos, para não haver quem tenha de aceitar uma côdea por qualquer escasso serviço que apareça.
          Os amos, para vender caro e com lucro, precisam de refrear a produção das coisas, de reter, enceleirar, açambarcar os produtos, e até  de os deixar apodrecer; e vós quereis satisfazer as vossas necessidades. Assim é que há tantas terras incultas, tantas máquinas inativas, tantos materiais desempregados, quando há tanta gente a sustentar, a vestir e a abrigar e tantos braços desocupados ou mal ocupados.
          Vós fareis como os trabalhadores da ilha; mas não podeis, como eles, contar com uma tempestade providencial. A tempestade libertadora tereis de a preparar e fazer vós mesmos.
          Tu e os teus iguais tendes de vos associar desde já, ainda que não seja senão para resistir à constante ganância dos amos, para estudar e defender os vossos interesses, para conhecer bem o vosso trabalho e as vossas necessidades, assim como o melhor modo de arranjar e combinar o primeiro e de satisfazer as segundas.
          E assim, quando tiverdes a força e as capacidades necessárias, com a ajuda indispensável dos vossos irmãos das cidades, passareis a viver sem amos nem mandriões, e a arranjar tudo por vossas mãos e vossa conta.

A Plebe (SP) (nova fase), ano III, nº. 86, (13 abr.1935).

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Contos Anarquistas (diversos autores), Organização, Introdução e Notas de Antonio Arnoni Prado e Francisco Foot Hardman, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Neno Vasco (1878  1920) ou Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos, português de Penafiel, distrito do Porto, formado pela Faculdade de Direito do Liceu, foi advogado, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo e militante anarco-sindicalista; colaborou com o jornal lisboeta O Mundo, a revista A Sementeira, também portuguesa, A Voz do Trabalhador, em São Paulo, tendo sido fundador dos jornais Amigo do Povo, A Terra Livre, e lançado a revista Aurora, periódicos de ideário anarquista; Neno Vasco viveu parte de sua vida e militância no Brasil; bibliografia: A Academia de Coimbra ao Povo Português (1901), Pecado de Simonia (peça teatral, 1907), Anedota em 1 acto (peça teatral, 1911), Geórgias: ao trabalhador rural (1913), Da Porta da Europa — factos e idéias: a questão religiosa, a questão política, a questão econômica 1911 — 1912 (1913), A Concepção Anarquista do Sindicalismo (1920), Greve de inquilinos (farsa teatral em 1 acto, 1923); como tradutor, verteu para a língua portuguesa Élizée Reclus  Evolução, Revolução e Ideal Anarquista (1904) e o hino A Internacional (1909).