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sábado, 4 de abril de 2026

Paul Celan: Os anos de ti até mim


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

De novo se enrolam teus cachos quando choro. Com o azul dos teus
olhos
pões a mesa do nosso amor: uma cama entre verão e outono.
Bebemos o que fermentou alguém que não fui eu, nem tu, nem um
terceiro:
sorvemos um vazio pela última vez.
Nos espelhos do fundo do mar nos observamos e nos servimos mais
apressados os pratos:
a noite é a noite, ela inicia com a manhã,
ela me deita junto a ti.

Paul Celan

Die Jahre von dir zu mir

Wieder wellt sich dein Haar, wenn ich wein. Mit dem Blau deiner
Augen
deckst du den Tisch unsrer Liebe: ein Bett zwischen Sommer und
Herbst.
Wir trinken, was einer gebraut, der nicht ich war, noch du, noch ein
dritter:
wir schlürfen ein Leeres und Letztes.
Wir sehen uns zu in den Spiegeln der Tiefsee und reichen uns rascher
die Speisen:
die Nacht ist die Nacht, sie beginnt mit dem Morgen,
sie legt mich zu dir.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França e, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas. Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (1952), Von Schwelle zu Schwelle (1955), Sprachgitter (1959), Die Niemandsrose (1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora de origem judaica, nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, teve origem no seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", suicidou-se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

domingo, 4 de agosto de 2024

Paul Celan: Elogio da distância


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores dos mares errantes.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre sua promessa.

Aqui lanço,
um coração que habitava entre os homens,
minhas vestes e o brilho dum voto:

Mais preto no preto, estou mais nu.
Apenas na renegação me torno fiel.
Eu sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
estou à deriva e sonho com rapto.

Um fio fisgou um fio:
separados num enlace.

Na fonte dos teus olhos

um enforcado estrangula a corda.

Paul Celan

Lob der Ferne

Im Quell deiner Augen
leben die Garne der Fischer der Irrsee.
Im Quell deiner Augen
hält das Meer sein Versprechen.

Hier werf ich,
ein Herz, das geweilt unter Menschen,
die Kleider von mir und den Glanz eines Schwures:

Schwärzer im Schwarz, bin ich nackter.
Abtrünnig erst bin ich treu.
Ich bin du, wenn ich ich bin.

Im Quell deiner Augen
treib ich und träume von Raub.

Ein Garn fing ein Garn ein:
wir scheiden umschlungen.

Im Quell deiner Augen
erwürgt ein Gehenkter den Strang.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França e, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas. Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (1952), Von Schwelle zu Schwelle (1955), Sprachgitter (1959), Die Niemandsrose (1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, teve origem no seu nome romeno: Ancel..

terça-feira, 9 de julho de 2024

Paul Celan: Prisão da palavra

 
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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Olho redondo entre as barras.

Pálpebra de animal cintilante
rema para cima,
libera um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos e triste:
o céu, cinza-coração, deve estar próximo.

Inclinada, no bico de ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.

(Se eu fosse como tu. Se fosses como eu.
Não estaríamos
sob um mesmo alísio?
Somos estranhos.)

Os ladrilhos. Por cima,
uma junto à outra, as duas
poças cinza-coração:
dois
bocados de silêncio.

Paul Celan

Sprachgitter

Augenrund zwischen den Stäben.

Flimmertier Lid
rudert nach oben,
gibt einen Blick frei.

Iris, Schwimmerin, traumlos und trüb:
der Himmel, herzgrau, muß nah sein.

Schräg, in der eisernen Tülle,
der blakende Span.
Am Lichtsinn
errätst du die Seele.

(Wär ich wie du. Wärst du wie ich.
Standen wir nicht
unter einem Passat?
Wir sind Fremde.)

Die Fliesen. Darauf,
dicht beieinander, die beiden
herzgrauen Lachen:
zwei
Mundvoll Schweigen.

(Sprachgitter — 1959)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, edição bilíngue, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França e, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Paul Celan: Cristal

 
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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Não procura nos meus lábios tua boca,
não diante da porta o forasteiro,
não no olho a lágrima.

Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho,
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

Paul Celan

Kristall

Nicht an meinen Lippen suche deinen Mund,
nicht vorm Tor den Fremdling,
nicht im Aug die Träne.

Sieben Nächte höher wandert Rot zu Rot,
sieben Herzen tiefer pocht die Hand ans Tor,
sieben Rosen später rauscht der Brunnen.

(Mohn und Gedächtnis — 1952)
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Cristal: Paul Celan, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999, (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo  SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França e, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas. Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (1955), Sprachgitter (1959), Die Niemandsrose (1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicido se atirando no rio Sena, em abril de 1970.