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Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio.
Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
Numa sequência arrastada,
Do que ficou para trás.
Vou vendo e vou meditando,
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando,
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando.
Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali,
E do seu curso me fio,
Porque, se o vi ou não vi,
Ele passa e eu confio.
[Cancioneiro]
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Fernando Pessoa — Mensagem / À
Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais / Quinto Império / Cancioneiro,
Anotações de Maria Aliete Galhoz, 1976, Editora Nova Aguilar S.A., Rio de
Janeiro — RJ; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português
nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também
escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convento
de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente
o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época:
A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro
(1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de
comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva
produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos
e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares;
em 1921 criou a editora Olisipo, onde publicou seus English Poems e verteu para
o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; suas obras: em vida, publicou,
em inglês, Antinous e 35 Sonnets (ambos em 1918), English Poems I e II e English
Poems III (ambos em 1921), além do livro Mensagem (1934), única obra publicada em
português; traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta
legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.