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domingo, 11 de setembro de 2022

Fernando Pessoa: Na ribeira deste rio . . .

 
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Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio.

Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
Numa sequência arrastada,
Do que ficou para trás.

Vou vendo e vou meditando,
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando,
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando.

Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali,
E do seu curso me fio,
Porque, se o vi ou não vi,
Ele passa e eu confio.

[Cancioneiro]

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Fernando Pessoa — Mensagem / À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais / Quinto Império / Cancioneiro, Anotações de Maria Aliete Galhoz, 1976, Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro — RJ; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921 criou a editora Olisipo, onde publicou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; suas obras: em vida, publicou, em inglês, Antinous e 35 Sonnets (ambos em 1918), English Poems I e II e English Poems III (ambos em 1921), além do livro Mensagem (1934), única obra publicada em português; traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.

sábado, 20 de agosto de 2022

Fernando Pessoa: Por trás daquela janela . . .

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Por trás daquela janela
Cuja cortina não muda
Coloco a visão daquela
Que a alma em si mesma estuda
No desejo que a revela.

Não tenho falta de amor.
Quem me queira não me falta.
Mas teria outro sabor
Se isso fosse interior
Àquela janela alta.

Porquê? Se eu soubesse, tinha
Tudo o que desejo ter.
Amei outrora a Rainha,
E há sempre na alma minha
Um trono por preencher.

Sempre que posso sonhar,
Sempre que não vejo, ponho
O trono nesse lugar;
Além da cortina é o lar,
Além da janela o sonho.

Assim, passando, entreteço
O artifício do caminho
E um pouco de mim me esqueço
Pois mais nada à vida peço
Do que ser o seu vizinho.

[25-12-1930]

[Cancioneiro]

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Fernando Pessoa — Mensagem / À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais / Quinto Império / Cancioneiro, Anotações de Maria Aliete Galhoz, 1976, Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro — RJ; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921 criou a editora Olisipo, onde editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous e 35 Sonnets (ambos em 1918), English Poems I e II e English Poems III (ambos em 1921), além de Mensagem (1934), única obra publicada em português; traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.

sábado, 6 de agosto de 2022

Fernando Pessoa: Para onde vai a minha vida, e quem a leva? . . .

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Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala,
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e que sou: não me iguala.

Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…

[Cancioneiro]

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Fernando Pessoa — Mensagem / À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais / Quinto Império / Cancioneiro, Anotações de Maria Aliete Galhoz, 1976, Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro — RJ; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921 criou a editora Olisipo, onde publicou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; suas obras: em vida, publicou, em inglês, Antinous e 35 Sonnets (ambos em 1918), English Poems I e II e English Poems III (ambos em 1921), além do livro Mensagem (1934), única obra publicada em português; traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.

domingo, 17 de julho de 2022

Fernando Pessoa: Mar português & A última nau

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Mar português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

A última nau

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
Mistério.

Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou espaço.
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.

Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.

[Mensagem — 1934]

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Fernando Pessoa — Mensagem / À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais / Quinto Império / Cancioneiro, Anotações de Maria Aliete Galhoz, 1976, Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro — RJ; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921 criou a editora Olisipo, onde editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous e 35 Sonnets (ambos em 1918), English Poems I e II e English Poems III (ambos em 1921), além de Mensagem (1934), única obra publicada em português; traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Fernando Pessoa: Hora morta

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Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...

Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...

Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)

Por que lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...

Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê

Na alva areia batendo?
Só isto? Não há
Lâmpada de haver
Um sentido ardendo
Dentro da hora
Espuma de morrer?

[23-3-1913]

[Cancioneiro]

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Fernando Pessoa — Mensagem / À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais / Quinto Império / Cancioneiro, Anotações de Maria Aliete Galhoz, 1976, Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro — RJ; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário e tradutor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; obras: em vida, além do livro Mensagem, única obra publicada em português, publicou, em inglês, Antinous, 35 Sonnets, English Poems I e II, English Poems III; traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português e verteu para o inglês obras de António Botto e Almada Negreiros; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.