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[traduzido por Josely Vianna
Baptista]
Juro que foi sem pensar que voltei
à rua
da alta feira repetida como um
espelho,
das grelhas com a trança de carne
dos Corrales,
da prostituição oculta pelo mais
distinto: a música.
Porto mutilado sem mar, afunilado
bafo salobre,
ressaca que aderiste à terra: Paseo
de Julio,
embora minhas lembranças, antigas até
a ternura, te saibam
nunca te senti pátria.
Só guardo de ti uma deslumbrada
ignorância,
uma incerta propriedade como a dos
pássaros no ar,
mas meu verso é de interrogação e
de prova
e para obedecer ao entrevisto.
Bairro com lucidez de pesadelo ao
pé dos outros,
teus espelhos curvos denunciam o
lado feio dos rostos,
tua noite aquecida em bordéis pende
da cidade.
És a perdição forjando um mundo
com os reflexos e a deformação
deste;
sofres de caos, adoeces de
irrealidade,
te empenhas em jogar com cartas
marcadas a vida;
teu álcool move pelejas,
tuas adivinhas manuseiam invejosos
livros de magia.
Por ser vazio o inferno
será espúria tua própria fauna de
monstros
e a sereia prometida por esse
cartaz morta e de cera?
Tens a terrível inocência
da resignação, do amanhecer, do
conhecimento,
a do espírito não purificado,
apagado
pelos dias do destino,
que ora branco de muitas luzes, ora
ninguém,
só cobiça o presente, o atual, como
os homens velhos.
Atrás dos muros de meu subúrbio, as
carroças rudes
rezarão com os varais em riste para
seu impossível deus de ferro e de
pó,
mas, que deus, que ídolo, que
veneração a tua, Paseo de Julio?
Tua vida fez um pacto com a morte;
toda felicidade, só de existir, já
te é adversa.
(Caderno San Martín — 1929)
El paseo de Julio
Juro que no por deliberación he
vuelto a la calle
de alta recova repetida como un
espejo,
de parrillas con la trenza de carne
de los Corrales,
de prostitución encubierta por lo
más distinto: la música.
Puerto mutilado sin mar, encajonada
racha salobre,
resaca que te adheriste a la
tierra: Paseo de Julio,
aunque recuerdos míos, antiguos
hasta la ternura, te sepan,
nunca te sentí patria.
Sólo poseo de ti una deslumbrada
ignorancia,
una insegura propiedad como la de
los pájaros en el aire,
pero mi verso es de interrogación y
de prueba
y para obedecer lo entrevisto.
Barrio con lucidez de pesadilla al
pie de los otros,
tus espejos curvos denuncian el
lado de fealdad de las caras,
tu noche calentada en lupanares
pende de la ciudad.
Eres la perdición fraguándose un
mundo
con los reflejos y las
deformaciones del nuestro;
sufres de caos, adoleces de
irrealidad,
te empeñas en jugar con naipes
raspados la vida;
tu alcohol mueve peleas,
tus adivinhas interrogan envidiosos
libros de magia.
¿Será porque el infierno es vacío
que es espuria tu misma fauna de
monstruos
y la sirena prometida por ese
cartel es muerta y de cera?
Tienes la inocencia terrible
de la resignación, del amanecer,
del conocimiento,
la del espíritu no purificado,
borrado
por los días del destino
y que ya blanco de muchas luces, ya
nadie,
sólo codicia lo presente, lo
actual, como los hombres viejos.
Detrás de los paredones de mi
suburbio, los duros carros
rezarán con varas en alto a su
imposible dios de hierro y de polvo,
pero, ¿qué dios, qué ídolo, qué
veneración la tuya, Paseo de Julio?
Tu vida pacta con la muerte;
toda felicidad, con sólo existir,
te es adversa.
(Cuaderno San Martín — 1929)
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Primeira poesia: Jorge Luis Borges,
traduzido por Josely Vianna Baptista, edição bilíngue, 1ª reimpressão, 2005, Companhia
das Letras, São Paulo — SP; Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (1899 —
1986), argentino de Buenos Aires, aprendeu a língua inglesa com a avó paterna
antes de falar espanhol, suas primeiras leituras se deram naquele idioma, foi
poeta, contista, ficcionista, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor
universitário e bibliotecário; aos 9 anos de idade escreveu La Visera Fatal,
seu primeiro conto “inspirado em episódio da obra de Dom Quixote”; de 1914 a
1920, já com alfabetização bilíngue, viveu com a família na Europa, concluiu
seus estudos secundários no Collège de Genève — Suiça, ligou-se ao movimento
altruísta literário de vanguarda na Espanha, de volta à Argentina, na década de
1920, publicou três livros de poesia e, a partir daí, deu início à publicação
de seus contos, invariavelmente na revista Sur, a qual também editou seus
livros de ficção; lecionou Literatura Inglesa na Universidade de Buenos Aires,
trabalhou na Biblioteca Municipal Miguel Cané e dirigiu a Biblioteca Nacional;
em 1956, já sendo proibido pelos oftalmologistas de ler e escrever, passou a
conviver com a cegueira que, vindo de forma gradativa desde criança, se
instalava em sua vida; suas obras: Fervor de Buenos Aires (poesia, 1923), Luna
de enfrente (Lua defronte, poesia, 1925), Inquisiciones (ensaios, 1925), El
idioma de los argentinos (ensaio, 1928), Cuaderno San Martín (Caderno San
Martín, poesia, 1929), Evaristo Carriego (ensaio, 1930), Historia universal de
la infamía (contos, 1935), Historia de la Eternidad (ensaios, 1936), Ficciones
(contos, 1944), Nova refutação do tempo (ensaios, 1947), El Aleph (O Aleph,
contos, 1949), A morte e a bússola (contos, 1951), El hacedor (1960), Para las
seis cuerdas (1967), El oro de los tigres (1972), Elogio de la sombra (1969),
Historia de la noche (1976), todos de poesia, e tantos outros títulos em verso
e prosa, inclusive em traduções para mais de 35 idiomas; na publicação de seus
textos, Jorge Luis Borges também fez uso de vários pseudônimos, entre os quais
Alex Ander, Benjamín Beltrán, Andrés Corthis, Pascual Güida, Bernardo Haedo,
José Tuntar, Honorio Bustos Domecq e Benito Suárez Linch; teve sua obra
transferida para o cinema e a televisão, e também teve textos musicados pelo
compositor e instrumentista Astor Piazzolla (Tangos & Milongas); Borges,
mesmo cego, não deixou de produzir seus escritos, os quais eram ditados para
María Kodama, sua ex-aluna, depois assistente literária e esposa; recebeu
inúmeras premiações por sua obra.