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[traduzido por Paulo César de Souza]
188.
Embriaguez e nutrição. — Os povos são muito enganados porque sempre buscam um
enganador, isto é, um vinho estimulante para os seus sentidos. Podendo tê-lo,
contentam-se com um pão ruim. Para eles, a embriaguez vale mais que o alimento —
eis a isca que eles sempre morderão! O que são, para eles, homens escolhidos de
seu meio —, ainda que sejam os mais competentes profissionais —, comparados a
esplêndidos conquistadores, ou velhas e suntuosas casas principescas! No mínimo,
o homem do povo tem de lhes oferecer a perspectiva de conquistas e suntuosidade:
desse modo talvez lhe tenham fé. Eles obedecem sempre, e fazem mais ainda que
obedecer, desde que possam também inebriar-se! Nem mesmo a paz e o prazer lhes
podem ser oferecidos, sem a coroa de louros e sua força que enlouquece. Mas esse
gosto plebeu, que considera
a embriaguez mais importante que o alimento, de modo algum surgiu
na profundeza da plebe: foi antes levado, transplantado para lá, apenas
florescendo lá de maneira bem tardia e exuberante, enquanto teve sua origem nas
mais altas inteligências, e nelas medrou durante milênios. O povo é o último terreno inculto em
que ainda pode crescer esta refulgente erva daninha. — Como? E justamente a ele
deveríamos confiar a política? Para que dela obtenha a sua embriaguez cotidiana?
Aurora — Reflexões sobre os preconceitos morais,
Livro III
188
Rausch und Ernährung. — Die Völker werden so sehr betrogen,
weil sie immer einen Betrüger suchen: nämlich einen
aufregenden Wein für ihre Sinne. Wenn sie nur den haben können, dann nehmen sie wohl mit schlechtem Brote fürlieb. Der Rausch gilt
ihnen mehr als die Nahrung — hier.
Ist der Köder, na dem sie immer anbeißen werden! Was sind ihnen Männer, aus ihrer
Mitte gewählt — und seien
es die sachkundigsten Praktiker —
gegen glänzende Eroberer, oder alte prunkhafte Fürstenhäuser! Mindestens
muß der Volksmann ihnen Eroberungen und Prunk in Aussicht stellen: so findet er
vielleicht Glauben. Sie gehorchen immer und tun noch mehr als gehorchen, vorausgesetzt,
daß sie sich dabei berauschen können! Man darf ihnen selbst die Ruhe und das Vergnügen
nicht anbieten, ohne den Lorbeerkranz und seine verrückt machende Kraft darin. Dieser
pöbelhafte Geschmack, welcher den Rausch wichtiger nimmt als die Ernährung, ist aber keineswegs in der Tiefe des Pöbels entstanden:
er ist vielmehr dorthin getragen, dorthin verpflanzt und dort nur noch am meisten
rückständig und üppig aufschießend, während er von den höchsten Intelligenzen her
seinen Ursprung nimmt und Jahrtausende lang in ihnen geblüht hat. Das Volk ist der
letzte wilde Boden, auf dem dieses glänzende Unkraut
noch gedeihen kann. — Wie!
Und ihm gerade solte man die Politik anvertrauen? Damit es sich aus ihr seinen täglichen
Rausch mache?
Morgenröte. Gedanken über die
moralischen Vorurteile,
Drittes Buch
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Aurora: Reflexões sobre os preconceitos morais — Friedrich Nietzsche,
Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2016, Companhia
de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 — 1900), nascido em
Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo,
crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de
Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia
Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento
da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der
Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a
1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David
Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano,
um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte
originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer
como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth
(1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über
die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft,
1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach
Zarathustra, 1883 — 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do
Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica
(Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar
com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos
(1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce
Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros
títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo
afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.