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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Friedrich Nietzsche: 388. Embriaguez e nutrição. — Os povos são muito enganados porque sempre buscam um enganador, isto é, um vinho estimulante para os seus sentidos. . . .


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[traduzido por Paulo César de Souza]

188. Embriaguez e nutrição. Os povos são muito enganados porque sempre buscam um enganador, isto é, um vinho estimulante para os seus sentidos. Podendo tê-lo, contentam-se com um pão ruim. Para eles, a embriaguez vale mais que o alimento eis a isca que eles sempre morderão! O que são, para eles, homens escolhidos de seu meio , ainda que sejam os mais competentes profissionais , comparados a esplêndidos conquistadores, ou velhas e suntuosas casas principescas! No mínimo, o homem do povo tem de lhes oferecer a perspectiva de conquistas e suntuosidade: desse modo talvez lhe tenham fé. Eles obedecem sempre, e fazem mais ainda que obedecer, desde que possam também inebriar-se! Nem mesmo a paz e o prazer lhes podem ser oferecidos, sem a coroa de louros e sua força que enlouquece. Mas esse gosto plebeu, que considera a embriaguez mais importante que o alimento, de modo algum surgiu na profundeza da plebe: foi antes levado, transplantado para lá, apenas florescendo lá de maneira bem tardia e exuberante, enquanto teve sua origem nas mais altas inteligências, e nelas medrou durante milênios. O povo é o último terreno inculto em que ainda pode crescer esta refulgente erva daninha. Como? E justamente a ele deveríamos confiar a política? Para que dela obtenha a sua embriaguez cotidiana?

Aurora — Reflexões sobre os preconceitos morais,
Livro III

Friedrich Nietzsche

188
Rausch und Ernährung. — Die Völker werden so sehr betrogen, weil sie immer einen Betrüger suchen: nämlich einen aufregenden Wein für ihre Sinne. Wenn sie nur den haben können, dann nehmen sie wohl mit schlechtem Brote fürlieb. Der Rausch gilt ihnen mehr als die Nahrung hier. Ist der Köder, na dem sie immer anbeißen werden! Was sind ihnen Männer, aus ihrer Mitte gewählt und seien es die sachkundigsten Praktiker gegen glänzende Eroberer, oder alte prunkhafte Fürstenhäuser! Mindestens muß der Volksmann ihnen Eroberungen und Prunk in Aussicht stellen: so findet er vielleicht Glauben. Sie gehorchen immer und tun noch mehr als gehorchen, vorausgesetzt, daß sie sich dabei berauschen können! Man darf ihnen selbst die Ruhe und das Vergnügen nicht anbieten, ohne den Lorbeerkranz und seine verrückt machende Kraft darin. Dieser pöbelhafte Geschmack, welcher den Rausch wichtiger nimmt als die Ernährung, ist aber keineswegs in der Tiefe des Pöbels entstanden: er ist vielmehr dorthin getragen, dorthin verpflanzt und dort nur noch am meisten rückständig und üppig aufschießend, während er von den höchsten Intelligenzen her seinen Ursprung nimmt und Jahrtausende lang in ihnen geblüht hat. Das Volk ist der letzte wilde Boden, auf dem dieses glänzende Unkraut noch gedeihen kann. Wie! Und ihm gerade solte man die Politik anvertrauen? Damit es sich aus ihr seinen täglichen Rausch mache?

Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile,
Drittes Buch
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Aurora: Reflexões sobre os preconceitos morais — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Friedrich Nietzsche: 204. Dânae e deus no ouro.


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[traduzido por Paulo César de Souza]

204. Dânae e deus no ouro.* De onde vem essa desmedida impaciência que hoje em dia torna alguém um criminoso, em condições que explicariam melhor a tendência oposta? Pois se um homem utiliza pesos falsos, um outro incendeia a própria casa, após tê-la segurado por um alto valor, um terceiro se envolve na falsificação de dinheiro, e três quartos da alta sociedade se dedicam ao logro autorizado e partilham a má consciência da bolsa e da especulação: o que impele essa gente? Não a necessidade verdadeira, não vão assim tão mal, talvez comam e bebam sem problemas o que os constrange, dia e noite, é a terrível impaciência de ver o dinheiro acumular-se muito lentamente, e um prazer e um amor igualmente terríveis pelo dinheiro acumulado. Nessa impaciência e nesse amor, porém, revela-se novamente aquele fanatismo da ânsia de poder, que em outros tempos foi inflamado pela crença de estar de posse da verdade, e que tinha nomes tão belos que se podia ousar ser desumano com boa consciência (queimando judeus, heréticos e bons livros, e exterminando culturas superiores como as do Peru e do México). Os meios da ânsia de poder mudaram, mas o mesmo vulcão ainda arde, a impaciência e o amor desmedido reclamam suas vítimas: e o que antigamente se fazia “em nome de Deus” hoje se faz pelo dinheiro, isto é, por aquilo que agora proporciona o máximo de sensação de poder e boa consciência.

Friedrich Nietzsche

204
Danae und Gott im Golde.  Woher diese unmäßige Ungeduld, welche jetzt den Menschen zum Verbrecher macht, in Zuständen, welche den entgegengesetzten Hang besser erklären würden? Denn wenn dieser falsches Gewicht gebraucht, jener sein Haus anbrennt, nachdem er es hoch versichert hat, ein dritter am Prägen falschen Geldes Anteil nimmt, wenn drei Viertel der höheren Gesellschaft dem erlaubten Betruge nachhängt und am schlechten Gewissen der Börse und der Spekulation zu tragen hat: was treibt sie? Nicht die eigentliche Not, es geht ihnen nicht so ganz schlecht, vielleicht sogar essen und trinken sie ohne Sorge aber eine furchtbare Ungeduld darüber, daß das Geld sich zu langsam häuft, und eine ebenso furchtbare Lust und Liebe zu gehäuftem Gelde drängt sie bei Tage und bei der Nacht. In dieser Ungeduld und dieser Liebe aber kommt jener Fanatismus des Machtgelüstes wieder zum Vorschein, welcher ehemals durch den Glauben, im Besitz der Wahrheit zu sein, entzündet wurde und der so schöne Namen trug, daß man es daraufhin wagen konnte, mit gutem Gewissen unmenschlich zu sein (Juden, Ketzer und gute Bücher zu verbrennen und ganze höhere Kulturen, wie die von Peru und Mexiko auszurotten). Die Mittel des Machtgelüstes haben sich verändert, aber derselbe Vulkan glüht noch immer, die Ungeduld und die unmäßige Liebe wollen ihre Opfer: und was man ehedem »um Gottes willen« tat, tut man jetzt um des Geldes willen, das heißt um dessen willen, was jetzt am höchsten Machtgefühl und gutes Gewissen gibt.

Nota do tradutor Paulo César de Souza: Dânae: na mitologia grega, filha de um rei que, encerrada numa câmara pelo pai, para impedir que tivesse relações com algum homem, foi fecundada por Zeus sob a forma de uma chuva de ouro.
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Aurora: Reflexões sobre os preconceitos morais — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

domingo, 7 de setembro de 2025

Friedrich Nietzsche: 317. Motivo de ataque. — Não se ataca apenas para fazer mal a alguém, para derrotá-lo, mas talvez simplesmente para tomar consciência da própria força. & outros aforismos

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[traduzido por Paulo César de Souza]

capítulo sexto — O homem em sociedade

     298. O partidário mais perigoso. — Em todo partido há alguém que, ao enunciar com demasiada fé os princípios do partido, estimula os demais à apostasia.
     305. O equilíbrio da amizade. — Às vezes, em nosso relacionamento com outra pessoa, o justo equilíbrio da amizade é restaurado se pomos em nosso prato da balança uma pitada de falta de razão.
     317. Motivo de ataque. — Não se ataca apenas para fazer mal a alguém, para derrotá-lo, mas talvez simplesmente para tomar consciência da própria força.
     337. Dissabor com a benevolência alheia. — Enganamo-nos quanto à intensidade em que nos cremos odiados ou temidos: porque nós mesmos conhecemos bem o grau de nossa divergência em relação a uma pessoa, uma tendência, um partido, mas eles nos conhecem superficialmente, e portanto nos odeiam superficialmente. É frequente depararmos com uma benevolência que para nós é inexplicável; mas se a compreendemos, então ela nos ofende, porque mostra que nos levam bastante a sério, não nos dão suficiente importância.
     346. Indelicado sem querer. — Quando alguém, sem o querer, trata indelicadamente outra pessoa, por exemplo, não a cumprimenta por não tê-la reconhecido, isto o aborrece, ainda que não possa repreender sua consciência; incomoda-o a má impressão que produziu no outro, ou teme as consequências de um mal-entendido, ou o entristece ter ferido o outro — portanto, vaidade, medo ou compaixão podem ser despertados, ou talvez tudo isso ao mesmo tempo.

Humano, demasiado humano,
um livro para espíritos livres[Livro 1]

Friedrich Nietzsche

Sechstes Hauptstück. Der Mensch im Verkehr

     298 Der gefährlichste Parteimann. — In jeder Partei ist einer, der durch sein gar zu gläubiges Aussprechen der Parteigrundsätze die Übrigen zum Abfall reizt.
     305 Gleichgewicht der Freundschaft. — Manchmal kehrt, im Verhältnis von uns zu einem andern Menschen, das rechte Gleichgewicht der Freundschaft zurück, wenn wir in unsre eigne Wagschale einige Gran Unrecht legen.
     317 Motiv des Angriffs. — Man greift nicht nur an, um Jjemandem wehe zu tun, ihn zu besiegen, sondern vielleicht auch nur, um sich seiner Kraft bewußt zu werden.
     337 Verdruß am Wohlwollen anderer. — Wir irren uns über den Grad, in welchem wir uns gehaßt, gefürchtet glauben: weil wir selber zwar gut den Grad unserer Abweichung von einer Person, Richtung, Partei kennen, jene andern aber uns sehr oberflächlich kennen und deshalb auch nur oberflächlich hassen. Wir begegnen oft einem Wohlwollen, welches uns unerklärlich ist; verstehen wir es aber, so beleidigt es uns, weil es zeigt, daß man uns nicht ernst, nicht wichtig genug nimmt.
     346 Wider Willen unhöflich. — Wenn jemand wider Willen einen andern unhöflich behandelt, zum Beispiel nicht grüßt, weil er ihn nicht erkennt, so wurmt ihn dies, obschon er nicht seiner Gesinnung einen Vorwurf machen kann; ihn kränkt die schlechte Meinung, welche er bei dem andern erregt hat, oder er fürchtet die Folgen einer Verstimmung, oder ihn schmerzt es, den andern verletzt zu haben also Eitelkeit, Furcht oder Mitleid können rege werden, vielleicht auch alles zusammen.

Menschliches, Allzumenschliches:
Ein Buch Fuer Freie Geister[Erster Band]
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Humano, demasiado humano — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 12ª reimpressão, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Friedrich Nietzsche: A boa e a má natureza. — Primeiro os homens projetaram-se na natureza: em toda parte viram a si mesmos e seus iguais, isto é, suas características más e caprichosas, . . . [aforismo17] & outros aforismos


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[traduzido por Paulo César de Souza]

     3. Tudo tem seu tempo. — Quando o homem deu a todas as coisas um gênero, não acreditou estar brincando, mas haver obtido uma profunda compreensão: apenas muito tarde, e talvez ainda não completamente, ele deu-se conta da enormidade desse erro.  De igual modo, o homem conferiu a tudo o que existe uma relação com a moral e revestiu o mundo de um significado ético. Um dia, isso terá tanto valor quanto hoje tem a crença na masculinidade ou feminilidade do Sol.
     6. O prestidigitador e seu oposto. — O que é espantoso na ciência é o contrário do que é espantoso na arte do prestidigitador. Pois este quer que vejamos uma causalidade bem simples onde atua, na realidade, uma causalidade bem complexa. Enquanto a ciência nos faz abandonar causalidades simples onde tudo parece facilmente compreensível e nós somos os bufões da aparência. As coisas “mais simples” são muito complicadas não podemos nos maravilhar o bastante com isso!
     17. A boa e a má natureza. — Primeiro os homens projetaram-se na natureza: em toda parte viram a si mesmos e seus iguais, isto é, suas características más e caprichosas, como se estivessem escondidas entre nuvens, temporais, animais de rapina, árvores e plantas: naquele tempo inventaram a “natureza má”. Depois veio a época em que novamente se imaginaram fora da natureza, a época de Rousseau: estavam tão fartos uns dos outros, que quiseram possuir um canto a que não chegasse o homem e seu tormento: inventaram a “natureza boa”.

Aurora — Reflexões sobre os preconceitos morais,
Livro 1

Friedrich Nietzsche

3
Alles hat seine Zeit. — Als der Mensch allen Dingen ein Geschlecht gab, meinte er nicht zu spielen, sondern eine tiefe Einsicht gewonnen zu haben:  den ungeheuren Umfang dieses Irrtums hat er sich sehr spät und jetzt vielleicht noch nicht ganz eingestanden. Ebenso hat der Mensch allem, was da ist, eine Beziehung zur Moral beigelegt und der Welt eine ethische Bedeutung über die Schulter gehängt. Das wird einmal ebenso viel und nicht mehr Wert haben, als es heute schon der Glaube an die Männlichkeit oder Weiblichkeit der Sonne hat.
6
Der Taschenspieler und sein Widerspiel. — Das Erstaunliche in der Wissenschaft ist dem Erstaunlichen in der Kunst des Taschenspielers entgegengesetzt. Denn dieser will uns dafür gewinnen, eine sehr einfache Kausalität dort zu sehen, wo in Wahrheit eine sehr komplizierte Kausalität in Tätigkeit ist. Die Wissenschaft dagegen nötigt uns, den Glauben an einfache Kausalitäten gerade dort aufzugeben, wo alles so leicht begreiflich scheint und wir die Narren des Augenscheins sind. Die »einfachsten« Dinge sind sehr kompliziert, man kann sich nicht genug darüber verwundern!
17
Die gute und die böse Natur. — Erst haben die Menschen sich in die Natur hineingedichtet: sie sahen überall sich und ihresgleichen, nämlich ihre böse und launenhafte Gesinnung, gleichsam versteckt unter Wolken, Gewittern, Raubtieren, Bäumen und Kräutern: damals erfanden sie die »böse Natur«. Dann kam einmal eine Zeit, da sie sich wieder aus der Natur herausdichteten, die Zeit Rousseau’s: man war einander so satt, daß man durchaus einen Weltwinkel haben wollte, wo der Mensch nicht hinkommt mit seiner Qual: man erfand die »gute Natur«.

Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile,
Erstes Buch
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Aurora: Reflexões sobre os preconceitos morais — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

domingo, 16 de março de 2025

Friedrich Nietzsche: Marca de distinção. — Todos os poetas e escritores apaixonados pelo superlativo querem mais do que podem. [aforismo 141] & outros aforismos

 
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[traduzido por Paulo César de Souza]

     120. Próximos demais. — É desvantajoso para os bons pensamentos sucederem-se uns aos outros muito rapidamente; eles obstruem a visão um do outro. Por isso os maiores artistas e escritores fizeram bastante uso do que é mediano.
     137. Os piores leitores. Os piores leitores são os que agem como soldados saqueadores: retiram alguma coisa de que podem necessitar, suja, e desarranujam o resto e difamam todo o conjunto.
     141. Marca de distinção. Todos os poetas e escritores apaixonados pelo superlativo querem mais do que podem.
     152. Escrever e querer vencer. — Escrever deveria sempre indicar uma vitória, uma superação de si mesmo, que deve ser comunicada para benefício dos outros; mas há autores dispépticos, que escrevem apenas quando não conseguem digerir algo, e mesmo quando esse algo lhes ficou nos dentes: involuntariamente procuram aborrecer também o leitor com seu desgosto, e assim exercer algum poder sobre ele, isto é: também eles querem triunfar, mas sobre os outros.
     163. Todo começo é um perigo. O poeta tem a escolha: ou fazer subir o sentimento de um degrau a outro, finalmente erguendo-o bastante alto, ou experimentar um ataque de surpresa, puxando já de início com toda a força a corda do sino. As duas opções têm seus perigos: no primeiro caso, o tédio talvez afugente o espectador; no segundo, o medo.
     191. Pró e contra necessários. — Quem não compreendeu que todo grande homem deve ser não somente apoiado, mas também, para benefício geral, combatido, certamente é ainda uma grande criança ou também um grande homem.
     364. Razão de muito mau humor. — Quem, na vida, prefere o belo ao útil, certamente acabará, como a criança que prefere o doce ao pão, por estragar o estômago e ver o mundo com bastante mau humor.
     369. Tédio. Há um tédio das mentes mais refinadas e cultivadas, para quem o melhor que o mundo oferece tornou-se insípido: habituados a comer alimentos seletos, cada vez mais seletos, e a desgostar-se com os mais grosseiros, correm o perigo de morrer de fome pois existe muito pouco do melhor, e às vezes ele se tornou inacessível ou duro demais, de sorte que nem mesmo bons dentes conseguem mordê-lo.

[Humano, Demasiado Humano II * —
Primeira parte: Opiniões e Sentenças Diversas]

Friedrich Nietzsche

120
Nicht zu nahe. — Es ist ein Nachteil für gute Gedanken, wenn sie zu rasch aufeinanderfolgen; sie verdecken sich gegenseitig die Aussicht. Deshalb haben die größten Künstler und Schriftsteller reichlichen Gebrauch vom Mittelmäßigen gemacht.
137
Die schlechtesten Leser. — Die schlechtesten Leser sind die, welche wie plündernde Soldaten verfahren: sie nehmen sich einiges, was sie brauchen können, heraus, beschmutzen und verwirren das übrige und lästern auf das Ganze.
141
Abzeichen des Ranges. — Alle Dichter und Schriftsteller, welche in den Superlativ verliebt sind, wollen mehr als sie können.
152
Schreiben und Siegen-wollen. — Schreiben sollte immer einen Sieg anzeigen, und zwar eine Überwindung seiner selbst, welche andern zum Nutzen mitgeteilt werden muß; aber es gibt dyspeptische Autoren, welche gerade nur schreiben, wenn sie etwas nicht verdauen können, ja wenn dies ihnen schon in den Zähnen hängengeblieben ist: sie suchen unwillkürlich mit ihrem Ärger auch dem Leser Verdruß zu machen und so eine Gewalt über ihn auszuüben, das heißt: auch sie wollen siegen, aber über andere.
163
Aller Anfang ist Gefahr. — Der Dichter hat die Wahl, entweder das Gefühl von einer Stufe zur andern zu heben und es so zuletzt sehr hoch zu steigern oder es mit einem Überfalle zu versuchen und gleich von Beginn an mit aller Gewalt am Glockenstrang zu ziehn. Beides hat seine Gefahren: im ersten Falle läuft ihm vielleicht sein Zuhörer vor Langeweile, im zweiten vor Schrecken davor.
191
Pro und Contra nötig. — Wer nicht begriffen hat, daß jeder große Mann nicht nur gefördert, sondern auch, der allgemeinen Wohlfahrt wegen, bekämpft werden muß, ist gewiß noch ein großes Kind oder selber ein großer Mann.
364
Grund vieler Verdrießlichkeit. — Wer im Leben das Schöne dem Nützlichen vorzieht, wird sich gewiß zuletzt, wie das Kind, welches Zuckerwerk dem Brote vorzieht, den Magen verderben und sehr verdrießlich in die Welt sehen.
369
Langeweile. — Es gibt eine Langeweile der feinsten und gebildetsten Köpfe, denen das Beste, was die Erde bietet, schal geworden ist: gewöhnt daran, ausgesuchte und immer ausgesuchtere Kost zu essen und vor der gröberen sich zu ekeln, sind sie in Gefahr Hungers zu sterben denn des Allerbesten ist nur wenig da, und mitunter ist es unzugänglich oder steinhart geworden, so daß es auch gute Zähne nicht mehr beißen können.

[Menschliches, Allzumenschliches II —
Erste Abteilung: Vermischte Meinungen und Sprüche]

Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: No Posfácio deste Humano, Demasiado Humano II, o tradutor Paulo César de Souza nos relata que, em 1879, ao concluir O Andarilho e sua Sombra, Nietzsche achava ser esta a sua última obra, por ter sido aquele ano “pródigo em dores”. As doenças por ele sofridas desde a juventude (“enxaquecas, problemas de visão, náuseas, etc.”) haviam se tornado mais frequentes e terríveis, o que o obrigou a deixar o cargo de professor da Universidade de Basileia. Nietzsche mal podia ler e escrever, e achava que morreria no ano seguinte, aos 36 anos, idade da morte de seu pai. O tradutor, alertando caber várias outras considerações sobre o tema, expõe que, naquelas condições, para alguém incapaz de uma produção intelectual constante, e sem ter residência fixa, o aforismo “revelou-se o modo de expressão mais adequado”. Paulo César de Souza continua: “desde Humano, Demasiado Humano até o início de 1889, quando ele parou de sentir, pensar e escrever, a maior parte do que publicou foram coletâneas de aforismos”. Este Humano, Demasiado Humano II é composto de duas partes: Opiniões e Sentenças Diversas e O Andarilho e sua Sombra.
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Humano, Demasiado Humano: Um Livro para Espíritos Livres, Volume II Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Friedrich Nietzsche: O poeta como sinalizador do futuro — [aforismo 99]

 
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[traduzido por Paulo César de Souza]

     99. O poeta como sinalizador do futuro. Há ainda, entre os homens de hoje, tanta força criadora excedente não utilizada na configuração da vida, tanta força que deveria se dedicar integralmente a uma única meta, não, digamos, à representação do que é presente, à reanimação e recriação imaginativa do passado, mas à sinalização do futuro: não no sentido de que o poeta, como um fantástico economista, deva prefigurar condições melhores para o povo e a nação, juntamente com os meios de realizá-las. Mas sim, como faziam antigamente os artistas com as imagens divinas, que vá elaborar poeticamente a bela imagem humana e sondar os casos em que, em meio a nosso mundo e realidade moderna, sem nenhuma artificial recusa e afastamento dele, ainda seja possível a grande alma bela, ali onde ainda hoje ela possa materializar-se em condições harmoniosas, equilibradas, mediante as quais adquira visibilidade, duração e exemplaridade, e assim, com o estímulo da emulação e da inveja, ajude a criar o futuro. As obras desses poetas se distinguiriam por aparecerem isoladas e defendidas contra o ar e o ardor das paixões: o desacerto incorrigível, o despedaçamento do inteiro instrumento musical humano, o riso de escárnio e o ranger de dentes, e tudo de trágico e cômico no velho sentido habitual seriam sentidos, na proximidade dessa nova arte, como importuno embrutecimento arcaizante da imagem humana. Força, bondade, brandura, pureza e involuntária, inata moderação nas pessoas e seus atos: um chão aplainado, que transmita sossego e prazer ao pé: um céu luminoso refletindo-se nos rostos e eventos: o saber e a arte convergindo numa nova unidade: o espírito coabitando sem presunção e ciúme com sua irmã, a alma, e extraindo da oposição a graça da seriedade, não a impaciência da discórdia: tudo isso seria o abrangente, o geral, o fundo dourado sobre o qual as sutis diferenças dos ideais encarnados constituiriam o quadro mesmo, o da sempre maior elevação humana Vários caminhos para essa poesia do futuro partem de Goethe: mas são precisos bons batedores e, sobretudo, um poder bem maior do que o que detêm os poetas de agora, isto é, os irrefletidos retratistas do semianimal e da imaturidade e desmesura que são confundidas com força e natureza.

(Humano, demasiado humano II * —
Primeira parte: Opiniões e sentenças diversas)

Friedrich Nietzsche

99
Der Dichter als Wegzeiger für die Zukunft. — So viel noch überschüssige dichterische Kraft unter den jetzigen Menschen vorhanden ist, welche bei der Gestaltung des Lebens nicht verbraucht wird, so viel sollte, ohne jeden Abzug, einem Ziele sich weihen, nicht etwa der Abmalung des Gegenwärtigen, der Wiederbeseelung und Verdichtung der Vergangenheit, sondern dem Wegweisen für die Zukunft und dies nicht in dem Verstande, als ob der Dichter gleich einem phantastischen Nationalökonomen günstigere Volks- und Gesellschafts-Zustände und deren Ermöglichung im Bilde vorwegnehmen sollte. Vielmehr wird er, wie früher die Künstler an den Götterbildern fortdichteten, so an dem schönen Menschenbilde fordichten und jene Fälle auswittern, wo mitten in unserer modernen Welt und Wirklichkeit, wo ohne jede künstliche Abwehr und Entziehung von derselben, die schöne große Seele noch möglich ist, dort wo sie sich auch jetzt noch in harmonische, ebenmäßige Zustände einzuverleiben vermag, durch sie Sichtbarkeit, Dauer und Vorbildlichkeit bekommt und also, durch Erregung von Nachahmung und Neid, die Zukunft schaffen hilft. Dichtungen solcher Dichter würden dadurch sich auszeichnen, daß sie gegen die Luft und Glut der Leidenschaften abgeschlossen und verwahrt erschienen: der unverbesserliche Fehlgriff, das Zertrümmern des ganzen menschlichen Saitenspiels, Hohnlachen und Zähneknirschen und alles Tragische und Komische im alten gewohnten Sinne würde in der Nähe dieser neuen Kunst als lästige archaisierende Vergröberung des Menschen-Bildes empfunden werden. Kraft, Güte, Milde, Reinheit und ungewolltes, eingeborenes Maß in den Personen und deren Handlungen: ein geebneter Boden, welcher dem Fuße Ruhe und Lust gibt: ein leuchtender Himmel auf Gesichtern und Vorgängen sich abspiegelnd: das Wissen und die Kunst zu neuer Einheit zusammengeflossen: der Geist ohne Anmaßung und Eifersucht mit seiner Schwester, der Seele zusammenwohnend und aus dem Gegensätzlichen die Grazie des Ernstes, nicht die Ungeduld des Zwiespaltes herauslockend: dies alles wäre das Umschließende, Allgemeine, Goldgrundhafte, auf dem jetzt erst die zarten Unterschiede der verkörperten Ideale das eigentliche Gemälde  das der immer wachsenden menschlichen Hoheit machen würden. Von Goethe aus führt mancher Weg in diese Dichtung der Zukunft: aber es bedarf guter Pfadfinder und vor allem einer weit größern Macht, als die jetzigen Dichter, das heißt die unbedenklichen Darsteller des Halbtiers und der mit Kraft und Natur verwechselten Unreife und Unregelmäßigkeit, besitzen.

(Menschliches, Allzumenschliches. Zweiter Band.
Erste Abteilung: Vermischte Meinungen und Sprüche)

Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: No Posfácio deste Humano, Demasiado Humano II, o tradutor Paulo César de Souza nos relata que, em 1879, ao concluir O Andarilho e sua Sombra, Nietzsche achava ser esta a sua última obra, por ter sido aquele ano “pródigo em dores”. As doenças por ele sofridas desde a juventude (“enxaquecas, problemas de visão, náuseas, etc.”) haviam se tornado mais frequentes e terríveis, o que o obrigou a deixar o cargo de professor da Universidade de Basileia. Nietzsche mal podia ler e escrever, e achava que morreria no ano seguinte, aos 36 anos, idade da morte de seu pai. O tradutor, alertando caber várias outras considerações sobre o tema, expõe que, naquelas condições, para alguém incapaz de uma produção intelectual constante, e sem ter residência fixa, o aforismo “revelou-se o modo de expressão mais adequado”. Paulo César de Souza continua: “desde Humano, Demasiado Humano até o início de 1889, quando ele parou de sentir, pensar e escrever, a maior parte do que publicou foram coletâneas de aforismos”. Este Humano, Demasiado Humano II é composto de duas partes: Opiniões e Sentenças Diversas e O Andarilho e sua Sombra.
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Humano, Demasiado Humano: Um Livro para Espíritos Livres, Volume II Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Friedrich Nietzsche: Calando a boca. — O autor tem de calar a boca, quando sua obra fala. [aforismo 140] & outros aforismos

 
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[traduzido por Paulo César de Souza

     135. O poeta e a realidade. — A musa do poeta que não é enamorado da realidade não será a realidade, e lhe dará filhos de olhos cavos e ossos frágeis.
     138. Características do bom escritor. Os bons escritores têm duas coisas em comum: preferem ser compreendidos a ser admirados, e não escrevem para os leitores mordazes e muito agudos.
     140. Calando a boca. O autor tem de calar a boca, quando sua obra fala.
     160. Vantagem para os adversários. — Um livro cheio de espírito também comunica algo desse espírito aos seus adversários.
     164. Em favor dos críticos. Os insetos não picam por maldade, mas porque também querem viver; igualmente os nossos críticos: eles querem nosso sangue, não nossa dor.
     167. Sibi scribere. [Escrever para si] * O autor sensato não escreve para outra posteridade que não a sua própria, ou seja, para sua velhice, a fim de poder, ainda então, ter prazer consigo.
     201. Erro dos filósofos. — O filósofo crê que o valor da sua filosofia se acha no conjunto, no edifício: a posteridade enxerga esse valor na pedra com que ele construiu, com a qual, a partir de então, constrói-se ainda muitas vezes e melhor: ou seja, no fato de aquele edifício poder ser destruído e, no entanto, ainda ter valor como material.
     368. Obscurecer-se. É preciso saber obscurecer-se, a fim de livrar-se do enxame de admiradores importunos.

[Humano, Demasiado Humano II ** —
Primeira parte: Opiniões e Sentenças Diversas]

Friedrich Nietzsche

135
Dichter und Wirklichkeit. — Die Muse des Dichters, der nicht in die Wirklichkeit verliebt ist, wird eben nicht die Wirklichkeit sein und ihm hohläugige und allzu zartknochichte Kinder gebären.
138
Merkmale des guten Schriftstellers. — Die guten Schriftsteller haben zweierlei gemeinsam; sie ziehen vor, lieber verstanden als angestaunt zu werden; und sie schreiben nicht für die spitzen und überscharfen Leser.
140
Mund halten. — Der Autor hat den Mund zu halten, wenn sein Werk den Mund auftut.
160
Vorteil für die Gegner. — Ein Buch voller Geist teilt auch an seine Gegner davon mit.
164
Zugunsten der Kritiker. — Die Insekten stechen, nicht aus Bosheit, sondern weil sie auch leben wollen: ebenso unsere Kritiker; sie wollen unser Blut, nicht unseren Schmerz.
167
Sibi scribere. — Der vernünftige Autor schreibt für keine andere Nachwelt als für seine eigene, das heißt für sein Alter, um auch dann noch an sich Freude haben zu können.
201
Irrtum der Philosophen. — Der Philosoph glaubt, der Wert seiner Philosophie liege im Ganzen, im Bau: die Nachwelt findet ihn im Stein, mit dem er baute und mit dem, von da an, noch oft und besser gebaut wird: also darin, daß jener Bau zerstört werden kann und doch noch als Material Wert hat.
368
Sich verdunkeln. — Man muß sich zu verdunkeln verstehen, um die Mückenschwärme allzulästiger Bewunderer loszuwerden.

[Menschliches, Allzumenschliches II —
Erste Abteilung: Vermischte Meinungen und Sprüche]

Notas:
* do tradutor Paulo César de Souza: Sibi scribere: uma nota de Colli e Montinari esclarece  que já em suas anotações de 1867-68 Nietsche havia copiado e comentado a expressão “sibi quisque scribit” [cada qual escreve para si mesmo], lida numa obra do erudito Valentin Rose, e também nessa época transcrevera, de um volume de Emerson, a frase “Quem escreve para si mesmo, escreve para um público imortal”; por fim, numa carta para o amigo Erwin Rhode, de 15 de julho de 1882, disse: “Mihi ipsi scripsi [Escrevi para mim mesmo] — é assim, afinal”.
** do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: No Posfácio deste Humano, Demasiado Humano II, o tradutor Paulo César de Souza nos relata que, em 1879, ao concluir O Andarilho e sua Sombra, Nietzsche achava ser esta a sua última obra, por ter sido aquele ano “pródigo em dores”. As doenças por ele sofridas desde a juventude (“enxaquecas, problemas de visão, náuseas, etc.”) haviam se tornado mais frequentes e terríveis, o que o obrigou a deixar o cargo de professor da Universidade de Basileia. Nietzsche mal podia ler e escrever, e achava que morreria no ano seguinte, aos 36 anos, idade da morte de seu pai. O tradutor, alertando caber várias outras considerações sobre o tema, expõe que, naquelas condições, para alguém incapaz de uma produção intelectual constante, e sem ter residência fixa, o aforismo “revelou-se o modo de expressão mais adequado”. Paulo César de Souza continua: "desde Humano, Demasiado Humano, até o início de 1889, quando ele parou de sentir, pensar e escrever, a maior parte do que publicou foram coletâneas de aforismos”. Este Humano, Demasiado Humano II é composto de duas partes: Opiniões e Sentenças Diversas e O Andarilho e sua Sombra.
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Humano, Demasiado Humano: Um Livro para Espíritos Livres, Volume II Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 — 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.