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[traduzido por Bezerra de Freitas]
[Seção] I
Ele não trajava a sua túnica
escarlate,
Pois o sangue e o vinho são
vermelhos,
E sangue e vinho havia nas
suas mãos
Quando o viram ao lado da
morta,
A pobre mulher que ele tanto
amara
E assassinara no seu leito.
Ia caminhando entre os juízes
Com um terno cinzento, já
usado;
Trazia na cabeça um boné de
esporte,
E seus passos pareciam leves e
alegres;
Mas, nunca vi um homem que
fitasse o dia
Com tamanha tristeza;
Nunca vi um homem que
contemplasse
Com olhos tão vagos
A estreita faixa azul,
Que os presos chamam
firmamento,
E todas as nuvens que corriam
Como se fossem impelidas por
argênteas velas.
Fui caminhando, com outras
almas sofrendo
Dentro de outro círculo,
E fiquei imaginando se aquele
homem cometera
Uma ação mesquinha ou grande,
Quando uma voz sussurrou,
atrás de mim:
“Aquele companheiro vai ser
enforcado”.
Jesus! As próprias paredes da
prisão
Pareciam, de súbito, estar
girando,
E o firmamento, por cima da
minha cabeça,
Tornou-se um capacete de aço
escaldante,
E, embora eu fosse uma alma
sofredora,
Não sentia a minha própria
dor.
Compreendi, então, que
pensamentos o atormentavam,
Apressando-lhe o passo;
Ele encarava o dia radiante
Com olhar tão vago:
O homem matara o objeto do seu
amor
E, por isso, devia morrer.
No entanto, todo homem mata
aquilo que adora,
Que cada um deles seja ouvido,
Alguns procedem com dureza no
olhar,
Outros com uma palavra
lisonjeira.
O covarde fá-lo com um beijo.
Enquanto o bravo o faz com a espada!
Uns matam o próprio amor
quando ainda jovens,
Outros o fazem na velhice;
Uns estrangulam com as mãos da
luxúria,
Outros com a mão de Ouro,
O que é bondoso faz uso do
punhal,
Porque a morte assim vem mais
depressa.
Uns amam pouco tempo, outros
demais,
Uns vendem, outros compram;
Alguns praticam a ação com
muitas lágrimas
E outros sem um suspiro
sequer:
Pois todo o homem mata o
objeto do seu amor
E, no entanto, nem todo homem
é condenado à morte.
Ele não sofre a morte
humilhante
Num dia de tenebrosa desgraça,
Não tem um laço em volta do
pescoço,
Nem um capuz, cobrindo-lhe a
cabeça,
Seus pés não ficam pendentes
no alçapão
Num espaço aberto.
Não se senta ao lado dos
homens silenciosos
Que o vigiam dia e noite;
E o velam quando ele quer
chorar,
Ou quando tenta orar;
Que o vigiam com medo de que
ele próprio livre
A prisão da sua presa.
Nem desperta de madrugada para
ver
Vultos horripilantes povoando
a sua cela.
O trêmulo Capelão à sua alva
sobrepeliz,
O Sheriff, tristonho e
carrancudo,
E o Diretor, todo de preto
vestido,
Com o rosto amarelado do
Destino.
Não se ergue apressadamente
Para vestir a túnica
encarcerada,
Enquanto, com esperteza, um
médico
Fita-o firmemente e toma nota
De cada uma das suas novas
contorsões nervosas,
Com o dedo no relógio, cujos
tique-taques, lembram horríveis
marteladas.
Ele desconhece aquela sede
doentia
Que dá à garganta a sensação
de areia,
Antes que o carrasco, com as
suas luvas de jardinagem,
Atravesse a porta e o amarre
com três correias
Para que a sua garganta não
mais sinta sede.
Não curva a cabeça para ouvir
O ofício fúnebre que está
sendo lido,
Enquanto, na sua alma, o
terror
Diz-lhe que ele não está
morto;
Ele passa pelo próprio caixão
quando a caminho
do hediondo cadafalso.
Não olha para cima
Através do pequeno teto de
vidro,
Nem reza com os lábios secos
Para que finde a sua agonia;
Não sente na face trêmula
O beijo de Caifás.
 |
| Oscar Wilde |
The Ballad of Reading Gaol
Section I
He did not wear his scarlet coat,
For blood and wine are red,
And blood and wine were on his hands
When they found him with the dead,
The poor dead woman whom he loved,
And murdered in her bed.
He walked amongst the Trial Men
In a suit of shabby grey;
A cricket cap was on his head,
And his step seemed light and gay;
But I never saw a man who looked
So wistfully at the day.
I never saw a man who looked
With such a wistful eye
Upon that little tent of blue
Which prisoners call the sky,
And at every drifting cloud that went
With sails of silver by.
I walked, with other souls in pain,
Within another ring,
And was wondering if the man had done
A great or little thing,
When a voice behind me whispered low,
"That fellow's got to swing."
Dear Christ! the very prison walls
Suddenly seemed to reel,
And the sky above my head became
Like a casque of scorching steel;
And, though I was a soul in pain,
My pain I could not feel.
I only knew what hunted thought
Quickened his step, and why
He looked upon the garish day
With such a wistful eye;
The man had killed the thing he loved
And so he had to die.
Yet each man kills the thing he loves
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!
Some kill their love when they are young,
And some when they are old;
Some strangle with the hands of Lust,
Some with the hands of Gold:
The kindest use a knife, because
The dead so soon grow cold.
Some love too little, some too long,
Some sell, and others buy;
Some do the deed with many tears,
And some without a sigh:
For each man kills the thing he loves,
Yet each man does not die.
He does not die a death of shame
On a day of dark disgrace,
Nor have a noose about his neck,
Nor a cloth upon his face,
Nor drop feet foremost through the floor
Into an empty place
He does not sit with silent men
Who watch him night and day;
Who watch him when he tries to weep,
And when he tries to pray;
Who watch him lest himself should rob
The prison of its prey.
He does not wake at dawn to see
Dread figures throng his room,
The shivering Chaplain robed in white,
The Sheriff stern with gloom,
And the Governor all in shiny black,
With the yellow face of Doom.
He does not rise in piteous haste
To put on convict-clothes,
While some coarse-mouthed Doctor gloats, and notes
Each new and nerve-twitched pose,
Fingering a watch whose little ticks
Are like horrible hammer-blows.
He does not know that sickening thirst
That sands one's throat, before
The hangman with his gardener's gloves
Slips through the padded door,
And binds one with three leathern thongs,
That the throat may thirst no more.
He does not bend his head to hear
The Burial Office read,
Nor, while the terror of his soul
Tells him he is not dead,
Cross his own coffin, as he moves
Into the hideous shed.
He does not stare upon the air
Through a little roof of glass;
He does not pray with lips of clay
For his agony to pass;
Nor feel upon his shuddering cheek
The kiss of Caiaphas.
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Antologia de Poetas Estrangeiros
— Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia
da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo
— SP; Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde (1854 — 1900), irlandês de Dublin, Reino
Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade
de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo,
contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres;
em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e
homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores
progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência,
teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; suas obras: Poems (coletânea
de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881),
The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888), A
House of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray
(O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891),
The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Balad of Reading
Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis
(longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897)
e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.