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domingo, 23 de julho de 2017

Caldas Barbosa: Ter amor não é defeito

Resultado de imagem para roteiro da poesia brasileira arcadismo
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Cantigas

          Desafoga pelas vozes
A paixão, que oprime o peito,
Não te envergonha a verdade,
Ter amor não é defeito.

          Aceita de amor cadeias,
Do modo que eu as aceito,
Os ferros de amor dão honra,
Ter amor não é defeito.

          Com amor não há fugir-lhe,
Nem por força, nem por jeito,
Que importa amar e servi-lo?
Ter amor não é defeito.

          É Glória amar um semblante,
Tão gentil e tão perfeito;
Se é sem defeito o motivo,
Ter amor não é defeito.

          Belisa, gentil Belisa,
Eu te adoro, eu te respeito,
Não me castigues por isso
Ter amor não é defeito.

          Em contemplar os teus olhos
O dia, e noite aproveito,
Contemplar é ação d’alma,
Ter amor não é defeito.

          Eu acordo em ti cuidando,
Em ti cuidando me deito,
Não é defeito o cuidado,
Ter amor não é defeito.

          Aos homens a natureza,
Impôs de amor o preceito,
O defeito está no modo,
Ter amor não é defeito.

    Resultado de imagem para Domingos caldas barbosa
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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Domingos Caldas Barbosa (1738  1800), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta, violonista, compositor e cantor de modinhas, teatrólogo e presbítero; fixou residência em Lisboa  Portugal, por volta de 1772, fez curso de formação religiosa e ordenou-se; fundou a Academia de Belas Artes, a Nova Arcádia, em Portugal, juntamente  com Bocage e outros poetas; sob o pseudônimo de Lereno Selenuntino, aderiu à Arcádia Romana; o poeta árcade teve sua obra vinculada à canção popular; Viola de Lereno foi publicada em 1798.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Caldas Barbosa: Esquecimento

Gentes, * que é isso?
Você não fala?
Por que se cala
Quando me vê?

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente,
     Mui de repente
     Ia esquecer.

Tantos agrados
Faltam agora.
Diga, Senhora,
Diga por quê?

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente,
     Mui de repente
     Ia esquecer.

Eu bem vi logo
Quando partia.
Que assim havia
De suceder.

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente,
     Mui de repente
     Ia esquecer.

Eu não lhe disse?
Não tem lembrança?
Que esta mudança
Havia haver?

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente
     Mui de repente
     Ia esquecer.

Seja mudável,
Seja traidora,
Que enfim, Senhora,
Sempre é mulher.

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente
     Mui de repente
     Ia esquecer.

Deste seu modo
Já não me espanto.
E estou por quanto
Você quiser.

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente
     Mui de repente
     Ia esquecer.

A causa disso,
Eu a adivinho.
O seu carinho
Já d’outrem é.

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente
     Mui de repente
     Ia esquecer.

Sei com quem goza
Seu passatempo,
Lá virá tempo,
Q’eu lho direi

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente
     Mui de repente
     Ia esquecer.

Dava-me o tempo
Por testemunha,
É o q’eu supunha
O tempo o vê.

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente
     Mui de repente
     Ia esquecer.

Por experiência,
Sei com certeza,
Não há firmeza
Nunca em mulher.

     Eu bem sabia
     Q’estando ausente
     Mui de repente
     Ia esquecer.

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Nota de Câmara Cascudo:
* De notar-se o gentes, de sabor brasileiríssimo. Nada mais popular que esta locução interjetiva de surpresa, dúvida, admiração.
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Caldas Barbosa — poesia, Coleção Nossos Clássicos Volume 16, por Luís da Câmara Cascudo, 1972, 2ª. edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Domingos Caldas Barbosa (1738  1800), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta, violonista, compositor e cantor de modinhas, teatrólogo e presbítero; fixou residência em Lisboa  Portugal, por volta de 1772, fez curso de formação religiosa e ordenou-se; fundou a Academia de Belas Artes, a Nova Arcádia, em Portugal, juntamente com Bocage e outros poetas; sob o pseudônimo de Lereno Selenuntino, aderiu à Arcádia Romana; o poeta árcade teve sua obra vinculada à canção popular; Viola de Lereno foi publicada em 1798.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Caldas Barbosa: Sem acabar de morrer *

(Cantigas)

É a minha triste vida
Sempre penar, e sofrer:
Vou morrendo a todo instante
Sem acabar de morrer.

Sabes meu bem o q’eu sofro
Quando não te posso ver?
É morrer de saudades
Sem acabar de morrer.

Prometeu-me Amor doçuras:
Contentou-se em prometer:
E me faz viver morrendo
Sem acabar de morrer.

Lisonjeiras esperanças
Vêm minha morte empecer:
Vão-me sustentando a vida
Sem acabar de morrer.

Em mim tome um triste exemplo
Quem amando quer viver;
Saiba que é viver morrendo
Sem acabar de morrer.

Quando ponho a mão no peito
Sinto um lânguido bater:
É o coração que expira
Sem acabar de morrer.

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Nota de Câmara Cascudo:
* Foi uma das composições prediletas na empatia popular.
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Caldas Barbosa — poesia, Coleção Nossos Clássicos Volume 16, por Luís da Câmara Cascudo, 1972, 2ª. edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Domingos Caldas Barbosa (1738  1800), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta, violonista, compositor e cantor de modinhas, teatrólogo e presbítero; fixou residência em Lisboa  Portugal, por volta de 1772, fez curso de formação religiosa e ordenou-se; fundou a Academia de Belas Artes, a Nova Arcádia, em Portugal, juntamente com Bocage e outros poetas; sob o pseudônimo de Lereno Selenuntino, aderiu à Arcádia Romana; o poeta árcade teve sua obra vinculada à canção popular; Viola de Lereno foi publicada em 1798.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Caldas Barbosa: Vou morrendo devagar *

Eu sei cruel, que tu gostas,
Sim gostas de me matar;
Morro, e por dar-te mais gosto,
Vou morrendo devagar.

Eu gosto de morrer por ti;
Tu gostas de ver-me expirar;
Como isto é morte de gosto,
Vou morrendo devagar.

Amor nos uniu em vida,
Na morte nos quer juntar;
Eu, para ver como morres,
Vou morrendo devagar.

Perder a vida é perder-te;
Não tenho que me apressar;
Como te perco morrendo,
Vou morrendo devagar.

O veneno do ciúme
Já principia a lavrar;
Entre pungentes suspeitas
Vou morrendo devagar.

Já vai me calando ** as veias
Teu veneno de agradar;
E gostando eu de morrer,
Vou morrendo devagar.

Quando não vejo os teus olhos
Sinto-me então expirar;
Sustentado d'esperanças,
Vou morrendo devagar.

Os Ciúmes, e as Saudades
Cruel morte me vêm dar;
Eu vou morrendo aos pedaços,
Vou morrendo devagar.

É feliz entre as desgraças,
Quem logo pode acabar;
Eu, por ser mais desgraçado,
Vou morrendo devagar.

A morte, enfim, vem prender-me,
Já não lhe posso escapar;
Mas abrigado a teu Nome,
Vou morrendo devagar.

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Notas de Câmara Cascudo:
* Foi uma das modinhas mais populares do Pe. Caldas Barbosa. Meu pai (1863 — 1935), ouviu-a muitas vezes cantar, violão acompanhando em tonalidade menor, em várias vilas do interior da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, entre 1880 — 1890. Fossem estes versos escritos em francês e datados de Paris seriam uma pequenina obra-prima de sensualidade galante, maliciosa no duplo emprego do “morrendo devagar”, índice da finura amorosa e verbal, despedindo-se do séc. XVIII, nas vésperas da Revolução Francesa;
** Calando, penetrando.
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Caldas Barbosa — poesia, Coleção Nossos Clássicos Volume 16, por Luís da Câmara Cascudo, 1972, 2ª. edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Domingos Caldas Barbosa (1738 1800), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta, violonista, compositor e cantor de modinhas, teatrólogo e presbítero; fixou residência em Lisboa  Portugal, por volta de 1772, fez curso de formação religiosa e ordenou-se; fundou a Academia de Belas Artes, a Nova Arcádia, em Portugal, juntamente com Bocage e outros poetas; sob o pseudônimo de Lereno Selenuntino, aderiu à Arcádia Romana; o poeta árcade teve sua obra vinculada à canção popular; Viola de Lereno foi publicada em 1798.