Mostrando postagens com marcador Anders Österling. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Anders Österling. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de março de 2026

Sully Prudhomme: A jarra fendida

 
____________________
[traduzido por Heitor Práguer Fróis]

A jarra em que este ramo de verbenas
Fenece por um leque foi rachada:
O choque foi na superfície apenas,
E não se ouviu ruído de pancadas...

Mas aquela fratura desprezível,
Incisando o cristal, tanto cresceu
Que, em progressão fatal, imprevisível,
Fez toda a volta, e a jarra se fendeu.

A fresca linfa aos poucos foi-se embora;
As flores estão já quase sem vida,
E ninguém o notou até agora...
Ai! não a toques, que ela está fendida!

Da mão querida quanta vez um gesto
O coração magoa e o faz sofrer...
E, em breve, sem queixume e sem protesto,
As flores desse amor vão fenecer!

Intacto sempre, no parecer do mundo,
O coração também guarda escondido
O seu sofrer, o seu penar profundo...
Ai! não o toques, que ele está ferido!

(Meus Poemas... dos Outros [Heitor
Práguer Fróis], Bahia, 1952.)

Sully Prudhomme

Le vase brisé

Le vase où meurt cette verveine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut effleurer à peine.
Aucun bruit ne l’a révélé.

Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.

Souvent aussi la main qu’on aime,
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;

Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.

[Stances et poèmes — 1865]
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sully-Prudhomme: Solitude

____________________
[traduzido por Carlindo Lellis*]

Quando um poema componho em torturados
Hemistíquios, não os mais perfeitos
Pensamentos que tenho: os mais amados
Versos que eu imagino não são feitos.

Como em redor de flores, borboletas
O esplendor de asas lépidas agitam,
Em torno deste ideal, às brandas setas
De um sol de ouro, estival, versos palpitam.

Logo, porém, que os toco, o leve bando
Desfaz-se... à minha dor constante e viva
O pólen de íris fúlgido deixando
Da asa tremendo, delicada, esquiva.

Sully Prudhomme

Au Lecteur

Quand je vous livre mon poème,
Mon cœur ne le reconnaît plus:
Le meilleur demeure en moi-même,
Mes vrais vers ne seront pas lus.

Comme autour des fleurs obsédées
Palpitent les papillons blancs,
Autour de mes chères idées
Se pressent de beaux vers tremblants;

Aussitôt que ma main les touche
Je les vois fuir et voltiger,
N’y laissant que le fard léger
De leur aile frêle et farouche.

(Stances et Poèmes — 1865)

* Nota de Mello Nóbrega, tradutor de Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme...:
(Tradução ou, melhor, paráfrase do poema liminar de Stances et Poèmes, de que abrange apenas as três primeiras estrofes. Texto colhido na Antologia de Poetas Franceses — Do século XV ao século XX —, organizada por [R.] Magalhães Júnior. [Au Lecteur, no original, contém 5 estrofes])
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Sully Prudhomme: La Grande Ourse

 
____________________
[traduzido por Dom Pedro II]

Soneto

A Ursa arquipélago de mar sem praias
Muito antes de ser vista cintilava;
Inda o pastor caldeu não vagueava
E alma ansiosa, o corpo não ensaias

Inúmeros veem, por tempo que não tem raias
Sua remota luz, que já os deslumbrava
Indiferente às vista que a escrutava
Brilhará a ursa quando último morto caias

Não tens feição cristã, espanto és do crente
Fatal figura de rigor algente
Sete áureos cravos em pano enfeitado

Teu medido vagar, frígida luz
Vem turbar minha fé, e isto m’induz
A ver porque eu à noite tenha orado

(Poesias — originais e traduções — de S. M.
o Senhor D. Pedro II. Homenagem de seus Netos.
Petrópolis, 1889.), em Nota do tradutor Mello Nóbrega.

Sully Prudhomme

La Grande Ourse

La Grande Ourse, archipel de l’océan sans bords,
Scintillait bien avant qu’elle fût regardée,
Bien avant qu’il errât des pâtres en Chaldée
Et que l’âme anxieuse eût habité les corps;

D’innombrables vivants contemplent depuis lors
Sa lointaine lueur aveuglément dardée;
Indifférente aux yeux qui l’auront obsédée,
La Grande Ourse luira sur le dernier des morts.

Tu n’as pas l’air chrétien, le croyant s’en étonne,
O figure fatale, exacte et monotone,
Pareille à sept clous d’or plantés sur un drap noir.

Ta précise lenteur et ta froide lumière
Déconcertent la foi: c’est toi qui la première
M’as fait examiner mes prières du soir.

(Les Épreuves — 1866)
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Sully Prudhomme: Première solitude

 
____________________
[traduzido por Valentim Magalhães]

No colégio

Há meninos nas escolas,
Sempre banhados em pranto;
Os outros às cabriolas,
Eles quietinhos num canto.

As blusas sempre decentes
As calças em bom estado.
Os sapatos reluzentes,
Um ar sério e delicado.

Os colegas mais idosos
Os chamam, rindo meninas!
E os perseguem, maliciosos
Com suas troças ferinas.

Se os seus brinquedos lhes pedem,
Aos seus pedidos instantes
Bolas, piões, tudo cedem:
Não hão de ser negociantes.

Se o mestre os olha estremecem:
Temem-lhe a sombra, assustados...
Melhor fôra não nascessem:
A infância os faz desgraçados.

Verdadeiro inferno a classe;
E a lição? duro inimigo!
E se o mestre lhes ralhasse?!
E a vergonha do castigo?!

Quantos martírios! De dia,
É o sino rouco, medonho!
E à noite a mudez sombria
Do dormitório tristonho.

Nos lençóis bate e esmorece
O baço clarão das lampas;
Todos ressonam: parece
O vento a gemer nas campas.

E todos dormem, afeitos
A esse dormir de caserna;
Porém eles, nos seus leitos,
Pensam na casa paterna.

E no domingo, coitados!
Lembram o tempo saudoso
Em que dormiam, deitados
Em fofo berço amoroso.

Sob os maternos carinhos,
E as mães, que o sono velavam,
Iam tirá-los dos ninhos:
Pra suas camas os passavam.

Oh! Mães, culpadas ausentes!
Em um desterro infinito
Lhes pareceis. A estes entes
Falta o vosso olhar bendito.

Ingratas! Eles, chorando,
Pensam em vós. E, de bruços,
O travesseiro abraçando,
Abafam nele os soluços.

(Esta tradução, datada de 188,. consta do livro Rimário,
Paris, 1900.), em Nota do tradutor Mello Nóbrega.

Sully Prudhomme

Première solitude

On voit dans les sombres écoles
Des petits qui pleurent toujours;
Les autres font leurs cabrioles,
Eux, ils restent au fond des cours.

Leurs blouses sont très bien tirées,
Leurs pantalons en bon état,
Leurs chaussures toujours cirées;
Ils ont l’air sage et délicat.

Les forts les appellent des filles,
Et les malins des innocents:
Ils sont doux, ils donnent leurs billes,
Ils ne seront pas commerçants.

Les plus poltrons leur font des niches,
Et les gourmands sont leurs copains;
Leurs camarades les croient riches,
Parce qu’ils se lavent les mains.

Ils frissonnent sous l’œil du maître,
Son ombre les rend malheureux.
Ces enfants n’auraient pas dû naître,
L’enfance est trop dure pour eux!

Oh! La leçon qui n’est pas sue,
Le devoir qui n’est pas fini!
Une réprimande reçue,
Le déshonneur d’être puni!

Tout leur est terreur et martyre:
Le jour, c’est la cloche, et, le soir,
Quand le maître enfin se retire,
C’est le désert du grand dortoir;

La lueur des lampes y tremble
Sur les linceuls des lits de fer;
Le sifflet des dormeurs ressemble
Au vent sur les tombes, l’hiver.

Pendant que les autres sommeillent,
Faits au coucher de la prison,
Ils pensent au dimanche, ils veillent
Pour se rappeler la maison;

Ils songent qu’ils dormaient naguères
Douillettement ensevelis
Dans les berceaux, et que les mères
Les prenaient parfois dans leurs lits.

Ô mères, coupables absentes,
Qu’alors vous leur paraissez loin!
À ces créatures naissantes
Il manque un indicible soin;

On leur a donné les chemises,
Les couvertures qu’il leur faut:
D’autres que vous les leur ont mises,
Elles ne leur tiennent pas chaud.

Mais, tout ingrates que vous êtes,
Ils ne peuvent vous oublier,
Et cachent leurs petites têtes,
En sanglotant, sous l’oreiller.

(Les Solitudes — 1869)
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

domingo, 8 de dezembro de 2024

Sully Prudhomme: Le rendez-vous

 
____________________
[traduzido por Dom Pedro II]

Soneto

É tarde, o astrônomo em tardes continuadas,
Da torre e no céu onde o som se esvai,
Busca ilhas de ouro e quando a noite cai
Vê brilhar infinitas alvoradas.

Voam mundos, sementes peneiradas;
Formigam nebulosas, leite que se extrai;
E ao astro que crinito pelos ares sai
Cita que volte, eras mil passadas;

E volta o astro. Um passo ou um instante
Não pode à eterna ciência ele roubar.
Vai-se o homem, mas a humanidade é constante;

Móvel a vista, sempre anda a velar;
E, embora esteja à volta já abolida,
Vigia a verdade só na alta guarida.

(Do livro Poesias — originais e traduções — de S. M.
o Senhor D. Pedro II. Homenagem de seus Netos.
Petrópolis, 1889.), em Nota do tradutor Mello Nóbrega.

Sully Prudhomme

Le rendez-vous

Sonnet.

Il est tard; l'astronome aux veilles obstinées,
Sur sa tour, dans le ciel où meurt le dernier bruit,
Cherche des îles d'or, et, le front dans la nuit,
Regarde à l'infini blanchir des matinées;

Les mondes fuient pareils à des graines vannées;
L'épais fourmillement des nébuleuses luit;
Mais, attentif à l'astre échevelé qu'il suit,
Il le somme, et lui dit: «Reviens dans mille années.»

Et l'astre reviendra. D'un pas ni d'un instant
Il ne saurait frauder la science éternelle;
Des hommes passeront, l'humanité l'attend;

D'un œil changeant, mais sûr, elle fait sentinelle;
Et, fût-elle abolie au temps de son retour,
Seule, la Vérité veillerait sur la tour.

(Les Épreuves — 1866)
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Sully Prudhomme: As lembranças

 
____________________
[traduzido por Augusto de Lima]

Das velhas impressões da infância a ideia grata
Perdura-nos fiel, volvam embora os anos;
Em vão do nosso abril as flores sofrem danos,
A imagem delas fica indelével, exata.

Ao contrário, ai de nós! ninguém conserva intata
A memória, apesar de esforços sobre-humanos,
Das novas emoções, efêmeros enganos,
Cujo traço se apaga apenas se retrata.

Como esperto escanção que no banquete a taça
Entretém sempre cheia, a cada vez que passa,
Passa o tempo e nos enche a memória também.

A lembrança mais nova é a gota derradeira,
Que ao choque mais sutil, transborda e cai; porém
No fundo permanece a primitiva inteira.

(Tradução colhida na Antologia organizada
por Magalhães Júnior.)

Sully Prudhomme

Les souvenirs — Sonnet

A Madame Marthe Guéroult.

De nos émois d’enfantt le lointain souvenir
Nous est fidèle encore, en dépit des années;
Les fleurs de notre avril en vain se sont fanées,
Leurs images en nous ne se peuvent ternir.

Mais au contraire, hélas! voulons-nous retenir
De nos impressions les plus récemment nées,
Elles s’effacent vite et meurent, condamnées,
Moins anciennes dans l’âme, à plus tôt y finir.

Comme un prompt échanson qui, sans reprendre haleine,
Passe devant la coupe et la tient toujours pleine,
Le temps passe et remplit la mémoire à plein bord.

Le souvenir nouveau, c’est la dernière goutte
Qui sous le moindre heurt s’en échappe d’abord,
Tandis que la première au fond demeure toute.

(Le Prisme, poésies diverses —  1886)
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Sully-Prudhomme: Os laços

 
____________________
[traduzido por Álvaro Reis]

Querendo a tudo amar, trago a alma dolorida,
Porque multipliquei a causa dos tormentos…
Frágeis laços, grilhões inúmeros, cruentos,
Prendem meu coração às coisas desta vida.

Tudo a um tempo me atrai e enlaça-me igualmente:
Por seu brilho, a verdade e seus véus, o mistério;
Minha alma se une ao sol num raio de ouro, etéreo,
E em mil fios de seda a cada estrela ardente…

A cadência me prende à ária que triste evoca;
Seduz-me a veludez da rosa entre os abrolhos:
Eu de um sorriso fiz o grilhão dos meus olhos
E fiz também de um beijo a cadeia da boca!

Assim cativo sou dos seres que adoro, a esmo…
Suspenso é meu viver nesta rede que o enlaça…
E quando o menor sopro entre aqueles perpassa,
Sinto um pouco de mim se arrancar de mim mesmo.

(Musa Francesa, Salvador, 1917,
[de Stances et Poèmes — 1865]).

Sully-Prudhomme

Les Chaînes

J’ai voulu tout aimer, et je suis malheureux,
Car j’ai de mes tourments multiplié les causes;
D’innombrables liens frêles et douloureux
Dans l’univers entier vont de mon âme aux choses.

Tout m’attire à la fois et d’un attrait pareil:
Le vrai par ses lueurs, l’inconnu par ses voiles;
Un trait d’or frémissant joint mon cœur au soleil,
Et de longs fils soyeux l’unissent aux étoiles.

La cadence m’enchaîne à l’air mélodieux,
La douceur du velours aux roses que je touche;
D’un sourire j’ai fait la chaîne de mes yeux,
Et j’ai fait d’un baiser la chaîne de ma bouche.

Ma vie est suspendue à ces fragiles nœuds,
Et je suis le captif des mille êtres que j’aime:
Au moindre ébranlement qu’un souffle cause en eux
Je sens un peu de moi s’arracher de moi-même.

[Stances et Poèmes — 1865]
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Sully Prudhomme, por Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].