quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Jules Laforgue: Canção do Pequeno Cardíaco

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[traduzido por Álvaro Moreyra]

Foi de uma doença do coração
Que mamãe morreu, disse o doutor,
E que eu hei de ir lá onde ela está
Para dormir junto dela.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Todos riem de mim nas ruas,
Dos meus jeitos desengonçados;
Pareço um menino bêbado,
Meu Deus! É que o ar me falta,
Tenho medo de cair.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Às vezes vou pelos campos
Na hora do fim do dia
E choro, choro,
E o sol, não sei porque,
Me parece um coração aceso.
Escuto meu coração batendo,
E mamãe que me chama!

Ah, se a vizinha Genoveva
Quisesse o meu coração…
Ah, se ela quisesse!
Sou amarelo, tão triste,
Ela é cor-de-rosa, alegre, bonita.
Escuto meu coração batendo,
É mamãe que me chama!

Sim, todo mundo é mau,
Menos o sol no poente
E mamãe.
E eu quero ir lá onde ela está
Dormir junto dela.
Meu coração bate, bate…
Mamãe, és tu que estás me chamando?

Jules Laforgue

La chanson du petit hypertrophique

C’est d’un’ maladie d’coeur
Qu’est mort’, m’a dit l’docteur,
Tir-lan-laire!
Ma pauv’mère;
Et que j’irai là-bas,
Fair’ dodo z’avec elle.
J’entends mon cœur qui bat,
C’est maman qui m’appelle!

On rit d’ moi dans les rues,
De mes min’s incongrues
La-i-tou!
D’enfant saoul;
Ah! Dieu! C’est qu’à chaqu’ pas
J’étouff’, moi, je chancelle!
J'entends mon cœur qui bat,
C’est maman qui m’appelle!

Aussi j’ vais par les champs
Sangloter aux couchants,
La-ri-rette!
C’est bien bête.
Mais le soleil, j’ sais pas,
M’ semble un coeur qui ruisselle!
J’entends mon coeur qui bat,
C’est maman qui m’appelle!

Ah! si la p’tit’ Gen’viève
Voulait d’ mon coeur qui s’ crève.
Pi-lou-i!
Ah, oui!
J’ suis jaune et triste, hélas!
Elle est ros’, gaie et belle!
J'entends mon cœur qui bat,
C’est maman qui m’appelle!

Non, tout l’ monde est méchant,
Hors le coeur des couchants,
Tir-lan-laire!
Et ma mère,
Et j’ veux aller là-bas
Fair’ dodo z’avec elle…
Mon coeur bat, bat, bat, bat…
Dis, Maman, tu m’appelles?
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, foi poeta, romancista, ensaísta e tradutor franco-uruguaio; fez seus estudos iniciais no Liceu de Tarbes, concluindo-os em Paris, no hoje Liceu Condorcet, depois passou pela Escola de Belas Artes, também em Paris, e em 1879 publicou sua primeira poesia; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Jules Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, o primeiro a fazê-lo de forma sistemática; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralidades Lendárias (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada postumamente; no Brasil, sua poética fertilizou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose; foi também contista.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Camilo Pessanha: Água morrente

 
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Il pleure dans mon coeur
Comme Il pleut sur la ville.
Verlaine

Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

 Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
As águas da torrente
Já tão longe passadas. 

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranqüilas,
Em brutos pugilatos
Fraturam-se as maxilas...

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Clepsidra — 1920

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Notas e Traços Biográficos de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

André de Chénier: Jovem Cativa


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[traduzido por João de Deus]

Como o pâmpano, hei de eu morrer? não quero!
Respeita a foice a espiga verde ainda;
Sem medo da vindima, o estio inteiro
Bebe o pâmpano as lágrimas da aurora:
E eu verde como a espiga, tenra e linda
Quero, mas não por ora!

Talvez que a outrem, morte, grata fosses;
Espero! Embora em lágrimas me lave,
Varre-me o norte a mim a face? inclino-a.
Se há dias tristes, ai! há-os tão doces...
Sem amargo, que mel, por mais suave
Que mar em paz continua?

Benéfica ilusão meu seio habita.
Sepulte-me este cárcere inumano;
A asa nívea da fé não se agrilhoa.
Escapa ao laço da prisão maldita,
Mais viva e alegre a esse aéreo oceano,
A alvéola canta e voa.

Hei-de morrer? por quê? se não diviso
Em minha alma um remorso; durma ou vele,
Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo!
Se em cada rosto a luz me abre um sorriso;
Aqui mesmo, onde a mágoa o riso expele;
E a luz assoma a custo!

O fim do meu destino é lá tão longe!
Quantos passei dos álamos que adornam
Esta bela viagem? Eu, sentada
Ao banquete da vida apenas hoje,
A taça ainda cheia as mãos me entornam,
Dos lábios ilibada.

Estou na primavera, oh segadores!
E as mais quadras do ano havia agora
De não acompanhar o sol, havia?
Debruçada em meu pé, glória das flores,
Eu não vi mais do que raiar a aurora;
Quero acabar o dia!

Espera um pouco, oh morte! nada perdes:
Antes consola os que o remorso, o medo,
O desalento pálido devora!
Guarda-me ainda o campo grutas verdes,
A musa, cantos! e o amor... segredo!
Não morre, não, por ora!

Assim, encarcerada, o rosto lindo
E a vista alçando às regiões ignotas,
Minha musa entoou na fé mais viva;
E eu, as lânguidas mágoas sacudindo,
Moldei em doce verso as doces notas
Dessa jovem cativa!


La Jeune Captive

L'épi naissant mûrit de la faux respecté;
Sans crainte du pressoir, le pampre tout l'été
Boit les doux présents de l'aurore;
Et moi, comme lui belle, et jeune comme lui,
Quoi que l'heure présente ait de trouble et d'ennui,
Je ne veux point mourir encore.

Qu'un stoïque aux yeux secs vole embrasser la mort,
Moi je pleure et j'espère; au noir souffle du nord
Je plie et relève ma tête.
S'il est des jours amers, il en est de si doux!
Hélas! quel miel jamais n'a laisse de dégoûts?
Quelle mer n'a point de tempête?

L'illusion féconde habite dans mon sein.
D'une prison sur moi les murs pèsent en vain.
J'ai les ailes de l'espérance.
Échappée aux réseaux de l'oiseleur cruel,
Plus vive, plus heureuse, aux campagnes du ciel
Philomèle chante et s'élance.

Est-ce à moi de mourir? Tranquille je m'endors,
Et tranquille je veille; et ma veille aux remords
Ni mon sommeil ne sont en proie.
Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux;
Sur des fronts abattus, mon aspect dans ces lieux
Ranime presque de la joie.

Mon beau voyage encore est si loin de sa fin!
Je pars, et des ormeaux qui bordent le chemin
J'ai passé les premiers à peine,
Au banquet de la vie à peine commencé,
Un instant seulement mes lèvres ont pressé
La coupe en mes mains encor pleine.

Je ne suis qu'au printemps, je veux voir la moisson;
Et comme le soleil, de saison en saison,
Je veux achever mon année.
Brillante sur ma tige et l'honneur du jardin,
Je n'ai vu luire encor que les feux du matin;
Je veux achever ma journée.

Ô mort! tu peux attendre; éloigne, éloigne-toi;
Va consoler les coeurs que la honte, l'effroi,
Le pâle désespoir dévore.
Pour moi Palès encore a des asiles verts,
Les Amours des baisers, les Muses des concerts.
Je ne veux point mourir encore.

Ainsi, triste et captif, ma lyre toutefois
S'éveillait, écoutant ces plaintes, cette voix,
Ces voeux d'une jeune captive;
Et secouant le faix de mes jours languissants,
Aux douces lois des vers je pliais les accents
De sa bouche aimable et naïve.

Ces chants, de ma prison témoins harmonieux,
Feront à quelque amant des loisirs studieux
Chercher quelle fut cette belle:
La grâce décorait son front et ses discours,
Et, comme elle, craindront de voir finir leurs jours
Ceux qui les passeront près d'elle.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; André-Marie Chénier (1762 1794), nascido em Constantinopla, hoje Istambul, na Turquia), aos três anos de idade levado para a França, estudou no Collége de Navarre, foi poeta e escritor; de mãe [que se dizia] grega e pai francês e diplomata, André Chénier, por relações de amizade, passou a frequentar a aristocracia parisiense, viajou pela Suíça e Itália, tornou-se secretário da embaixada em Londres; participante da revolução francesa, escreveu artigos e panfletos contra os jacobinos, contestou a competência da Assembléia no processo do rei Luís XVI em 1793, tornou-se suspeito, esteve fugido da França e, no retorno a Paris, foi preso no cárcere de Saint-Lazare e, após 141 dias, guilhotinado em 25 de julho de 1794; suas obras: Bucólicas (1785-1787), Elegias (1785-1789); sua poesia só se tornou conhecida e respeitada mais de duas décadas após sua morte; o poema La Jeune Captive foi escrito na prisão.

domingo, 28 de agosto de 2022

Sylvio Figueiredo: Vade retro, Satan!

 
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Vade retro, Satan! Coisa indecente,
mulher de calças, a fazer serviço
que era feito por homens... Deixa disso!
não penses nessa coisa irreverente!

Tu, numa forja1, por exemplo, à frente
da fornalha! Imagina, ó meu derriço2,
pensa bem, anjo meu, terno e roliço,
tu, no trabalho da barbuda gente!

Lérias3, o idiota  feminismo  estulto4!
não se coaduna o forte e o vil trabalho
com ser gentil, com feminino vulto.

Por isso é que contigo zango e ralho;
faze o labor doméstico e eu me oculto
no meu... Cada macaco no seu galho5!

Notas de Luiz Antonio Barros:
1. Forja: oficina de ferreiro: fundição. ([dicionário] Aurélio)
2. Derriço: xodó; namorada. ([dicionário] Houaiss, 2001)/(Houaiss/Aurélio)
3. Lérias: conversa fiada; tolices ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes [filólogo], 1953);
4. Estulto: insensato, estúpido; que não apresenta um bom discernimento. ([dicionário] Houaiss, 2001)
5. Cada macaco no seu galho: ditado cujo significado é “ninguém deve ir além das suas atribuições ([Enciclopédia e dicionário ilustrado, 1998], [André] Koogan)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal,  2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras; pelos traços biográficos do autor, relatados neste Os Poetas Satíricos..., ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; ressalte-se também que, conforme já citado, em 1913 o poeta já publicara Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.

sábado, 27 de agosto de 2022

Teófilo Dias: Os Seios

 
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Como serpente arquejante
Se enrosca em férvida areia,
Meu ávido olhar se enleia
No teu colo deslumbrante.

Quando o descobres, no ar
Morno calor se dissolve
Do aroma em que ele se envolve
Como em neblina o luar.

Se ao corpo te enrosco os braços,
A terra e os céus estremecem,
E os mundos febris parecem
Derreter-se nos espaços!

E tu nem sequer presumes
Que então, querida, até creio
Sorver, desfeito em perfumes,
Todo o sangue do teu seio.

Depois que aspiro, ansiado,
Do teu níveo colo o incenso,
Minh'alma semelha um lenço
De viva essência molhado.

Deixa que a louca se deite
Nesse torpor que extasia,
E que o vinho do deleite
Me espume na fantasia:

Pois não há ópio ou hachis
Que me abrilhante as ideias
Como as fragrâncias sutis
Que fervem nas tuas veias!

(Fanfarras. São Paulo: Dolivaes Nunes, 1882, pp. 20-21.)

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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida Santos, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político, tradutor e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo, A República, O Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participou da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; suas obras: Flores e Amores (1874), Cantos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888); o poeta é considerado por nomes consagrados Antonio Candido, Manuel Bandeira, Silvio Romero entre outros , autor inaugural do Parnasianismo ou, no mínimo, precursor deste período literário, embora haja vozes discordantes; traduziu, com inovação criativa, Charles Baudelaire, Alfred de Musset, Edgar Quinet.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Laura Riding: Por causa das roupas


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Sem costureiros para conectar
A boa vontade do corpo
Ao propósito da mente,
Devíamos ser dois mundos
Em vez de um mundo e sua sombra,
A carne.

A cabeça é um mundo
E o corpo um outro
O mesmo, mas algo mais lento
E mais deslumbrado e anterior,
A divergência sendo corrigida
No vestido.

Há um cheiro de Cristo
No tecido: abaixo do queixo
Não se quer mal algum. Igual, imune
À prova capital, o saber floresce
Do seio protegido da luz, e as coxas
São humildes.

A união da matéria com a mente
Pelo método da indumentária
Não destrói nossa nudez
Nem abafa a sineta do pensamento.
O momento apenas une-se à sua hora
Muda.

No íntimo existe o brilho do conhecimento
E por fora existe o sombrio da aparência.
Mas ao vestir o manto e a touca
Só com mãos e face aparecendo,
Internalizamos o sombrio e brilhamos
Suavemente.

Por causa disso, pela graça neutra
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos
E de nossas derrotas
Numa conjugação equilibrada e única:
Hesitamos entre senso e insensatez,
E vivemos.

Laura Riding

Because of clothes

Without dressmakers to connect
The good-will of the body
With the purpose of the head,
We should be two worlds
Instead of a world and its shadow,
The flesh.

The head is one world
And the body is another
The same, but somewhat slower
And more dazed and earlier,
The divergence being corrected
In dress.

There is an odour of Christ
In the cloth: bellow the chin
No harm is meant. Even, immune
From capital test, wisdom flowers
Out of the shaded breast, and the thighs
Are meek.

The union of matter with mind
By the method of raiment
Destroys no our nakedness
Nor muffles the bell of thought.
Merely the moment to its dumb hour
Is joined.

Inner is the glow of knowledge
And outer is the gloom of appearance.
But putting on the cloak and cap
With only the hands and the face showing,
We turn the gloom in and the glow forth
Softly.

Wherefore, by the neutral grace
Of the needle, we possess our triumphs
Together with our defeats
In a single balanced couplement:
We pause between sense and foolishness,
And live.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Novalis*: O mais arbitrário dos preconceitos é que ao ser humano seja negada a faculdade de ser fora de si, . . . [fragmento 22]

 
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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

Pólen

          22. O mais arbitrário dos preconceitos é que ao ser humano é negada a faculdade de ser fora de si, de estar com consciência além dos sentidos. O ser humano é capaz de ser em cada instante um ser supra-sensível. Sem isso não seria cidadão do mundo, seria um animal. Sem dúvida a clareza de consciência, achamento-de-si-mesmo, nesse estado é muito difícil, de vez que ele está tão incessantemente, tão necessariamente vinculado com a alternância de nossos demais estados. Quanto mais, porém, somos capazes de estar conscientes desse estado, mais vital, potente, satisfatória é a convicção, que nasce daí; a crença em genuínas revelações do espírito. Não é nenhum ver, ouvir, sentir; é composto de todos os três, mais que todos os três: uma sensação de imediata certeza, uma inspeção de minha vida mais verdadeira, mais própria. Os pensamentos metamorfoseiam-se em leis – os desejos em realizações. Para os fracos o fato desse momento é um artigo de fé. Notável se torna o fenômeno particularmente à vista de muitas figuras e rostos humanos, especialmente à contemplação de muitos olhos, muitas feições, muitos movimentos, à audição de certas palavras, à leitura de certos trechos, a certas perspectivas sobre a vida, o mundo e o destino. Muitíssimos ocasos, muitos acontecimentos naturais, particularmente tempos do ano e do dia, fornecem-nos tais experiências. Certas tonalidades afetivas são eminentemente favoráveis a tais revelações. A maioria delas é instantânea, poucos se demoram, uma minoria é estável. Aqui há muita distinção entre os homens. Um tem mais suscetibilidade à revelação que o outro. Um tem mais sentido, o outro mais entendimento para a mesma. Este último permanecerá sempre em sua branda luz, quando o primeiro tem somente iluminações cambiantes, mas mais claras e múltiplas. Essa faculdade é igualmente suscetível de doença, que designa, seja excedência de sentido e deficiência de entendimento, ou excedência de entendimento e deficiência de sentido.

Novalis

          22. Das willkührlichste Vorurtheil ist, daß dem Menschen das Vermögen außer sich zu seyn, mit Bewußtseyn jenseits der Sinne zu seyn, versagt sey. Der Mensch vermag in jedem Augenblicke ein übersinnliches Wesen zu seyn. Ohne dies wäre er nicht Weltbürger, er wäre ein Thier. Freylich ist die Besonnenheit, Sichselbstfindung, in diesem Zustande sehr schwer, da er so unaufhörlich, so nothwendig mit dem Wechsel unsrer übrigen Zustände verbunden ist. Je mehr wir uns aber dieses Zustandes bewußt zu seyn vermögen, desto lebendiger, mächtiger, genügender ist die Überzeugung, die daraus entsteht; der Glaube an ächte Offenbarungen des Geistes. Es ist kein Schauen, Hören, Fühlen; es ist aus allen dreyen zusammengesezt, mehr als alles Dreyes: eine Empfindung unmittelbarer Gewißheit, eine Ansicht meines wahrhaftesten, eigensten Lebens. Die Gedanken verwandeln sich in Gesetze, die Wünsche in Erfüllungen. Für den Schwachen ist das Faktum dieses Moments ein Glaubensartikel. Auffallend wird die Erscheinung besonders beym Anblick mancher menschlichen Gestalten und Gesichter, vorzüglich bey der Erblickung mancher Augen, mancher Minen, mancher Bewegungen, beym Hören gewisser Worte, beym Lesen gewisser Stellen, bey gewissen Hinsichten auf Leben, Welt und Schicksal. Sehr viele Zufälle, manche Naturereignisse, besonders Jahrs- und Tageszeiten, liefern uns solche Erfahrungen. Gewisse Stimmungen sind vorzüglich solchen Offenbarungen günstig. Die meisten sind augenblicklich, wenige verweilend, diewenigsten bleibend. Hier ist viel Unterschied zwischen den Menschen. Einer hat mehr Offenbarungsfähigkeit, als der andere. Einer hat mehr Sinn, der andere mehr Verstand für dieselbe. Der letzte wird immer in ihrem sanften Lichte bleiben, wenn der erste nur abwechselnde Erleuchtungen, aber hellere und mannichfaltigere hat. Dieses Vermögen ist ebenfalls Krankheitsfähig, die entweder Überfluß an Sinn und Mangel an Verstand, oder Überfluß an Verstand und Mangel an Sinn bezeichnet.

[Blüthenstaub]

* Nota deste Verso e Conversa: Acerca da ‘escritura dos primeiros românticos’ que ‘já nasce na forma de fragmento ...’, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo os quatro primeiros parágrafos do Texto/Apresentação Novalis: O Romantismo estudioso, de Rubens Rodrigues Torres Filho, tradutor deste Pólen — Fragmentos ...:
          'O avesso é adverso. As esplêndidas construções sistemáticas que a tradição filosófica nos legou sob o título de “idealismo alemão” (Fichte, Schelling, Hegel) edificam-se sobre um solo de crise — a metafísica minada pela crítica da razão (Kant) — e erguem sua travação conceitual como que a esconjurá-la. Do que se pensou no reverso desses sistemas, no epicentro dessa crise, os escritos do primeiro romantismo (Novalis, Tieck, os irmãos Schlegel) dão alguma medida, e não é de admirar que, já na forma, se apresentam como fragmentários.
          O discurso dos pré-socráticos foi reduzido a fragmentos pela erosão do tempo e as conflagrações da História. A escritura dos primeiros românticos nasce já na forma de fragmento — produto, talvez, de uma erosão e conflagração no próprio pensamento?
          Certo é que essa ideia, que poderia ocorrer a qualquer um, faz parte na verdade da auto-imagem dos próprios românticos, e quem a formulou, devidamente em forma de “fragmento”, foi Friedrich Schlegel (1772 — 1829), já em 1798, na revista Athenaeum: “Muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. Muitas obras dos modernos o são logo em seu surgimento”. (Fragmento nº 24, que Novalis batizou de: “Fragmentos tornados e natos”.)
          Essa espécie da simetria macro-histórica, essa forma, ainda que demasiado sobranceira, de ligar o cabo ao rabo, não deixa de indicar que, em caso de pertinência, a filosofia dos românticos, faria parte marcante da História da Filosofia ocidental.'
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Pólen — Fragmentos, diálogos, monólogo: Novalis, Tradução, Apresentação e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, 2001, 2ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: ageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Eugênio de Castro: Um cacto no pólo

 
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V

          Julguei que se tinha levantado um obelisco místico no meio da praça; e que o obelisco dava uma sombra azul; e que tinham acendido um fogão no quarto úmido; e que tinham dado alta ao doente.
          Julguei que nascia o sol à meia-noite; e que uma boca muda me falava; e que esfolhavam lírios sobre o meu peito; e que havia uma novena ao pé do jardim de Aclimação.
          Uma boca muda me falou; mas o obelisco, de tênue que era, não deu sombra; e o fogão não aqueceu o quarto úmido; e o doente teve uma recaída.
          E o clown entrou, folião, na Igreja; e fez jogos malabares com os cibórios e os turíbulos; e tornou a nevar; e, após os brancos etésios, soprou o mistral forte.
          E na alcova branca entrou a Dama expulsa, cujo corpo é de âmbar e cera e todo recendente de um matrimónio aromal de mirra e valeriana, a Dama dos flexuosos e vertiginosos dedos rosados.
          E seus cabelos de czarina eram claros como a estopa e finos como as teias de aranha; e seu ventre alvo, de estéril, era todo azul, todo azul de tatuagens.
          E a Educanda fugiu do Recolhimento; e com a Dama expulsa passei a noite em branco; e a noite foi toda escarlate.
          E no dia seguinte, em vez dos sacros livros, que de ordinário me deleitam, li Schopenhauer, e achei Arthur Schopenhauer setecentas vezes superior a todos os Doutores da Igreja.

Horas  1891

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Notas e Traços Biográficos de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, fez o curso de Letras em Lisboa, foi pedagogo na Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra, onde também exerceu o cargo de Secretário e lecionou Letras; escritor e poeta, ainda estudante publicou livros de poesia; já formado, em viagem para Paris tomou contato com as novidades do Simbolismo e, de volta a Lisboa, foi um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborou com a revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês; em 1890 publicou sua obra Oaristos, a qual, por seu prefácio revolucionário, é considerada um marco do Simbolismo Lusitano; o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), mais importante revista literária portuguesa da época; obras: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc; atualmente, Eugênio de Castro é conhecido pelos prefácios de Oaristos e Horas, introdutores do movimento simbolista em terras lusitanas.