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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Bastos Tigre: Ouvir estrelas

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Ora, direis, ouvir estrelas! Vejo
que estás beirando a maluquice extrema.
No entanto o certo é que não perco o ensejo
de ouvi-las nos programas de cinema.

Não perco fita; e dir-vos-ei sem pejo
que mais eu gozo se escabroso é o tema.
Uma boca de estrela dando beijo
é, meu amigo, assunto p’ra um poema.

Direis agora: Mas, enfim, meu caro,
as estrelas que dizem? Que sentido
têm suas frases de sabor tão raro?

Amigo, aprende inglês para entendê-las,
pois só sabendo inglês se tem ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.

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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Manuel Bastos Tigre (1882 1957), pernambucano de Recife, formado engenheiro civil pela Escola Nacional de Engenharia, Rio de Janeiro, foi engenheiro, poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas (Tagarela, A Noite, Gazeta de Notícias, A Rua, Careta, O Malho); fundou a revista O Xiquote e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

domingo, 26 de agosto de 2018

Bastos Tigre: Envelhecendo

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Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glória, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra ainda e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde!
Luta contra as tibiezas da vontade!

Que a neve caia! O teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude...

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Seleção e Organização de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Manuel Bastos Tigre (1882  1957), pernambucano de Recife, foi poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento. 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Bastos Tigre: Argumento de defesa

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Disse alguém, por maldade ou por intriga,
que eu de Vossa Excelência mal dissera:
que tinha amantes, que era "fácil", que era
da virtude doméstica, inimiga.

Maldito seja o cérebro que gera
infâmias tais que, em cólera, maldigo!
se eu disse tal, que tenha por castigo
o beijo de uma sogra ou de uma fera!

ponho a mão espalmada na consciência
e ela, senhora, impávida, protesta 
contra essa intriga da maledicência!

indague a amigos meus: qualquer atesta
que eu acho e sempre achei Vossa Excelência
feia demais para não ser honesta...

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Sonetos de Amor & Desamor (vários autores), Organização de Ivan Pinheiro Machado e Notas de Sergio Faraco, vol. 1095 da Coleção L&PM Pocket, 2016, L&PM, Porto Alegre —  RS;  Manuel  Bastos Tigre (1882 —  1957), pernambucano de Recife, foi jornalista, bibliotecário, poeta, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária:  Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922),  Arlequim  (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto...  (Tipografia  Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis  (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil; em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Bastos Tigre: Guardo um segredo n'alma e um mistério na vida, . . . [soneto]

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Guardo um segredo n’alma e um mistério na vida,
Imorredouro amor que irrompeu de momento,
Se o mal é sem remédio, a queixa é descabida
E a que me fez o mal, nunca ouviu meu lamento.

Por ela já passei — sombra despercebida,
E ao meu lado a senti, no meu isolamento!
Ao termo chegarei dessa terrena lida,
E não ouso pedir, e receber não tento.

Quanto a ela, apesar da doçura e carinho
Com quem Deus a dotou, seguirá seu caminho,
Sem ouvir que a acompanha um murmúrio de amor...

E, fiel ao seu dever que austeramente zela,
Ela dirá, lendo os meus versos plenos dela:
 “O soneto de Arvers tem mais um tradutor!”

(Poesias Humorísticas, Rio de Janeiro, 1933.)

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O Soneto de Arvers  Mello Nóbrega, 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bastos Tigre (1882  1957), pernambucano de Recife, foi poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Bastos Tigre: A cigarra e a formiga (versão modernista)

Resultado de imagem para Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior
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Cantou a cigarra
Durante o verão
Cantiga bizarra
De ardente emoção
Em voz estridente
A glória candente
Do sol do verão.

Nos troncos robustos
Nos galhos, nas ramas,
Nos dias adustos
Nas tardes em chamas,
Cantou a alegria
Da vida vadia
Sem tédio, nem dramas.

Mas chega o inverno inclemente
E encontra a infeliz sem teto,
No miserê mais completo
Sem dez centavos de seu.
E a boêmia imprevidente,
Tendo vazia a barriga
Lembrou-se, então, da formiga
E à sua casa correu.

Formiga é sócia da firma
"Limpa-campo limitada".
Tem fortuna calculada
Em mais de dez mil milhões.
E, segundo o povo afirma,
Tornou-se arqui-milionária,
Como líder proletária
Arrasando plantações.

À porta do formigueiro
Falou à chefe da casa:
 A miséria que me arrasa
A incomodar-te me obriga,
Preciso de algum dinheiro...
Mas a frase não termina
Pois, irônica e ferina,
Foi lhe dizendo a formiga:

 Dinheiro? Com todo o gosto
Tenho pena de quem sofre.
Às ordens tens o meu cofre
Para que vivas em paz.
Mas bem sabes, pago imposto,
Tenho IAPC, tenho sócios
E negócios são negócios,
Que garantias me dás?

 Assino uma promissória,
Formiga, a 90 dias.
 Mas quais são as garantias?
Os endossantes quais são?
Torna a cigarra simplória:
 Três velhos amigos meus:
A "esperança", o louva-deus,
E o grilo. Emprestas, então?

 Tu estás maluca, cigarra?
Três boêmios desta marca!
Não vês que ninguém embarca
Em tais negócios assim?
Não serve gente da farra,
Quero banqueiros da praça,
Como a abelha, a broca, a traça,
O gafanhoto e o cupim.

 Eu não me dou com tal gente...
 Se não te dás, nada feito.
Procura então outro jeito:
No verão que é que fazias?
 No verão, alegremente,
Eu nas árvores cantava.
Lindos concertos eu dava
Das mais doces melodias.

 Cantavas... Eu bem me lembro.
Se me lembro da algazarra
Que tu fazias, cigarra.
Quando eu andava a lidar
Ardia o sol de dezembro
E tu cantavas, vadia.
Agora que o tempo esfria,
Cigarra, toca a dançar!

O conselho da formiga
Tomou-o a cigarra. E o fato
É que tem hoje um contrato
Para em bailado dançar.
Já não é mais "da cantiga"
Bailarina ela é agora,
Como Pavlova, Isadora,
Nijinski, Serge Lifar...

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bastos Tigre (1882  1957), pernambucano de Recife, foi poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Bastos Tigre: Voz Interior

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Quem sou eu? de onde venho e onde acaso me leva
O Destino fatal que os meus passos conduz?
Ora sigo, a tatear, mergulhado na treva,
Ou tateio, indeciso, ofuscado de luz.

Grão, no campo da Vida, onde a morte se ceva?
Semente que apodrece e não se reproduz?
De onde vim? Da monera? ou vim do beijo de Eva?
E onde vou, a gemer, a sangrar, de pés nus? *

Nessa esfinge da Vida a verdade se esconde;
O espírito concentro e consulto a razão,
E uma voz interior, sincera, me responde:

— Quem és tu? Operário honesto da nação.
— De onde é que vens? De casa. Onde é que estás? no bonde.
— Para onde vais? Não vês? — Para a Repartição. 

(Bolhas de Sabão. Editores —
 Leite Ribeiro  e Maurillo,
 1919, Rio de Janeiro)

*Nota: Em Poesias Humorísticas (edição definitiva, primeira série, 1933, Flores & Mano, Rio de Janeiro), o verso foi emendado. Está assim: E aonde vou, gemendo, a sangrar os pés nus?. 
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V  Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira S/A, Rio de Janeiro; Manuel Bastos Tigre (1882  1957), pernambucano de Recife, foi poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.