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[traduzido por João Angelo Oliva Neto]
Catulo
15
A ti eu me confio e meus
amores1,
Aurélio2, e de pudor eu peço vênia
pois se já desejaste algo em teu ânimo
que mantivesses casto e inteirinho,
preserves em pudor este menino3,
não digo das pessoas —
delas nada
temo a passar na praça aqui e ali
com suas próprias coisas ocupadas.
Minha paúra és tu, e é teu pau
fatal aos bons, fatal aos maus meninos;
por onde queiras, como queiras, leva-o,
quando saíres, pronto pra tudo.
Só ele excluo, sim, pudicamente,
pois se uma idéia má4 ou louca fúria
te impelir, pérfido, a tamanho crime
de preparar insídias contra mim,
então ah!, infeliz e malfadado,
pelos pés arrastado, por teu rabo
aberta vão passar mugens5 e rábãos6.
Catullus 15
Commendo tibi me ac meos
amores,
Aureli. Veniam peto pudentem,
ut, si quicquam animo tuo cupisti,
quod castum expeteres et integellum,
conserues puerum mihi pudice,
non dico a populo — nihil
ueremur
istos, qui in platea modo huc modo illuc
in re praetereunt sua occupati —
uerum a te metuo tuoque pene
infesto pueris bonis malisque.
Quem tu qua lubet, ut lubet moueto
quantum uis, ubi erit foris paratum:
hunc unum excipio, ut puto, pudenter.
Quod si te mala mens furorque uecors.
in tantam impulerit, sceleste, culpam,
ut nostrum insidiis caput lacessas,
a tum te miserum malique fati,
quem attractis pedibus patente porta
percurrent raphanique mugilesque.
Notas do tradutor João Angelo Oliva Neto:
1. Meus
amores: é pessoa, o menino Juvêncio, objeto do amor pederástico
de Catulo;
2. Aurélio: desconhecido;
3. menino: puer, o
favorito do poeta;
4. ideia
má:
mala mens,
demência, loucura;
5. mugens: mugiles, tipo
de peixe;
6. rábãos: raphani, tipo
de rabanete, rábano. A pena era reservada aos adúlteros pegos em flagrante; ver
Horácio (Sátiras, 1,
2, 131—133).
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição
bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros],
Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores,
2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Caio Valério Catulo (87 a.C. — 54
a.C., datas presumíveis), nascido em Verona (?) na Roma antiga, Império Romano,
foi poeta lírico latino; estudos atuais sobre Catulo são convergentes em anotar
que, embora Cícero (106 a.C. — 43 a.C.) tenha proferido, de forma
pejorativa, ser o poeta um novo (poetae novi, moderno), foi, porém, Catulo quem
cometera a “licenciosidade” de, à época, introduzir / expressar, no universo
literário latino, “correntes líricas importadas da Grécia, estranhas aos
antigos padrões épicos (mitológicos).”; conforme o professor João Angelo Oliva
Neto, “Catulo pertenceu a um grupo de poetas e intelectuais que, nos meados do
século 1 a.C., rompeu com o passado literário romano”, daí advirem as críticas
recebidas de Cícero, chamando-os, com ironia, de poetae novi (poetas
novos).; o poeta Catulo exerceu influência em Ovídio (43 a.C. — 17 ou
18 d.C.), Horácio (65 a.C. — 8 a.C.) e Marcial (38
d.C. — 104 d.C.); do grupo de poetae novi, da primeira metade do
primeiro século a.C., só chegaram até nós, deste século d.C.
atual, Carmina, do próprio Catulo.




