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sábado, 8 de janeiro de 2022

Catulo: A ti eu me confio e meus amores, . . . [Catulo 15]

 
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[traduzido por João Angelo Oliva Neto]

Catulo 15

A ti eu me confio e meus amores1,
Aurélio2, e de pudor eu peço vênia
pois se já desejaste algo em teu ânimo
que mantivesses casto e inteirinho,
preserves em pudor este menino3,
não digo das pessoas delas nada
temo a passar na praça aqui e ali
com suas próprias coisas ocupadas.
Minha paúra és tu, e é teu pau
fatal aos bons, fatal aos maus meninos;
por onde queiras, como queiras, leva-o,
quando saíres, pronto pra tudo.
Só ele excluo, sim, pudicamente,
pois se uma idéia má4 ou louca fúria
te impelir, pérfido, a tamanho crime
de preparar insídias contra mim,
então ah!, infeliz e malfadado,
pelos pés arrastado, por teu rabo
aberta vão passar mugens5 e rábãos6.

Catulo

Catullus 15

Commendo tibi me ac meos amores,
Aureli. Veniam peto pudentem,
ut, si quicquam animo tuo cupisti,
quod castum expeteres et integellum,
conserues puerum mihi pudice,
non dico a populo nihil ueremur
istos, qui in platea modo huc modo illuc
in re praetereunt sua occupati
uerum a te metuo tuoque pene
infesto pueris bonis malisque.
Quem tu qua lubet, ut lubet moueto
quantum uis, ubi erit foris paratum:
hunc unum excipio, ut puto, pudenter.
Quod si te mala mens furorque uecors.
in tantam impulerit, sceleste, culpam,
ut nostrum insidiis caput lacessas,
a tum te miserum malique fati,
quem attractis pedibus patente porta
percurrent raphanique mugilesque.

Notas do tradutor João Angelo Oliva Neto:
1. Meus amores: é pessoa, o menino Juvêncio, objeto do amor pederástico de Catulo;
2. Aurélio: desconhecido;
3. menino: puer, o favorito do poeta;
4. ideia má: mala mens, demência, loucura;
5. mugens: mugiles, tipo de peixe;
6. rábãos: raphani, tipo de rabanete, rábano. A pena era reservada aos adúlteros pegos em flagrante; ver Horácio (Sátiras, 1, 2, 131133).
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Caio Valério Catulo (87 a.C. 54 a.C., datas presumíveis), nascido em Verona (?) na Roma antiga, Império Romano, foi poeta lírico latino; estudos atuais sobre Catulo são convergentes em anotar que, embora Cícero (106 a.C.  43 a.C.) tenha proferido, de forma pejorativa, ser o poeta um novo (poetae novi, moderno), foi, porém, Catulo quem cometera a “licenciosidade” de, à época, introduzir / expressar, no universo literário latino, “correntes líricas importadas da Grécia, estranhas aos antigos padrões épicos (mitológicos).”; conforme o professor João Angelo Oliva Neto, “Catulo pertenceu a um grupo de poetas e intelectuais que, nos meados do século 1 a.C., rompeu com o passado literário romano”, daí advirem as críticas recebidas de Cícero, chamando-os, com ironia, de poetae novi (poetas novos).; o poeta Catulo exerceu influência em Ovídio (43 a.C.  17 ou 18 d.C.), Horácio (65 a.C.  8 a.C.) e Marcial (38 d.C.  104 d.C.); do grupo de poetae novi, da primeira metade do primeiro século a.C., só chegaram até nós, deste século d.C. atual, Carmina, do próprio Catulo.

sábado, 20 de novembro de 2021

Catulo: No ócio de ontem, Licínio, muitas lides . . . [Catulo 50]

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[traduzido por João Angelo Oliva Neto]

Catulo 50

No ócio de ontem, Licínio1, muitas lides
mantivemos em verso nas tabuinhas2
quando o trato era sermos delicados.
Cada qual escrevendo versos breves,
lidava cá num metro, lá com outro,
em troca mútua em meio a riso e vinho.
De lá parti, Licínio, tão aceso
por tua graça e teus encantamentos,
que, aí de mim, nem a ceia me aprazia
nem meus olhos cobria a paz do sono,
mas indômito em fúria em todo o leito3
eu me virava ansiando ver o dia,
falar contigo, estar contíguo a ti.
Porém, os membros lassos do trabalho,
depois de semimortos repousar,
a ti, meu caro, eu fiz este poema
no qual perceberás a minha dor.
Mas cuida bem, não sê ousado, minhas
Preces, querido, peço, não desprezes,
Porque não te prescreva penas Nêmesis4,
É austera a deusa, e cuida não feri-la.

Catulo

Catullus 50

Hesterno, Licini, die otiosi
multum lusimus in tuis tabellis,
ut conuenerat esse delicatos.
Scribens uersiculos uterque nostrum
ludebat numero modo hoc, modo illoc,
reddens mutua per locum atque uinum.
Atque illinc abii tuo lepore

incensus, Licini, facetiisque,
ut nec me miserum cibus iuuaret
nec somnus tegeret quiete ocelos,
sed toto indomitus furore lecto
uersarer, cupiens uidere lucem,

ut tecum loquerer, simulque ut essem.
At defessa labore membra postquam
semimortua lectulo iacebant,
hoc, iucunde, tibi poema feci,

ex quo perspiceres meum dolorem.

Nunc audax caue sis, precesque nostras,
oramus, caue despuas, ocelle,
ne poenas Nemesis reposcat a te.
Est uechemens dea: laedere hane caueto.

Notas do tradutor João Angelo Oliva Neto:
1. Caio Licínio Calvo, poeta neotérico e orador aticista;
2. No original, conforme Goold [George Patrick Goold, (1922 — 2001), estudioso de Catulo], consta in tuis tabellis, literalmente "em tuas tabuinhas", em vez de in meis tabellis, "em minhas tabuinhas", que se coaduna melhor com o fato de que o encontro se passara em casa de Calvo, como informa no v. 7 [verso 7] o advérbio illinc, "de lá";
3. A agitação de Catulo por todo o leito é praticamente erótica;
4. Nêmesis, filha de Érebo e da Noite, é a deusa grega da ajustiça ultrajada e por isso da vingança. Punia a hýbris, qualquer tipo de excesso.
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Caio Valério Catulo (87 a.C. 54 a.C., datas presumíveis), nascido em Verona (?) na Roma antiga, Império Romano, foi poeta lírico latino; estudos atuais sobre Catulo são convergentes em anotar que, embora Cícero (106 a.C.  43 a.C.) tenha proferido, de forma pejorativa, ser o poeta um novo (poetae novi, moderno), foi, porém, Catulo quem cometera a “licenciosidade” de, à época, introduzir / expressar, no universo literário latino, “correntes líricas importadas da Grécia, estranhas aos antigos padrões épicos (mitológicos).”; conforme o professor João Angelo Oliva Neto, “Catulo pertenceu a um grupo de poetas e intelectuais que, nos meados do século 1 a.C., rompeu com o passado literário romano”, daí advirem as críticas recebidas de Cícero, chamando-os, com ironia, de poetae novi (poetas novos).; o poeta Catulo exerceu influência em Ovídio (43 a.C.  17 ou 18 d.C.), Horácio (65 a.C.  8 a.C.) e Marcial (38 d.C.  104 d.C.); do grupo de poetae novi, da primeira metade do primeiro século a.C., só chegaram até nós, deste século d.C. atual, Carmina, do próprio Catulo.

sábado, 2 de outubro de 2021

Catulo: Ó tu, que és a florzinha dos Juvêncios, . . . [Catulo 24]

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[traduzido por João Angelo Oliva Neto]

Catulo 24

Ó tu, que és a florzinha dos Juvêncios1,
e não só destes, mas de quantos foram
ou no futuro, após, inda serão:
antes riquezas mil de Midas2 desses
àquele que não tem escravo ou arca3,
que te deixares ser por ele amado.
“Quê?, não é homem belo?”, dizes. É.
Mas falta ao “belo” ter escravo ou arca.
Recusa e ignora o fato o quanto queres.
(Porém, escravo ele não tem, nem arca!).

Catulo

Catullus 24

O qui flosculus es luuentiorum,
non horum modo, sed quot aut fuerunt
aut posthac aliis erunt in annis,
mallen diuitias Midae dedisses
isti, cui neque seruus est neque arca,
quam sic te sineres ab illo amari.
“Qui? Non est homo bellus?” inquies. Est;
sed bello huic neque seruus est neque arca.
Hoc tu quam lubet abice eleuaque;
nec seruum tamen ille habet neque arcam.

Notas do tradutor João Angelo Oliva Neto:
1. Juvêncios: Iuuentiorum de Iuuentii. Era antigo e aristocrático clã, originário de Túsculo, mas ramificado também em Verona;
2. Midas: Midae, de Midas. É legendário rei de Frígia, que tornava ouro tudo em que tocava;
3. [aquele que não tem] escravo ou arca: huic neque seruus est neque arca; é Fúrio, rival do poeta no amor do menino, mencionado em outros poemas de Catulo.
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Caio Valério Catulo (87 a.C. 54 a.C., datas presumíveis), nascido em Verona (?) na Roma antiga, Império Romano, foi poeta lírico latino; estudos atuais sobre Catulo são convergentes em anotar que, embora Cícero (106 a.C.  43 a.C.) tenha proferido, de forma pejorativa, ser o poeta um novo (poetae novi, moderno), foi, porém, Catulo quem cometera a “licenciosidade” de, à época, introduzir/expressar, no universo literário latino, “correntes líricas importadas da Grécia, estranhas aos antigos padrões épicos (mitológicos).”; conforme o professor João Angelo Oliva Neto, “Catulo pertenceu a um grupo de poetas e intelectuais que, nos meados do século 1 a.C., rompeu com o passado literário romano”, daí advirem as críticas recebidas de Cícero, chamando-os, com ironia, de poetae novi (poetas novos).; o poeta Catulo exerceu influência em Ovídio (43 a.C.  17 ou 18 d.C.), Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Marcial (38 d.C. 104 d.C.); do grupo de poetae novi, da primeira metade do primeiro século a.C., só chegaram até nós, deste século d.C. atual, Carmina, do próprio Catulo.