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[traduzido por
Paulo César de Souza]
11. Ainda uma palavra contra Kant como moralista. Uma virtude tem de ser nossa invenção, nossa defesa e necessidade personalíssima: em qualquer outro sentido é apenas
um perigo. O que não é condição de nossa vida a prejudica: virtude oriunda apenas de um sentimento de respeito ao conceito de
"virtude", como queria Kant, é prejudicial. A "virtude", o
"dever", o "bom em si", o bom com o caráter da
impessoalidade e validade geral — fantasias nas quais se exprime o declínio, o
esgotamento final da vida, o chinesismo kõnigsberguiano.1 As mais profundas
leis da conservação e do crescimento exigem o oposto: que cada qual invente sua virtude, seu imperativo categórico. Um povo perece, quando confunde seu dever com o conceito de dever em geral. Nada
arruína mais profundamente, mais intimamente do que todo dever
"impessoal", todo sacrifício ante o Moloch da abstração.2
— Que não se tenha
percebido o imperativo categórico de Kant como perigoso para a vida!... Apenas o instinto dos teólogos o tomou em
proteção! — Uma ação imposta pelo instinto da vida tem no prazer a prova de que é uma
ação justa: e esse
niilista com vísceras cristã-dogmáticas entendeu o prazer como objeção... O que destrói mais rapidamente do que
trabalhar, pensar, sentir sem necessidade interna, sem uma profunda escolha pessoal,
sem prazer? como autômato
do "dever"? É a própria receita da décadence, até mesmo do idiotismo... Kant se tornou idiota.3 — E era contemporâneo de Goethe! Essa aranha nefasta4 era
considerada o filósofo alemão — é ainda!... Guardo-me de
dizer o que penso dos alemães... Kant não viu na Revolução Francesa a passagem
da forma inorgânica de Estado para a orgânica? Não se perguntou se existe um evento que não pode ser explicado senão
por uma disposição moral da humanidade, de modo que com ele estaria provada, de uma vez por todas, a "tendência da
humanidade para o bem"? Resposta de Kant: "é a Revolução".5
O espírito equivocado em tudo, a antinatureza como instinto, a décadence alemã como filosofia — isso
é Kant! —
11
Ein Wort noch gegen Kant als Moralist. Eine Tugend muß unsre
Erfindung sein, unsre persönlichste Notwehr
und Notdurft: in jedem andern Sinne ist sie bloß eine Gefahr. Was nicht unser Leben
bedingt, schadet ihm: eine Tugend bloß aus einem
Respekts-Gefühle vor dem Begriff »Tugend«, wie Kant es wollte, ist schädlich. Die
»Tugend«, die »Pflicht«, das »Gute an sich«, das Gute mit dem Charakter der Unpersönlichkeit
und Allgemeingültigkeit — Hirngespinste, in denen
sich der Niedergang, die letzte Entkräftigung des Lebens, das Königsberger Chinesentum
ausdrückt. Das Umgekehrte wird von den tiefsten Erhaltungs- und Wachstumsgesetzen
geboten: daß jeder sich seine Tugend, seinen kategorischen Imperativ erfinde. Ein Volk geht zugrunde,
wenn es seine Pflicht mit dem Pflichtbegriff überhaupt
verwechselt. Nichts ruiniert tiefer, innerlicher als jede »unpersönliche« Pflicht,
jede Opferung vor dem Moloch der Abstraktion. — Daß
man den kategorischen Imperativ Kants nicht als lebensgefährlich empfunden hat!... Der
Theologen-Instinkt allein nahm ihn in Schutz! — Eine
Handlung, zu der der Instinkt des Lebens zwingt, hat in der Lust ihren Beweis, eine
rechte Handlung zu sein: und jener Nihilist mit christlich-dogmatischen
Eingeweiden verstand die Lust als Einwand... Was
zerstört schneller, als ohne innere Notwendigkeit, ohne eine tief persönliche Wahl,
ohne Lust arbeiten, denken, fühlen? Als Automat
der »Pflicht«? Es ist geradezu das Rezept zur
décadence, selbst zum Idiotismus... Kant wurde
Idiot. — Und das war der Zeitgenosse Goethes! Dies Verhängnis von Spinne galt als der Deutsche Philosoph — gilt
es noch!... Ich hüte mich zu sagen, was ich von den Deutschen denke... Hat Kant
nicht in der französischen Revolution den Übergang aus der unorganischen Form des
Staats in die organische gesehn? Hat er sich
nicht gefragt, ob es eine Begebenheit gibt, die gar nicht anders erklärt werden
könne als durch eine moralische Anlage der Menschheit, so daß mit ihr, ein für allemal,
die »Tendenz der Menschheit zum Guten« bewiesen sei?
Antwort Kants: »das ist die Revolution.« Der fehlgreifende Instinkt in allem und
jedem, die Widernatur als Instinkt, die Deutsche
décadence als Philosophie — das ist Kant! —
Notas do tradutor
Paulo César de Souza:
1. “chinesismo
königsberguiano”: Kant nasceu e viveu na cidade de Königsberg, que agora se
chama Kaliningrado e pertence à Rússia; “chinesismo” (Chinesentum) porque a China, para
Nietzsche, é “um país em que a insatisfação e a capacidade de transformação se
extinguiram há muitos séculos; e os socialistas e idólatras europeus do Estado,
com suas medidas visando o melhoramento e maior segurança da vida, não teriam
dificuldade em estabelecer na Europa condições chinesas e uma felicidade
chinesa [...]”(A gaia ciência, § 24);
2. Moloch:
divindade solar do antigo Oriente Próximo, à qual eram sacrificadas crianças;
3. “idiotismo,
idiota”: cf. seções [§] 29 e 31, [deste Anticristo...], em que Nietzsche
caracteriza Jesus como idiota e define o idiotismo como “essa mistura de
sublime, enfermo e infantil”, comparando o ambiente dos evangélicos ao dos
romances, de Dostoiévski. Walter [Arnold] Kaufmann [filósofo, 1921 — 1980],
observa que a palavra “idiota” assume esta significação nos textos de Nietzsche
depois que ele descobre Dostoiévski (que aliás, deu a um de seus romances
exatamente este título, O idiota), [...]. lembremos, por fim, a etimologia do termo, segundo o
dicionário Aurélio: “Do gr. idiótes, ‘homem privado (em oposição a homem de Estado); ‘ignorante em
algum ofício’; ’homem sem educação’, ‘ignorante’, pelo lat. idiota”.
4. “aranha
nefasta”: Kant é invectivado dessa forma, supõe-se, por lançar “teias
conceituais” sobre a realidade; cf § 38 [deste Anticristo...], e Crepúsculo dos ídolos, IX, 23;
5. Cf. Kant, Der Streit der Fakuktäten (“A disputa das
faculdades”, 1798), parte 2.
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O Anticristo e Ditirambos de
Dionísio — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de
Souza, 1ª edição, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm
Nietzsche (1844 — 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia,
atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e
compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade
de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia,
Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die
Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade
Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David
Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der
Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres
(Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em
1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer
als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre
Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile,
1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou
Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 —
1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits
von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der
Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen
Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo
— Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a
gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche
tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador
tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.
