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domingo, 31 de março de 2024

José María de Heredia: O banho das ninfas


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[traduzido por João Ribeiro]

Num canto da floresta escura e densa
Por sobre a fonte curva-se um loureiro,
Nua, à ramada a Oréa de suspensa
Sobre a água dependura o corpo inteiro.

Ao banho, as ninfas; rápido e ligeiro!
E ei-las, as manchas de brancura intensa
Dos corpos nus, evípedes; e o cheiro
Que a nuvem d’ouro do cabelo incensa!...

Lançam-se a nado as deusas em peleja
Mas súbito rompendo os negros flancos
Do bosque, o olhar d’um Sátiro flameja...

E, nuas, elas trepam-se aos barrancos...
Tal à vista d’um corvo que fareja
Debanda a multidão dos cisnes brancos!

José María de Heredia

Le bain des nymphes

C’est un vallon sauvage abrité de l’Euxin;
Au-dessus de la Source un noir laurier se penche,
Et la Nymphe, riant, suspendue à la branche,
Frôle d’un pied craintif l’eau froide du bassin.

Ses compagnes, d’un bond, à l’appel du buccin,
Dans l’onde jaillissante où s’ébat leur chair blanche
Plongent, et de l’écume émergent une hanche,
De clairs cheveux, un torse ou la rose d’un sein.

Une gaîté divine emplit le grand bois sombre.
Mais deux yeux, brusquement, ont illuminé l’ombre.
Le satyre!… son rire épouvante leurs jeux;

Elles s’élancent. Tel, lorsqu’un corbeau sinistre
Croasse, sur le fleuve éperdument neigeux
S’effarouche le vol des cygnes du Caÿstre.

[Les Trophées 1893]
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Volume VIII da coleção Antologia da Literatura Mundial, [1960], Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Johann Wolfgang von Goethe: Canção do mignon

 
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[traduzido por João Ribeiro]

Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro;
No céu azul perpassa a brisa num gemido,
A murta nem se move e nem palpita o louro...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!

A casa, sabes tu? em luzes brilha toda,
E a sala e o quarto. O teto em colunas descansa.
Olham, como a dizer-me, as estátuas em roda:
 Que fizeram de ti, ó mísera criança!
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu senhor, meu bem!

Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!

Goethe

Mignon *

Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,
Im dunkeln Laub die Goldorangen glühn,
Ein sanfter Wind vom blauen Himmel weht,
Die Myrte still und hoch der Lorbeer steht,
Kennst du es wohl?  Dahin! Dahin
Möcht ich mit dir, o mein Geliebter, ziehn.

Kennst du das Haus? Auf Säulen ruht sein Dach,
Es glänzt der Saal, es schimmert das Gemach,
Und Marmorbilder stehn und sehn mich an:
Was hat man dir, du armes Kind, getan?
Kennst du es wohl?  Dahin! Dahin
Möcht ich mit dir, o mein Beschützer, ziehn.

Kennst du den Berg und seinen Wolkensteg?
Das Maultier sucht im Nebel seinen Weg,
In Höhlen wohnt der Drachen alte Brut;
Es stürzt der Fels und über ihn die Flut,
Kennst du ihn wohl?  Dahin! Dahin
Geht unser Weg! O Vater, lass uns ziehn!

* Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que, em algumas pesquisas googleanas, também encontrou como título original deste poema tão só o seu primeiro verso: Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Ludwig Uhland: A espada

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[traduzido por João Ribeiro]

À tenda do ferreiro, onde uma espada
Encomendara, um moço apareceu.
Mas ao brandi-la, achou-a tão pesada!
 “Mais leve a pedi eu”

Riu-se o ferreiro simuladamente:
 “Vosso braço é franzino, meu senhor!
Vou amanhã fundi-la novamente
E fazê-la menor.”

 “Não! hoje mesmo! à fé de cavaleiro!
Com estes frágeis braços que tu vês!”
E da espada apossando-se, ligeiro,
Em pedaços a fez.

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Ludwig Uhland

Das Schwert

Zur Schmiede ging ein junger Held,
Er hatt' ein gutes Schwert bestellt;
Doch als er's wog in freier Hand,
Das Schwert er viel zu schwer erfand.

Der alte Schmied den Bart sich streicht:
"Das Schwert ist nicht zu schwer noch leicht,
Zu schwach ist Euer Arm, ich mein',
Doch morgen soll geholfen sein."

"Nein, heut! bei aller Ritterschaft!
Durch meine, nicht durch Feuers Kraft."
Der Jüngling spricht's, ihn Kraft durchdringt,
Das Schwert er hoch in Lüften schwingt.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologias de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Ludwig Uhland (1787 1862), alemão de Tübingen, à época ducado de Württemberg, estudou jurisprudência e formou-se em direito na universidade local, estudioso da literatura medieval, em especial da poesia alemã e francesa antigas, foi poeta, filólogo, historiador literário, advogado e político; bibliografia: Vaterländische Gedichte (coleção de poemas, 1815, com outras edições que incluíam novos poemas), Ernst, Herzog von Schwaben e Ludwig der Baier (obras dramáticas, 1818 e 1819, respectivamente)...; consta da biografia do poeta que suas baladas se tornaram amplamente populares e que algumas delas se transformaram em hinos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Heinrich Heine: Lorelai

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[traduzido por João Ribeiro]

Eu não sei qual o sentido
Dessa tristeza em que estou;
Um conto há tempos ouvido
Da mente não me passou:

"É fresca a brisa. Anoitece,
Vai o Reno manso, a flux,
Ao sol-posto resplandece
O cimo da rocha em luz.

Vê-se bela, reclinada,
Lorelai sobre o arrebol,
Que alisa a trança dourada
Dos seus cabelos de sol.

E, ao mover o pente de ouro,
Canta a fada uma canção…
Oh! Na voz desse tesouro
Que melodias estão!

Passa o barqueiro nas águas
E, embevecido de a ouvir,
Não sente o risco das fráguas,
Olha p'ro céu a sorrir.

Devora-o a vaga inimiga,
Naufraga o barco, já vai…
Por causa dessa cantiga,
Por causa de Lorelai."

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Die Loreley

Ich weiß nicht, was soll es bedeuten,
Daß ich so traurig bin;
Ein Mährchen aus alten Zeiten,
Das kommt mir nicht aus dem Sinn.

Die Luft ist kühl, und es dunkelt,
Und ruhig fließt der Rhein;
Der Gipfel des Berges funkelt
In Abendsonnenschein.

Die schönste Jungfrau sitzet
Dort oben wunderbar,
Ihr goldenes Geschmeide blitzet,
Sie kämmt ihr goldenes Haar.

Sie kämmt es mit goldnem Kamme
Und singt ein Lied dabey;
Das hat eine wundersame,
Gewaltige Melodey.

Den Schiffer im kleinen Schiffe
Ergreift es mit wildem Weh;
Er schaut nicht die Felsenriffe,
Er schaut nur hinauf in die Höh'.

Ich glaube, die Wellen verschlingen
Am Ende Schiffer und Kahn;
Und das hat mit ihrem Singen
Die Lore-ley gethan.
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Christian Johann Heinrich Heine (1797  1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Shubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder  (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844),  Romanzero (poesias, Romanceiro, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma,  Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.

domingo, 8 de junho de 2014

João Ribeiro: O Coelho e o Periquito

Antigo Livro Antologia Brasileira Sel. Prosa Verso 1945
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Um pobre coelho cai de uma fera na garra,
 "Que fizeste dos pés?"  pergunta um periquito.
Eis um gavião que passa e o passarinho agarra.
 "Das asas que fizeste?"  indaga-lhe o coelhito.

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Antologia Brasileira — Coletânea em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugênio Werneck, Trigésima Edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; João Batista Ribeiro de Andrade Fernandes (1860 1934), sergipano de Laranjeiras, foi jornalista, crítico literário, filólogo, historiador, pintor, professor, tradutor e poeta; por concurso público ingressou na Biblioteca Nacional e foi professor de História Universal no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro; colaborou com os períodicos A Semana, Jornal do Commercio e Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), e no Jornal do Comércio (São Paulo); escreveu e publicou Tenebrosa Lux (poesias, 1881), Dias de Sol (poesias, 1884), Avena e Cítara (poesias, 1886), Dicionário Gramatical (1889), Versos (1890), História do Brasil (1901), Estudos Filológicos (1902), Páginas de Estética (ensaios, 1905), Compêndio de História da Literatura Brasileira (história literária, 1909), A Língua Nacional (filologia, 1933), entre outros títulos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.