____________________
Enquanto se detém o vosso olhar
À tona dos aspectos, impotente,
No âmago de tudo, claramente,
Eu descubro um espirito a cismar.
Deleita-se a minha alma a
respirar
Os afetos das cousas: a dolente
Nostalgia dum cerro olhando o mar,
A oração das paisagens ao morrente...
Sim, eu respiro como essência
estranha
A orfandade que exala uma montanha
Quando o Outono a junca de destroços.
E esses casais, dispersos pelo
monte,
Sinto-os pensar, cravando no horizonte
Os seus olhos humanos como os nossos.
Almas Cativas — 1931
____________________
Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas],
Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes,
1986, Global Editora, São Paulo — SP; Roberto de Mesquita Henriques (1871 — 1923), português de Santa Cruz das Flores, Arquipélago dos Açores, estudou no
Liceu Nacional de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, foi escrivão da Fazenda
Pública, poeta do Parnasianismo e sobretudo um expoente do Simbolismo
português; publicou seus versos em jornais e revistas açorianas e continentais,
os quais foram postumamente reunidos em seu único livro editado: Almas Cativas
(1931).