Foi em casa de Cicero Marques. Certa
noite vi lá dois estranhos, um gordão e moreno a quem davam o nome de Nhô Bento — e era de fato um perfeito “Nhô”, bonachão, sossegado. Outro, um chatola, foi
me apresentado como Pagano. Eu podia pensar tudo daqueles dois homens, menos
que fossem dois verdadeiros e grandes poetas. Em certo momento Cícero pede a Nhô
Bento que recite um dos seus poemas. Nhô Bento levanta-se e limpa o pigarro — e
eu suspiro por dentro, preparando-me para a séca. Esses tais recitativos de
encomenda são em geral uma estopada que a gente tem que engolir de cara amável,
com palminhas no fim e pedidos hipócritas de “Recite outra...”
Mas a minha surpresa foi grande. O
homem pôs-se a dizer, com uma expressão, uma verdade e uma propriedade inexcedíveis,
os melhores poemas caipiras que ainda ouvi — ricos de imagens novas, de
modismos, de mil particularidades que no momento eu não podia analisar mas me enlevaram, como igualmente
enlevaram a todos os presentes. Cicero olhava-nos orgulhoso — o orgulho dum
empresário feliz. “Eu não dizia?” era a sua expressão ante o nosso espanto. E
quando entre palmas Nhô Bento terminou o seu poema, o “Recite outro!” foi geral
e sinceríssimo, porque versos como aqueles são como um bons-bocados que um não
contenta.
. . . Foi uma das mais belas noites
de minha vida, essa em que travei conhecimento com dois estranhíssimos poetas,
desses que não fazem invocação a Apolo, não entram nas academias, mas enchem a
alma do povo e imortalizam-se de verdade — como o grande Catulo.
Discutiu-se depois a publicação dos
poemas de Nhô Bento e com prefácio meu! Pobre de mim! O menos crítico dos
homens, o mais sem jeito, e virado “prefaciador” oficial” de livros, como
antigamente havia na roça aqueles “oradores oficiais” das festinhas de família.
. . .
Este nosso país é um assombro.
Nascemos aqui, vivemos aqui e morremos aqui e não o conhecemos. Conhecemo-lo
tão pouco que quando apareceu o primeiro retrato d’après nature do jéca foi um espanto geral, e uma celeuma que durou anos
e ainda é debatida. É que ninguém sabia como era o jéca — e sabem quantos jécas
há neste país? Milhões. Talvez 15 milhões, isto é, a terceira parte da nação!
Mas esses milhões de nacionais vivem de tal modo segregados da civilização das
cidades grandes e pequenas, tão alheios à cultura geral, que somos
etnograficamente um balde com dois terços de água e um de azeite — coisas
imisturáveis.
Temos duas civilizações, ou melhor,
duas “culturas”: a cultura importada, dos que vivem nas cidades, sabem ler e
escrever e até livros escrevem! E a “cultura local”, filha da terra como um
cogumelo é filho dum pau podre, desenvolvida pelos homens do mato — o caboclo,
o caipira, o jéca, em suma. Como o jéca nunca leu nada nem escreve, a sua
cultura se foi fazendo ao tipo primitivo, por lentas acessões e restritas
experiências locais — e com a transmissão sempre oral. O assunto é grande demais
para caber num prefácio; exige livros, já que se trata duma “cultura” de 15
milhões de seres humanos. Mas cumpre-nos aqui a considerar a galope um dos
aspectos dessa “cultura”: a língua, pois foi na língua do jéca que Nhô Bento
nos encantou.
Essa língua descende da que os
portugueses introduziram e que alijou a língua geral então existente nestes territórios:
o tupi-guarani. Ficou a língua portuguesa sendo a língua geral do Brasil e até
hoje o é. E por que o é? Porque aprendemos o português de duas maneiras: de
ouvido e de leitura. Se o aprendêssemos só de ouvido, como acontece com o jéca,
a nossa “língua geral” estaria hoje tão distanciada da língua portuguesa que um
português não a entenderia. O que conserva as línguas e impedem que caminhem
com velocidade excessiva pela tentadora da evolução, é a escrita.
Mas como o jéca nunca soube ler nem
escrever, a evolução da língua portuguesa em sua boca se fez a galope. Nhô Bento em seus poemas fixa muito bem a língua falada do jéca — e antes que me
esqueça: por que os nossos filólogos não extraem a gramática dessa língua do
jéca? Que interessante seria!... Quanta “mutação” vocabular, quanta variação da
sintaxe, da prosódia, de tudo!... Troca do “b” pelo “v”: “cumbérsa”, “bérso”, “cuvérta”...
O “lh” substituído pelo “i”: “abêia”, “páia”, “máia” (malha)... O “ou” reduzido
a “ô”: “fumô”, “botô”... Quantos aspectos!
Devíamos fazer a gramática da
interessantíssima “língua do jéca” como os franceses fizeram a gramática da “língua
do oc”; e devíamos ensinar essa gramática nas escolas, lado a lado com a
gramática portuguesa, em vez de torturar as pobres crianças com o terrível e inútil
latim do senhor Capanema. Ficaríamos assim educados em duas línguas, a geral,
ou portuguesa, e uma língua auxiliar, a do jéca. Que vantagem haveria nisso?
Oh, grande: — podermos falar gramaticalmente com os 15 milhões de jécas que há no
território brasileiro.
. . . A forma escrita das línguas é
um artificialismo tremendamente embaraçador da evolução natural das línguas.
Tão emperrado, que no inglês a língua falada está p’ra cá, e a escrita está p’ra
lá. Mr. Churchill escreve “enough” e diz “inâf”. O jéca teve a felicidade de
não saber ler nem escrever, de não se preocupar com a Academia de Letras, de
usar dos jornais unicamente o papel — e graças a isso “evoluiu” a língua portuguesa
só de ouvido e sempre de acordo com as injunções da “lei do menor esforço” e da
“lei da melhor compreensão”. E como suprimiu besteiras inúteis! Os verbos, por
exemplo. Nós, por causa da tirania da escrita, ainda estamos com tantas
variações pessoais como as tinha o latim. Dizemos: Eu tenho, Tu tens, Ele tem,
Nós temos, Vós tendes, Eles têm. Ha um grave defeito aqui. Se o pronome já
indica a pessoa do verbo, por que indicá-la novamente com a variação do verbo?
Redundância, bobagem — perda de esforço. O jéca, muito mais economizador de
esforço, porque vive na maior das penúrias, diz: Eu tenho, Vancê tem, Ele tem,
Nós tem, Vancês tem, Eles tem.
O inglês também diz: I have, He have, We have, You have, They have — e tanto o jéca
como o inglês exprimem perfeitamente a “pessoa que tem”, sem estarem
latinescamente variando o pobre verbo.
Há uma estranha aproximação do inglês
com a língua do jéca, a ponto dum amigo meu, o visconde de Sabugosa, achar que
essa língua deriva do inglês e não do português, como o saudoso Alvaro Guerra
supunha. O jéca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do
inglês: diz, por exemplo, “as casa”, os “hóme” “as muié”, em vez de dizer
redundantemente como o português, “as casas”, “os homens”, “as mulheres”. O
inglês diz, “the houses” (o casas), “the men” (o homens), “the women” (o mulheres) — a mesma coisa que o jéca, só que invertido. Se pondo apenas o
artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também
o substantivo? Pensa com muita razão o jéca — e o inglês faz o mesmo raciocínio
quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.
Tudo isso eu diria no prefácio de Nhô Bento, se fosse escrevê-lo E acentuaria que o mesmo direito que tiveram os
portugueses de corromper o latim e transformá-lo em língua portuguesa, temos
nós, letrados, de corromper a língua portuguesa e transformá-la na “língua brasileira”;
e tem o iletrado jéca de “evoluí-la” em outro rumo. Mais cientificamente,
podemos dizer que a língua portuguesa no Brasil está sofrendo duas variações:
uma lenta, da gente que sabe ler e escrever; e outra rápida, da gente da roça
segregada do urbanismo, do livro, do jornal e do radio — o abençoado jéca que
tem a sorte de não ler os jornais do governo nem os da oposição e de não ouvir
a “Hora do Brasil”.
Quem condena como coisa “errada” o
modo de falar ou a língua do jéca, revela-se curto de miolo. Os modos de
variação duma língua são fenômenos naturais, e não há erro nos fenômenos naturais.
Erro é coisa humana. Temos que estudar essas variações em vez de tontamente
condená-las, pois condená-las equivale, por exemplo, a condenar os anéis de
Saturno em nome dos planetas que não possuem anéis; os as caudas dos cometas em
nome dos astros suras; ou as sementes da paineira por virem ao mundo envoltas
num algodãozinho em nome das sementes de capiá que vêm nuas.
. . .
. . .

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Rosário da Capiá (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 — 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava — SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (conto, 1918), Cidades Mortas (conto, 1920), Negrinha (conto, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.
Rosário da Capiá (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 — 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava — SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (conto, 1918), Cidades Mortas (conto, 1920), Negrinha (conto, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.