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domingo, 20 de agosto de 2017

Monteiro Lobato: Prefácio a "Rosário de Capiá" de Nhô Bento [trechos]

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          Foi em casa de Cicero Marques. Certa noite vi lá dois estranhos, um gordão e moreno a quem davam o nome de Nhô Bento  e era de fato um perfeito “Nhô”, bonachão, sossegado. Outro, um chatola, foi me apresentado como Pagano. Eu podia pensar tudo daqueles dois homens, menos que fossem dois verdadeiros e grandes poetas. Em certo momento Cícero pede a Nhô Bento que recite um dos seus poemas. Nhô Bento levanta-se e limpa o pigarro  e eu suspiro por dentro, preparando-me para a séca. Esses tais recitativos de encomenda são em geral uma estopada que a gente tem que engolir de cara amável, com palminhas no fim e pedidos hipócritas de “Recite outra...”

          Mas a minha surpresa foi grande. O homem pôs-se a dizer, com uma expressão, uma verdade e uma propriedade inexcedíveis, os melhores poemas caipiras que ainda ouvi  ricos de imagens novas, de modismos, de mil particularidades que no momento eu não podia analisar mas me enlevaram, como igualmente enlevaram a todos os presentes. Cicero olhava-nos orgulhoso  o orgulho dum empresário feliz. “Eu não dizia?” era a sua expressão ante o nosso espanto. E quando entre palmas Nhô Bento terminou o seu poema, o “Recite outro!” foi geral e sinceríssimo, porque versos como aqueles são como um bons-bocados que um não contenta.

          . . . Foi uma das mais belas noites de minha vida, essa em que travei conhecimento com dois estranhíssimos poetas, desses que não fazem invocação a Apolo, não entram nas academias, mas enchem a alma do povo e imortalizam-se de verdade  como o grande Catulo.
     
          Discutiu-se depois a publicação dos poemas de Nhô Bento e com prefácio meu! Pobre de mim! O menos crítico dos homens, o mais sem jeito, e virado “prefaciador” oficial” de livros, como antigamente havia na roça aqueles “oradores oficiais” das festinhas de família.

          . . .

          Este nosso país é um assombro. Nascemos aqui, vivemos aqui e morremos aqui e não o conhecemos. Conhecemo-lo tão pouco que quando apareceu o primeiro retrato d’après nature do jéca foi um espanto geral, e uma celeuma que durou anos e ainda é debatida. É que ninguém sabia como era o jéca  e sabem quantos jécas há neste país? Milhões. Talvez 15 milhões, isto é, a terceira parte da nação! Mas esses milhões de nacionais vivem de tal modo segregados da civilização das cidades grandes e pequenas, tão alheios à cultura geral, que somos etnograficamente um balde com dois terços de água e um de azeite  coisas imisturáveis.

          Temos duas civilizações, ou melhor, duas “culturas”: a cultura importada, dos que vivem nas cidades, sabem ler e escrever e até livros escrevem! E a “cultura local”, filha da terra como um cogumelo é filho dum pau podre, desenvolvida pelos homens do mato  o caboclo, o caipira, o jéca, em suma. Como o jéca nunca leu nada nem escreve, a sua cultura se foi fazendo ao tipo primitivo, por lentas acessões e restritas experiências locais e com a transmissão sempre oral. O assunto é grande demais para caber num prefácio; exige livros, já que se trata duma “cultura” de 15 milhões de seres humanos. Mas cumpre-nos aqui a considerar a galope um dos aspectos dessa “cultura”: a língua, pois foi na língua do jéca que Nhô Bento nos encantou.

          Essa língua descende da que os portugueses introduziram e que alijou a língua geral então existente nestes territórios: o tupi-guarani. Ficou a língua portuguesa sendo a língua geral do Brasil e até hoje o é. E por que o é? Porque aprendemos o português de duas maneiras: de ouvido e de leitura. Se o aprendêssemos só de ouvido, como acontece com o jéca, a nossa “língua geral” estaria hoje tão distanciada da língua portuguesa que um português não a entenderia. O que conserva as línguas e impedem que caminhem com velocidade excessiva pela tentadora da evolução, é a escrita.

          Mas como o jéca nunca soube ler nem escrever, a evolução da língua portuguesa em sua boca se fez a galope. Nhô Bento em seus poemas fixa muito bem a língua falada do jéca  e antes que me esqueça: por que os nossos filólogos não extraem a gramática dessa língua do jéca? Que interessante seria!... Quanta “mutação” vocabular, quanta variação da sintaxe, da prosódia, de tudo!... Troca do “b” pelo “v”: “cumbérsa”, “bérso”, “cuvérta”... O “lh” substituído pelo “i”: “abêia”, “páia”, “máia” (malha)... O “ou” reduzido a “ô”: “fumô”, “botô”... Quantos aspectos!

          Devíamos fazer a gramática da interessantíssima “língua do jéca” como os franceses fizeram a gramática da “língua do oc”; e devíamos ensinar essa gramática nas escolas, lado a lado com a gramática portuguesa, em vez de torturar as pobres crianças com o terrível e inútil latim do senhor Capanema. Ficaríamos assim educados em duas línguas, a geral, ou portuguesa, e uma língua auxiliar, a do jéca. Que vantagem haveria nisso? Oh, grande: podermos falar gramaticalmente com os 15 milhões de jécas que há no território brasileiro.

          . . . A forma escrita das línguas é um artificialismo tremendamente embaraçador da evolução natural das línguas. Tão emperrado, que no inglês a língua falada está p’ra cá, e a escrita está p’ra lá. Mr. Churchill escreve “enough” e diz “inâf”. O jéca teve a felicidade de não saber ler nem escrever, de não se preocupar com a Academia de Letras, de usar dos jornais unicamente o papel  e graças a isso “evoluiu” a língua portuguesa só de ouvido e sempre de acordo com as injunções da “lei do menor esforço” e da “lei da melhor compreensão”. E como suprimiu besteiras inúteis! Os verbos, por exemplo. Nós, por causa da tirania da escrita, ainda estamos com tantas variações pessoais como as tinha o latim. Dizemos: Eu tenho, Tu tens, Ele tem, Nós temos, Vós tendes, Eles têm. Ha um grave defeito aqui. Se o pronome já indica a pessoa do verbo, por que indicá-la novamente com a variação do verbo? Redundância, bobagem perda de esforço. O jéca, muito mais economizador de esforço, porque vive na maior das penúrias, diz: Eu tenho, Vancê tem, Ele tem, Nós tem, Vancês tem, Eles tem.

          O inglês também diz: I have, He have, We have, You have, They have  e tanto o jéca como o inglês exprimem perfeitamente a “pessoa que tem”, sem estarem latinescamente variando o pobre verbo.

          Há uma estranha aproximação do inglês com a língua do jéca, a ponto dum amigo meu, o visconde de Sabugosa, achar que essa língua deriva do inglês e não do português, como o saudoso Alvaro Guerra supunha. O jéca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês: diz, por exemplo, “as casa”, os “hóme” “as muié”, em vez de dizer redundantemente como o português, “as casas”, “os homens”, “as mulheres”. O inglês diz, “the houses” (o casas), “the men” (o homens), “the women” (o mulheres) a mesma coisa que o jéca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? Pensa com muita razão o jéca  e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.

          Tudo isso eu diria no prefácio de Nhô Bento, se fosse escrevê-lo E acentuaria que o mesmo direito que tiveram os portugueses de corromper o latim e transformá-lo em língua portuguesa, temos nós, letrados, de corromper a língua portuguesa e transformá-la na “língua brasileira”; e tem o iletrado jéca de “evoluí-la” em outro rumo. Mais cientificamente, podemos dizer que a língua portuguesa no Brasil está sofrendo duas variações: uma lenta, da gente que sabe ler e escrever; e outra rápida, da gente da roça segregada do urbanismo, do livro, do jornal e do radio  o abençoado jéca que tem a sorte de não ler os jornais do governo nem os da oposição e de não ouvir a “Hora do Brasil”.

          Quem condena como coisa “errada” o modo de falar ou a língua do jéca, revela-se curto de miolo. Os modos de variação duma língua são fenômenos naturais, e não há erro nos fenômenos naturais. Erro é coisa humana. Temos que estudar essas variações em vez de tontamente condená-las, pois condená-las equivale, por exemplo, a condenar os anéis de Saturno em nome dos planetas que não possuem anéis; os as caudas dos cometas em nome dos astros suras; ou as sementes da paineira por virem ao mundo envoltas num algodãozinho em nome das sementes de capiá que vêm nuas.

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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (conto, 1918), Cidades Mortas (conto, 1920), Negrinha (conto, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.

sábado, 2 de junho de 2012

Vitor Knijnik: Blog do Saussure

Reproduzo de Carta Capital (nº 700, de 06.06.2012) texto de Vitor Knijnik:
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Sobre mim
Sou considerado o pai da linguística moderna. Responsável direto por aqueles longos textos dos cadernos culturais que você tem preguiça de ler.
Sobre o blog
Aqui falarei um pouco de estilística, sintaxe, lexicologia, semântica, fonética e outros assuntos igualmente urgentes.
Arquivo do blog
2012 (1)
     JUNHO (1)
          MSG P/VC
Outros Blogs do Além
www.blogsdoalem.com.br

MSG P/ VC
Meu interesse pelo internetês surgiu pela observação da maneira como um amigo se despedia nos e-mails: abs, Fulano de tal. No início imaginei tratar-se de uma piada cifrada. O brincalhão, na minha suposição, usava a referência de um conhecido sistema de freios para avisar que sua missiva parava por ali. Logo depois entendi que se tratava da forma internética da palavra abraço. esse é um problema do semiologista. Nunca pensamos no significado mais evidente. Temos essa mania de especular. É o que eu chamo de encher linguística.

Esse simples episódio despertou minha curiosidade pela língua praticada nos chats, sms e e-mails. Recolhi farto material e pus-me a estudar, como um filólogo do presente, a fim de estar apto a decifrar diálogos como esse:

 Blz?
— Blz
— Qq to aki
— Tb
— Vqv
— Tks
— Bjs
— Bjs
— Sdss
— :-)

Pessoas com mais de 154 anos, como eu, têm sérias dificuldades com essas contrações e abreviaturas. Por isso, peço licença aos mais jovens, fluentes no idioma, para traduzir aqui esse pequeno recorte de uma troca de sms(s).

— Está tudo beleza com você?
— Sim, está tudo beleza comigo.
— Qualquer urgência ou problema, estou disponível. Não hesite em chamar-me.
— Eu também estou disponível, caso você necessite de algo.
— Vamos que vamos, nesse ritmo e com otimismo.
— Muito obrigado em inglês.
— Beijos.
— Beijos.
— Tenho saudades de você.
— Essa declaração me faz sorrir.

Os guardiões da norma culta torcem o nariz para essas transformações. Outros acreditam que esses modernos hieroglifos caminham a passos largos para a consagração pelo uso, botando fim a uma longa ditadura da palavra. E logo, logo, serão candidatos à norma formal. De minha parte, tenho uma opinião bem definida. Eu penso que \o/.

Postado por Saussure às 8h45                                     0 comentários

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Sírio Possenti: A nossa língua (falada ou escrita) por uns e outros (linguistas e gramáticos).

Reproduzo do site Ciência Hoje texto de Sírio Possenti, linguista e professor no Departamento de Linguística da Unicamp:
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Linguistas e gramáticos
Sírio Possenti dedica a primeira coluna do ano a pontuar diferenças entre o trabalho e os posicionamentos desses dois grupos em relação à língua. Para o linguista, gramáticos tendem a estudar e analisar menos e a exemplificar e julgar mais.
Por: Sírio Possenti
Publicado e atualizado em 27/01/2012
Os estereótipos são que os gramáticos defendem o português correto, formal, e que os linguistas defendem todas as variantes. Minha impressão pessoal é que o predicado ‘defensor’ até pode ser aplicado ao gramático, mas é incorretamente aplicado ao linguista.
As principais diferenças entre os dois grupos, ou entre os dois grupos de teorias (sem esgotá-las), considerados diversos critérios, são:
§         Quanto ao corpus: os gramáticos se baseiam em corpora escritos; dizem que seu corpus é literário, mas essa é mais uma jogada do que um fundamento; os ‘exemplos’ poderiam vir dos jornais ou das revistas semanais. Haveria ‘erros’? Mais ou menos tantos quantos se encontram na literatura, convertidos em exceções. Os linguistas privilegiam os dados orais, o que não quer dizer que sempre gravaram falas; muitos seguiram seu ouvido ou sua avaliação pessoal; a querela da gramaticalidade é o melhor exemplo. Lidam mais com fonemas do que com letras; levam em conta construções que não se encontram tipicamente em textos escritos. Ou seja: linguistas e gramáticos divergem sobre o que é – ou o que pertence a – uma língua. Apelando para uma analogia, é como se alguns biólogos incluíssem e outros excluíssem os animais ‘nojentos’. 
Se um fato ocorre sistematicamente, pertence à língua e deve ser descrito pela gramática
§         Quanto a teorias e métodos: para os gramáticos, a autoridade dos escritores é um critério para aceitar construções (e até exceções); para os linguistas, o critério para aceitar construções são os dados: se um fato ocorre sistematicamente, pertence à língua e deve ser descrito pela gramática. Pronúncias como “paiaço” e “muié”; concordâncias como “tu vai” e “os menino”, regências como “assistir o jogo” e “obedecer as regras” etc. são exemplos de pontos de discordância.
§         Quanto à explicitude e coerência das análises: gramáticas mais exemplificam do que analisam; são menos coerentes. Por exemplo, uma definição de sujeito pode não se aplicar a muitas construções sem que isso seja visto como um problema. As gramáticas não se preocupam em indicar o sujeito de uma interrogativa ou de uma imperativa depois de defini-lo como “o termo sobre o qual se declara” alguma coisa; ou em dizer que “a casa” é sujeito em “A casa tem três quartos” depois de definir sujeito como o que pratica ou sofre uma ação.
§         Quanto às controvérsias: gramáticos, eventualmente, discordam entre si, mas raramente se lê em uma gramática a crítica explícita de outra. Entre os linguistas, ao contrário, há verdadeiras polêmicas, ora devidas à preferência por uma ou outra teoria (formalistas e funcionalistas, por exemplo), ora devidas à preferência por uma ou por outra análise do mesmo fato (por exemplo, sobre a chamada “passiva sintética”).
§         Quanto aos erros: gramáticos consideram erros as variantes não ‘formais’ ou não ‘padrões’; linguistas, não. Um bom exemplo é o caso da colocação dos pronomes. Ainda há gramáticas que consideram erradas construções como “me dá um dinheiro”. Haveria uma regra segundo a qual não se pode começar oração com pronome oblíquo. Algumas, como a de Cunha e Cintra, ‘aceitam’ a colocação de pronomes à brasileira, mas em capítulo à parte, como se pedissem desculpas ao leitor (apesar disso, todos os exames que incluem questões gramaticais seguem as regras portuguesas; a culpa, claro, não é dos gramáticos). Linguistas consideram erros apenas construções que não são comuns em nenhuma comunidade de falantes. Numa frase como “tomei dois caipirrinhas”, um linguista detectará dois erros: um de concordância (duas) e a presença de um “r” que não deveria ocorrer (isto é, que um falante nativo do português não pronunciaria nessa palavra). E explica o fato como interferência de uma língua em outra: falantes que aprendem uma segunda língua cometem frequentemente erros desse tipo – muitos estudantes brasileiros de inglês dizem [tchitcher] em vez de [thitcher], porque seu dialeto transforma o “t” diante de “i” em “tch”, e transferem essa regra para o inglês etc.
§         Ainda quanto aos erros: gramáticos consideram erros sociais como se fossem estruturais. Por exemplo: a variação de “l” com “r” em palavras como “flamengo/framengo” (tal ‘troca’ nunca ocorre em começo de sílaba!!!) é parte de um processo histórico que derivou, entre outros casos, em “praia” ou “prata” (compare com “plaga” e com o espanhol “plata”). Tais pronúncias são explicáveis e previsíveis estruturalmente (e um linguista não tem dor de ouvido ao ouvi-las). Elas são socialmente estigmatizadas (em geral, caracterizam a fala popular ou rural). É um erro comparável a um de etiqueta ou de moda. Dizer que é um erro (em língua) equivale a dizer que uma saia curta é um erro no campo da moda (ou em moralidade!). É uma avaliação social, não linguística; às vezes, alguém diz que o som “fra” é horrível, mas ninguém o acha horrível em “fraco” ou em “fraque”. No entanto, trata-se do mesmo som, e no mesmo contexto...
A diferença entre linguistas e gramáticos é análoga à diferença entre antropólogos e missionários
§         Algumas comparações: a diferença entre linguistas e gramáticos é análoga à diferença entre antropólogos e missionários (um quer conhecer, outro quer converter) ou entre botânicos e paisagistas (um estuda as plantas, outro seleciona as ‘elegantes’ – um bom caso de ideologias em confronto). Uma terceira comparação: no campo da moda, há os estudiosos das roupas (na história) e os que emitem juízos – em programas de TV – sobre o que é elegante ou cafona. Observe-se que há programas de TV e colunas de jornal deste último tipo também sobre língua...
§         Uma nota final: muito frequentemente, os defensores das gramáticas não as conhecem; só conhecem os manuais de redação e as listas de erros e fazem de conta que os dois tipos de obra são iguais. Os manuais de redação obedecem a políticas de escrita; de fato, a políticas de edição. Não substituem gramáticas, cuja função é explicar uma língua – e, eventualmente, ajudar a situá-la no espaço ideológico da nacionalidade, como um trunfo espacial.
§         Ia esquecendo: os gramáticos são mais conhecidos (pelo menos, é o que se pensa); linguistas ainda provocam perguntas do tipo “o que você faz?” ou “quantas línguas você fala?”, um pouco como os que estudam gens ou neutrinos.