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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Jules Laforgue: Caso Redibitório (Matrimônio)

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

Minh’alma tem sete dons raros
e, em número maior que as obras-
primas, micróbios, aos milhares,
tornam-me campo de manobras.

Ora, o sufrágio universal!
Que chicaneia e clama insultos,
Cada instante, ao menor sinal,
Entre meus mil órgãos ocultos!…

Quisera viver com sucesso,
segundo um clássico programa,
associando-me, em congresso,
a alguma clássica madama.

Pode-se cogitar, na pauta,
em tirar exemplares, para
si, de si mesmo, quando falta,
porém, uma ideia, mais clara?…

(Revista Código nº 8, 1983, Salvador — BA)

Jules Laforgue

Cas rédhibitoire (Mariage)

Ah! mon âme a sept facultés!
Plus autant qui ‘il de chefs-d’oeuvre,
Plus mille microbes ratés
Qui m’ont pris pour champ de manoeuvre.

Oh! le suffrage universel
Qui se bouscule et se chicane,
À chaque instant, au moindre appel,
Dans mes mille occultes organes!…

J’aurais voulu vivre à grands traits,
Le long d’un classique programme
Et m’associant en un congrès
Avec quelque classique femme.

Mais peut-il être question
D’aller tirer des exemplaires
De son individu si on
N’en a pas une idée plus claire?…
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica, e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendante; postumamente, editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada em 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Jules Laforgue: Domingos nº 2

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

No domingo exerço
Dizer o meu terço
Às irmãs de berço.

Orfeu, belo Orfeu!
Harém, corifeu
Das margens do Alfeu...

Jovem Parsifal!
Pendão virginal
Nos muros do mal...

Preso Prometeu!
Plá que percorreu
Séculos ateus...

Nabuco’nosor
Moloch-esplendor
Nosso imperador?

Vós filhas de Eva
Irmãs, berço e seiva,
Destino que enleva!

Salomé de Nada!
Múmia embalsamada
Dormem as amadas...

Ofélia de Tudo
Vinde a mim (outubro)
Sou surdo e sou mudo.

Casta Salambô!
A lua e seu halo,
Lava meu mantô...

Irmã Messalina!
Ó pantera fina
Rasga musselinas...

E tu Cinderela
Reprisa a novela
Palco sem janela!

Ou Paulo e Virgínia
Vinheta bendita
Dos céus das colônias...

Ó louca psiquê!
Pecado-nenê
Sem quê nem pra quê...

Jules Laforgue

Dimanches nº 2

Le Dimanche, on se plaît
À dire un chapelet
À ses frères de lait.

Orphée, ô jeune Orphée!
Serials des coriphées
Aux soirs du fleuve Alphée…

Parcifal, Parcifal!
Étendart virginal
Sur les ramparts du mal…

Prométhée, Prométhée!
Phrase répercutée
Par les siècles athées...

Nabucodonosor!
Moloch des âges d’or
Régissez-nous encor?...

Et vous donc, filles d’Ève,
Soeurs de lait, soeurs de sève,
Des destines qu’on se rêve!

Salomé, Salomé!
Sarcophage embaumé
Où dort maint Bien-Aimé…

Ophélie toi surtout
Viens moi par ce soir d’août
Ce sera entre nous.

Salammbo, Salammbo!
Lune au chaste halo
Qui laves nos tombeaux…

Grande soeur, Messaline!
Ô panthère câline
Griffant nos mousselines…

Oh! même Cendrillon
Reprisant ses haillons
Au foyer sans grillon…

Ou Paul et Virginie,
Ô vignette bénie
Des ciels des colonies…

— Psyché, folle Psyché,
Feu-follet du péché,
Vous vous ferez moucher!...

(Des Fleurs de bonne volonté [di Jules Laforgue —
Barbaro Pietro Vaccaro, 1994, Catania — Italia])
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Litanias da lua: Jules Laforgue — edição bilíngue, Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio; teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Lua na Província

 
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[traduzido por Régis Bonvicino]

Ah! Lua, formosa e cheia,
Gorda, qual fortuna alheia!

A corneta soa ao fundo,
Passa, o senhor adjunto.

Um cravo toca a vidraça,
Um gato atravessa a praça:

É a província que dorme,
Lançando o último acorde!

O piano bate a janela.
Que hora são agora bela?

Tranqüila Lua, que exílio!
Preciso dizer que brilho?

Lua — Lua diletante,
De nenhum clima distante,

Viste ontem o Missouri,
E as muralhas de Paris,

Fiordes do norte-europeu,
Pólos, mares, que sei eu?

Lua contente, assim olhas,
O comboio, a esta hora,

De sua viagem de núpcias!
Eles partiram pra Escócia.

Que cena, se, este inverno,
Ela seguisse meus versos!

Lua — Lua navegante,
Sejamos então amantes?

Ricas noites! Eu me deito,
A Província no meu peito!

E a Lua, bondosa velha,
Enfia algodão na orelha.

Jules Laforgue

Complainte de la lune en province

Ah! la belle pleine Lune,
Grosse comme une fortune!

La retraite sonne au loin,
Un passant, monsieur l’adjoint;

Un clavecin joue en face *,
Un chat traverse la place:

La province qui s’endort!
Plaquant un dernier accord,

Le piano clôt sa fenêtre.
Quelle heure peut-il bien être?

Calme Lune, quel exil!
Faut-il dire: ainsi soit-il?

Lune, ô dilettante Lune,
À tous les climats commune,

Tu vis hier le Missouri,
Et les remparts de Paris,

Les fiords bleus de la Norwège,
Les pôles, les mers, que sais-je?

Lune heureuse! ainsi tu vois,
À cette heure, le convoi

De son voyage de noce!
Ils sont partis pour l’Écosse.

Quel panneau, si, cet hiver,
Elle eût pris au mot mes vers!

Lune, vagabonde Lune,
Faisons cause et mœurs communes?

Ô riches nuits! je me meurs,
La province dans le cœur!

Et la lune a, bonne vieille,
Du coton dans les oreilles.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino: ‘Traduzi “en face” por “vidraça”. “Vidraça capta o sentido de “em frente”, de “visibilidade”.
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio; teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Boa Defunta

 
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[paráfrase* de Régis Bonvicino]

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
— Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

Jules Laforgue

Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient: "J'ai deviné 
Hélas! que tu m'as reconnue!"

Je la suivis illuminé!
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue;
OEillet blanc, d'azur trop veiné;
Oh! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
— Oh! je rentrerai sans dîner!

Vrai, je ne l'ai jamais connue.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino: “Esta tradução é, de fato, uma paráfrase. A alternância rímica está toda modificada. Mantive a métrica de oito sílabas.”
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Litanias da lua: Jules Laforgue — Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendante; postumamente editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada en 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes"; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

sábado, 15 de novembro de 2025

Baudelaire: A Carniça

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[traduzido por Ary de Mesquita]

Tu recordas, querida, aquilo que estou vendo
inda pela lembrança?
Na volta de uma estrada, um cadáver horrendo
Que sobre as pedras descansa.

As pernas para o ar, como uma fêmea ardente,
E que exale e que difunda
O veneno, ele expõe, cínico e indiferente,
Sua carne nauseabunda.

Nessa putrefação, brilhante, o sol luzia
Pra cozê-la devagar,
A fim de devolver à natureza, um dia,
O que ela pode juntar.

E contemplava o céu o fúnebre despojo
Abrir-se como uma flor.
Quem lhe estivesse ao pé vomitava de nojo
Ao lhe sentir o fedor.

Moscas vinham cheirar, nesse pútrido ventre,
As viscosas multidões
De vermes a vagar, negras e aquosas, entre
As fezes das podridões.

E tudo isto descia, e tudo isto subia,
E avançava borbulhando;
Dir-se-ia que um sopro o corpo revivia,
Cheio se multiplicando.

E esse pequeno mundo estranho produzia
Como os ventos um rumor,
Que lembra a água corrente, e lembra o grão que chia
Na joeira do semeador.

Sua forma esbateu-se em figura imprecisa
Como um debuxo que lança
No painel o pintor, e o esquece, e após precisa
Terminá-lo de lembrança.

Por detrás de uim rochedo, olhos de cão faminto
Nos olhavam irritados,
Espreitando a ocasião de saciar o instinto
Em mais dois ou três bocados.

Mas um dia serás igual à sordideza
Dessa horrenda podridão,
Luz dos meus olhos, sol da minha natureza,
Minha trágica paixão.

Ouve, serás assim, rainha das amadas,
Quando, sem vida, tu fores
Apodrecer teu corpo esbelto entre as ossadas,
Sob a erva e sob as flores.

Então, querida, diz aos vermes do monturo,
Que aos beijos te comerão,
Que eu guardei para mimo que havia de puro
Do teu ser em corrupção!

Charles Baudelaire

Une charogne

XXIX

Rappelez-vous l'objet que nous vîmes, mon âme,
Ce beau matin d'été si doux:
Au détour d'un sentier une charogne infame
Sur un lit semé de cailloux,

Les jambes en l'air, comme une femme lubrique,
Brûlante et suant les poisons,
Ouvrait d'une façon nonchalante et cynique
Son ventre plein d'exhalaisons.

Le soleil rayonnait sur cette pourriture,
Comme afin de la cuire à point,
Et de rendre au centuple à la grande Nature
Tout ce qu'ensemble elle avait joint.

Et le ciel regardait la carcasse superbe
Comme une fleur s'épanouir;
La puanteur était si forte, que sur l'herbe
Vous crûtes vous évanouir.

Les mouches bourdonnaient sur ce ventre putride,
D'où sortaient de noirs bataillons
De larves qui coulaient comme un épais liquide
Le long de ces vivants haillons.

Tout cela descendait, montait comme une vague
Ou s'élançait en pétillant;
On eût dit que le corps, enflé d'un souffle vague,
Vivait en se multipliant.

Et ce monde rendait une étrange musique
Comme l'eau courante et le vent,
Ou le grain qu'un vanneur d'un mouvement rythmique
Agite et tourne dans son van.

Les formes s'effaçaient et n'étaient plus qu'un rêve,
Une ébauche lente à venir
Sur la toile oubliée, et que l'artiste achève
Seulement par le souvenir.

Derrière les rochers une chienne inquiète
Nous regardait d'un oeil fâché,
Epiant le moment de reprendre au squelette
Le morceau qu'elle avait lâché.

— Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
A cette horrible infection,
Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,
Vous, mon ange et ma passion!

Oui! telle vous serez, ô la reine des grâces,
Apres les derniers sacrements,
Quand vous irez, sous l'herbe et les floraisons grasses,
Moisir parmi les ossements.

Alors, ô ma beauté! dites à la vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j'ai gardé la forme et l'essence divine
De mes amours décomposés!

(Les Fleurs du Mal, poemas — 1857)
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), francês e parisiense, foi aluno interno do Colégio Real de Lyon, concluiu seus estudos secundários no Liceu Louis-le-Grand em Paris, foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; não quis seguir carreira alguma, fez imersão no mundo literário, por pressão familiar partiu em viagem para Calcutá — Índia, desistiu a meio caminho e retornou para a França; Baudelaire, ao atingir a maioridade tomou posse de parte da herança paterna, adquiriu independência econômica e, em Paris, passou a viver entre poetas e pintores, levando vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne); Baudelaire foi um dos precursores do Simbolismo e é reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal, poemas, 1857 e + reedições), Os Paraísos Artificiais (Les Paradis Artificiels, ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (Petits poèmes en prose ou Le Spleen de Paris, edição póstuma, 1869), outros vários títulos e alguns inacabados; As Flores do Mal, considerada a sua mais conhecida e principal obra, em sua 1ª edição e divulgação recebeu fortes contestações no campo da moral dos costumes e na justiça; em razão do lançamento, Baudelaire foi julgado, recebeu censuras e multas governamentais e, para a 2ª edição da obra, o poeta foi forçado a excluir alguns poemas (seis), e incluiu outros (dezoito); traduziu Edgar Allan Poe.

segunda-feira, 18 de março de 2024

Rainer Maria Rilke: Baudelaire


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[traduzido por José Paulo Paes]

Para Anita Forrer/ em 14 de abril de 1921

Somente o poeta juntou as ruínas
de um mundo desfeito e de novo o fez uno.
Deu fé da beleza nova, peregrina,
e, embora celebrando a própria má sina,
purificou, infinitas, as ruínas:

assim o aniquilador tornou-se mundo.

Rainer Maria Rilke

Baudelaire

Für Anita Forrer/ zum 14. April 1921

Der Dichter einzig hat die Welt geeinigt,
die weit in jedem auseinanderfällt.
Das Schöne hat er unerhört bescheinigt,
doch da er selbst noch feiert, was ihn peinigt,
hat er unendlich den Ruin gereinigt:

und auch noch das Vernichtende wird Welt.
____________________
Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., bilíngue, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 — 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 1907—1908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

domingo, 10 de setembro de 2023

Charles Baudelaire: A giganta


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[traduzido por Décio Pignatari]

Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,
Gerava estranhos seres raros, dia a dia,
Uma giganta moça — eis do eu gostaria,
Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato.

Ver seu corpo florir com a flor de sua alma
E crescer livremente em seus terríveis jogos;
Ver se não teria no peito alguma oculta chama,
Com as chispas molhadas que mostra nos olhos.

Percorrer à vontade a realeza das formas,
Escalar a vertente dos joelhos enormes
E, quando os sóis do estio, à complacência alheios,

Estendem-na, cansada, ao longo da campina,
Dormir descontraído à sombra dos seus seios,
Como abrigo tranqüilo ao pé de uma colina.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 03.06.85]

Charles Baudelaire

La géante

Du temps que la Nature en sa verve puissante
Concevait chaque jour des enfants monstrueux,
J’eusse aimé vivre auprès d’une jeune géante,
Comme aux pieds d’une reine un chat voluptueux.

J’eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme
Et grandir librement dans ses terribles jeux;
Deviner si son coeur couve une sombre flamme
Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux;

Parcourir à loisir ses magnifiques formes;
Ramper sur le versant de ses genoux énormes,
Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s’étendre à travers la campagne,
Dormir nonchalamment à l’ombre de ses seins,
Comme un hameau paisible au pied d’une montagne.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.