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domingo, 6 de setembro de 2026

Alfred de Musset: Veneza

 
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[‘paráfrase’ de Castro Alves]

Em Veneza, a vermelha,
Nem um barco s’esguelha...
Nem remador no mar
          Se vê remar...

Na Grève acocorado
Jaz o Leão dourado,
Que para o mar levanta
          A brônzea planta.

Em torno se lhe agrupa
A gôndola, a chalupa,
Quais cisnes, se arrojando,
          Em longo bando.

Dormem n’água, que espuma...
E cruzam pela bruma,
Em leves turbilhões,
          Seus pavilhões.

A lua que esvoaça
Esconde a testa e passa
Em nuvem estrelada
          Meio enrolada.

Assim dama abadessa
A capa faz que desça,
Pela sobrepeliz
          Em véus sutis.

Os palácios vetustos,
Os pórticos robustos,
Dos nobres as escadas
          Arabescadas,

As ruas e as pontes,
Dos mármores as frontes,
E o golfo turbulento
          Ao tom do vento

São quedos!... Só os guardas
Co'as longas alabardas
Vigiam nos poiais,
          Nos arsenais.

Ai! quanta moça nua
Agora, á luz da lua,
Espera chegue o amante,
          — Toda arquejante.

Agora para o baile
Mais de uma larga o xaile.
E a máscara afivela,
          Junto á janella.

Na cama embalsamada
A Vanina espasmada.
O moço aperta ainda
          Dormindo linda.

Narcisa — a doida altiva —
Na gôndola lasciva
Esquece-se na orgia
          Até de dia!...

E quem na Itália um pouco
Não tem (meu Deus) de louco?
Nem guarda para o amor
          Da vida a flor?

Deixai que ao velho Doge
— Do tempo que lhe foge —
Conte o relógio a hora,
          Que triste chora...

Cantemos nós, ó louca,
Nesta rebelde boca
Beijos aos centos dados
          Ou perdoados...

Cantemos teus encantos,
Cantemos estes prantos
Que orvalham-te em languor...
          Meu doido amor.

S. Isabel, 27 de Julho de 1870.

Alfred de Musset

Venise

Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans l’eau,
    Pas un falot.

Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur l’horizon serein,
    Son pied d’airain.

Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
    Couchés en ronds,

Dorment sur l’eau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
    Leurs pavillons.

La lune qui s’efface
Couvre son front, qui passe
D’un nuage étoilé
    Demi-voilé.

Ainsi la dame abbesse
De Sainte-Croix rabiasse
Sa cape aux larges plis
    Sur son surplis.

Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
    Des chevaliers,

Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
    Qui tremble au vent,

Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
    Des arsenaux.

Ah! maintenant plus d’une
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
    L’oreille au guet.

Pour le bal qu’on prépare,
Plus d’une qui se pare,
Met devant son miroir
    Le masque noir.

Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
    En s’endormant;

Et Narcissa, la folle,
Au fond de sa gondole,
S’oublie en un festin
    Jusqu’au matin.

Et qui, dans l’Italie,
N’a son grain de folie?
Qui ne garde aux amours
    Ses plus beaux jours?

Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
    Les longs ennuis.

Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés…
    Ou pardonnés.

Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Qu’à nos yeux a coûté
    La volupté!

(Premières poésies — 1829)
[Premières Poésies (1829-1835),
Charpentier, 1863 (p. 98-100)]
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto, Notas e Ensaio: Castro Alves e o Romantismo Brasileiro, por Eugênio Gomes, Ensaio: Vida Efêmera e Ardente de Castro Alves, Reportagem Iconográfica e Cronologia da Vida e da Obra, por Afrânio Peixoto, + Diálogo Epistolar entre José de Alencar e Machado de Assis [acerca de Castro Alves], 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 — 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier — bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.