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[‘paráfrase’
de Castro Alves]
Em
Veneza, a vermelha,
Nem um
barco s’esguelha...
Nem
remador no mar
Se vê remar...
Na Grève
acocorado
Jaz o Leão
dourado,
Que para
o mar levanta
A brônzea planta.
Em torno
se lhe agrupa
A
gôndola, a chalupa,
Quais
cisnes, se arrojando,
Em longo bando.
Dormem
n’água, que espuma...
E cruzam
pela bruma,
Em leves
turbilhões,
Seus pavilhões.
A lua que esvoaça
Esconde a testa e passa
Em nuvem estrelada
Meio enrolada.
Assim dama abadessa
A capa faz que desça,
Pela sobrepeliz
Em véus sutis.
Os palácios vetustos,
Os pórticos robustos,
Dos nobres as escadas
Arabescadas,
As ruas e as pontes,
Dos mármores as frontes,
E o golfo turbulento
Ao tom do vento
São quedos!... Só os guardas
Co'as longas alabardas
Vigiam nos poiais,
Nos arsenais.
Ai! quanta moça nua
Agora, á luz da lua,
Espera chegue o amante,
— Toda arquejante.
Agora para o baile
Mais de uma larga o xaile.
E a máscara afivela,
Junto á janella.
Na cama embalsamada
A Vanina espasmada.
O moço aperta ainda
Dormindo linda.
Narcisa — a doida altiva —
Na gôndola lasciva
Esquece-se na orgia
Até de dia!...
E quem na Itália um pouco
Não tem (meu Deus) de louco?
Nem guarda para o amor
Da vida a flor?
Deixai que ao velho Doge
— Do tempo que lhe foge —
Conte o relógio a hora,
Que triste chora...
Cantemos nós, ó louca,
Nesta rebelde boca
Beijos aos centos dados
Ou perdoados...
Cantemos teus encantos,
Cantemos estes prantos
Que orvalham-te em languor...
Meu doido amor.
S.
Isabel, 27 de Julho de 1870.
Venise
Dans
Venise la rouge,
Pas un
bateau qui bouge,
Pas un
pêcheur dans l’eau,
Pas un
falot.
Seul,
assis à la grève,
Le grand
lion soulève,
Sur
l’horizon serein,
Son pied
d’airain.
Autour de
lui, par groupes,
Navires
et chaloupes,
Pareils à
des hérons
Couchés
en ronds,
Dorment
sur l’eau qui fume,
Et
croisent dans la brume,
En légers
tourbillons,
Leurs
pavillons.
La lune
qui s’efface
Couvre
son front, qui passe
D’un
nuage étoilé
Demi-voilé.
Ainsi la
dame abbesse
De
Sainte-Croix rabiasse
Sa cape
aux larges plis
Sur son
surplis.
Et les
palais antiques,
Et les
graves portiques,
Et les
blancs escaliers
Des
chevaliers,
Et les
ponts, et les rues,
Et les
mornes statues,
Et le
golfe mouvant
Qui
tremble au vent,
Tout se
tait, fors les gardes
Aux
longues hallebardes,
Qui
veillent aux créneaux
Des
arsenaux.
Ah!
maintenant plus d’une
Attend,
au clair de lune,
Quelque
jeune muguet,
L’oreille
au guet.
Pour le
bal qu’on prépare,
Plus
d’une qui se pare,
Met
devant son miroir
Le masque
noir.
Sur sa
couche embaumée,
La Vanina
pâmée
Presse
encor son amant,
En
s’endormant;
Et Narcissa,
la folle,
Au fond
de sa gondole,
S’oublie
en un festin
Jusqu’au
matin.
Et qui,
dans l’Italie,
N’a son
grain de folie?
Qui ne
garde aux amours
Ses plus
beaux jours?
Laissons
la vieille horloge,
Au palais
du vieux doge,
Lui
compter de ses nuits
Les longs
ennuis.
Comptons
plutôt, ma belle,
Sur ta
bouche rebelle
Tant de
baisers donnés…
Ou
pardonnés.
Comptons
plutôt tes charmes,
Comptons
les douces larmes,
Qu’à nos
yeux a coûté
La
volupté!
(Premières
poésies — 1829)
[Premières Poésies (1829-1835),
Charpentier, 1863 (p. 98-100)]
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Castro Alves
— Obra Completa, Organização, Fixação do Texto, Notas e Ensaio: Castro Alves e o
Romantismo Brasileiro, por Eugênio Gomes, Ensaio: Vida Efêmera e Ardente de Castro
Alves, Reportagem Iconográfica e Cronologia da Vida e da Obra, por Afrânio Peixoto,
+ Diálogo Epistolar entre José de Alencar e Machado de Assis [acerca de Castro Alves],
5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles
de Musset (1810 — 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade
foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se
nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a
se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista,
crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista
em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle
Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu
e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes
d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830),
Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles
(Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres
(teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour
(Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico,
1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos,
1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela
autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre
[1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838]
(ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis
e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte
ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine
(comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e
prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever,
1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies:
À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid,
1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie
Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão
literário de Charles Nodier — bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e
tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi
devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand
[pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado
com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa;
com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo
alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de
maio de 1857”, aos 46 anos.