quarta-feira, 31 de janeiro de 2024
arterápico da silva: arthur bispo do rosário
Safo: A Átis [fragmento 94]
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[traduzido por Décio Pignatari]
[...]
Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:
“Mas, ah, que triste a nossa
sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo”. “Seja feliz”, eu disse,
“E lembre-se de quanto a
quero.
Ou já esqueceu? Pois vou
lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.
Quantas grinaldas, no seu
colo,
— Rosas, violetas, açafrão —
Trançamos juntas! Multiflores
Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros
Da sua pele em minha pele!
[…]
Cama macia, o amor nascia1
De sua beleza, e eu matava
A sua sede” […]
. . . . . . . . .
τεθνάκην ἀδόλως, θέλω·
ἀ με ψισδομένα κατελίμπανεν
πόλλα καὶ τόδ’ ἔειπέ μοι·
ὤιμ’ ὠς δεῖνα πεπόνθαμεν,
Ψάπφ’, ἦ μάν σ’ ἀέκοισ’ ἀπυλιμπάνω.
τὰν δ’ ἔγω τάδ’ ἀμειβόμαν·
χαίροισ’ ἔρχεο κἄμεθεν
μέμναισ’, οἶσθα γὰρ ὤς σε πεδήπομεν·
αἰ δὲ μή, ἀλλά σ’ ἔγω θέλω
ὄμναισαι . . .
ὄσα μάλθακα καὶ κάλ’ ἐπάσχομεν·
πόλλοις γὰρ στεφάνοις ἴων
καὶ βρόδων πλοκίων τε ὔμοι
κἀνήτω πὰρ ἔμοι παρεθήκαο
καὶ πόλλαις ὐπαθύμιδας
πλέκταις ἀμφ’ ἀπάλαι δέραι
ἀνθέων ἐρατῶν πεποημέναις.
καὶ πολλῷ λιπαρῶς μύρῳ
βρενθείῳ τε κάλον χρόα
ἀξαλείψαο καὶ βασιληίῳ
καὶ στρώμναν ἐπὶ μολθάκαν
ἀπάλαν παρ ὀπαυόνοων
ἐξίης πόθον αἶψα νεανίδων
κωὔτε τις οὔ τε τι
ἶρον οὐδ’ ὐ. . . .
ἔπλετ’ ὄπποθεν ἄμμες ἀπέσκομεν,
οὐκ ἄλσος . . . . . . ρος
. . . . . . . . . ψοφος
. . . . . . . . . οιδιαι
1. Nota do tradutor Décio Pignatari: O amor nascia — Não pude resistir à beleza da tradução de Salvatore Quasimodo, no verso “nasceva amore dela tua bellezza”. Entre o poético e o erudito, Quasimodo é um marco saneador na tradução dos clássicos greco-latinos.
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31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas
traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996
— Companhia das Letras, São Paulo — SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre
630 a.C. e 604 a.C. — com morte em data incerta), grega de Mitilene, ilha de Lesbos,
muito pouco ou quase nada se sabe; foi poetisa, tecelã e sacerdotisa, sendo
considerada a primeira poeta mulher de quem se tem registro na história do nosso
mundo ocidental; dela, chegaram até nós, da modernidade, apenas 650 versos (fragmentos
de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode
a Afrodite, preservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia
Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores
registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além também dos
tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa
são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores
que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no
entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que
Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, ocasião
em que estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção
da deusa Afrodite e das musas; a poetisa, chamada de ‘décima musa’ por Platão (428/427
a.C. — 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. — 8 a.C.) e Catulo
(87 a.C.? — 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito
mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 — 1827)
e Giacomo Leopardi (1798 — 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se
referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.
terça-feira, 30 de janeiro de 2024
Salvador de Mendonça: Último porto
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(Consagrado à cidadezinha natal]
I
Barca dos sonhos, minha
companheira
Dos dias de tormenta e de
bonança,
Em seu seio o mar calmo te
balança;
Vamos longe vogar, barca
veleira.
Atrás fica o passado em nossa
esteira,
Vai-nos à proa o lume da
esperança,
Do passado a saudade nos
alcança,
Mas a esperança como vai
ligeira!
Na vasta solidão do mar,
enquanto
Rememoro a existência
dolorosa,
Surgem dias de gozo puro e
santo.
Cresce a luz da esperança
radiosa,
Vamos dormir dos astros sob o
manto.
Barca dos sonhos, pétala de
rosa.
II
Barca dos sonhos, pétala de
rosa,
Vamos dormir das ondas nos
arminhos,
E por baixo de nós monstros
marinhos
Cortam do abismo a senda
tenebrosa.
Ao longe, em negra linha
temerosa,
Outros monstros de ferro
amplos caminhos
Fecham nos mares amplos, e
sozinhos
Ditam a lei da força
imperiosa.
Dá-me a cota de malha, o meu
montante,
O rijo elmo encantado de mambrino
E o meu leal e heróico rocinante.
Se monstros combater é meu
destino,
Tenho p’ra luta o braço meu
possante,
Para a vitória um protetor
divino.
III
Desta vitória o protetor
divino
Vem do oriente como a luz do
dia,
E do sol ao fulgor que se
irradia
Entoa o mundo redimido o hino.
Ouves acaso esse tanger de
sino
Que vem de longe, além da
penedia?
É o triste tocar da Ave-Maria
Na velha torre que me viu
menino.
Vês como o sol se esconde no
poente
E doura apenas o perfil da
serra,
Barca dos sonhos a vagar
silente?
Aproa à costa que meu lar
encerra,
Pois quero agora repousar
contente
No seio amado e bom da minha
terra.
[Julho de 1912]
[Revista da Academia
Brasileira de Letras, ano III, nº 7, 1912.]
____________________
Antologia de Poetas Fluminenses
(vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica
Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Salvador de Menezes Drummond Furtado de Mendonça
(1841 — 1913), fluminense de Itaboraí, recebeu seus primeiros ensinamentos da mãe,
com quem aprendeu línguas, música e desenho; depois, já no Rio de Janeiro, então
capital do Império estudou no Colégio Marinho e no Curiácio, e, em São Paulo, formou-se
em Direito na Faculdade do Largo São Francisco (atual USP); foi advogado, professor,
jornalista, diplomata, teatrólogo, tradutor, escritor e poeta; colaborou como redator
no Diário do Rio de Janeiro, além de publicar seus textos e críticas, manter colunas
em outros periódicos: Jornal do Commércio, Correio Mercantil, Jornal da República,
Actualidade, Tribuna Liberal, O Ipiranga e outros, em alguns deles ocupando funções
as mais variadas; foi tradutor da Casa Garnier, livraria e editora; suas obras:
Singairu (poesia, 1859), O Romance de um Moço Rico (teatro, 1860), A Herança (teatro,
1861), Joana de Flandres, ou A Volta do Cruzado (ópera, 1863), Marabá (romance,
prefaciado por José de Alencar, 1875), Lendas da Serra e da Baixada (poesia, 1910)
etc.; foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criador e ocupante
da cadeira nº 20, sendo patrono o escritor Joaquim Manuel de Macedo; o poeta, assim
como Lúcio de Mendonça, seu irmão mais velho, também sofreu com cada vez mais
acentuados problemas na visão, ambos morreram cegos.
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024
Hans Magnus Enzensberger: Um Sonho
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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]
Estou em fuga. Perdi meus sapatos.
Cerejeiras florescem, detrás de uma casa abandonada.
A grade, quebrada. Meus pés, poeirentos, esfolados.
Eis-me sentado na grama; adormeço. Através da janela aberta
olho para uma sala branca e fresca. No sonho
vejo um velho, descalço, de pé diante de uma tela.
Vira-me as costas. Ligeiramente curvado,
ensaia uns passos de dança ao sol matinal e põe lá,
rápido, com umas pinceladas úmidas, uns sapatos,
piscando os olhos. Que fácil é! O cheiro
da tinta é acre e oleoso; na luz diagonal
cintila o pincel molhado, pelo por pelo.
O tempo passa. Brandos e pardos como veados ele pinta
as duas botinas, uma ao lado da outra, mas não paralelas,
sobre a grama tenra. Cheiro e couro. Os cadarços,
as linguetas têm um brilho baço, posso contar os ganchos,
os colchetes de ferro. Fora da cabeça do pintor
e do quadro dele não há sapatos.
Da rua ouço as pessoas murmurarem,
latidos de cachorros, ruídos. Foi um tiro?
Por que tu fazes, eu chamo no sonho, o que estás fazendo?
Não tens couro? — Ele não se move. — Sim,
elas são bonitas, mas o que quer dizer bonitas, ganhas
dinheiro com isso? — Acredito que ri. — Além disso,
são velhas e usadas. — Ele banca o surdo,
dá uma olhada no quadro, encolhe os ombros
e vai embora. As botinas estão aí, quentes
como duas lebres adormecidas na grama.
Ein Traum
Ich bin auf der Flucht. Ich habe meine Schuhe verloren.
Kirschbäume blühen hinter einem verlassenen Haus.
Der Zaun ist zerbrochen. Meine Füsse sind staubig, wund.
Ich sitze im Gras, schlafe ein. Durch das offene Fenster
blicke ich in ein Zimmer, das weiss und kühl ist. Im Traum
sehe ich einen alten Mann barfuss vor einer Leinwand stehen.
Er kehrt mir den Rücken zu. Leicht gebücht
tänzelt er in der Morgensonne und setzt
mit winzigen Strichen rasch ein paar Schuhe hin,
zwinkernd. Wie leicht das geht! Der Geruch
der Farbe ist stechend und fett, und im schrägen Licht
funkelt der nasse Pinsel, jedes einzelne Haar.
Die Zeit vergeht. Weich und rehbraun malt er
die beiden Stiefelchen nebeneinander, etwas versetzt,
in das weiche Gras. Ich rieche das Leder. Die Schlaufen,
die Zungen glänzen matt, ich kann die Haken zählen,
die eisernen Ösen. Ausser im Kopf des Malers
und auf seinem Bild sind keine Schuhe da.
Von der Strasse her höre ich Leute murmeln,
Hundegebell, Lärm. War das nicht ein Schuss?
Warum tust du das, rufe ich im Traum, was du tust?
Hast du kein Leder? — Er rürht sich nicht. — Ja,
sie sind schön, aber was heisst schön? Bekommst du
Geld dafür? — Ich glaube, er lacht. — Ausserdem
sind sie alt und abgetragen. — Er stellt sich taub,
wirft einen Blick auf das Bild, zuckt die Achseln
und geht. Die Stiefelchen stehen warm,
wie zwei achlafende Hasen im Gras.
(Die Furie des Verschwindens — 1980)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger,
edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e
Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz,
1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger
(1929 — 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado)
e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne,
em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na
rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade
de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek;
suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache
(Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht
ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964),
Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio,
1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto
verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação,
ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O
naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do
sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter
der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também
fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus
M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.
domingo, 28 de janeiro de 2024
Bertolt Brecht: A ameixeira
____________________
[traduzido por Geir Campos]
Existe no quintal uma
ameixeira
pequenina, em que a gente nem
faz fé;
tem ao redor uma cerca,
para ninguém ali calcar o pé.
A coitadinha mal pode crescer;
sim, que crescer ela quisera
bem...
Mas nisso nem se fala,
tão pouco é o sol que ela tem.
É uma ameixeira em que ninguém
faz fé,
pois nunca deu uma ameixa
sequer;
mas, que é uma ameixeira, isso
é
— pelas folhas a gente pode
ver!
Der
Pflaumenbaum
Im Hofe steht ein
Pflaumenbaum,
Der ist so klein, man glaubt
es kaum.
Er hat ein Gitter drum
So tritt ihn keiner um.
Der Kleine kann nicht größer
wer’n,
Já größer wer’n, das möcht‘ er
gern.
’s ist keine Red davon
Er hat zu wenig Sonn‘.
Dem Pflaumenbaum glaubt man
ihm kaum
Weil er nie eine Pflaume hat
Doch er ist ein Pflaumenbaum
Man kennt es an dem Blatt.
[1934]
____________________
Bertolt Brecht — Poemas e Canções,
Tradução de Geir Campos, 1966, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro —
RJ; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 — 1956), alemão de Augsburg — Baviera,
foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique,
mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo
e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933,
deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos
e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble;
Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística,
Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite,
1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper
(A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno
Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938)
e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia
da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas
peças teatrais.
sábado, 27 de janeiro de 2024
Jean Richepin: A Torre de Babel
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[traduzido por Wenceslau de
Queiroz]
Mais alto! ainda mais alto!
estes altos pilares
ergamos! Torres sobre torres!
Nos espaços,
terraços colossais sobre
vastos terraços
percam de vista, em cima e ao
longe, a terra e os mares!
Toquemos com a mão os
constelados passos!
Mais arcarias! mais paredes
aos milhares!
Subamos sempre! até que lá no
azul dos ares
deixemos o sinal firme dos
nossos passos...
Mas em vão nosso orgulho,
armado de paciência,
a torre de Babel em construir
persiste,
criando a Religião, a Arte, a
Indústria, a Ciência...
Em vão! porque essa torre,
instável como a bruma,
não passa de ilusão que só na
mente existe,
e o céu nos foge... o céu se
afasta... o céu se esfuma...
La Tour de Babel
Plus haut! Dressons toujours plus haut ces hauts piliers!
Après les tours, encor des tours! Sur la terrasse,
Des terrasses! Vieux ciel dont l'infini m'embrasse,
Déjà ma main t'insulte en gestes familiers.
Des rampes, des arceaux, des piliers par milliers!
Plus haut! Montons toujours! Chaque homme! Chaque race!
Et bientôt! Ton verra pour y laisser leur trace
Sur la vitre d'azur les clous de nos souliers.
Mais en vain notre orgueil armé de patience
Entasse sans repos et l'art et la science.
A mesure que nous montons, le ciel s'enfuit!
Et nous retombons las, vaincus, meurtris, exsangues,
Sous Babel qui s'écroule et sous horrible nuit
Où nous nous égorgeons dans le chaos des langues.
____________________
O Mundo Maravilhoso do Soneto,
de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho,
1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Auguste-Jules Richepin,
ou Jean Richepin (1849 — 1926), franco-argelino nascido em Medeia — Argélia, à época
departamento francês no norte da África, diplomou-se em Literatura na École Normale
Supérieure, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, porteiro, professor...;
frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros parisienses, sua vida boêmia
e marginal acabou por inspirá-lo na criação das primeiras e provocativas poesias,
as quais, já na estréia com sua obra La chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como
o ocorrido com Baudelaire (na publicação de Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação
à prisão, além do pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas
terem sido considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras:
coleções de poemas: Les Caresses, Les Blasphemes, La Mer, Mes Paradis, romances:
Les Etapes d’un refractaire, La Glu, Miarka, la fille à l’ nossos, Les braves gens,
Césarine, Les Grandes amours, e peças teatrais: Nana Sahib e Le Chemineau, etc.;
colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie Française (Academia Francesa);
o poeta, um “viajante incansável”, andejou por Londres, viajou pela Itália, Espanha,
Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões em que proferia conferências e
redigia artigos para a imprensa parisiense.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2024
Áurea Pires: Contraste
____________________
Talvez nest’hora em que a
chorar suspiro
Lembrando-me de ti, saudosa e
aflita,
Bem junto estejas da mulher
bonita
Que te escraviza o coração que
aspiro.
E enquanto eu sofro aqui no
meu retiro
O ciúme atroz que no meu peito
excita
Cada vez mais essa paixão
maldita,
E de raiva e de dor quase
deliro;
Em paragem risonha, enflorescida,
Talvez tu’alma esteja n’um
transporte
Toda inteira em su’alma
transfundida!
— Bem diversa da tua é minha
sorte;
No seio de outra encontras tu
a vida,
E eu na tua inconstância
encontro a morte!
[revista A Mensageira, de 15
de outubro de 1897,
Ano I, nº 1, São Paulo — SP]
____________________
A Mensageira — Revista Literária
dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900),
Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika
Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Áurea Pires
da Gama (1876 — 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos
em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos
14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena
— MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro — SP, ali foi cofundadora
do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos
de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e
a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registrando ali alguns
de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama:
perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o
escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.
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Carvalho Júnior *: Lusco-fusco
____________________
Da alcova na penumbra andavam flutuando
Em tênue confusão fantasmas indecisos,
Gerados ao fulgor da luz reverberando
Nos límpidos cristais e nos dourados frisos.
Era como um sabbat fantástico e nefando!
Das velhas saturnais talvez tivesse uns visos
A enorme projeção das sombras vacilando
Esguias e sutis sobre os tapetes lisos.
Havia no ambiente uns mórbidos perfumes;
Os bronzes, os biscuits se olhavam com ciúmes,
Nos dunkerques, de pé, por dentro das redomas.
Enquanto eu, sem temor, ao lado de uma taça,
Um conto oriental relia entre a fumaça
De um charuto havanês de excêntricos aromas.
(Parisina, pág. 91)
* Nota do
atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em 60 Poetas Trágicos
[L&PM, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca do poeta Carvalho
Junior:
“Foi um dos nossos primeiros parnasianos, aposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal [...]. Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas.”
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III —
Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1959, Editora
Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Antônio de
Carvalho Júnior (1855 — 1879), nascido no Rio de Janeiro, formou-se pela
Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP — Largo São Francisco), foi
promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do
simbolismo; Péricles registra que “junto com Teófilo Dias, Carvalho Júnior pode
ser tomado como o principal poeta do realismo brasileiro”; escreveu e publicou
Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título
“Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal
paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.
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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024
Walt Whitman: A Ti, Ó Democracia
____________________
[traduzido por José Lino
Grünewald]
Venha, farei o continente
indissolúvel,
Farei a mais esplêndida raça sobre
a qual o sol jamais brilhou,
Farei divinas terras magnéticas,
Com o amor dos camaradas,
Com o amor de toda vida dos camaradas.
Plantarei o companheirismo copioso
como árvores ao longo de todos
os rios da América e ao longo das margens dos grandes lagos e por todas as pradarias,
Farei cidades inseparáveis, cada
uma com os braços em volta do
pescoço da outra,
Pelo amor de camaradas,
Pelo másculo amor de camaradas.
A ti, isto de mim, Ó Democracia, a
fim de servi-la ma femme!
A ti, a ti estou trinando estas
canções.
For You O Democracy
Come, I will make the continent
indissoluble,
I will make the most splendid race
the sun ever shone upon,
I will make divine magnetic lands,
With the love of comrades,
With the life-long love of comrades.
I will plant companionship thick as
trees along all the rivers of
America, and along the shores of the great lakes, and all over the prairies,
I will make inseparable cities with
their arms about each other’s necks,
By the love of comrades,
By the manly love of comrades.
For you these from me, O Democracy,
to serve you ma femme!
For you, for you I am trilling
these songs.
____________________
Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue,
Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira,
Rio de Janeiro — RJ; Walt Whitman (1819 — 1892), nascido em Huntington —
USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços
de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou
Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855
e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas),
Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado
por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".
quarta-feira, 24 de janeiro de 2024
Zalina Rolim: O cão e os pássaros
____________________
Feroz é
um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê
de longe, teme-lhe os olhares,
E examina
a grossura da corrente
Férrea,
que o liga ao muro dos seus lares.
Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;Ninguém procura o seu olhar profundo;Do seu caminho fogem, de tal sorteQue ele se vê sozinho neste mundo.
O próprio dono evita-lhe os afagos,Olha-o receoso, e se aproxima a custo.Do velho cão nos grandes olhos vagos,Paira a tristeza de um castigo injusto.
Não compreende o terror por ele aceso;Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,Mais pavor nos corações excita.
E ele, sentindo assomos de revolta,Tenta quebrar os elos da cadeia...Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,E o louco instinto, devagar, sopeia.
Inclina o corpo e estende-se por terra,Preso ao terror, que a própria força inspira;E, silencioso, úmidos olhos cerra,Sem mais vislumbre de despeito ou ira.
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado
vento a derramar frescura.
Nova agonia o coração lhe aperta,Nostálgico, aspirando o fim de tudo...Nisto, um ligeiro frêmito o desperta,E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.
São passarinhos. Ei-los! Não têm medoVêm partilhar com ele o magro almoço.E, compassivo, espera imóvel, quedo,Que eles se vão, para roer um osso.
E o velho cão de pavoroso aspecto,Que nunca teve a graça de uns carinhos,Sentindo o peito a transbordar de afeto,Trêmulo escuta a voz dos passarinhos.
(Livro
das Crianças — 1897)
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Zalina Rolim: poetisa e educadora [biografia
e poesia] — Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, 2008, Editora Ottoni, Itu — SP; Maria
Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 — 1961), paulista de Botucatu, foi professora
alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para
crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus
familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque,
Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai,
então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e
poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no
Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma
escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também
aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João
Kopke [educador e escritor, 1852 — 1926]; no mais, todo seu aprendizado
cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista,
foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo,
anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje
Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da
República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista
do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais
de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897
— 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São
Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (poesias, 1893), Livro das Crianças
(1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou);
a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções
pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de
Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu
nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 — Vila
Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo
aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da
prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira,
26 — Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro
de 2023].
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