quinta-feira, 31 de maio de 2018

William Shakespeare: Como quero que Musa assunto invente, . . . [soneto]

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[traduzido por Vasco Graça Moura]

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Como quero que a Musa assunto invente,
se a respirar no verso fazes vir
doce tema que sobra de excelente
para um papel vulgar o repetir?
Oh, dá graças a ti, se em mim houver
valor que te mereça a atenção,
ou quem será tão bronco que não quer
dizer de ti, se és luz dessa invenção?
Sê a décima Musa, vales dez
vezes as nove de outros rimadores
e ao que te invocar dá-lhe as marés
de eternos ritmos: viva em seus valores.
     Se a frágil Musa aos dias dá favor,
     a pena é minha e teu é o louvor.

Vermutetes Gemälde von William Shakespeare
William Shakespeare

38

How can my Muse want subject to invent
While thou dost breathe, that pour'st into my verse
Thine own sweet argument, too excellent 
For every vulgar paper to rehearse? 
O give thyself the thanks, if aught in me
Worthy perusal stand against thy sight: 
For who's so dumb, that cannot write to thee,
When thou thyself dost give invention light? 
Be thou the tenth Muse, ten times more in worth
Than those old nine which rhymers invocate; 
And he that calls on thee, let him bring forth 
Eternal numbers to outlive long date. 
     If my slight Muse do please these curious days,
     The pain be mine, but thine shall be the praise.
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Os Sonetos Completos — William Shakespeare, Apresentação, Tradução e Notas de Vasco Graça Moura, edição bilingue, 2005, Landmark, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 —  1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura  que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo IIIHenrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Bertolt Brecht: O dinheiro

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Ao trabalho não o quero seduzir.
Para o trabalho o homem não foi feito.
Mas do dinheiro não se pode prescindir!
Pelo dinheiro é preciso ter respeito!

O homem para o homem é uma caça.
Grande é a maldade no mundo inteiro.
Por isso junte bastante, mesmo com trapaça
Pois ainda maior é o amor ao dinheiro.

Com dinheiro, a você todos se apegam.
É tão bem-vindo como a luz do sol.
Sem dinheiro, os próprios filhos o renegam:
Você não vale mais que um caracol.

Com dinheiro não precisa baixar a cabeça!
Sem dinheiro é mais difícil a fama.
Dinheiro faz com que o melhor aconteça.
Dinheiro é verdade. Dinheiro é flama.

O que seu bem disser, pode acreditar.
Mas sem dinheiro não busque seu mel.
Sem dinheiro ela lhe será roubada.
Somente um cão lhe será fiel.

Os homens colocam o dinheiro em grande altura
Acima do filho de Deus, o Herdeiro.
Querendo roubar a paz de um inimigo já na sepultura
Escreva em sua laje: Aqui Jaz Dinheiro.

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Bertholt Brecht
Vom Geld

Ich will dich nicht zur Arbeit verführen.
Der Mensch ist zur Arbeit nicht gemacht.
Aber das Geld, um das sollst du dich rühren!
Das Geld ist gut. Auf das Geld gib acht!

Die Menschen fangen einander mit Schlingen.
Gross ist die Bösheit der Welt.
Darum sollst du dir Geld erringen
Denn größer ist ihre Liebe zum Geld.

Hast du Geld, hängen alle an dir wie Zecken:
Wir kennen dich wie das Sonnenlicht.
Ohne Geld müssen dich deine Kinder verstecken
Und müssen sagen, sie kennen dich nicht.

Hast du Geld, musst du dich nicht beugen!
Ohne Geld erwirbst du keinen Ruhm.
Das Geld stellt dir die grossen Zeugen.
Geld ist Wahrheit. Geld ist Heldentum.

Was dein Weib dir sagt, das sollst du ihr glauben.
Aber komme nicht ohne Geld zu ihr:
Ohne Geld wirst du sie um deiner berauben
Ohne Geld bleibt bei dir nur das unvernünftige Tier.

Dem Geld erweisen die Menschen Ehren.
Das Geld wird ueber Gott gestellt.
Willst du deinem Feind die Ruhe im Grab verwehren
Schreibe auf seinen Stein: Hier ruht Geld.
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Bertolt Brecht, poemas 1913 — 1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen  Bertholt Friedrich Brecht (1898  1956), alemão de Augsburg —  Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina, em Munique, mas, tendo sido convocado pelo exército, na Primeira Guerra, trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixa a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, funda a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal  (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928),  Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926),  Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Para-choque de caminhão: Ainda sou criança, só troquei o brinquedo.

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Rainer Maria Rilke: A nós, nos cabe andar . . . [soneto]

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[traduzido por Augusto de Campos]

I, 22

A nós, nos cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,
são mínimos pedaços
do que há de ficar.

É perda pura
tudo o que é pressa;
só nos interessa
o que sempre dura.

Jovem, não há virtude
na velocidade
e no voo, aonde for.

Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.

(Sonetos a Orfeu, Parte 1: 22  1923)

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I, 22

Wir sind die Treibenden.
Aber den Schritt der Zeit,
nehmt ihn als Kleinigkeit
im immer Bleibenden.

Alles das Eilende
wird schon vorüber sein;
denn das Verweilende
erst weiht uns ein.

Knaben, o werft den Mut
nicht in die Schnelligkeit,
nicht in den Flugversuch.

Alles ist ausgeruht:
Dunkel und Helligkeit,
Blume und Buch.

(Die Sonette an Orpheus, Erster Teil: 22  1923)
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Coisas e Anjos de Rilke Augusto de Campos, Apresentação/Ensaio, Tradução e Notas de Augusto de Campos, 2007, 1ª edição,1ª reimpressão, Editora Perspectiva São Paulo SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902 e 1906), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas I e II, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Augusto de Lima: O Cético

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“Percorro da ciência o labirinto,
E em tudo encontro um eco duvidoso:
Matéria vã, espírito enganoso,
Mentis, tudo é mentira, eu só não minto.

Vejo, é verdade, a vida e a vida sinto,
O calórico, a luz, a dor e o gozo,
A natureza em flor, o sol formoso
E o céu das cores da Aliança tinto.

Mas quem, senão eu mesmo, vê tudo isto?
E quem pode afirmar-me que eu existo,
Visões celestes, velhas nebulosas?”

E em seu crânio a razão desponta e morre,
Como o santelmo fátuo, que discorre
Na solidão das minas tenebrosas.

(Contemporâneas  1887)

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Augusto de Lima  Série Essencial 47, Academia Brasileira de Letras, Organização e Notas de Paulo Franchetti, 2011, Imprensa Oficial do Estado São Paulo, São Paulo  SP; Antônio Augusto de Lima (1859  1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima)  fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político, tendo participado como redator de vários periódicos, entre os quais a Revista de Ciência e Letras e o jornal Comédia; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro) e São Francisco de Assis (1930).

domingo, 27 de maio de 2018

W. B. Yeats: Os Eruditos *

Resultado de imagem para Poemas de W. B. Yeats W. B. Yeats - Péricles Eugênio da Silva Ramos
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Cabeças calvas esquecidas dos pecados,
Calvas cabeças velhas, doutas, de respeito,
Editoram, com versos anotados,
Poemas que os jovens, contorcendo-se no leito,
Rimaram, a sofrer do amor a crueza,
Para incensar o ouvido ignaro da beleza.

Todos tossem em tinta; andam devagarinho;
Todos puem o tapete com o sapato;
Todos pensam igual aos outros sobre um fato;
Se alguém conhece alguém, conhece-o o seu vizinho.
Que diriam, Senhor, eles se enfim
Catulo **, íntimo seu, vivesse assim?


The Scholars

Bald heads forgetful of their sins,
Old, learned, respectable bald heads
Edit and annotate the lines
That young men, tossing on their beds,
Rhymed out in love’s despair
To flatter beauty’s ignorant ear.

All shuffle there; all cough in ink;
All wear the carpet with their shoes;
All think what other people think;
All know the man their neighbour knows.
Lord, what would they say
Did their Catullus walk that way?


Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* Redigido em 1914 e abril de 1915, ‘The Scholars’ (que ... figura em The Wild Swans at Coole, 1919), é um poema que satiriza os eruditos; mas Yeats três anos e meio depois mostraria apreciar a erudição: “A verdade floresce onde a lâmpada do estudioso mostrou”. [Richard] Ellmann [biógrafo de Yeats] cita essa frase, mas outras poderiam ser evocadas pelo tom respeitoso, p. ex. ao referir-se Yeats ao “midnight oil”.
** Catulo, o poeta latino por eles editorado; muito amou e morreu moço (87  54 a.C.)
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Poemas de W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, edição bilingue,  Coleção Toda Poesia nº 4, 1987, Art Editora, São Paulo  SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 — 1939),  irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems  (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems  (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays  (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910),  Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast  — poetry (1927), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

sábado, 26 de maio de 2018

Tácito de Almeida: Meditação [Sobre a Morte]

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Melancolia!
                       A noite desenrola lentamente
                       a peça infinita, de veludo negro...
Melancolia!
                       Fugiram os desejos incertos,
                       fugiram as alegrias insensíveis...

                       Mas ainda existe o mistério?
                       ainda existe a vida? existe a morte?
Melancolia!
                       Mais um silêncio, melancolia!
                       Um silêncio último, um silêncio pequeno
                       para ouvirmos aquele “outro” silêncio...

Mais uma sombra, uma grande sombra,
para diluir, suavizar aquelas “outras” sombras...

Mais olhos, melancolia,
               olhos claros, brilhantes, olhos noturnos,
               para avistarmos e conduzirmos,
               silenciosamente,
               ATÉ AO NOSSO DESEJO,
               aquela grande imagem cega
               que nos procura,
               que nos espera...

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Tácito de Almeida — Túnel e Poesias Modernistas — 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, Coleção Toda Poesia 3, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; Carlos  Tácito  Alberto de Almeida Araújo (1889 — 1940), paulista de Campinas,  formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).