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Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito,
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno,
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito,
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno,
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Dezembro, 1889

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Camilo Pessanha — Poesia e
Prosa, Volume 75 da Coleção Nossos Clássicos, por Bernardo Vidigal, 1965, Livraria
Agir Editora Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Camilo de Almeida Pessanha
(1867 — 1926), português coimbrão, formou-se em Direito pela
Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura e foi professor de
Filosofia; ao longo do seu período acadêmico publica poemas (o primeiro,
'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de
Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra;
devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal e em 1894
parte para Macau; foi pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório que, a
partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida
apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes
do Simbolismo português, se salvaram, assim, do esquecimento.